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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

Pai de 2Pac, Bill Garland fala sobre seu filho

[Este artigo foi originalmente publicado em 2011 pela XXL]


Bill Garland reconectou-se com seu filho dez meses antes das balas em Las Vegas os separarem para sempre. O pai de Tupac lembra.


Entrevista por Vanessa Satten


Havia vários personagens masculinos importantes na vida de Tupac Shakur. Mas não tinha até os 23 anos de idade quando conheceu seu pai biológico. Um membro do ramo do Partido dos Panteras Negras da cidade de Nova Jersey na década de 1960, Bill Garland conheceu Afeni Shakur em uma reunião de oficial de estratégia em Nova York em 1969. Os dois tiveram um caso curto em 1970, o que levou ao nascimento de Tupac, em 16 de Junho de 1971 — enquanto Afeni estava presa por conspirações por explodir lojas de departamento de Nova York e estações de polícia.

Vivendo separadamente, mas ao redor da família para a primeira infância de seu filho, Garland ficou sem contato em meados dos anos 70 e ficou assim por 18 anos, até que ’Pac estava se recuperando após ser baleado do tiroteio no Quad Studios de Nova York em 1994. Após o assassinato de ’Pac, dois anos depois, Garland processou Afeni por metade da propriedade, citando, no processo, o seu pedido falso sobre o atestado de óbito de que “o pai do sujeito estava falecido”. Garland perdeu o caso, mas uma prova de DNA que ele levou para a audiência confirmou sua paternidade.

Bill Garland, com 61 anos, visitou o escritório da XXL para falar sobre Tupac.


XXL: Já se passaram 15 anos desde a morte de seu filho Tupac. Como você se sente quando olha para trás?

Bill Garland: Ainda dói. Estamos falando de alguém que faz parte de você. Alguém com quem você queria ter passado mais tempo. Alguém que você ama e... Quinze anos, ainda se sente como ontem. Para qualquer um, a última coisa que você quer é perder seu filho. É a coisa mais dolorosa do mundo. Felizmente — não sei, felizmente ou infelizmente — é uma criança que você vê regularmente. Eu ando na rua e vejo sua foto estampada nas camisas das pessoas. Eu vejo revistas.

Você o ouve…

Todos os dias no rádio. Você sabe, eu não sou o único pai que perdeu uma celebridade filho ou filha. Mas eu tenho que ser um dos poucos pais que tem que ver isso e se lembrar disso diariamente.

Isso te surpreende? Não há muitas celebridades que são grandes, e muito menos reppers.

Sim, até certo ponto, porque sempre foi meu filho. Ele nunca foi “2Pac, o superastro”. Sabe, jogamos o Monopoly juntos. E ele tentou enganar. [Risos] Sim, na prisão. Coisas pequenas e estúpidas. Sabe, nós comemos sementes de girassol juntos. Ele cuidava das pessoas. Essa era a sua principal virtude. Ele realmente se importava com as pessoas. Eu acho que é por isso que ele ficava tão chateado quando as pessoas tentavam questionar seu compromisso, seu amor por mulheres negras ou homens negros. Esse lance de Costa Leste versus Costa Oeste, você sabe, é uma estória. Não preciso te dizer isso. Então quando isso foi enfatizado, o incomodou. Porque ele dava seu coração ou alma. Ele era uma pessoa doadora. Ele daria qualquer coisa às pessoas. Ele ia a uma loja. [Se houvesse um] homem negro que não pudesse pagar um par de botas de $1.500, ele os comprava para ele.

Tupac se foi com 25 anos. Muitas pessoas não estão realmente desenvolvidas para ser um adulto completo em 25. Você acha que esse foi o caso com ele?

Ele ainda tinha muitas maneiras infantis. Quando eu o visitava em Dannemora, eu perguntava sobre algumas das instâncias — as coisas imaturas, cuspir em repórteres. Ele dizia: “Pai, eu sei que estava errado.” Ele dizia isso. Ele queria se acalmar. Ele queria ir assistir filmes, ficar mais em casa. Ele queria esfriar mais. Você sabe, mas você está envolvido nisso. Você fica preso em ser o que eles acham que deveria ser. E então você começa a agir dessa maneira, infelizmente.

Como era o seu relacionamento com ele? Não acho que a maioria das pessoas esteja familiarizada com o relacionamento que vocês tiveram. As pessoas estão confusas por isso.

Eu sei, eu sei. Costumava me incomodar, mas não. Porque há uma coisa que ele me disse, e era isso que ele amava. Eu o conheci até ele completar cinco anos. Eu casei com outra mulher. Foi quando nós saímos do Partido dos Panteras Negras — eu e Afeni, foi aí que nos conhecemos. Então perdemos contato uns com os outros. Não há dúvida na minha opinião de que eu poderia ter sido um pai melhor. Não há duvidas. Eu tenho que suportar o peso disso, porque talvez houvesse algo que eu poderia ter dito ou fiz, talvez, que talvez não tenha conduzido ao caminho que sua vida levou. Então eu tenho que suportar o peso disso. A primeira vez que nos reconectamos foi quando ele foi baleado em Nova York. Foi como uma cena do The Godfather. Ele subiu ao quarto, e ele me viu, e conversamos, e eu falei que estava com ele agora, e ele percebeu que eu era o pai dele.

Você não o via desde os cinco anos?

Não. Não via ou falava, infelizmente. Eu o tinha visto em Juice, que foi a primeira vez. Isso foi em 91. E, ironicamente, havia uma mulher que era sua publicitária — o nome dela era Karen —, e eu a conhecia da cidade de Jersey. A idéia era que eu me comunicasse com ela. Mas descobri mais tarde que havia outros interesses que talvez não quisesse que eu me comunicasse com ele. Não vou mencionar nenhum nome. [Gestos para uma imagem de Afeni na parede] Eu poderia ser o único que nunca pegou um centavo do meu filho, se você entende o que estou dizendo. E eu falo sobre pessoas, familiares, amigos que o olhavam como uma mercadoria — eu não quero ser depreciativo —, mas quem o usava. Ele comprava carros de pessoas e eles diziam: “Ah, não é um carro tão bom.” Ele comprava casas de pessoas e — ele me dizia isso; eu não mentiria sobre um homem morto — eles diziam: “Não é uma casa suficientemente grande.” E fiquei surpreso ao ouvir isso.




Então você não tinha em contato com ele quando ele tinha cinco anos até os 21 anos?

Até Juice. Eu estava sentado assistindo Juice, chorando. Eu vi o anúncio. Eu não sabia quem era meu filho até vê-lo atuando ali. E eu sei que alguém naquele cinema tinha que me olhar e dizer: “Por que esse maldito homem está chorando na maldita linha do teatro?”

Isso aparece na tela, e você vê seu filho?

Você já viu Juice? Ele se parece comigo?

Sim. Exatamente como você. E você não teve uma palavra com ele ao longo dos anos?

Nada.

Isso é muito louco. Você está sentado em uma sala de cinema, e, de repente, ele está em uma tela?

Sim. Então o que você faz? Você aparece em sua filmagem? Foi o que o advogado me pediu no julgamento. “Bem, você sabe, ele está em Nova York em um show. Por que você não vai?” Eu deveria ir para a porra da porta de trás, como alguma groupie (fã obcecada por artistas que busca o status após se relacionar com tal) e dizer: ‘Ei, ’Pac, eu sou seu pai!’?

Quando você foi vê-lo, no hospital, o que ele disse quando o viu pela primeira vez? E viu o quanto vocês se pareciam?

Ele sabia. Ele ficou chocado. Quando ele desceu na cadeira, quando ele estava saindo do hospital — o que ele não deveria ter feito, porque ainda tinha uma infecção —, ele olhou para mim e sorriu. Eu era o homem mais feliz do mundo quando voltei para Jersey. Meu maldito coração estava inchado. Fiz contato com meu filho e ele gostou de mim. Ele sorriu para mim. Porra, isso me marcou. Eu estava tipo, “Yeah, foda-se eles.” Então foi isso. As coisas acontecem, você sabe.

Mas então, descobriu que estava acontecendo isso, se eu tivesse tido uma pequena ajuda... Eu me emergi... Depois do filme [falei com Karen e perguntei]: “Quando posso falar com ele?” Ela disse: “Bem, talvez você devesse dar um pouco de tempo.” Foi o que Afeni estava contando a Karen. E eu não sabia disso. Então, agora tenho que pegar as histórias da Karen. Eu tenho que ir vê-la quando ela voltar para Jersey e ouvi-la falar sobre meu filho. E não estava chateado na época, porque estava feliz em ouvir coisas. Tipo, ele está carregando cerca de $3.000. Ele precisa de $3.000 para quê? Eu estava rindo. Mas por que eu deveria passar por você para ver meu filho? A primeira vez que o vi depois do hospital, ela veio e me pegou. Eu tinha que ir ao quarto do hotel para ela me levar para o táxi. Era assim que Afeni queria. Então, obviamente, alguém estava bloqueando, e eu não sabia por que. Muita merda você simplesmente não sabe. Você simplesmente não sabe. Dói... Desde 91, aí eu tenho que esperar até 95? Tudo o que eu estava fazendo, eu continuei. Eu comecei a pensar, “Foda-se, então.” Ele não quer me ver, eu estava pensando. Mas agora descobri que ele não sabia sobre mim. Então foi o que me irritou. Porque [se fosse] “Eu não quero te ver”, bem, eu quero ver você. Mas eu posso entender. Mesmo que me machucasse por dentro, iria entender. Mas para descobrir que ele estava perguntando e você está mentindo e não dizendo a ele, isso fere.

Você sentiu que ele o entendia com tudo isso, no final?

Eu não sei. Gostaria que tivéssemos um deles... talvez estivéssemos bêbados e deixemos tudo sair. A primeira vez que nos encontramos, haviam seis pessoas na sala. O que eu poderia perguntar a ele? E eu me senti muito mal.

Qual foi o primeiro assento, quando você foi visitá-lo na prisão? Foi quando você conseguiu falar mais com ele, com menos pessoas por aí.

Oh, eu estava muito eufórico. [Risos] Eu dirigi de Nova Jersey até a prisão de Dannemora, querendo muito vê-lo. E quando estava saindo dessa visita, fui até ele quando eu estava saindo pela porta, quando disseram que as horas da visita acabaram, e eu disse: “Eu amo você.” Ele disse: “Eu também te amo, Pops.” Era tudo o que eu precisava.

Você já se preocupou com isso, porque fazia muito tempo e vocês estavam se reconectando, ele pensaria, Ei, eu sou uma celebridade. Agora, meu pai está aqui. Ele quer algo de mim.

Não, eu nunca pensei nisso.

Você não estava preocupado de que ele poderia estar?

Eu não pensei isso até mais tarde. Mas nunca pensei nisso. Eu só queria ter escrito e me comunicar mais com ele. Porque eu estava fazendo algumas coisas. Não estava no maior interesse de ser pai. Você sabe, eram os anos 80 e 90 e fiz algumas coisas. As drogas sociais que estavam por aí, eu fiz algumas dessas. Eles pareciam acalmar as emoções, se você sabe o que estou dizendo. Você tende a não pensar muito sobre...

E então, quando você se juntou, ele é um homem.

Exatamente. Bem, o único mal que eu sinto? Um mês antes de morrer, ele me ligou. E por algum motivo, ele me acordou. E fiquei mal, não conversamos mais. Porque eu estava falando com a Death Row e descobri que não estavam lhe passando as mensagens. Então talvez ele estivesse pensando, Bem, meu pai não se importa comigo. Então nós tivemos essa desconexão. Mas então Afeni me disse, na noite em que ele morreu — e eu tendia a querer acreditar nela — em Setembro, e ela disse que em Novembro ela estava planejando reunir todos os irmãos, e nós teríamos o Dia da Ação de Graças juntos. E isso apenas inchou meu coração. Porque eu não acho que ela teria dito isso se não fosse verdade. Então, isso me fez sentir bem. Nós tivemos um filho que não tinha nada, que conseguiu um pouco. Mas não muito antes de ir para a prisão. Não é realmente um status de superastro. Ele realmente não viu seu dinheiro se desenvolver.

Você era fã da música?

Sim, adorava. E isso é muito engraçado. Esta era uma pessoa que escrevia sobre coisas que eu amo. Coisas políticas. Você tem outros reppers — sobre o que eles escrevem? Eu chamo isso de “tagarelagem, dinheiro e bunda”. Um novo carro, contar dinheiro e meninas bonitas nos vídeos. Isso é tudo. As letras, as batidas são excêntricas. Mas eles fazem bilhões de dólares sobre isso. Mas ’Pac conta uma história. Muito profundo.

E ele veio de um fundo autêntico. Esse foi um fator muito grande para seus fãs.

Sim, ele fez. Muito político. Eles sempre dizem que ele veio de uma Pantera. Não, ele veio de dois Panteras Negras. Você tem que entender isso. E isso contribui muito para isso. Então não me importei. Eu sabia que ele estava vivendo sua vida. Ele estava livre ia fazer um ano. Saiu [em Outubro de 95], morreu em Setembro [de 1996]. Ele estava vivendo sua vida, se sentindo bem consigo mesmo, se sentindo como uma estrela.

Quão irritado você acha que ele estava quando saiu da prisão?

Ele nunca mostrou isso.

Porque a percepção pública era de que ele estava bravo com Biggie e Bad Boy e a Costa Leste.

Pura besteira.

Ele estava furioso, e veio Suge para colocar a bateria em suas costas, certo?

Sabe, isso é engraçado. A primeira vez que o vi depois de 15 anos, fui ao hospital, Biggie caminhou até mim e disse: “Mr. Garland, desculpe pela inconveniência. Se houver algo que eu possa fazer por você, sinta-se livre para ligar.”

Isso foi depois do primeiro tiroteio?

O primeiro tiroteio (em 1994), aquele com o qual todos pensam que Biggie teve algo a ver com isso. Não há nenhuma maneira de dizer que um homem que estava envolvido em um tiroteio faria isso. Não da maneira que ele fez. Não havia medo; não houve hesitação. Você podia ver que ele estava tão preocupado com ’Pac como qualquer um.




Como você descobriu que ele foi baleado pela segunda vez?

Eu acho que alguém ligou. Não consigo lembrar. Eu pulei no próximo avião lá fora. E eu fui na sala, e ele estava em coma induzido. E eles disseram que, se você falasse com ele, ele poderia ouvir. Então, eu fiquei no quarto por horas e simplesmente falava. Mas, nunca tive resposta. Ele nunca respondia. E isso durou seis dias. E uma vez que sai da sala, voltando para o hotel, entrei no carro para ir ao hotel e eu ouvi isso nas notícias: Tupac Shakur morreu. Eu fiz um retorno em U. Acho que me encontrei com Afeni no Golden Nugget e conversamos um pouco. E então eu deixei a cidade naquela noite. Eu nem queria ficar em Las Vegas. Não voltei desde então. Quinze anos.

Em primeiro lugar, você pensou que ele sobreviveria?

Sim. Eu sabia que ele era forte. Pensei que sim. Ele passou por muita merda. Fiquei chocado.

Quando foi a última vez que vocês se falaram?

Quando ele me ligou. Depois que tentei chegar até ele.

E você teve uma conversa rápida?

Sim. E isso me assombra até hoje. Realmente sim. Eu tinha tanto a dizer…

Depois que ele se foi, houve muita conversa de que ele ainda estava vivo.

Nah. Ridículo. Ridículo. Eu vi as feridas.

Isso doeu?

Nah. As pessoas meio que... Eu gosto das pessoas, mas elas são um pouco… bobas, eu acho. Falta de uma palavra melhor.

Agradáveis, bobas…

Sim. Hoje as pessoas me param e me pedem um autógrafo. Eu me sinto um estúpido. Mas eu me sinto honrado. Porque eu sei que não querem saber de mim; eles querem ele. E eles querem algo relacionado a ele. Então eu faço. Eu assino essa foto. Assino isso. Me faz sentir bem. Então eu vou pelo meu caminho, e eu percebo, ele se foi. O único benefício que recebi é que posso ouvir... Eu tenho um monte de músicas inéditas, e eu escuto isso, e parece que ele está falando comigo enquanto está morto. Posso ouvir sua voz, e ele está dizendo algo.



Manancial: XXL Magazine

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