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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

ERA UMA VEZ EM COMPTON: A ordem está dada – As gangues latinas em Compton

Membros de gangue latina e sua pichação. (Essa pichação pela Mexican Mafia apresentaria um momento muito violento para a aplicação da lei que ainda continuou duas décadas depois.)


Durante vinte anos, os detetives Tim Brennan e Robert Ladd da unidade de gangue patrulhavam as ruas de Compton. Eles testemunharam o nascimento e a ascensão do gangsta rep com representantes que conheceram pessoalmente, como N.W.A e DJ Quik; trataram em primeira mão o caos dos tumultos em L.A., suas consequências e a trégua que seguiu; estavam envolvidos nas investigações dos assassinatos das estrelas do hip-hop Tupac Shakur e The Notorious B.I.G., e foram os principais atores de um conflito total com a Câmara Municipal que, em última análise, resultou no encerramento permanente do Departamento de Polícia de Compton.

Através de tudo isso, eles desenvolveram um conhecimento intrincado de gangues e ruas e uma metodologia implementada pelas agências locais de aplicação da lei em todo o país. Sua abordagem compassiva e justa para o policiamento comunitário lhes valeu o respeito dos cidadãos e dos membros de gangues.

Esta história — contada com a autora mais vendida Lolita Files, cuja pesquisa com Brennan e Ladd se estendeu ao longo de quatro anos — é um vislumbre em primeira mão de um mundo durante uma era em que muitos ouviram falar em canção e lenda, mas raramente tiveram a oportunidade de testemunhar no nível do solo, de dentro para fora, através dos olhos de dois homens que testemunharam e experimentaram tudo.


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Once Upon A Time in Compton, dos ex-detetives Tim Brennan e Robert Ladd, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah



Enquanto a trégua entre Crips e Pirus estava acontecendo, as gangues latinas ainda estavam em guerra umas com as outras. A maioria das gangues do sul da Califórnia seguiu a liderança da chamada Mexican Mafia, a.k.a La eMe (“The M”), uma rede de gangue latina-prisional conhecida como a mais poderosa dentro do sistema prisional.

Todas as gangues alinhadas com a Mexican Mafia adotaram o número 13 (“M” era a décima terceira letra do alfabeto), adicionado ao nome do set (área) para mostrar sua fidelidade. Essas gangues compartilhavam lucros de drogas, fizeram ataques para a Mexican Mafia e respeitavam suas regras. As gangues que não respeitavam podiam ver seus membros assassinados — mortos na prisão ou nas ruas pelas gangues afiliadas a La eMe.

Por volta dessa época, houve várias reuniões de gangues latinas ocorrendo na região de Compton e Los Angeles. La eMe tinha um novo conjunto de regras a serem implementadas. Efetivadas imediatamente, todos os grupos Latinos receberam a ordem de fazer o seguinte:



  1. Os membros negros que reivindicavam gangues latinas deveriam ser removidos.
  2. Todos os pichadores deveriam se juntar a uma gangue latina local ou sair da área.
  3. Não haveria mais tiroteios. Todos os tiroteios drive-by tiveram de ser somente à pé e sem vítimas inocentes como danos colaterais.
  4. Todos os bairros compartilhados com gangues negras deveriam ser assumidos por qualquer meio necessário.
  5. Todos os traficantes de narcóticos no bairro deveriam ser pagos.


As gangues da prisão tinham um poder surpreendente sobre as gangues da rua, mas havia lógica para sua capacidade de controlar as ruas atrás das grades. A maioria dos membros das gangues eram criminosos, muitos dos quais eram frequentemente pegos e enviados para a prisão. Escolher ignorar as ordens da Mexican Mafia poderia funcionar por pouco tempo fora [da prisão], mas uma vez que um membro da gangue fosse preso e enviado para dentro, eles teriam que lidar com as gangues da prisão. Foi aí que o acerto aconteceu. Não havia nenhum lugar para se esconder.


Latino membro de gangue.

Em Compton, todas as áreas reivindicadas por uma gangue negra sempre foram compartilhadas com uma gangue latina. Os negros e os latinos viveram lado a lado na cidade, crescendo juntos, indo para a escola juntos. O mesmo se aplica aos membros de suas gangues. Eles compartilhavam o mesmo território. Gangues negras e gangues latinas venderam drogas na mesma rua. Isso aconteceu desde o início dos anos setenta com poucos conflitos. Ocasionalmente, os membros de gangues negras e latinas tinham rixa, mas seria rapidamente cessada pelos OGs e pelos Veteranos.

Não demorou muito para que as novas ordens da Mexican Mafia chegassem nas ruas de Compton. O primeiro drama real começou entre os Setentas, que eram os Compton Varrio 70’s (os CV70, também chamados de Seven O’s) e Acacia Blocc Crips. Ambas as gangues tinham territórios no meio da cidade, ao sul da delegacia de polícia de Compton. Os Seven O’s eram um grande grupo latino formado em 1970, por isso o “70” em seu nome. Quando a pichação da Mexican Mafia ganhou força nos muros, os Seven O’s disseram às gangues negras que haviam compartilhado o território e que era para eles saírem. Eles tomariam o controle do bairro e do mercado das drogas.


Pichações de uma gangue latina.

Os Acacia Blocc Crips também estavam bem estabelecidos e não gostaram do que viram sobre desistir de sua parte do jogo das drogas. A violência começou imediatamente. Pancadaria. Tiroteio. De repente, esses dois grupos que cresceram juntos e compartilhavam o mesmo bairro estavam agora se matando.




Uma tarde, Tim e Bob estavam patrulhando um bairro sul na Acacia de Alondra. Quando passaram pela Raymond Street, viram Seven O’s se reunindo no bloco 200. Isso não era incomum. Era o seu caminho. Tim e Bob continuaram a um quarteirão ao sul, passando pela Reeve Street. Ali eles viram um grande grupo de Acacia Blocc Crips juntos na frente de uma casa. Era o lar de G-Ray, um dos gangsters mais famosos de Compton. G-Ray já matou dois Seven O’s que tentaram se aproximar dele e atirar nele enquanto ele estava na própria área. Os dois corpos dos Seven O’s foram encontrados com armas na mão. G-Ray disse que fez isso por autodefesa. Nenhuma outra testemunha se apresentou, então G-Ray escapou com ambos os assassinatos.

Tim e Bob tinham lidado com G-Ray ao longo de suas carreiras. Os dois Seven O’s mortos não eram a primeira vez que seu nome surgira em relação a assassinatos. Era bem conhecido que G-Ray não tinha medo de puxar o gatilho e Tim e Bob haviam prendido G-Ray muitas vezes.

G-Ray era um homem negro com cerca de 1,82 de altura, com um corpo forte e um grande sorriso infeccioso. Ele era bastante carismático e muito bem falado. G-Ray sempre carregava uma arma e nunca mexeu com a polícia. Ele corria a partir daí, mas nunca lutava. Apesar de todas as prisões, Tim e Bob tiveram um bom relacionamento com ele.

Uma vez G-Ray estava na esquina com vários de seus homies quando Tim e Bob apareceram. Ninguém correu, então Tim e Bob foram conversar com eles. Foi durante a briga entre os Acacia e os Seven O’s. G-Ray foi tranquilo quando conversaram.

Depois de conversar por alguns minutos, Tim perguntou a ele, “Você não está armado, está?”

“Qual é, Blondie”, G-Ray disse. “Você sabe que eu tenho uma. Está no meu bolso traseiro.”

Tim puxou uma arma 9mm semi-automática do bolso traseiro de G-Ray.

“Qual é, Blondie! Qual é Ladd!” ele disse, frustrado e mais do que um pouco irritado. “Você sabe que eu preciso disso para me proteger! Os Seven O’s estão sempre tentando me matar.”

Ele estava certo. Eles estavam.

Tim e Bob levaram a arma naquele dia, mas não prenderam G-Ray. Não prendê-lo poderia ser difícil para alguns entenderem. Aqui estava um assassino conhecido e Tim e Bob tiveram a chance de tirá-lo das ruas, mas isso não teria resolvido muito. Além disso, G-Ray poderia ter fugido deles quando ele os viu pela primeira vez. Ele poderia ter atirado neles se quisesse, mas optou por não fazer. Ele foi direto com eles, admitindo ter a arma quando perguntado. Esse tipo de franqueza significava muito nas ruas. Significava que havia respeito mútuo.

Então, agora, muitas tardes após o incidente da arma, aqui estavam Tim e Bob patrulhando o bairro, depois de ter visto os Seven O’s reunidos em seu lugar na Raymond Street, e agora vendo os Acacias na casa de G-Ray. Eles sabiam que os dois grupos não se encorajavam bem.

Tim e Bob continuaram a cruzar o bairro com a intenção de voltar para verificar novamente. Depois de dez minutos de patrulhamento, eles voltaram para ver como as coisas estavam com os Seven O’s e Acacia. Eles estavam dirigindo para o oeste na Tichenor Street em direção a Acacia. Tichenor estava a dois quarteirões ao sul da Reeve Street, onde G-Ray morava.

Ao se aproximarem da Acacia, um grande Buick com cerca de quatro Seven O’s dentro estava dirigindo para o norte muito rápido. Tim e Bob correram atrás deles e, quando se viraram para a Acacia, viram G-Ray e seu grupo de cerca de dez Acacia Blocc Crips em pé no canto nordeste da Accacia e Reeve. À medida que o Buick entrou no cruzamento, uma van escolar amarela com cerca de vinte crianças com necessidades especiais a bordo também estava entrando no cruzamento. O Buick bateu na van da escola.

Tim e Bob dirigiram-se até lá e saíram de seu carro. Os quatro Seven O’s no Buick saíram e correram para a direita no meio do G-Ray e Acacia e começaram a brigar. Todos lutaram, ali mesmo, no meio da rua. Tim e Bob viram os Seven O’s saindo da Raymond Street antes e ouviram o acidente e se apressaram, juntando-se ao corpo a corpo. A cena era um caos puro.

Várias das crianças com necessidades especiais que estavam na van da escola estavam na rua, feridas e sangrando. Durante todo o tempo, vinte mais membros de gangues estavam indo para Tim e Bob e estava garantido que havia armas para eles.


Pichação racista dos CV70’s contra as gangues negras.


Pichação racista contra as gangues latinas.

Eles pediram ajuda por rádio, depois se juntaram à luta. Um dos gangsters tentou correr para atrás de Tim. Tim ergueu o braço para o lado e o pegou. Os pés do cara voaram no ar e ele parou em sua cabeça. Tim e Bob correram para a multidão e começaram a pegar os cassetetes, seus punhos, lanternas, qualquer coisa para parar o que estava acontecendo. A luta durou provavelmente pelo menos cinco minutos e não parou até o som das sirenes se aproximarem. Então ambos os lados se dispersaram, decolando em todas as direções. Uma vez que as tropas chegaram, Tim e Bob olharam um para o outro, recuperando a respiração. Eles não podiam começar a descobrir como eles iriam explicar o que acabou de acontecer. Eles tinham visto muitas coisas em suas carreiras, mas essa foi uma das coisas mais loucas que já experimentaram.



A violência continuou a subir entre os Acacia Blocc Crips e Seven O’s. Pichações começaram a aparecer em torno do bairro que relatou seu conflito. Os Seven O’s marcaram paredes com as palavras “Fuck Niggers”. Os Acacias responderam com paredes marcadas com “Fuck Tacos”.

A rivalidade de sua gangue se transformou em uma guerra racial.



Em um domingo, dois Seven O’s Veteranos, Boxer e Bull, estavam dirigindo seu Chevy Impala. Eles pararam em uma caixa de correio em Tamarind e Alondra para deixar no correio a carta que eles estavam enviando para alguns homies na prisão.

Uma van marrom se aproximou deles. A porta lateral se abriu e dois Acacia Blocc Crips pularam para fora segurando suas AK-47. De acordo com testemunhas, dois homens caminharam para o Impala e atiraram à queima-roupa nos Boxer e Bull, matando-os instantaneamente. Os corpos dos Boxer e Bull estavam cheios de balas. A matéria cerebral estava espalhada em todos os lugares. Foi uma cena sangrenta, horrível.


Pichação dos Acacia Blocc Crip dando créditos pelos assassinato de membros do CV70 Veteranos Boxer e Bull.

Tim e Bob lidaram com o caso e acabaram prendendo dois Acacia Blocc Crips. Sua única testemunha ocular era uma mulher esquisita que era uma viciada em heroína que conhecia os dois suspeitos do bairro. Ela revelou ser uma testemunha terrível. Ela estava drogada durante o julgamento e ficou incapaz de testemunhar e foi retirada antes de seu depoimento. Eles perderam o caso. Até o dia de hoje, o procurador do distrito, Phil Glaviano, ainda se diverte com Tim e Bob por trazer-lhe uma viciada em heroína como testemunha. Ele ainda se lembra dela, mas ele deve ser elogiado por tentar fazer o caso com ela como testemunha. Muitos outros advogados do distrito não teriam tentado.



A briga entre gangues latinas e negras continua até hoje, tendo se ramificado para muitas outras rivalidades de gangues em Compton além dos Seven O’s e dos Acacia Blocc Crips. Violência contra a violência, um ciclo aparentemente interminável.

Essa violência, estimulada pela Mexican Mafia, havia começado logo após os tumultos de L.A. As pessoas haviam se indignado de que cinquenta e quatro assassinatos ocorreram como resultado desses tumultos. Eles ficaram indignados com os assaltos contra cidadãos inocentes e sobre os mil edifícios e estruturas que foram roubados e queimados no chão. A indignação foi palpável. Foi uma indignação nata desse veredito. E mesmo que o caos tivesse acabado, os incêndios foram apagados, as empresas estavam tentando se recuperar e se reagrupar, e uma trégua de gangues aconteceu, as pessoas ainda queriam alguém responsável.

Entrando no F.B.I., que botou a bola para rolar para aliviar essa indignação pública e encontrar a responsabilidade, de alguma forma, de algum modo. Eles indiciaram os oficiais do L.A.P.D. envolvidos com o espancamento de Rodney King. A maioria dos policiais sentiram que isso era um duplo risco — tentando culpar alguém para um crime pelo qual eles já haviam sido julgados e absolvidos —, tudo porque o veredito no julgamento anterior tinha sido tão devastadoramente impopular.

Enquanto isso estava acontecendo, os líderes da chamada trégua entre Crips e Pirus estavam fazendo aparições na televisão exigindo que empregos e dinheiro fossem filtrados para a causa deles.

Uma força-tarefa do L.A.S.D., L.A.P.D., Long Beach P.D., Inglewood P.D., Compton P.D., e F.B.I. — juntamente com o Ministério Público do Distrito e o Ofício do Procurador do Estado — foi formada para investigar crimes relacionados às manifestações. Tim foi enviado como representante do Compton P.D. Esta era a sua primeira força-tarefa, e ele sabia que isso era muito de “se apresse e espere”.

Tim dividiu seu tempo entre seu trabalho regular de investigar tiroteios em curso e assassinatos em Compton e realizar investigações para a força-tarefa. Milhares de horas de vídeo foram revisados. Centenas de membros de gangues e outros foram identificados em numerosos crimes. Foram feitas muitas prisões. Um bom número desses presos apareceu na frente de um juiz de Long Beach, que decidiu dar a todos a liberdade condicional.

Isso afetou bastante a força-tarefa.

O F.B.I. ficou por um tempo, no entanto, buscando uma investigação conjunta sobre um assassinato em Compton durante os tumultos de um empresário coreano. A unidade de gangues do Compton P.D. ajudou com o que podiam, mas na época eram muito limitadas porque a unidade consistia apenas em Tim e Bob. A trégua entre Crips e Pirus acabou e os tiroteios e assassinatos voltaram à ascensão mais uma vez.

Um dia, vários agentes do F.B.I. chegaram à força da unidade de gangues que desejava invadir uma área em Fruit Town. Eles queriam que Tim e Bob fossem com eles, mas os dois estavam focados na investigação de vários tiroteios de gangues, com mais tiroteios vindo no rádio. Uma das agentes do F.B.I. ficou impaciente e continuou interrompendo como Tim e Bob tentavam coordenar as respostas aos tiroteios em andamento. O telefone continuava tocando e eles continuavam respondendo, enquanto simultaneamente usavam os rádios. A agente impaciente queria que eles parassem para acompanhá-los dando cobertura. Os agentes do F.B.I. estavam todos armados, mas sentiram que precisavam de alguém para observar suas costas, mesmo que fosse a luz do dia.

“Não tenha medo”, disse Tim. “Você ficará bem. Nós iremos lhe dar um rádio.”

“Pode nos emprestar suas jaquetas de invasão?” a agente perguntou.

Ela quis dizer as jaquetas com o “Compton Police Department” nas costas. Ela estava preocupada com o fato de não ter respeito nas ruas por estar usando a jaqueta do F.B.I.

“Não”, Tim e Bob responderam.

“É a pessoa, não a jaqueta que comanda o respeito”, disse Bob.

A agente impaciente e os outros deixaram o escritório da unidade de gangue irritados.

Tim e Bob nunca mais os viram novamente.



Manancial: Once Upon A Time in Compton

1 comentário:

  1. Seu trampo é foda mano, pra quem gosta da cultura em geral, música, cidade, gangues, é bom demais. Um dos poucos blogs que faz isso atualmente. E porra, essa treta entre as gangues tem muita coisa por trás, deixou de ser uma simples treta de gangue e se tornou racial, entre a ATF e a CV70, o que é normal nesses últimos anos e tem outros casos bem mais intensos. A ATF no inicio da década passada ficou bem popular com os documentários e videos que eles participaram, um exemplo é aquele Compton Crips, você provavelmente já viu pelo Youtube. Eu tinha seu site salvo aqui e fui ver essa madrugada e lembrei o PORQUE EU SALVEI, já dei uma revirada, porque sou curioso mesmo, eu iria te chamar pra trocar uma ideia pelas redes sociais, mas não quis dar uma de weirdo e chegar do nada pagando de simpático, como eu disse, pra quem curte g funk, gangster rap, as cidades e etc, isso aqui é um prato cheio. Se quiser trocar uma ideia depois ou precisar de ideias nesse gênero...é bom demais saber que há outras pessoas que se interessam pelo assunto aqui no Brasil.
    Do ya thang, homie.

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