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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

G-Unit, a equipe mais perigosa do mundo (Janeiro/Fevereiro de 2004)



Palavras por Bonsu Thompson


Pouco depois do sucesso comercial do 50 Cent como resultado de seu bem recebido álbum de 2003, Get Rich Or Die Tryin’, o líder da G-Unit estava começando a preparar o álbum de estréia do grupo, Beg for Mercy. Para a edição de Janeiro/Fevereiro de 2004 da XXL, a equipe — composta por 50, Lloyd Banks, e Young Buck — continuava a mostrar o quanto eles mantinham atividade.


50 Cent chutou a porta. Agora cabia à terra prometida do hip-hop. Ele unificou para sempre os monstros Lloyd Banks, Young Buck, e Tony Yayo para fazer parte da G-Unit e provar que há força nos números.

Era 27 de Fevereiro de 2003. Exatamente três semanas depois do 50 Cent disponibilizar seu álbum de estréia — Get Rich or Die Tryin’ — que levou o hip-hop a se tornar refém.


Avanço fugaz. 4 de Outubro de 2004. Amsterdã, Países Baixos. Uma cidade onde as fontes de água nos parques públicos dispensam bebidas alcoólicas; onde as maconhas estocadas em cafeterias são mais populares que McDonald’s; e o lar do famoso mundialmente Red Light District, onde as áreas de vitrines revelam centenas de manequins da vida real prontos e dispostos a serem seu próprio gênio sexual particular. Por um preço, é claro. Mas é tudo legal. Essa foi a parada da G-Unit na turnê européia.

Trinta e seis mil milhas da cidade de Nova York, ele discute a louca vida do rep que vive hoje, uma verdade de dupla face se torna aparente: 50 Cent pode não ser tão poderoso como ele pensa (“Eu controlo tudo”, ele disse com indiferença. “Tudo que acontece é por causa de mim.”) Mas ele é mais poderoso do que você pensa.

Em 2003, se Nas perguntasse “De quem é esse mundo?”, teria sido uma pergunta estúpida. Vendendo mais de seis milhões de cópias em um mercado baixo, o Get Rich Or Die Tryin’ dominou as paradas como nenhum outro álbum. Em Maio, 50 teve oito músicas em rotação regular no rádio e/ou MTV (seis eram do Get Rich Or Die Tryin’). Capitalizando as habilidades de marketing aprimoradas durante os anos históricos como um entusiasta da rua — e, em 2002, com suas mixtapes disponibilizadas de forma independente —, 50 oferecia aos seus fãs mais do que seu jeito carismático. Então ele se usou como o principal promotor. Para dizer o mínimo, funcionou: o Mr. Monopólio do rep afirmou ter arrecadado $40 milhões em 2003. “Essas realizações parecem menores agora”, ele disse, encolhendo os ombros tão rapidamente. “Porque eu já agitei [uma classe financeira mais alta]. Estou procurando fazer pelo menos cem milhões em 2004.”

A diversificação é a chave. Mas não havia nenhum ramo da G-Unit mais importante para 50 do que os artistas históricos: Lloyd, Tony, e Buck (todos assinados na G-Unit Records, é claro). E está certo. A Gorilla Unit não é apenas sua típica comitiva de reppers; eles são a razão pela qual 50 é a superestrela que é hoje. Cada capítulo da história de 50 Cent teve sua participação.

Lloyd Banks (nascido Christopher Lloyd) sabe o que quer. Além de seus anos, liricamente, o auto-proclamado “Boy Wonder” sofreu uma constante chuva de elogios do bairro por causa da sua mixtape. “Os caras que cresci ouvindo me desapontaram agora”, ele disse. “É um momento onde penso: ‘Nigga, foda-se por quanto tempo eu estou no jogo — todos vocês já estiveram aqui nessa porra.’”

À sua direita, no entanto, Young Buck está apenas começando. Ignorando um prato frio de macarrão, o MC de 22 anos falava entusiasmadamente sobre o show da noite, a cafeteria da Green House. Sua voz, e uma boca cheia de dentes de ouro, torna evidente que o novo integrante da G-Unit não era do Queens. Anteriormente afiliado à Cash Money Records e à equipe UTP de Juvenile, David “Young Buck” Brown foi nascido e criado no sul — Nashville, Tennessee, para ser mais específico.

“50 Cent despertou minha atenção quando ele fez ‘How to Rob’”, ele disse. “De onde eu sou, no sul, você não é aceito por nada que disser se realmente não for o que diz.”

De acordo com 50, Buck entrou para a G-Unit como resultado de alguns negócios do rep. No início do ano, com a equipe assinada com a Shady Records/Aftermath Entertainment, e Banks construindo um catálogo de punch lines com a ponta mais longa que o pescoço de uma girafa, a G-Unit estava claramente se tornando a propriedade mais quente no jogo.

“[Enquanto Buck ainda estava com Juvenile] ele me mostrou um som foda e eu achei isso muito extraordinário”, disse 50. “Eu queria fazer um convite a ele, mas eu não queria ser desrespeitoso com Juvenile. Eu acho isso desrespeitoso, convidar alguém para entrar na sua parada e fazer propostas enquanto ela tem vínculo com alguém. Mas depois disso, descobri que Juvenile tinha feito [uma proposta] a Banks. Porque eu ouvi, e não foi da boca de Banks. Eu tomei uma atitude. Banks deveria me dizer imediatamente. Então eu disse: ‘Ei, filho, você quer ir com o Juvenile? Se quiser pode ir agora mesmo.’”

Para provar que não estava brincando, 50 chamou seu advogado, na frente de Banks, e o instruiu a elaborar documentos de liberação para o jovem MC. É claro, Banks ficou cônscio de que não havia dúvidas quanto a quem ele queria se juntar. E 50, sentindo menos necessidade ainda de respeitar o território de Juvenile, chamou Young Buck e o convidou para Nova York.

[Recusando o comentário direto, e através de um porta-voz, Juvenile disse que não era assim que isso se resolvia.]

Como a maioria das pessoas sabiam, devido à popular campanha da camisa “Free Yayo”, havia um membro da G-Unit que estava ausente nesta viagem. Marvin Bernard, de vinte e cinco anos, mais conhecido como Tony Yayo, foi preso na véspera do Ano Novo por posse de armas e mandados anteriores. Ele estava cumprindo pena na instalação correcional de Monterey Shock Incarceration, o mesmo local onde 50 ficou uma vez. Então, o cara que deu coragem para o time — através de quando vendia crack e 50 baleado em 2000, para o lance da mixtape e a rixa com a Muder Inc. — perdeu a maior parte da glória. E ninguém sentia mais falta dele do que seus chapas.

“Yayo”, disse Banks, “ele, de algum modo, me colocou na posição em que eu estou. Eu disse: ‘Filho, isso é o que vai estourar, junte-se a nós.’”

“Honestamente”, ele continuou, “antes de Yayo ficar preso, ele era minha motivação. Tipo, nós não somos os mais sapientes do mundo. Nós deixamos o ensino médio. Mas Yayo, quando ele rima, ele é o mais sapiente. Porque as coisas que ele diz, eu ficava pasmo: ‘Nigga, você assiste The History Channel ou alguma coisa? Você não está na área com a gente, como você sabia disso?’”

Por todas as contas, Yayo estava lidando com multa. (50 disse que ele estava para sair em Dezembro, algumas semanas depois que o álbum Beg For Mercy da G-Unit estava programado para sair.) E você sabe, os problemas com a lei não são novidades para ninguém na G-Unit.

Banks nasceu em Baltimore. Sua família se mudou para Southside quando ele completou seis anos. Quando ele conseguiu ter tempo de qualidade, nem sempre foi tão de qualidade — as dificuldades não mostraram exatamente ao primogênito as coisas mais finas da vida. “Eu vi meu primeiro [assassinato] quando eu tinha dez anos”, disse Banks solenemente. “Na frente dos meus olhos, o cara deu três tiros na cabeça do outro. Era um dos amigos mais chegados do meu pai.”

Enquanto Banks estava começando a ver de perto incêndios e sangue, Buck estava em Nashville, vendendo crack para seu pai. “Provavelmente vendi os meus primeiros pedaços de crack para o meu pai”, disse Buck sem emoção, que com 13 anos já vendia. “Fiz isso porque eu preferiria me ver vendendo para ele e ganhando dinheiro do que ver um dos meus amigos vendendo para ele e ganhando dinheiro.”

Dispensável ao dizer como era o relacionamento que Buck disse, com suas próprias palavras, que foi “fodida” por anos. Através, a situação ficou ainda pior. “Pouco antes de eu completar 22 anos”, ele disse, mexendo a cabeça, “minha mãe tinha pequenas crises de risos em tons baixos e dizia: ‘Eu não sei se ele é realmente seu pai.’ Eu sou um cara de aparência escura, e o cara que diz que ele é meu pai não é. Mas [como passamos] o processo de tentar ver se ele é meu pai, ele estava vendo todo o sucesso em corroborar que não era. E a primeira coisa que saiu da boca foi: ‘Me deixe celebrar algo”. Eu nem aceitava seus telefonemas mais. Ele estava deixando as coisas bagunçadas.’”

Após a Green House, a G-Unit mostrava quase todos o seu time (exceto 50, isto é — sem fumo tóxico ou bebida para o repper musculoso), e o lance estava funcionando. G-Unit estava reunida todas as noites em um dos principais estúdios de Amsterdã. Enquanto Banks trabalhava no seu projeto solo em outra sala, e Buck aguçava um verso como convidado, o DJ oficial da G-Unit, DJ Whoo Kid, caiu dentro no estúdio B. Ele estava gravando para a rádio Hot 97 de Nova York.

O tópico da discussão daquele dia era “treta”. Depois que a G-Unit bateu de frente com High e Pretty Sha (não confunda com o produtor Sha Money XL) por dizer que ele estava no time mais gangsta e odiado no hip-hop, 50 entrou na cabine para fazer sua parte. “Se eles realmente quisessem me encontrar, eles não teriam nenhum problema”, disse ele, com um sorriso diabolicamente familiar que se espalhava por seu rosto. “Todos os meus shows estão listados na MTV. Onde eles estão olhando?”

Isso não é um acidente. Por mais que ele esteja viajando, o  gangsta repper favorito da America garantiu que ia subsistir em alguma treta. Embora a maioria dos artistas possam se calafetar com problemas de imagem que poderiam vir a ser constantemente trilhado por “policiais do hip-hop” ou sendo presos como o garoto-propaganda por violência no rep, 50 se dispõe da má imprensa.

“Eu tenho uma aura em torno de mim que não vai sair e estou bem com isso”, disse ele. “Eu acho que as pessoas me olham e pensam: ‘Isso é o que um jovem nigga é.’ [Eu represento] a mentalidade no bairro, e tenho a honra de ser a voz disso.”

“Estou disposto a aceitar tudo o que vier deste ponto”, disse 50. “Porque eu sei se o meu julgamento está me levando ao sucesso, tudo o que vem disso é plano de Deus.”

Parece que alguns dos Gorillas do antigo bairro se desviaram, deixando o ex-chefe do crime, em privado e em publico, por não cuidar deles financeiramente.

“Eu estava mantendo tudo para aquele cara, protegendo-o, do seu lado...” disse o ex-membro da G-Unit, Smurf, em uma entrevista a The Source. “Agora, este cara explodiu, está feito, sentado em sete milhões e eu preciso pedir ao meu amigo que me deixe pegar algum dinheiro para sobreviver.”

50 pegou algum de seus amigos do antigo bairro que não conseguem manter seus olhos no prêmio. Mesmo depois que ele ficou grande, ele diz, alguns soldados se recusaram a cessar e desistir de sua atividade de rua — criando situações que sugavam sua energia e seus bolsos (as taxas de advogado são uma porcaria). “Até que você já tenha visto o suficiente da besteira e dizer para que eles se afastem de você. Eu tinha um cara ao meu redor, acha que ele fez tudo. Ele pensou que fez isso, de verdade. Eu estive na linha de frente o tempo todo. Então, não há outro nigga [na G-Unit] que é mais valioso do que eu.”

50, que jurava que ninguém em sua equipe fazia menos de $60.000 por ano, aprendeu com as loucuras da história do rep. Ele estava determinado a sorrir sozinho apenas com o necessário, apenas o produtivo. “Eu não tenho uma equipe chamada MC Hammer”, ele disse. Mais importante, nunca pode ser esquecido: G-Unit não é uma democracia. No final de tudo, ele é o chefe. “Nós temos uma situação familiar, mas eles seguem as instruções. Se você não seguir as instruções, você vai de ralo. Porque eu não posso perder.”

Os pássaros estavam cantando enquanto o sol nascia. Era 7:30 da manhã e a sessão do estúdio tinha acabado de ser encerrada. Todos estavam exaustos, mas felizes. Felizes porque 50 estava feliz. De muitas maneiras, na “situação familiar” da G-Unit, 50 foi o pai que seus filhos nunca tiveram.

“Eu acho que eles me observam”, disse 50. “E eles começaram a trabalhar duro porque eles me vêem trabalhando.”

A equipe se empilhou em uma van que os levou de volta para o hotel onde estavam hospedados. A maioria dos caras estavam fechando os olhos, inclinando a cabeça contra as janelas.

“Quando entrei no [jogo de rep]”, disse Banks. “Eu costumava pensar tipo, ‘Eu estou pronto.’ E agora eu posso dizer honestamente, eu não estava. Eu realmente não me entendia como um artista.”

“Lembra da sonoridade de Biggie em Ready To Die? ‘I got seven MAC-11s...’ Sua voz era um passo longo. Porque ele costumava ir na frente de uma multidão, então sua voz ficou mais alta. Então, quando ele veio com Life After Death, toda sua merda mudou: ‘Today’s agenda...’ Era apenas sua voz regular. Era assim para mim. Nos meus primeiros passos no rep, minha voz era mais interessante. E então eu percebi que não estava realmente usando minha voz, então eu comecei a tirar mais vantagem disso.”

O single principal da G-Unit, “Stunt 101”, já estava borbulhando nas paradas da Billboard.




“Alguns niggas disseram, ‘Ei’”, disse Banks. “‘Ele vai explodir — está garantido, porque ele está com 50.’ Foda-se isso! É uma maneira ignorante de pensar. Não dependo de ninguém. Tenho 100% do apoio dele, mas não dependendo de ninguém.”

Noite de domingo. 5.500 fãs de Amsterdã aguardam às escuras, no ginásio Heineken Music Hall. Antes do show, você não ouvia uma letra em inglês da multidão. Mas quando 50 Cent, Lloyd Banks, e Young Buck brotaram no palco, o local, com pessoas de várias cores e uma faixa etária de 14 a 30, recitavam todas as sílabas do 50 Cent — dos seus álbuns comerciais favoritos às mixtapes.

É uma cena poderosa, mas para 50, apenas mais uma parte do plano. “Eu sinto muitas pessoas, mesmo com quem faço negócios, me olham como se eu estivesse com pressa, afobado”, ele disse nos bastidores depois. (Essa vez, 50 é o ato de liderança.) “Não, eu não estou com pressa. Pode não ser legal para todos fazerem as coisas tão fugaz como eu estou fazendo isso agora, mas eu estou em uma situação especial para fazer o máximo possível — isso realmente significa muito para mim. Se eles dizem que é impossível, acho que pode ser possível.”

Master P está recebendo sua pergunta respondida desde quando ele perguntou [Quão firme você consegue trabalhar?]. E agora que o resto da equipe havia chegado, 50 não tinha intenções de abortar sua resposta longa e sem palavras. “Ah, cara”, ele disse. “Eu não vou lhe mostrar como eu realmente trabalho firme agora, baby.”



Manancial: XXL Magazine

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