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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

Lil’ Kim compartilha histórias não contadas sobre os bastidores de seu álbum de estreia, ‘Hard Core’

[Este artigo foi publicado originalmente na edição de outono de 2016 pela XXL]


Palavras por Georgette Cline



Lil’ Kim mudou o jogo com o seu álbum de estreia, Hard Core. Agora ela reflete sobre o projeto que a tornou uma superestrela.

Inconscientemente comprometida, dedicada, intensa. Segundo a definição do dicionário, Lil’ Kim cumpre com tudo o que a palavra “núcleo duro” representa, incluindo a natureza sexualmente explícita, e é por isso que a palavra foi uma escolha apropriada para o título de seu álbum de estreia, Hard Core. Quando esse projeto extremamente aguardado foi disponibilizado pelas gravadoras Big Beat Records/Atlantic Records em 12 de Novembro de 1996, a nativa do Brooklyn era apenas uma adolescente no ensino médio com grandes sonhos de rep, mas sua maneira de lidar com as palavras fez Kim parecer muito mais evoluída, com uma mente demasiada avançada para a idade que tinha.

Subindo com uma ajudinha de Notorious B.I.G., Kimberly Jones fez por onde com sua letras diretas, sem travas na língua, no álbum, assim como seu mentor lhe ensinou. Ela foi crua, sexualmente provocativa e gangsta ao extremo, rompendo barreiras para artistas femininas em todos os lugares.

Kim lembrou a todas que eram as garotas da noite, todas as noites. Ela abrangeu o sexo dialogado em um novo nível com Jay-Z em “Big Momma Thang” (“I used to be scared of the dick, now I throw lips to the shit/Handle it like a real bitch”). Lembre-se, ela não tinha tempo para falsos.

Com uma equipe de produção, incluindo Jermaine Dupri, Stretch Armstrong e Stevie J, entre outros, e pessoas como Biggie, Diddy e Junior M.A.F.I.A. como convidados, o elenco de apoio no Hard Core ajudou a sua líder a brilhar. O álbum clássico ganhou certificado de platina 2x, provando que Kim poderia manter a sua própria ideologia contra os seus homólogos do sexo masculino.


Lil’ Kim dá uma olhada na criação de seu álbum de estreia e como ele a levou de repper local do Brooklyn para um ícone global do hip-hop.


XXL: Qual foi o seu objetivo principal no álbum desde quando seu projeto de estreia foi disponibilizado?

Lil’ Kim: Eu realmente nunca tive um objetivo. Sempre adorei música e na minha mente, eu estava apenas exibindo minha arte. Eu tinha apenas 16, 17 anos trabalhando na minha primeira música e álbum. Então eu realmente não tinha um objetivo. Eu estava apenas fazendo o que eu amo e mostrando meu talento e trabalhando na música. Nunca tive a menor ideia de que meu primeiro álbum iria repercutir tanto. Não fazia ideia do que aconteceu no lado comercial. Eu era apenas uma garotinha tentando curtir minha vida de adolescente. Se você tivesse me perguntado se eu sabia que seria uma milionária por uma certa idade, nunca teria pensado nisso. Eu nunca me imaginei tão famosa quanto sou agora.

Você é irrefutavelmente a mulher pioneira em enfatizar as letras sexuais no hip-hop. Por que isso foi importante para você?

Eu acho que porque quando comecei a entrar nesse ramo do rep, eu sempre fui sexy nas minhas músicas, e Biggie me achava realmente diferente e incrível. Ele costumava me ver rimando e, como antes, ele nunca pensou que minha letra seria tão louca, mas ele sentiu a energia quando eu fiz uma punchline ou metáfora, ele achou aquilo simplesmente espetacular, fora deste mundo para uma mulher estar fazendo, porque as mulheres não costumavam fazer como eu. Ele sentiu como se eu estivesse ao seu redor e com a influência, ele sabia que eu ficaria melhor e maior. Ele apenas começou a perceber bem antes dos nossos olhos.

A parte sexy eu estava apenas sendo eu. Todos sentiram que eu deveria ser eu. Eu acho que quando eles me conheceram, com suas palavras, eles sentiram que essa era a parte sobre mim. Eu já era muito única e super sexy para uma menina jovem. Eles também estavam preocupados com o fato de eu ser tão jovem e sexy e provocadora. Eles me comercializaram como uma garota mais velha, mesmo eu não sendo. Eles simplesmente não queriam que eu mudasse quem eu era, porque tudo o que fiz foi super sexy, e eles reagiam exatamente como, “Isso foi demais”, porque a música gangsta hip-hop que eu estava fazendo nunca fizeram antes.


Existe alguém que a inspirou a abraçar sua sexualidade?

Eu honestamente nunca soube. Minha mãe, para mim, era super sexy e vibrante quando era jovem. Eu apenas tentei imitá-la. Minha mãe tinha casacos de vison e tudo isso quando eu era pequena, menina. Minha mãe era tão cismada, que ela me comprava minhas próprias bolsas da Gucci, mas as que eu queria usar na escola eram as que ela já tinha. Então eu pegava e usava suas coisas para a escola. Eu sempre gostei de coisas mais antigas. Eu assistia e tentava sair com as garotas mais velhas e me amavam. Eles me levavam para lugares onde eu não podia entrar, pequenas festas de casa e pequenos clubes, e eles me pegavam na porta dos fundos. Eu simplesmente via tudo.

A capa do Hard Core é clássica. Por que você queria se mostrar com esse apelo sexual?

Não planejei isso. Foi natural, eu era uma modelo muito boa. Eu sabia como me posicionar. Não sei de onde veio. Quando eu fiz a sessão de fotos do Hard Core, eu só estava fazendo uma apresentação para isso. Não foi como se eu estivesse a posar e agachar para provocar; isso não estava em minha mente. Para mim, era apenas ser uma modelo e posar de forma linda e sexy.

Quando chegou a hora de pegar as fotos, eu não era nem uma parte desse processo. Eu era apenas uma garotinha e eu não tinha controle nenhum. Biggie realmente tirou meu pacote de fotos inteiras e passou por isso porque Biggie me viu como uma das garotas mais sexy que já conheceu. Ele nem mesmo deu a ninguém a chance de passar pelas fotos. Ele as pegou e ficou sentado em um canto e passou por todas elas. Eles basicamente fizeram tudo por mim.

Qual foi a discussão mais importante que você teve com a Biggie que lhe deu inspiração ao longo do processo de gravação?

Eu só lembro que ele estava lá. Ele estava a cada passo do caminho. Essa foi a minha influência e motivação. Quando ele não podia estar lá, eu basicamente usava sua inspiração do que ele faria quando ele estivesse. Eu tinha que pensar nele quando escrevia, como, “O que ele vai gostar? Será que ele ia gostar disso?” Eu sempre quis que ele estivesse lá, então quando ele não estava eu ficava pensando, “Onde está Biggie?” Porque depois de terminar de escrever, ele estando lá eu ia poder lhe perguntar, “Como isso soa?” Quando ele não estava lá, eu não sabia o que fazer.

Ele costumava me dizer, “Você não precisa de mim lá o tempo todo. Você é manja do assunto, entendeu, sabe o que está fazendo. Se fosse quando eu conheci você, ok, quando você estava afiando seu lápis e você estava um pouco enferrujada, isso é diferente. Mas, agora você cresceu e floresceu tanto que você não precisa de mim o tempo todo para se certificar de que sua parada é quente, para garantir que isso soa bem.” Eu lembro quando escrevi para “Player’s Anthem”. Eu não deveria estar naquela música com a Junior M.A.F.I.A. Eles simplesmente colocaram a batida e eu ainda estava escrevendo. Nenhum dos meninos haviam terminado suas partes, então Clark Kent disse, “Kim, eu sei que você conseguiu algo. Entre na cabine.” Eu fui lá, dropei meu verso e eles manteram. A outra pessoa que deveria estar lá acabou não estando.


Qual é a sua colaboração favorita no Hard Core?

A faixa com Jay Z [“Big Momma Thang”].

Como surgiu “Big Momma Thang”?

Na verdade, era uma diss e eram algumas coisas que eles queriam mudar, mas não conseguiram. Uma situação aconteceu no momento, então colocamos Jay Z sobre essa faixa porque o segundo verso era louco. A música havia vazado antes da disponibilização do álbum, e então, quando uma música vazava, não era realmente uma coisa boa. Não era ruim porque o mundo ficava louco, mas não era bom em termos de vendas financeiras para a gravadora.

Quais outras músicas no álbum você sente que se destacam?

Eu tenho três músicas favoritas. “Drugs” foi a minha primeira canção favorita até gravar. Mas quando gravei “Queen Bitch”, essa tornou minha primeira música favorita; e também “Big Momma Thang”.

Quão importante foi para você manter a realidade e colocar o que estava acontecendo na sua vida no momento em suas letras?

Para mim, foi importante porque foi assim que eu fiz. Muitas coisas que eu cantei eram super reais. É por isso que penso que fomos tão amados, Bad Boy, Junior M.A.F.I.A., todos nós, porque muitas das nossas coisas eram sobre nossa vida cotidiana e sobre o que passamos.

Todas as experiências foram memoráveis ​​durante a gravação do Hard Core?

Me lembro que fiquei grávida no final desse álbum, onde não consegui terminar algumas das músicas e foi assim que Lil’ Cease acabou participando da “Crush on You”. Ele não devia estar nessa faixa, mas eu estava mal e precisava ir embora e refrescar minha cabeça porque eu estava grávida. Eu queria terminar o álbum porque era o que eu queria. Eu realmente queria mostrar meu talento para o mundo.

Você fez uma reedição de “Not Tonight (Ladies Night Remix)” com Angie Martinez, Da Brat, Missy Elliott e Left Eye. Por que você desejou reunir todas?

Essa foi realmente a ideia de Lance Rivera [ex-CEO/Presidente da Undeas Records]. Ele sempre adorou a faixa original. Ele teve essa ideia onde ele achava que deveríamos ter Angie Martinez porque ela estava explodindo no rádio na época. Nós adoramos toda a ideia de capacitação das garotas. Eu queria apenas todas as minhas artistas favoritas nisso. TLC, Missy, Da Brat. Essa música nos rendeu indicações à MTV e indicações aos Grammy. Então fizemos algo certo. Posso contar algumas histórias divertidas sobre esse vídeo. Estávamos todas bêbadas no momento em que veio para nós agirmos em nossa primeira cena. Angie Martinez começou a vomitar no barco. Então, quando você vê a cena do barco e Angie olhando mosca, confie em mim, nem sempre foi assim. Foi muito divertido. Para a cena de mergulho onde todos nós sob a água com as nadadeiras, isso realmente era a gente. Eles tiveram que nos ensinar a mergulhar na véspera no dia anterior. Foi assustador demais.

O que você aprendeu sobre você quando dropou Hard Core?

Acho que soube que eu era uma mega estrela. Antes disso, minha confiança e meu talento não estavam totalmente lá. Eu aprendi muito sobre o lado comercial, mas isso ainda não era meu foco. Eu era jovem, eu era uma artista. Eu estava apenas tentando viver minha vida de adolescente.









Manancial: XXL Magazine

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