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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

Charles Boricceli conta como foi trabalhar no ‘Bastardos Inglórios’ do Cartel MCs


O que Charles Boricceli fez no álbum do Anonimato Rep não é uma coisinha chula, tampouco de gente com mentalidade de amendoim. Sua magia foi completamente imprescindível para que o Bastardos Inglórios ficasse tão fausto e excelso como ficou. O poder do Charles foi uma coisa que nem os monstros do Cartel MCs sabiam que ele tinha. Confira abaixo a entrevista exclusiva do RDL com este mito.



RDL: Como o Cartel MCs te convidou para participar desse projeto?

Charles Boricceli: Eu postei uma foto do estúdio no Facebook e o Ber MC flagrou o estúdio que eu trampo. Então ele mandou uma mensagem (a gente já se conhecia). Ele comentou na foto perguntando: ‘Rola de gravar aí?’ E eu respondi: ‘Óbvio! Chega mais.’ Aí eu fiz a ponte entre ele e o dono do estúdio. E aí eles chegaram em um acordo e eu entrei como produtor musical compondo as músicas para o projeto e entendendo, assim, né, o que que a banda precisava — musicalmente falando. Foi bem maneiro. Foi no momento que o Cartel era só Ber MC, Erik e Xamã. Então foi bem interessante pegar esse momento. [Foi] também o momento onde o Cartel já tinha caído no esquecimento do grande público, né. Falava “Cartel” e a galera pensava assim: “Pô, Cartel está sumidão, pode crer. Caralho…’ Então foi um momento muito interessante para mim.



O Cartel sempre foi o maior grupo do Rio — ou um dos maiores —, tendo um nome de peso. Para mim que já conhecia os caras, já gostava do trampo deles, pegá-los num momento onde é para jogá-los para cima, tá ligado? Voltar para aonde eles nunca deveriam ter saído foi maneiro. Então foi um momento perfeito, assim, onde o meu estúdio precisava de visibilidade e o Cartel precisava de um estúdio. Eles já tinham começado um disco que ia se chamar “Kalash”, mas aí acabou não andando, a energia não rolou em outro lugar, com outra produção. A gente começou do zero no Bastardos Inglórios.

Você que mixou e masterizou tudo?

Mixei e masterizei 16 faixas, e o Erik Skratch mixou e masterizou as duas bônus.

Qual a sua faixa favorita do álbum?

Us Pica du Século” ou “Fluxo”. Essas duas músicas foram feitas na hora. Tipo, não tinha beat, [não tinha] letra, sabe? A gente falou: ‘Vamos fazer uma músiva violenta, agressiva?’ Aí o Ber me apresentou A$AP Ferg, “KGL” do Nectar Gang, aí desceu para fumar um cigarro com Xamã e enquanto isso eu bolava um loop de sample. Ele queria uma parada dark. O nome do arquivo era “Darkzada”. Ele queria um bagulho assim, pesadão. Eu curto Ferg mas não curto vários beats que ele escolhe para cantar. Então falei: ‘Tá beleza, eu faço um tipo Ferg, mas não sei se vou fazer de um jeito maneiro, tá ligado?’ E aí [“Us Pica du Século”] saiu assim. Tipo, ele voltou, ouviu o sample, o loop que eu criei e falou: ‘É isso mesmo! Vamo que vamo!’ Aí montei uma bateria rapidão, tipo, em 15 minutos já tinha um loop de beat. Aí Xamã ja foi escrevendo na hora.




“Fluxo” foi o mesmo esquema só que em outro dia. Mas não teve o Ber dando referência. A gente ia fazer “Onda Máxima Parte II” mas aí o beat mudou muito. Tipo, não tinha nada a ver com “Onda Máxima”. Aí então esqueci e peguei a ‘onda nova’ e surgiu “Fluxo” que vai rolar até videoclipe da faixa, como ela foi feita. Tipo eu e Xamã no estúdio, eu fazendo o beat, com o Ícaro, o Erik também; o fotógrafo estava lá fotografando, filmando. Xamã sentado no chão, eu na cadeira ali com a MPC no colo. Não, minto, a MPC tinha quebrado, eu estava com o teclado nesse dia. Falei: ‘Ah, que se foda então! Vou fazer um beat no teclado.’ Aí saiu um dos beats mais pesados do álbum. Um trap pesado, meio acelerado.

Eu gosto muito dessas duas músicas porque são duas músicas que é impossível ficar parado… elas são energia pura. É muito espontâneo. O jeito que o beat cola com a voz foi criado junto, na hora, não teve separação de beat, de voz. Não foram momentos distintos. Foram concomitantemente executados. Então tem uma mágica que acontece quando duas, três, quatro, cinco pessoas se concentram na mesma energia, vibram na mesma frequência e fazem acontecer… quando elas criam, né, algo do zero, juntas, é tipo aquela ideia de meditação conjunta, sabe? Tem uma mágica que acontece no Universo quando várias pessoas se concentram em prol de um objetivo.

Sentiu algum frio na barriga quando o Ber perguntou se podia ir gravar no Studio 9?

Frio na barriga não. Senti que uma grande oportunidade se apresentou pra mim, uma chance de marcar a história do Cartel ajudando a fazer a volta desse monstro e impactar a cena com um disco eterno.

Como foi para você, trabalhar com um grupo tão emblemático como o Cartel MCs?

É muito interessante trabalhar num disco que você sabe que será ouvido por muitas pessoas. Você começa a pensar muito especificamente na narrativa que você quer criar. Você se põe muito mais na posição do ouvinte, imaginando como gostaria de ser impactado por esse grupo icônico cheio de personalidades fortes.

Você esperava produzir tantas faixas assim?

Não, mas eu desejava. Começamos gravando nos beats dos outros beatmakers, mas quando chegou a hora de criar músicas juntos, aí a magia começou a rolar e nasceram sons tipo “Us Pica du Século”, “Fluxo” e “Gucci Mane”.

Para finalizar: O que você acha da galera que só foca nos MCs e esquece que por trás dele existe um grande processo, como produção do beat, mixagem e masterização?

Cara, acho bastante natural. Afinal, a gente ouve a música pelo artista e não pelo engenheiro de mixagem. O que eu acho importante observar é que o MC ganha atenção porque ele é um grande comunicador. Ele fala na música, ele fala na mídia, e fala com o público. Acho que se os beatmakers e produtores aprenderem do exemplo dos MC e falarem mais, ganharemos todos o tão desejado reconhecimento do público. O que marca um artista é a personalidade, então começa a abrir a boca e a fazer a diferença. Beatmaker é músico, tão artista quanto o MC. Agora só falta ser tão marcante quanto. O grande público vai dar atenção aos beatmakers quando eles começarem a deixar uma pegada mais profunda por onde passam.


Se perguntar, “Qual papel eu quero assumir nessa parada?” Se quiser ser figurante, beleza. Se quiser  um papel de protagonista, seja mais vocal, comunicativo e insubstituível.




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