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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

Conheça como 50 Cent fez “How To Rob”, a música que o colocou no jogo

[Este artigo foi originalmente publicado em Dezembro/Janeiro de 2010 pela XXL]


Em 1999, o negócio do rep estava prosperando, com placas de platina, milhões de dólares, e garrafas de champanhe. O novato de Southside Jamaica, Queens, 50 Cent, só queria um pedaço da ação. Sua música de estréia, “How To Rob”, neste artigo é contada como tudo aconteceu.

Compilado por Matt Barone, Rondell Conway, Jesse Gissen, John Kennedy e Rob Markman


Alguns dizem que você nunca terá uma segunda chance de fazer uma primeira impressão. 50 Cent estava nesse caminho de pensamento ao fazer seu single de estréia, “How To Rob” em 1999. Então, o repper de Southside Jamaica, Queens, assinou com TrackMasters/Columbia Records e preparava seu álbum de estréia solo, Power Of The Dollar. Embora o LP nunca tenha saído, “How To Rob” caiu na trilha sonora do filme In Too Deep, em Agosto daquele ano. Não foi um sucesso, mas tornou-se um alimento básico nas mesquitas noturnas da Cidade de Nova York, ganhando muita notoriedade na indústria e na rua por seu conteúdo ameaçador.

Gravado na primavera de 1999 em três estúdios da cidade de Nova York (The Hit Factory, The Cutting Room, e The Lion Den) e disponibilizado nas ruas através da Hot 97 de Nova York, pouco depois, o primeiro single da fúria apontou para mais de 25 celebridades estabelecidas, aliviando a maioria deles de dinheiro e jóias. Um soco em Mariah Carey, que estava se divorciando de seu marido, o presidente da Columbia Records, Tommy Mottola, agitou tantas controvérsias antes da disponibilização dessa música que a versão original precisou ser removida. (“I’ll manhandle Mariah, like, ‘Bitch, get on the ground/ You ain’t with Tommy no more, who gonna protect you now?’”

O Madd Rapper, um ato cômico do ex-produtor da Bad Boy Records Deric “D-Dot” Angelettie foi adicionado ao refrão da música para a leveza, dizendo: “This ain’t serious/ Being broke can make you delirious/ So we rob and steal so our ones can be bigger/ 50 Cent, how it feel to rob an industry, nigga?” Isso ajudou a amortecer o golpe, mas as pessoas ainda sentiam profundidade. Vários reppers retrucaram e não gostaram, mais notavelmente Jay-Z, que cuspiu sua resposta na Hot 97 Summer Jam em 1999, dizendo: “Estou sobre um dólar, que porra é essa de 50 centavos?”

Ainda assim, a música bateu forte e resultou em muito amor e desprezo para 50. Enquanto ele finalmente conseguia seu mega estrelato no rep com sua estréia solo real em 2003, Get Rich Or Die Tryin’, as cabeças do hip-hop sempre se lembrarão da primeira grande música do 50 Cent. — Rob Markman


AS VÍTIMAS DO ASSALTO A MÃO ARMADA


50 Cent:
Repper do Queens
Cory Rooney: Ex-vice-presidente executivo sênior da Sony
Deric “D-Dot” Angelettie: Produtor do Brooklyn, ex-membro da equipe de produção da Bad Boy Records, MC conhecido como The Madd Rapper
Rich Nice: A&R da Columbia Records, para Power Of The Dollar


50 Cent: Escrever a música foi minha idéia. Eu escrevi as letras em pedaços. Não foi apenas aleatório. As pessoas vinham à mente com base nas rimas. Uma vez que eu consegui dizer isso em ordens diferentes, eu disse o verso para Rich Nice. Antes de levar para ele, eu estava fazendo isso para uma batida de Beanie Sigel, outras faixas. Eu estava apenas brincando com o conceito na minha cabeça... Não era difícil chegar ao conceito de roubo, quando você não está em um excelente espaço financeiro. Era como se estivesse sendo rejeitado durante aquele tempo, enquanto eu tentava fazer música. E depois ficou ainda pior.

Eu estava fazendo o que [os reppers] tinham medo de fazer nesse aspecto... Eles realmente estavam com medo de mencionar os nomes uns dos outros, porque Biggie e 2Pac tinham ficado fora de controle... [Quando] Rich ouviu a letra, a música completa estava finalizada. Coloquei os dois versos, e então era hora de gravarmos o refrão. Ele conseguiu unir D-Dot… para criar clareza, para mostrar que não era um ataque fatal para eles. Sem D-Dot, eram linhas de roubo direto. Eu meio que fui atrás de todos os que eram relevantes, e era realmente como fazer minha própria [versão de Biggie] “Dreams Of Fuckin’ An R&B Bitch”.

Rich Nice: O selo não tinha idéia da música. [Nós estávamos] tentando fazê-lo sob o radar, porque, na época, eu senti um pouco que o negócio seria contra ele e eu disse tipo, “Nah, não faça esse tipo de música... Nós o queremos que seja um repper sério.” [Mas] a música era intencional para ser alegre, [não] afetar todos e ferrar a todos.

D-Dot: Eu nem sabia de 50 Cent. Nós dois estávamos na Columbia Records... Uma noite, recebi uma ligação de Rich Nice... Ele disse que ele tinha esse som de que ele realmente precisava da minha ajuda. Eu disse: “Mano, estou prestes a ir para casa... Você precisa chegar aqui em alguns minutos.” Ele chegou lá muito rápido, gravou e eu disse tipo, “Cara, essa merda é quente.” Isso me lembrou Biggie, mas seu ângulo era perfeito. Eu definitivamente queria continuar, e eu disse a Rich: “Apenas diga ao filho que ele terá alguns problemas. Mas eu me amarrei.” Eu pensei em diminuir o impacto sobre isso, diminuir o golpe. Além disso, se eu fosse engraçado, iria parecer que ele era meu artista, mesmo que ele não fosse. Eu fiz o refrão naquele momento e pronto. Rich adorou e levou de volta. Ele me ligou dois dias depois, dizendo: “Todos adoraram”, e pronto.

Rich Nice: Um dia eu estava no escritório e recebi uma chamada do Donnie Ienner [então presidente da Sony/Columbia]: “Venha ao meu escritório agora... É sobre a música do 50.” Eu fui até o escritório e ele disse: “Você deve tirar o nome de Mariah.” E eu reagi, “Puta merda!” Cory Rooney chamou e disse: “O nome precisa ser mudado. Eles estão realmente chateados com isso.” Eu disse tipo, “É apenas uma linha, uma linha.” Eu chamei Fif, e Fif disse: “Olha, essa é uma besteira.” Mas ele mudou [isso]. Eu estava sendo gentil quando disse que [Mariah] ficou muito irritada, absolutamente enfurecida.

Cory Rooney: Toda a maldição da existência [de Mariah] deve ser aceita pelos negros... porque ela é meio branca, meio negra. Ela parece branca e todos sentiram que ela era branca, mas nunca conseguia aceitar... Então, quando soube disso, ela ligou e ameaçou processar o selo... Ela exigiu que Tommy fizesse alguma coisa sobre mudar a letra... [Ela e Tommy] estavam basicamente separados legalmente. 50 era um artista da Columbia, mas ela era a artista da Columbia. Então eles não tinham escolha... Mariah ainda era uma artista muito válida, e Tommy ainda estava no poder. É engraçado. Mariah teve um problema semelhante com Biggie, quando ele disse: “Mariah Carey/ Kinda scary” [em “Just Playing (Dreams)”]. Ela ficou muito bolada com ele.

D-Dot: Fui em uma das reuniões quando Donnie Ienner nos disse que Mariah queria seu nome fora disso... Então 50 voltou e mudou para Case e Mary.

50 Cent: Fiquei puto porque precisei fazer mudanças [nas minha letra]. Não queria mudar nada. Você tinha mais artistas que eram mais eficazes não sendo alterados... Você tinha Big Pun lá, o melhor repper latino de todos os tempos. Master P era uma explosão naquela época. Ele era, como, o mais quente do Sul, com seu selo No Limit, nesse ponto... Mariah é uma estrela desde o que me lembro. Eu estava assinando com o selo; ela era a maior coisa no selo. E casada com o cara que administra a parada. É uma coisa diferente, cara.

Cory Rooney: [Quando o som saiu para o público] eu lembro de pessoas ouvindo [a música] e dizendo tipo, “Espero que ele não diga nada sobre mim.” Até eu mesmo... Foi como, “Ai meu Deus... Se nós deixarmos este nigga na indústria, nós teremos um animal entre nós.” E ninguém se sentiu mais seguro. Ele era realmente direto [no que ele estava dizendo]: “I would rob you, and I would rob you, I would rob all y’all.”

Rich Nice: Chaka Zulu estava no ramo da rádio na época da Columbia e estava levando 50 ao bastidores no Summer Jam, apresentando-o às pessoas, com algumas pessoas legais, dizendo: “Vamos colocar um rosto com o nome, e todos sejam fáceis.” Quando ele conheceu Jay, Jay disse: “Você sabe que eu tenho que recuperá-lo por isso, certo?” E 50 disse tipo, “Sem dúvida, sem dúvida.” Mas ele não sabia que ele queria dizer naquele momento. Quando Jay foi no palco e disse sua rima... Liguei para [50] e disse: “Você está, mano. Você está agora mesmo. Está lá e sendo citado. Você conseguiu ser cogitado pelo maior cara no jogo dizendo seu nome.” E essa não era a intenção. Nós fizemos mais para torná-lo algo ímpar, para separá-lo de todos.

50 Cent: Essa música teve impulso. Tinha impactado onde a cultura do hip-hop estava ciente disso e eu, com base nisso... Muitas pessoas não responderam a isso. Os que tiveram os egos afetados tiveram que responder. Porque eles não estavam acostumados com alguém abertamente citando-os assim, e quem era eu para dizer isso? Todos lutavam um com o outro, tinham coisas para dizer sobre as pessoas subconscientemente. Eles sempre escreveram merdas subliminares. Essa é a melhor maneira de fazer. Apenas diga isso, se você tiver um problema.



 AS VÍTIMAS

Ouvindo seu próprio nome em uma música de outro MC pode ser bastante perturbador para alguns e muito bom para os outros. Depende do que é dito. Aqui, 10 das vítimas líricas de Fif voltam a ponderar quando ouviram “How To Rob”.

Missy Elliott: Eu pensei: “Wow, quem é esse que me menciona em uma música?” Mas eu ouvi os nomes de outras pessoas, então eu senti que fui mencionada com outros grandes artistas da época, então isso me fez lidar de boa com isso.

RZA: Antes de ouvir a música, fui avisado por Tone, que disse que a música estava bem divertida. Eu disse a ele: “Pode ter soado legal comigo, mas não posso falar pelo resto da reação do Clan.” Quando eu finalmente ouvi a música, por causa da minha arrogância naquele momento, me senti um pouco ofendido. Ninguém nunca ousou gravar diss para o Wu-Tang Clan. Eu disse: “Vamos apontar para o garoto.” Mas nós o deixamos em paz, porque estávamos em um patamar invencível e não o víamos como uma ameaça.

Raekwon: Eu pensei: “Este jovem palhaço veio com uma excelente arma de marketing para continuar.” Eu não fiquei realmente irritado, mais ou menos chocado. Então eu verifiquei onde eles declararam: “Isso não é grave”, [na] parte do refrão, e não estava mais chateado. Mas eu estava falando especialmente para Ghostface e RZA: “Vamos dar um recado para ele assim que possível!”

Mister Cee: Nunca tive um problema com 50 me mencionando. De forma divertida, meio que me deixou quente na rua, porque eu estava associado com outras pessoas no negócio da música que estavam recebendo dinheiro.

Kurupt: No começo, eu não estava nem aí, porque a Costa Leste lutando contra a Costa Oeste é diferente. Levamos as coisas a sério e de coração. Na Costa Leste, você pode gravar diss para alguém e todos podem nem ligar muito... Então eu conversei com D-Dot, que disse: “Isso é divertido.” Então eu respondi: “Ok, então tudo bem.” Ótimo conceito, no entanto. Eu não vou mentir.

Sticky Fingaz: Primeiro eu pensei comigo mesmo: “Este nigga teve a audácia de colocar meu nome em sua música dessa maneira, quando meu grupo, Onyx, o colocou em sua primeira grande música e vídeo [“React” em 1998]. Mas gostei da música e vi que era muito cômica.

Treach: Eu sinto que 50 me permitiu brilhar [na faixa]. Ele principalmente atacava todos os outros. Foi um gangsta que deu a outro gangsta o mais alto nível de respeito, me deixando saber que não estava na categoria diss-esse-nigga.

Cardan: Meu primeiro pensamento foi: “Uau, isso é genial!” A música era muito engraçada, e eu realmente gostei da batida. Então ouvi meu nome, e fiquei chocado. Eu tinha apenas 15 anos de idade, então não sabia que 50 ou alguém sabia quem eu era.

Stevie J: Foi legal. Como fui mencionado, foi isso que me fez rir. Ele assumiu o roubo de todos os que estavam quentes na época, e para mim ser o príncipe de todos os minks... Foi meio engraçado... Ele disse: “Take off my tight-ass mink”. Mas era uma camisa de vison sob medida, com os botões da Versace.

DJ Clue: Quando ouvi 50 dizer meu nome em “How To Rob”, tive que rir. Se ele mencionou meu nome, isso significa que eu deveria estar fazendo algo certo. — Paul Cantor



[minks: Um pequeno, semi aquático, arminho como o carnívoro nativo da América do Norte e da Eurásia. A marta americana é amplamente cultivada por sua pele, resultando em sua naturalização em muitas partes da Europa.]





Manancial: XXL Magazine

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