DESTAQUE

COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

Carta para o funkeiro Claudinho


13 de Julho de 2002 foi a data que recebi uma das piores notícias da minha vida: o seu falecimento, em um acidente de carro na Via Dutra, na altura de Seropédica, Rio de Janeiro.

Quando criança, eu ficava estirado no Sol para ficar da sua cor. Minha família se estressava comigo: “Rickson, sai daí! Você vai prejudicar sua pele à toa.” E eu respondia: “Eu quero ficar da cor do Claudinho. Não vou sair!”, como se eu estivesse certo. Mas a admiração não tinha limites.

Meus CDs valiam mais que qualquer ouro, de tanto que eu os amava. Ouvia cada faixa e vivia eufórico, cantando a todo vapor, no maior êxtase. Tudo era fantástico. Ainda é, mas era mais.

Quando você se foi, irmão, me tornei uma das crianças mais abençoadas por você, graças à sua música. Não tive oportunidade de ir em um show seu... Ficava apenas assistindo pela televisão. Às vezes que eu te via, ficava extasiado assistindo sua apresentação. Eu nem piscava. Minha concentração era sinistra.

Quando eu soube do seu falecimento, paralisei. Eu lembro. Eu estava na sala da minha casa, à toa, sentado no sofá... E quando o repórter anunciou, eu não me conheci. Ali foi o momento em que eu me transfigurei de um modo tão instantâneo que ninguém dentro da minha casa estava aguentando o meu desespero. O meu choro, a minha indignação por nunca ter te conhecido pessoalmente, a minha vontade de querer reverter a situação era explícita. Todo o meu amor pela sua arte e o carinho que eu sentia aumentou. Meu choro era de incompreensão, é claro... eu não entendia muita coisa. Lembro que fiz uma pirraça danada, me batia, pulava pela casa chorando e gritando, não acreditando no que tinha acontecido. Eu não conseguia acreditar de jeito nenhum. Minha família desesperada antes de saber o que estava acontecendo veio até mim pensando que algo ruim tinha acontecido comigo – e realmente tinha, porque a decepção foi incomensurável.

Seu Golf prata todo destruído só me causava mais dor toda vez que os jornais passavam as imagens. A dor interna que me transbordou foi algo que não desejo para ninguém. Imagina nos familiares? Não quero imaginar. Até hoje eu sinto e choro, mas não como quando criança.

Em sumo, daqui continuo te condecorando, porque você merece. De pedreiro passou para compositor, que logo se tornou cantor, ganhou o RJ e depois o Brasil com seu carisma e talento esporádico. Obrigado por ter feito parte da minha vida... valeu muito!

Esteja em paz.

Sem comentários