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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

A vida problemática e a trágica morte de Johnny J, o produtor favorito do 2Pac


Em Junho de 2008, o produtor Johnny Lee Jackson Jr., conhecido também como Johnny “J”, estava em um jantar no Roosevelt Hotel na Hollywood Boulevard com sua esposa, Capucine, e um outro casal. Na mesa tinha uma garrafa de vinho, e a conversa fluía. “Ele estava em uma boa forma naquela noite”, disse Earnie Hooks, um produtor de filme independente. Hooks disse que Johnny bebeu uma taça de vinho. “Nem sequer bebemos a garrafa toda”, ele disse. Antes de partir, Johnny arrumou duas taças de vinho e as deixou na mesa em memória de seu amigo Tupac Shakur. Ele seguiu em seu Range Rover.

Após essa noite, Johnny foi preso por dirigir embriagado. (O limite de consumo da Califórnia é de 0,08, um dos mais baixos do país.) Era sua terceira vez dirigindo sob influência. Ele não pediu nenhuma refutação à acusação de crime e foi enviado para a prisão.

Em 3 de Outubro de 2008, ele foi morto por lesões sofridas após cair pelo menos 14 andares na Twin Towers Correctional Facility. O relatório do médico legista do estado indicou a causa oficial da morte como “traumatismo craniano múltiplo e trauma cefálico” e determinou um suicídio. Johnny estava para sair da prisão em dois meses. Ele deixou três filhos.

Johnny foi o pioneiro do rep da Costa Oeste dos Estados Unidos, era o produtor favorito de 2Pac e o arquiteto primário de seu imenso projeto, o álbum duplo de 1996, All Eyez On Me, que vendeu facilmente 4 milhões de cópias. Mas sua morte foi pouco repercutida na esfera pública — e continua sendo, para alguns, uma fonte de mistério. Sua esposa disse que ele se matou e que ele ligou para ela para dizer-lhe que ia fazer isso momentos antes. Isso não é suficiente para alguns de seus amigos mais velhos. “Ainda estou convencido de que não foi um suicídio”, disse o DJ e repper LaMont “King Scratch” Burnett, um amigo do ensino médio. “É quase aquela coisa de Tupac e Biggie. Ninguém sabe.”


Johnny J cresceu em Budlong, no Centro Sul de Los Angeles, o mais velho dos três filhos. Seu pai, John Sr., era um mecânico pelo comércio que trabalhou para os estaleiros navais e agora trabalha para o Departamento de Defesa dos EUA. Sua mãe, Lidia, era uma professora bilíngue. Ele foi mimado quando criança. Seus pais compraram um Camaro amarelo e uma caixa de tambor, e sua tia e tio o ajudaram a construir um estúdio improvisado.

O interesse de Johnny pelo hip hop aumentou enquanto ele estava no Washington Preparatory High School. Ele tocou na linha do tambor e acertou com o aspirante repper Candel “Candyman” Manson; futuros artistas como Yo-Yo, WC e Sir Jinx, do grupo Da Lench Mob, também passaram pelo mesmo colégio na sua época, em meados dos anos 80. Logo após o ensino médio, Johnny teve uma grande chance, produzindo “Knockin’ Boots” para Candyman. A música ganhou platina e brotou na posição #9 na Billboard Hot 100 no verão de 1990, precedendo o álbum de estreia de Candyman, Ain’t No Shame In My Game, e entrando no status de ouro.

O sucesso mostrou-se difícil de combinar. “Após o sucesso de Candyman, houve períodos de tempo em que o negócio da música era como um passeio de montanha-russa”, disse Johnny J em uma entrevista em 2006 com Hussein Fatal no site de hip hop pjbutta.com. “Eu meio que sobrevivi através disso e fiquei fiel às ruas e continuei a fazer demos... Mais uma vez me mantive vivo, me mantive indo.”

Em Fevereiro de 1994, ele disponibilizou seu álbum solo de estreia, I Gotta Be Me, que soou bem. As coisas, no entanto, logo melhorariam. Alguns meses antes, ele conheceu o homem que mudaria sua vida.

Johnny J, Capucine (esposa de J) e 2Pac.

No final de 1993, Big Syke, um membro do grupo Thug Life de 2Pac apresentou Johnny à ’Pac. Eles se gelificaram rapidamente, gravando “Pour Out a Little Liquor”, para uma trilha sonora do filme de 1994 Above the Rim, e “Death Around the Corner”, do álbum Me Against the World. Uma parceria foi desfeita, no entanto, quando Tupac foi enviado à prisão em Fevereiro de 1995. Depois de ser solto em Outubro, a dupla se reuniu no Can-Am Studios em Los Angeles. “Nós estávamos gravando sete ou oito faixas por dia”, disse o produtor Ronnie King, que participou das sessões lendárias tocando teclado. “Tupac se sentia muito seguro com ele no estúdio.”

2Pac e Johnny gravaram mais de cem faixas juntos — 11 delas, incluindo “How Do U Want It” e “All Bout U”, que entraram no All Eyez On Me, o resto compôs a maior parte do trabalho póstumo de 2Pac. O meio-irmão de 2Pac, Mopreme Shakur, disse que os dois eram ligados em parte, porque ambos gostavam de trabalhar exacerbadamente. “’Pac tinha muita energia, e Johnny também”, ele disse. “’Pac adorava. Qualquer coisa que ’Pac pedia, Johnny poderia fazer. Se ’Pac dissesse, ‘Quero uma [batida] lenta, triste com cordas, cordas de baixo e guitarra’, Johnny fazia. Era perfeito.”

Porém, nem tudo era tão perfeito. Assim como Johnny estava se tornando um dos produtores mais bem-sucedidos da indústria da música, sua vida pessoal estava desmoronando.

Por volta de 1994, Johnny se separou de muitos amigos e familiares. Alguns culpam sua esposa, Capucine Jackson, pela criação desse caos. “Eu acho que ela não nos queria por perto. Por quê? Eu não sabia”, disse King Scratch. “Ele mudou todos os seus números. Todos os seus verdadeiros manos íntimos e família, ele os chutou até a calçada.”

XXL falou com Capucine durante o verão de 2009. Após uns 30 minutos de conversa durante o qual ela perguntou a maioria das perguntas, ela recusou uma entrevista. “Eu não posso violar meu contrato”, ela disse. Ao mesmo tempo, houve rumores de que Johnny estava trabalhando em um documentário. Mas não se materializou. “Eu ainda estou sofrendo”, ela disse. “Eu não quero aliviar repetidamente.”

Mas grande parte da raiva de Johnny, pelo menos em relação a sua família, foi enraizada na descoberta de que ele foi adotado. Ao longo de sua vida, os rumores haviam girado por causa da sua pele: não se parecia com nenhum de seus parentes adotivos, que são afro-americano e mexicano, respectivamente. Quando Johnny finalmente soube a verdade, de um primo masculino, ele ficou furioso. Isso foi em meados dos anos 2000. Os Jacksons nunca tinham planejado lhe contar.

“Ninguém sabia”, disse sua irmã, Nickie Jackson. “Foi principalmente por causa da situação com seus [adotivos] parentes, e [meu pai] não queria que Johnny ficasse magoado.”

Johnny nasceu em Juárez, México, e foi adotado pela família Jackson quando tinha uma semana de nascido. Ele disse uma vez ao seu antigo publicitário Phyllis Pollack, que ele havia sido vendido por $40. Mas houve circunstâncias ainda mais difíceis em torno de sua adoção. “Isso veio da mãe [adotiva] de Johnny”, disse um amigo de longa data Al “Fila Al” Davis. “Sua irmã, irmão, pai, eles diziam, ‘Deixa eu lhe dizer o que é o verdadeiro negócio.’ Eles disseram, “A mãe e o pai de Johnny, eles eram irmãos e irmãs no México.’ Então os Jackson se importaram o suficiente para tirá-lo dessa situação.”

Em 2009, a XXL independentemente confirmou isso com um membro da família. Mas em Junho de 2011, Nickie negou isso. “Acho que não”, ela disse após uma sucinta pausa. “Eu também ouvi isso. Quando Johnny chegou, essa questão foi indagada, e minha mãe disse, ‘Não, eles não são irmãos e irmãs.’”

Nickie disse que verificaria com sua mãe, Lidia. Ela retornou no dia seguinte. “Eu falei com minha mãe, e ela disse que não éramos irmãos e irmãs”, ela disse. “Seu pai também era seu tio. Foi o marido [da sua mãe verdadeira]. Era um cunhado.”

Após a revelação, a relação de Johnny com sua família adotiva estava arruinada. Ele ocasionalmente saía de casa, mas às vezes deixava mensagens no correio de voz deles. Às vezes, ele os ignorava. “Eu o vi uma vez e disse, ‘Ei, Johnny’, disse sua prima Kimberly Davidson. “Ele disse tipo, ‘Quem é você? Eu te conheço?’ E eu respondi, ‘Como assim?’ Ele nos apagou totalmente de sua mente.”

Ele era concentrado em sua carreira. Obviamente, com Tupac morto, em 1996, foi um estouro terrível para ele. E nos anos seguintes, a lenda do rep havia deixado uma longa sombra sobre o trabalho de Johnny — em termos de individualidade e expectativas. “Parecia que eu estava perto de ’Pac quando estava no quarto com Johnny”, disse Shade Sheist, um repper de Inglewood. “Quando eu estava lá com ele, sentia como se fosse o 2Pac e que seria um grande sucesso porque Johnny J estava na produção.”

Johnny fundou seu próprio selo, Klock Work Entertainment, em 1997. Mas no final da década, a influência da Costa Oeste tinha desaparecido e Johnny era muito pesado, o som pós-G-Funk já estava fora de moda. “Estávamos tentando unir um pouco da produção da Costa Oeste com o estilo do baixo-Sul, mas não funcionou”, disse Ronnie King. “Eu acho que Johnny tinha um som que ele amava. Ele queria manter a integridade desse som viva. Eu acho que ele fez muito por ’Pac.”

Da esquerda: 2Pac, Johnny J, Suge Knight e MC Hammer.

Johnny realizou produções para Tatyana Ali e Lil’ Eazy-E, mas os dois álbuns foram arquivados. No início de 2007, ele formou a Streetlife/Klock Work Records com Pablito Vasquez e Jerry Heller, o gerente que formou o N.W.A. Isso implodiu também, e Johnny se retirou. “Ele sentiu que muitas pessoas queriam se aproveitar de sua generosidade”, disse seu engenheiro de longa data, Ian Boxill. “Ele não sabia em quem confiar.”

Na prisão, Johnny foi alojado no Trustee Dorm com aproximadamente 80 outros presos e trabalhava na lavanderia. Havia certos códigos que ele tinha que seguir, como não usar o andar de cima, por causa da máfia do México que era afiliada com membros de gangues. A notável tensão racial em Los Angeles entre afro-americanos e mexicano-americanos era exacerbada na prisão. “Dee”, um cara que afirma ter estado no dormitório do administrador, disse que, enquanto Johnny evitava problemas com gangues, ele estava deprimido. “Ele deitava na cama e não queria saber de mais nada”, disse Dee. “Eu dizia tipo, ‘Vamos jogar cartas, vamos sair, comer alguma coisa.’ Mas ele vivia estressado.”

De acordo com o relatório do legista, Johnny era o único preso no segundo nível na tarde de Outubro de 2008. Ele pediu ao supervisor permissão para fazer um telefonema pessoal de prisioneiros. Foi aí que Johnny chamou Capucine e avisou que estava prestes a se matar. Ela ligou para a prisão para avisar alguém, ela disse. Depois de Johnny desligar, dois assistentes de custódia testemunharam-no sair do escritório, caminhar até a varanda, escalar os trilhos de metais e pular.

O relatório do legista relatou que não havia nenhuma indicação de jogo sujo. Ainda assim, a especulação correu desenfreada. A teoria mais popular era que ele havia sido assassinado por mexicanos membros de gangues. “Minha opinião é que ele foi assassinado porque ele estava rodeado de mexicanos e negros por toda a sua vida”, disse um antigo amigo, Scotty D. “Na sela da prisão você tem escolhas. Você não pode apenas chegar e andar com os irmãos só porque é mexicano.”

Dee disse que Johnny não foi assassinado. “Oh, não”, ele disse. “Ele cometeu suicídio.” Mas contribuindo para complicar as questões, a família Jackson foi inicialmente avisada que Johnny havia se jogado.

O funeral de Johnny foi uma outra prova. Um jogo de gritos aconteceu entre a família Jackson e a família de Capucine depois que o membro de sua família chamou Johnny de órfão. A rixa até foi parar na seção de comentários de um post de Johnny no blog de hip-hop Cocaine Blunts.

A família de Johnny ainda não se recuperou. Nickie chora quando fala sobre ele. “É muito difícil”, disse Nickie. “As pessoas que não estavam na nossa família não o conheciam do jeito que o conhecíamos. Nós compartilhamos uma cama juntos — eu, ele e meu irmão mais novo. Nunca tive ninguém morto próximo de mim. É tão difícil superar. São quase três anos, e ainda não consigo superá-lo. Nós não nos importamos que ele foi adotado. Dói demais saber que ele não está aqui.”



Manancial: XXL Magazine

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