DESTAQUE

COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

‘Seguimos na Sombra’: a obra-prima que alavancou o Nectar Gang


Três anos se passaram [disponibilizada em 17 de Abril de 2015], mas de uma coisa você pode ter certeza: a cena do Hip-Hop do Rio (todo) nunca mais foi a mesma depois que essa mixtape saiu do forno da Café Crime, cuja foi a estréia da clique Nectar Gang em projetos. (Antes eram apenas singles, como “Inverno no KTT”, “Esquinas em Guerra”, “Pedra”, e a anthem “KGL”, que respectivamente deixaram suas cicatrizes.) Além de ter JXNV$ profetizando nos beats, produtores que marcaram presença foram Iky Castilho, Goribeatzz, El Lif, Neo Beats (apenas como co-produtor na faixa “Medusa”) e Sain.

JXNV$, que já era da Café Crime, puxou seus homies também, e juntos gravaram essas faixas imarcescíveis que contêm um conteúdo lírico absurdo, produções impecáveis, e vivências cariocas que só os mais dirty tiveram. Abaixo, uma revisão track-by-track.



Nectasalamaleico

Seja no que for, em qualquer que seja o ramo, tudo que você fizer sem praticar o que chamo de “lei do ineditismo” não terá chance de causar impacto positivo. Sua presença no meio da multidão não será notada, nem sua falta será sentida quando você morrer. Por isso, em “Nectasalamaleico”, a troop do Nectar carrega uma referência absurda à expressão árabe utilizada pelos muçulmanos como saudação. Ao pé da letra é “Salaam Aleikum” ou “As-Salamu Alaikum”, sendo que “salamaleico” é a versão brasileira desta saudação árabe, honrada por uma produção sinistra do JXNV$.


“Muitos são chamados, poucos são escolhidos.” — BK’


Traficando flow do bom e fortalecendo a freguesia com gíria e poesia, BK’ explode suas rimas analógicas com muita voracidade. Sem desperdiçar uma linha em todo o verso, por mais rápido que ele diga, a exploração da velocidade em proferir cada papo óbvio é surreal, visto que, se você não souber do que está falando, sua conclusão de merda causará seu fimNectasalamaleico, longe do leito de morte, perfeito (Como “Salaam Aleikum” quer dizer “que a paz esteja sobre vós”, aqui BK’ enfatiza que, enquanto ele estiver longe da morte mas em paz, perfeito.) Querendo a perfeição, ele encontra com a decepção, fazendo alusão à máxima de Cícero, “Nada é perfeito quando encontrado.” Ademais, enfatizando que nada vai abalar seu time, o refrão traz uma mesclagem sagaz do Funk carioca.

Sendo original e não réplica, o segundo verso por CHS deixa bem nítido o quanto seu flow é milenar, juntamente com sua técnica, fazendo jus às vinte e quatro linhas aqui bem compostas. Seu jogo de palavras não me deixa mentir: “Nectar não pára, nem se abala/ Nectar não pára nem se for à bala”.


Esquinas em Guerra

Bril, o moleque da rima rajada, mas que não fica de palhaçada, emerge deixando claro que, além do papo de visão que ele só dá uma vez, ele não é nenhum boyplay da Barra, tendo sua raiz no TTK (linguagem inversa criada pelos antigos pichadores do Catete, RJ). E como ele não vai dar bobeira de ficar devendo, para deixar ninguém de luto à sete palmos debaixo da terra, ele finaliza suas linhas no verso e marca presença no refrão abaixo.

O refrão (muito bem elaborado) enfatiza que em vários cantos parece que as esquinas estão realmente em guerra, como se fosse Crips e Bloods rivalizando por toda cidade de Compton nos anos 90, atacando por tiroteios drive-by. Logo, todos são alvo fáceis, e sua única obrigação é ser inteligente ou ágil para poder passar batido, para poder passar.

No segundo — e estupendo — verso, BK’ mantém sua sequência de boa atuação, cuspindo uma sequência de rimas com a fonética “ado” de deixar qualquer um perplexo pela colocação delas: “Anos atrás eu era enforcado, hoje invocado/ Sim, focado, das prisões tenho escapado/ Tô equipado, melhor ter cuidado/ Brincando com fio desencapado, seus tapados”. Ele também enfatiza que no Rio a fumaça indica o antigo traidor e não o novo Papa. (BK’ faz uma referência a cerimonia católica de escolha do novo papa: quando o clero toma a decisão, é vista uma fumaça branca em uma chaminé do Vaticano. No Rio a realidade é outra: a fumaça indica que um traidor está sendo queimado no microondas (preso entre pneus de carro e depois queimado).)

No melhor estilo CHS, cheio de wordplay, ele chega: “Essa é a terra onde bandidos perdem balas, playboy tomam balas/ Menor vende balas...” (Aqui ele se diverte com “bala” em três sentidos: 1) Refere-se às balas de arma que os bandidos disparam. 2) Playboy usando a droga sintética, a.k.a ecstasy. 3) Menor que precisa vender balas para conseguir dinero.


Osíris

Osíris, Hórus e Ísis (os três citados na música) eram Deuses egípcios. Nesse registro, particularmente, senti necessidade de enfatizar uma barra do CHS, onde ele usa uma metáfora interessante que vale a pena citar:


Osíris me espera do outro lado/
Hórus me cega, Ísis me trai


CHS sendo aguardado por Osíris “do outro lado” pode ser uma referência à ressurreição, porque Osíris também simboliza isso. Logo, CHS acredita em seu renascimento, como ele [Osíris] foi ressuscitado por Ísis; “Hórus me cega” é viável afirmar que, como ele [Hórus] é Deus dos céus e após perder um dos olhos (Sol e Lua (o ferido)) na batalha contra seu irmão Seth, ele usa seu poder de luminosidade contra CHS, que fica cego; e “Ísis me trai” vale ressaltar que, como ela é a Deusa do amor e também da natureza e casou-se com Hórus (aqui, CHS), é em alusão à uma mulher que traiu CHS.


Marginais

Sem ter dom de prever o futuro mas tendo para navegar em uma produção sombria erigida por Gori, BK’ transcende seu lado marginal em uma faixa cheia de socos na mente. E não porventura surge uma das linhas mais afáveis para refletir: “E nunca nos deram nada, só o crime na porta de casa/ E esse é o caminho mais fácil, ou vamos no mais difícil” Então... Como podemos ver, Abebe fala do descaso do governo, que caga e anda para o povo, e com isso, cabe a cada um fazer sua escolha: seguir pelo caminho do crime (mais fácil) ou buscar passar por essa adversidade, de cabeça erguida e vencer na vida (mais difícil). Por conseguinte, eis aqui uma outra linha que merece ênfase: “Como encontrar o Nirvana, então pergunte ao Cobain”. Aqui Bikila refere-se, de antemão, ao estado nirvana, relacionado à religião Budista, que é um estado de paz e tranquilidade alcançado através da sapiência; em seguida, à banda norte-americana Nirvana, que foi dissolvida após o suicídio de Kurt Cobain em Abril de 1994. Um comentário nessa referência no Genius chama atenção: “Kurt se matou. Logo, pode ter encontrado o tal ‘caminho’ [para a paz, tranquilidade]; como também esse ‘pergunte ao Cobain’ pode estar sendo irônico, já que o roqueiro não conseguiu encontrar a tal paz e tranquilidade em vida, e por isso se matou.”

Sem refrão, mas com CHS atacando com rimas finalizada em “ada”, “Minha santa mãe espera a carteira assinada/ Já minha esposa só quer que eu não caia em cilada/ Os cana insiste, aguarda só uma vacilada/ Mas minha raça já nasceu astuta e vacinada”, isso já basta. Ele matou aí.


“A escola é fraca e a boca é forte.” — CHS


Bril, o (agressivo) homem da faca foi descoberto e ouviu os canas se aproximando de sua residência (ou esconderijo): “... tão batendo na porta/ E se for os cana, sente o cheiro de estrume”. “... o cheiro de estrume” é uma referência à polícia. Ele se refere à polícia assim porque a PMRJ é uma das mais sujas (se não a mais) do país.


Nectatenu

Considero esse registro como um verdadeiro manancial de exuberância. Bril e BK’ trazem consigo um conteúdo lírico bastante irado. Os dois versos podem ser bem condecorados.

Acumulando rebeldia para escrever poema, Bril pega a responsa no primeiro verso, sabendo que a vida é difícil mas mesmo assim ele prefere continuar vivo. Dois pontos de seu verso chamaram mais a minha atenção: 1) “Metade da meta eu não viso/ Não vale nem o chão que piso”. Mais que justo! Se for para não visar a meta por inteiro, não lutar para atingi-la, não merece sua atenção, tampouco ter alguma [meta].  2) “Inimigo inofensivo é tipo cisto; cadê ele, cê tem visto?” Hahahaha... Nessa ele tira onda com quem se declara inimigo mas é tão inofensivo quanto um filhote de gato.
Ademais, ainda cabe mais uma: “Não preciso de consulta para me automedicar/ Não precisa de receita para vender meu néctar”. Bril faz referência à maconha, a qual ele usa constantemente e se tornou seu “néctar”.

No refrão eles referem-se ao próprio Nectar que, ontem não eram ninguém, não tinham nada e hoje estão melhores e tendo muita coisa que almejavam desde o início, como dinheiro, notoriedade, patrocínios, etc.

BK’ domina o segundo verso exaltando um fato que acontece na vida de muitos seres humanos: “Acelerado não engata a ré, e quando vê a curva conta com a fé e com as habilidades em dia”. Eis aqui uma referência sobre uma das coisas que mais fazemos: ação por impulso, sem pensar, tendo que contar com a fé para poder não ver tudo ir por água à baixo (ao invés de contar com a “habilidades”, porque elas nem sempre vão prevalecer).
Outra linhas pedindo enaltecimento: “Eu lembro de um dia que eu descia a ladeira/ Giroflex ligado, freio acionado, a porta do carona aberta/ AR apontado, meu rosto suado”. Com o “giroflex ligado” e “a porta do carona aberta”, indica que está ocorrendo uma blitz policial, muitas vezes para arrancar dinheiro de quem já não tem e/ou incriminar alguém. (Eles querem é foder o pobre, de qualquer jeito.)


Na madrugada quem manda é eles, tudo deles/
“Tá vindo de onde? Tá indo pra onde? Tá com o que no bolso?
Na mente tu anda com quem?”
Se eu respondo eu era preso no ato


Fechando mais uma, BKristo com seu rosto suado foi interrogado pelos policiais enquanto descia a ladeira, e se ele respondesse realmente tudo com veracidade, dali ele só sairia para a Rua Pedro Américo, diretamente para a 9ª DP (delegacia do TTK).


KGL

Um dos maiores hinos do hip-hop carioca atual, essa faixa carrega uma vivência única, um conteúdo ímpar, uma produção impecável do JXNV$, e mostra um pouco da realidade que os caras do Nectar Gang e Bloco 7 viveram/vivem entre Katete-Glória-Lapa.

Se prepara que esse é só o começo”, disse CHS — e ele tinha razão. Porque hoje o Nectar está mais notório, junto com seu selo Pirâmide Perdida. Seu flow aqui é um dos melhores (se não o melhor) em toda a mixtape. Seu estilo reina. Diferente de quem só fala, ele age. Para não ficar para trás, como um bom vivido, poupa seu fôlego e corre só o necessário. Matando um leão por dia, vai se superando, avançando na vida, e agindo de acordo com o momento pede (nunca demonstrando tudo que sabe).

BK’ honra firme sua área. Lotado de referências, vale ressaltar algumas, como: 1) “Tudo que e novo sempre vai assustar”. Plaw! Um aforismo de arrepiar. Aqui ele enfatiza que o Nectar Gang, dropando sua primeira mixtape, vai assustar — e assustou. As consequências (boas) chegaram e proporcionaram a eles bons frutos. Eles vieram para ficar. 2) “E tu percebe que nada é tão precioso que aconteça só uma vez” Ele deixa claro que por mais que tenhamos muita coisa boa já, principalmente no mundo da música, nada é tão bom que não possa ser superado ou feito novamente causando um grande impacto. 3) “Desapareça ou trate de se adaptar”. Eis aqui uma referência à teoria de Darwin, que se você conseguir se adaptar ambiente em que vive, ótimo, se não, desapareça e não atrase quem consegue. 4) “... jogando vacilão no precipício... Leônidas, Esparta/ pista tá salgada, hipertenso infarta”. A primeira linha refere-se ao filme 300, onde Leônidas empurra um inimigo no poço. A outra, “pista tá salgada” significa que está complicada, com muita coisa acontecendo e, se está salgada, significa que quem é hipertenso não pode comer sal senão a pressão sobe e aí fodeu. 5) “Sempre criando, jamais criado”. Perfeito! Ele nunca se permite parar de prosperar e inovar, está sempre inventando, sendo ele mesmo, ao invés de se adaptar ao monocórdico e se dar por vencido.

Bril, chegando sem deixar falha e honrando seu bonde de pirata, dono do ouro e da prata, se envolve no beat do JXNV$ Profeta e mostra sua desenvoltura com rimas criminosas. Com a mente capacitada ele só fecha com alma penada, só com gente sinistra. Aproveitando a oportunidade, ele avisa: está aberta a temporada de caça aos fala-fraca. Então se você manda papo torto ou vacilão que não tem firmeza na palavra, cuidado.


Intervenção

Baseada no reality show americano Intervention, aqui Bril mata a responsa no peito e sem deixá-la cair finaliza com um golaço.

Bril, dialogando com o usuário de coca, desacredita que ele parou. E em “cemitério de almas sombrias” ele está cansado de ver balas perdidas, porque sempre tem alguém sendo vítima disso por aqui. “Maluco usando sete mil por dia” (referente a um episódio onde um usuário gastava $7 mil por dia em drogas. “Causando desespero na cidade maravilha, sorria!” Rio tem a imagem de cidade maravilhosa mas disso não tem nada. A realidade é completamente diferente.

No refrão, uma alusão real: “Tipo o Marcel e o Sebastian”. Ele quer dizer que esses dois eram estrelas do futebol mas foram atraídos para o mundo das drogas, e logo deixaram de ver suas estrelas brilharem.

Finalizando, “Comédia fodido sempre morre degolado/ Não dou dois papo”. Primeiro Bril diz que vacilão morre degolado, e na segunda ele deixa claro que seu papo é reto e certo.


Rio da Ilusão

BKrack não poupa palavras para descrever o (real) Rio de Janeiro. Enquanto muitos se iludem achando que Rio é feito de praias e belas paisagens, ele lança: “De volta às ruas, vendo lindas minas num eterno desfile”. Fácil: ele descreve as ruas do Rio de Janeiro, com lindas mulheres cintilando as ruas da cidade, como se fosse um desfile, cada uma chamando atenção do seu jeito. “Geral na correria do Paco e não é o Lambertini”, que significa correr em busca de dinheiro, enquanto a referência ao Paco Lambertini é uma alusão ao personagem do Reynaldo Gianecchini na novela Da Cor do Pecado, exibida na Rede Globo em 2004. Por conseguinte, uma pergunta bem tradicional: “Quantas drogas importadas chegam na cidade?”. O Rio de Janeiro é, indubitavelmente, um dos maiores portais de entrada de drogas e armas do país. O armamento dos bandidos do Rio, por exemplo, é tão cabuloso que nem tais forças armadas nunca usaram. Ademais, “Quanto mais pacificam, o crime recruta mais” é referente às UPPs, que não melhorou em absolutamente nada à favor do povo carioca... Foi apenas mais uma maneira de o governo gastar dinheiro com futilidade.

Ressaltando uma linha do refrão que é, de certa forma impactante: “O menor se autodestruir ainda é um remédio pro tédio”. Graças ao desleixo da política brasileira em relação ao povo, o que mais vemos pelas ruas (principalmente do Rio) é menor usando drogas, como cola de sapato. Não é incomum presenciar isto.

No segundo verso, é cabível destacar as últimas bars: “E a mina para trair o vilão usou o golpe mais baixo/ Puro conforto e droga pura é o que ela sempre quis/ E a puta é cara, só veste Prada para dar feliz”. Nesse caso, o golpe mais baixo da mulher é o corpo, a sedução, o poder de persuadir o homem. É intrínseco. É do sexo [feminino]. E ela, só para ter drogas e conforto, aceita roupas/acessórios da Prada para se tornar “cara” e transar feliz.


Medusa

A clique Nectar Gang piou em peso nessa, trazendo o DJ Qualy do Haikaiss. Uma faixa com algumas linhas bem únicas para serem analisadas e um refrão que gruda na mente.

Bril, assumindo tudo que fez, pega o primeiro verso para ele. De papo reto em papo reto ele vem avançando: “Na terra que eu não presto, nunca vi ninguém ficar rico sendo honesto”. Ele é julgado pela vida que leva, tendo pessoas difamando-o por ser quem é. Logo, no planeta que vive, nunca viu ninguém ficar rico sendo honesto, o que pode ser também, óbvio, uma direta para os políticos. Em “Nosso povo no veneno” ele diz que o povo brasileiro só sofre nas mãos dos políticos safados que ao invés de investir em educação e mais emprego, enchem os bolsos e deixam o povo na merda, tendo que se virar para conseguir sobreviver no dia a dia. Na linha “Não acredito na palavra do pastor. Se o mendigo me falasse, eu daria mais valor” sua indignação com os pastores é grande. De tanto presenciar mentiras dos mesmos, ele prefere acreditar no que um mendigo lhe falaria, pois teria mais valor e utilidade.

O refrão, cantado por Qualy, ele deixa claro que não quer ser a próxima vítima a ser chamada pela morte, por isso não deseja que sua mulher fique sem sua presença e se torne viúva.

Pronto para pular as portas do paraíso se Deus não abrir para ele passar (mesmo sem ter pago o dízimo aqui em vida) — e por favor, não entenda isso como afronta —, BK’ emerge com algumas linhas pedindo destaque: “ParaFAL canta, ainda mais de madrugada, por causa de la plata”. ParaFAL é uma das armas mais usadas nas favelas cariocas, sendo assim disparado em demasia de madrugada por causa do dinheiro, para manter a posse daquele território. “Dizem que eu sou solitário por não acreditar no amor (perfeito); mas o dinheiro eu sei que volta quando vai. Muitas vezes demora, mas eu tenho minhas manobras”. Nada tão enigmático assim. Ser solitário por não acreditar no amor é possível ter dois sentidos: 1) Consequência da própria escolha, como se fosse um castigo da vida. 2) [Perfeito] pode ser uma concordância com quem está lhe dizendo que ele é solitário.

CHS brota em seu verso querendo saber quem foi que disse que a vida é fácil, porque até agora ele sua para conquistar seu lugar na vida. E ainda diz mais: “Nem vem com essa: ‘Deus lhe pague, Deus te salve’/ O que me guarda é minha dispo... Espero que nunca me falte”. Se ele não tiver disposição, coitado, vai morrer esperando Deus ajudá-lo, porque do céu não cairá dinheiro. O que o mantém salvo é sua disposição. E na “Se ainda é olho por olho, ninguém destrona Medusa”. Medusa é uma criatura da mitologia grega, que só com o olhar é capaz de acabar com você. Logo, a referência aqui faz jus à dois sentidos: 1) Ao ditado “Olho por olho, dente por dente”. 2) Sua invencibilidade seria inabalável se alguém ousasse olhar diretamente para os olhos dela.

Qualy, para encerrar a faixa abarrotado de uma referência interessante que pode ser referida a um caso que ocorreu no Rio de Janeiro, brota: “Três da madruga, eu e o breu/ Vichi, não voltou para casa/ Aí, ô seu policial, o quê que aconteceu?/ O cara era aliado, o pai está preocupado/ Filho único que entra na viatura algemado/ E lá se vai mais um, julgado em qual lei? Testado em qual fé?” Pode, sem sombra de dúvidas, ser uma alusão ao que ocorreu com o pedreiro Amarildo, filmado entrando numa viatura da polícia — e pela última vez.


Pedra

Uma das produções mais fabulosas do JXNV$, aqui traz o reinado do Boom bap. Lembra Easy Mo Bee, DJ Premier, sei lá. Ou o próprio El Lif também, que tem uma noção ímpar para esse tipo de produção. Irrefutavelmente deu uma sonoridade completamente deleitosa para os três MCs do Tarnec botar para foder.

BK’, dando sentido ao BPM (honrando as Batidas Por Minuto que ele emerge sobre), junto de seus manos, não faz sentido ao ver PM (Polícia Militar). Portanto, meu caro, volte para o seu BPM (Batalhão da Polícia Militar). Logo, “não existe uma família feliz, com pais Nardoni, filhos Richthofen — acredite em mim”. Isto é, [Alexandre Nardoni e a madrasta Anna Jatobá] jogaram a menina Isabella Nardoni (de 5 anos de idade) do 6º andar do prédio que moravam. E “filhos Richthofen” é sobre o caso do casal Manfred e Marísia von Richthofen, assassinados pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, mortos à mando da própria filha, Suzane von Richthofen. “Sabendo que nada é fácil, na corrida até descalço” Como ele sabe que nada é fácil, se for preciso ele até corre descalço para alcançar seus objetivos, como fez Abebe Bikila numa maratona em Roma, em 10 de Setembro de 1960, percorrendo, descalço, 42.195 metros do percurso em 2h15.

Bril falando de pedra, papel e tesoura, refere-se à dois sentidos: 1) A famosa brincadeira. 2) Uma forma de falar da endolação do crack. A tesoura faz o papel de separar a droga (pedra), que por sua vez é embrulhada no papel. “Eu não escuto a palavra pregada” remonta o que ele diz em “Medusa”, não dando ouvidos ao que o pastor diz.

CHS, encerrando a obra-prima, lembra que “99, um ano que o passado não mais me devolve”, porque provavelmente algo muito bom aconteceu para ele, pois aqui ele relembra de 1999. Tal como: “Hoje a pedra amarela é a nova kriptonita”. Uma clara alusão à pedra de crack, que surgiu nos anos 80 arrastando uma multidão de viciados, visto que kriptonita pode ser também a pedra mineral capaz de enfraquecer o super-herói Superman, deixando-o vulnerável à ataques, e até a morte.


Lugares

Nostálgica. Essa faixa traz um ar de nostalgia absurdo. Digamos que estava faltando isso no projeto. Eis aqui mais um Boom bap emblemático a ser condecorado com prazer. Dá gosto contemplar esse registro por inteiro.

BK’ inicia pesado: “Eu não escolhi a morte nem a cadeia. Sou a mosca na sopa, não a mosca na teia”. Isto é, o crime não compensa para ele, por isso ele escolheu ser a mosca na sopa (incômodo) em vez de mosca na teia, porque assim ele seria preso e, de fato, devorado. No entanto, “o pão que o diabo amassou já não parece tão ruim de mastigar”, deixando claro a expressão popular [comer o pão que o diabo amassou] e passando pelas dificuldades para absorver o melhor para si.

Bril, o cachorro gordo que não dá a pata, após um refrão cheio de saudade, chega no segundo verso para enriquecer a nostalgia da faixa com algumas frases de impacto: “A solidão eterniza nossos tragos (...) Desilusão causa mais estragos”. 1) Pode ser uma referência aos tragos de cigarro que a solidão o faz realizar com excesso nesses momentos [de solidão]. 2) Provavelmente, ele alude ao ato de se iludir pensando que algo é bom mas depois descobre que não era nada daquilo.


Último Suspiro

BK’ e Bril pediram permissão a CHS para representarem sozinhos nessa faixa, e ele concedeu. Os dois sentiram uma necessidade maior de abordar suas líricas afiadas e profundas aqui. Um tema que tornou o registro deslumbrante, com idéias quentes, no entanto.

Pou-pou, som de tiros lá fora. Vou na rua, vejo um corpo no chão... Adivinha qual a cor? É, mais um soldado vai embora”, diz BK’, indignado (ou não). A criminalidade sempre bateu em sua porta. Ademais, não é difícil ver negros sendo mortos. Infelizmente, são os que mais morrem todos os dias no país e sofrem profundamente com racismo. O ser humano ainda não conseguiu compreender que ninguém é diferente de ninguém. O ser humano ainda não encontrou a lógica de que ninguém é melhor que ninguém, independente da cor. Por isso, “Quem tentar, obterá. Quem tentar e não conseguir, obliterá. Quem quer aparecer, tome cuidado, no futuro pode estar em cartaz: Desaparecido ou procurado”. Aquele que mais persiste, mais tem chance de conseguir êxito; aquele que não conseguir, vai usar sua raiva para destruir; e aquele que quer ser notório, é melhor ter cuidado, porque... você já sabe né? E tem mais subjetividade por aqui: “Minhas feras soltas, minha selva... onde matamos um Rei por dia, todo dia”. Ele enfatiza sua superação todos os dias, lutando contra problemas grandes, tendo que saber lidar para se sobressair e continuar vivo na luta.

Bril não hesita em passar seu papo: “Cobrança de X-9 no sistema é o terror: chute, madeirada, e soco e depois ainda vai para solitária. Desobediência só por fechar na mancada. Atuar, na vacilação, a cobrança é dada.” Por isso, não adianta pedir perdão. É isso e pronto. Cada escolha tem sua(s) consequência(s).


Hino

Voltando no melhor jeitão Tarnec Gnag, o trio BBC chegou para abalar. É a última faixa do projeto. É o hino. É o registro que precisa perdurar. Subsistir. Marcar mais que tatuagem. É claro que eles querem a vitória, esse é o Nectar!

Bril, com apetite atrás das onças, chega no setor e cumprimenta só os mais responsas. Educação é o caralho. Vacilão não merece nem aperto de mão. Nada. Contato nenhum. Para piorar, está sem argumento querendo criar discórdia, sem embasamento no papo torto que está querendo passar. Passando por cima de falsidade e intrigas e após viver entre subidas e descidas, entradas e saídas, o fruto do jogo vem no decorrer da vida, não adianta ter pressa e querer para ontem. Tudo vem no tempo certo. Portanto, lembre-se: também vai te causar ferida.

BK’: “Já disseram que Deus dará, pensei em parar para esperar”. Cansado de esperar, fez com suas próprias mãos. Fez bem. Assim ele pôde bater no peito para dizer que fez seu próprio negócio fluir. “Minha mente diz para eu disparar, e a mina diz para eu ir devagar/ Mas sempre fui de vagar por aí”. Sua mente diz para ele disparar e a mina diz para ir devagar. Logo, é MUITO, MUITO, MUITO interessante a entonação do devagar com o de vagar. Vede: “ir devagar” à pedido da mina pode significar sua ação de tentar conquistá-la, como também durante o sexo, enquanto “de vagar por aí” traz o ato de vagar pelas ruas, sem ter o que fazer, sem rumo, sem destinatário. Como se não bastasse, “Guardo para mim meus problemas” é um feito que merece enfatização porque, diferente de muitas pessoas que por estarem cheias de problemas descontam sua raiva em cima dos outros, ou ficam o tempo todo reclamando, ou até mesmo desabafando com quem não tem nada a ver com sua vida. E se a vida é uma escola, ele vai dar seu jeito para conseguir suas “notas tipo A, B ou K”. Aprendendo com a vida (escola), Bikila visa conseguir as notas fazendo uma alusão também ao dinheiro, enquanto A, B ou K é uma referência às notas colegiais nos EUA, que vai de A a F, mas ele substitui pelo K para dar ênfase ao seu alias (apelido).

CHS, o filósofo: “(1) Eu só sei que deve ser difícil de olhar sem ter a capacidade de poder enxergar; (2) que a ordem dos fatores não altera o produto, mas sei que ordem para infratores vai alterar o discurso”. 1) Olhar nunca é a mesma coisa que enxergar. “Ué, como assim?” você pode estar se perguntando. OK. Digamos que olhar é passar os olhos, e enxergar é realmente abri-los para focar, honrar o poder de enxergar, analisar. É profundidade, não superficialidade. Muitas vezes é preciso enxergar (com profundidade) ao invés de só olhar (com superficialidade). 2) Aqui ele usa essa frase para dar um certo contraste com outra situação: O famoso caso de “dois pesos e duas medidas”, o MC relata que dependendo de classe social, raça e/ou outros aspectos, a ordem e o discurso, ou seja, a rigidez da lei para com o infrator pode mudar. Sendo assim, alguém que tenha algum status e/ou poder pode ter sua culpa extirpada com mais facilidade.





Manancial: RiDuLe Killah; Genius

Sem comentários