DESTAQUE

COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

Se você nunca visitou ‘Sin City’, essa é a hora


Ao contrário do Cartel de Medellín de Pablo Escobar, esse Cartel vende, desde 2006-07, músicas capazes de mexer com a mente de muita gente. Essa é a droga deles. E nós, viciados, nos entorpecemos profundamente dessa droga graças a grandiosidade que eles proporcionam desde quando muita gente que é fã de rep/hip-hop hoje em dia ou estava nascendo ou ainda estava no saco do pai, misturado com outros espermatozoides e apostando corrida para ver quem seria cuspido primeiro.

Este é o terceiro disco da clique Cartel MCs, disponibilizado em 2014. Sin City. Capital do pecado. Seguindo a linha de alusão à filmes. Nada diferente do anterior, baseado no épico Pulp Fiction (1994) de Quentin Tarantino. E nada diferente do mais recente, Bastardos Inglórios (2017). Com muita minuciosidade, tem produtores cintilantes, com um talento ímpar, onde cada um expôs sua obra como se fosse o último projeto que eles iriam produzir: Além do DJ Erik Skratch honrando seu alias — você sabe do que estou falando —, brotaram Poik Lounge, Marcão Baixada, Daniel Sydens, Mr Break, GoriBeatzz, VERACE, NeoBeats, WC Beats, Mãolee, Boca dos Beats, e Kolombiano. E representando no mic, pecadores como Marcelo D2, De Leve, Sain, Hélio Bentes, Shaw, Haikaiss, Gordo, Marya Bravo e Liink deixaram sua imarcescível contribuição. E eu, ressaltando apenas algumas faixas, lhe digo: Bitch, welcome to Sin City!



St. Amaro


Antecedendo a faixa-título, “St. Amaro” é o que eu chamo de “faixa-vivência”, onde cada um expõe aqui um pouco da sua experiência; é onde Darryu, Funkero, Ber e Delarhyme caem dentro cuspindo linhas perigosas e repletas de sapiência, com flows tenebrosos, líricas de arrepiar, deixando o ouvinte passando mal. Uns até soltam palavras lembrando a era da pichação no Rio, que falar ao contrário para confundir a mente dos outros era imperioso.

Darryu deixa claro que não está na pista à toa e nem joga para perder, mas para ver as damas se envolvendo, é óbvio que ele está na pista. Além do mais, VeaGá, JB, estão juntos na função, vivendo o cotidiano violento, que na mira dos canas são inconfundíveis, sempre parado pelos próprios, enquanto bacana passa batido e reclama da vida... Tem que passar mal mesmo. Não sabe de nada, filho. Entretanto, nas favelas existem sonhos perdidos entre as vielas, enquanto você reclama de barriga cheia. Vamos acordar!

Funkero foi criado pelas vielas do Jardim Catarina, São Gonçalo, rua de chão. Ele lembra bem: “Eu ficava treinando mira com oitão, não confiava em ninguém.” Ele cospe seu verso com uma voracidade sinistra, deixando claro um pouco do que passou. Sua corda vocal sinistra. Seu flow no 220v. Entre os traficantes que ele se misturava na época, só ele tinha noção de um ensino elevado. Apesar de ter se misturado com gente da pesada, foi iluminado ainda dentro do tempo estabelecido pela vida e conseguiu enfiar a cara nos livros de literatura — e por isso ele é hoje, irrefutavelmente, um dos MCs mais fantásticos da cena nacional. Sua criatividade prevaleceu. Através de suas rimas, tendo um conteúdo lírico que faz a cara do Cartel, chegou usando sua sapiência sobre filmes e muito mais para os fãs. Armado pelas esquinas, de olho na [Chevrolet] Veraneio, ele tinha consciência de que o crime cobra seu preço, e ele é alto demais. Ele presenciou vários crias morrerem jovem.

Das esquinas da Real Grandeza, Botafogo, Ber honra seu estilo underground, usando e abusando de sua voz cabulosa para explorar um flow de mestre em suas 30 linhas aqui cuspidas. Ele traz suas lembranças, sua linguagem de pichador (“97 era o Xarpi, Zona Sul ‘rrobi nofi’), e muita saudade de curtir baile Funk na Pereira e no Chapéu, onde naquela época tinha Funk bom e dava para curtir firme. “Quando a vida te agride é que então você se entende”, continua Ber: “Uma hora o meu mundo ia ruir, mas o rep interveio e ali no meio eu não caí. Evoluí como homem e MC — e não faço cerimônia.” Isto é, ser MC não quer dizer que ele vai fazer cerimônia só para agradar os outros. Não faz sentido confundir as coisas. E pega a visão: Se tu sabe o mal do mundo, vê se não passa vergonha.

Delarhyme nunca teve o reconhecimento pelo país como merece. Sua vivência aqui exposta deixa claro o quanto ele mistura os idiomas e em nenhum momento se perde. Deixa claro, através de rimas incríveis, idéias intrínsecas. Um verso introspectivo. Recheado de palavras em cêsfran.
Sua experiência poliglota é surreal. (Se não me engano, ele sabe falar em inglês, espanhol e francês.) E aqui nessa faixa impecavelmente produzida pelo Sydens, ele (também) inverte a linguagem (rraBa; cagiBél; rroca; ssãomi; çaFran; doLi; e cofitrá) como um malandro das ruas que em 2003 caiu lá para çaFran, passou um tempo e disse para seu amigo descansar em paz (“Repose en paix, Billy”). Como já estava por ali, não muito distante ele foi na Bélgica, referenciando a rua [Chaussée de] Boitsfort, no bairro de Ixelles. Cartel é tarja preta, e [mesmo não sendo Zagalo] vocês vão ter que engolir.


Sin City


Frank Miller podia ser carioca, mas temos Funkero como sucedâneo. Com apenas 13 linhas ele chega com tudo nesse Trap sombrio como as ruas do RJ (que lembram Sin City)... é igual filme: choca. É a cidade dos bicheiros, dos sambistas, da coca[ína]. Se você for na Lapa, Madureira, é melhor ficar ligeiro, porque se marcar toma rasteira. Tem viciado em crack (armado). Bagulho é sinistro. O ritmo é frenético. Bandida pela rua, polícia roubando; tudo junto e misturado... todos se odiando. Tem guerra de torcida, guerra de comando... Rio sendo Rio.

Pois é, bitch... bem-vinda a cidade do pecado!

Darryu surge com sangue no olhar, cheio de ódio no olhar. Com um verso curto mas direto, ele não é menos importante, muito pelo contrário. Primeiro que ele está pronto para entrar de sola na sua cara já com a intenção de se vingar, e segundo que ele é iluminado pelos seres de luz e está fumando ervas enquanto porta quilates de ouro.

Ber, passando por esquinas cheias de rato, tem sanidade de sobra para odiar gente chique e não usar sapato (clara referência à música [“Não Uso Sapato”] do Charlie Brown Jr.). Sua veracidade em seu verso não deixa falha. Não obstante, “pecados capitais, luxúria, carnavais; todos querendo mais, todos sendo rivais. Dinheiro aqui faz o mundo girar. Sexo free faz os loucos pirar. Droga daqui, bebida de lá” é resultado da sua experiência. Nada que ele leu pôde ajudá-lo, tudo que viu era para derrubá-lo, e ainda tinha várias nasmi para julgá-lo. Não é fácil viver na cidade do pecado.

Delarima — de “De La Rima” em espanhol e “Da Rima” em português —, vivendo no Rio de Janeiro, Sin City fez tão bem à sua criatividade que as mulheres na cidade do pecado, assassinas de Old Town assistem-no distribuindo punchline, soco reto e knock down nos haters que enchem a porra do saco. Provavelmente, eles não sabem que respeito é bom, mantém o coração batendo.

Bem-vindo a selva! Você está visitando a cidade do pecado. Portanto, agora é a...


Hora do Troco


Eu, RiDuLe Killah, tive o prazer de performar essa música junto com o Cartel MCs uma vez em um show aqui no Rio de Janeiro. Ber me convidou para subir no palco e eu adentrei na música toda, mas a ênfase foi para a parte do D2, que não compareceu. Nem se um dia eu sofrer de Alzheimer vou esquecer esse dia memorável.

Digamos que nesse registro eles [Ber, Delarima, D2 e Funkero] estão desabafando contra a PM assim como o N.W.A fez na icônica “Fuck tha Police”, resultando no FBI enviando uma carta a eles, em que disse que o grupo não poderia se apresentar em tais locais, tampouco performar a música nos shows.

Ber não poupa papo reto e domina o primeiro verso nos peitos, trazendo a pura realidade para a música: “Cidade do pecado, cidade maravilha (...) Playboy endinheirado traficante de pastilha/ Os vermes, ouriçados já formaram sua quadrilha/ Propina, no alto da colina/ Pagou aquele imposto, passou a cocaína/ UPP é só um posto, o estado quem assina.” Isto é, assim como o Rio é aludido ao filme, é também uma cidade maravilhosa, deslumbrante, mas com uma realidade que ofusca essa “maravilha” toda. O playboy endinheirado trafica LSD; a polícia forma sua quadrilha para subir o morro para pegar o dinheiro com os traficantes, permitindo-os de continuarem traficando. Ademais, UPP foi uma das maiores artimanhas desse governo sujo do Rio, que gastou uma boa grana investindo nisso, que não resultou em nada positivo para o povo carioca.

Por isso, Darryu fez um refrão deixando bem claro o que ele sente pela PM: “Só os loucos que se entendem e diz ‘Foda-se a PM’.”

Delarima assume a responsa no segundo verso, iniciando com extrema veracidade: “Todo polícia covarde que vão se foder/ Os sangue-bom que se salvam, eu não vou desmerecer.” Ele deixa claro o seu apoio aos policiais que honram a farda e não se sujam; aquele que, por exemplo, recusou uma boa quantia de dinheiro do traficante Nem, da Rocinha.



“O proceder de um homem honrado não tem corporação.” — Delarima



D2 se manifesta no terceiro verso como se estivesse com o Planet Hemp, deixando clara sua indignação com a PM. Nota-se que sua voz cospe rhymes com raiva, fúria e sede de abordar este tema. “Praias, carrões, dinheiro é para os nobres”, lembra ele. “Miséria, porrada, cadeia… aí é para os pobres. Rapá, eu vim da parte onde os cana mata. As minas querem dinheiro. Dinheiro? Está difícil dentro desse formigueiro.” Infelizmente a realidade é essa e é aturar ou surtar. Uma coisa é fato: não vai mudar. Enquanto existir cavalo, São Jorge nunca vai andar à pé. A corrupção está nas veias desse tipo de gente. E para corroborar com mais veemência ainda, Funk vem aí.

“O Redentor é testemunha ocular da guerra nossa de cada dia”, continua Funk: “Balas perdidas cortam o céu da nova babel rumo ao crânio de alguém.” Suas linhas fazem todo sentido. O Cristo Redentor é o que vê tudo, está sempre acordado e ligado no caos do RJ. Ele vê passando no céu os traçantes das balas. (Sorte a dele que ainda não foi atingido por nenhum tiro.)


Srta. Sexo & Afins II


Ufa, chegou o momento de relaxar. É hora de senti-la roçando, toda lisinha, cheirosa e babada. É hora de gozar (nos dois sentidos). É hora de sair dessa realidade escrota. Em meio a tanto papo reto e corrupção, olho grande e desrespeito, finalmente chegou o momento de cuspir por outro lugar.

Não entendo por que ainda é tabu falar de sexo. Às vezes acho que o século é XXI só por nome, porque a realidade é outra. Parece até que as pessoas gozam pela unha. Parece que nascemos de repente, com um pedido de Deus. Ou os Extraterrestres nos jogaram aqui através de seus OVNIs? Hipócritas são nojentos!

Você sabia que o DJ sempre teve importância no Hip Hop? Porque atualmente eu não tenho visto nenhum DJing por aí. Tem gente que acha que DJ é só arrumar seus equipamentos e soltar a porra da música — mas NÃO! Mesmo que brevemente, alguns rabiscos que Erik faz aqui é um complemento que dá um êxtase no registro. Sua aparição aqui é formidável, ainda que perceptível somente por quem foca nos detalhes. Para muitos ele nem aparece na faixa [hahahaha].

Ber carrega sua experiência consigo em mais uma versão desse Hino Nacional do Sexo. No primeiro verso ele canta, mas é ela que se sente lisonjeada e o convida para o hotel. Ela é tão gostosa que tirou sua paz e ganhou até outra versão. E mesmo que os anos passem, ele segue querendo mais.

[Que saudade da arte sinistra desse cara no Cartel, puta que pariu!] Darryu realiza uma entrega única junto com Ber, no refrão. Seu estilo melódico representa de forma extraordinária. Sua voz de fundo dá uma sonoridade muito gostosa aqui. Se apreciada no fone, penso eu, dá para sentir mais profundamente. O beat envolve. O piano enriquece essa produção high-profile.

De colegial, enfermeira, diabinha, tanto faz... O corpo dela ainda tira a paz do Dela. Ele vai se envolvendo com ela de modo a deixá-la louca, ficando de lado, recebendo dedada e depois lambendo.
Com essa mademoiselle, sexe et connexes [senhorita sexo e afins em francês] numa suíte duplex, Jacuzzi e sauna a vapor, piscina, vista pro mar, ele só quer fazer amor até o tempo acabar, porque fazer sexo não é tão emocionante assim.

Funkero vem todo leve, provavelmente pós-orgasmo [hahaha]. Dá para sentir a leveza na lírica, no flow que ele dropa.
De antemão, uma aparente homenagem ao Daniel Shadow, ex-Cartel MCs que dropou essas linhas na versão anterior: “Sem limite na suíte Cartel/ Eu e minha Afrodite, bitch.” Se for isso mesmo, genial a intenção.
Charme puro, carrega a via láctea nos olhos/ Brigitte Bardot/ Perfume que o vento levou, hipnotizou.” Está vendo? O cara está hipnotizado com o perfume dela, fissurado pela sintonia que o sexo pode proporcionar. A conexão é primordial, e ele alude sua mulher com Brigite Bardot, uma icônica mulher que durante os anos 1950-60 era o maior símbolo sexual. Linda.
Como se não bastasse a referência anterior, ele a compara com Kate Moss, uma das modelos mais belas que o mundo já viu: “Nós a sós, nos lençóis, gata rebelde, Kate Moss.
Antes de vê-la gozar quinhentas vezes seguidas, ele lê o corpo da senhorita style com os dedos igual cego lê em braile. Ele manja daquele corpo. Sabe bem as curvas em que deve se acidentar.


Na Estrada


É aqui que muita coisa se desenvolve. É aqui que muita gente tira a máscara. É aqui o lugar onde é feita aquela composição de arrepiar. É aqui o lugar onde acontece vários fatos. É aqui que o Hélio Bentes se envolve com o Cartel MCs pela primeira vez, deixando sua voz eletrizante e uma energia irada em uma faixa com um conteúdo lírico para lá de Bagdá.

Ber, entre medos e delírios de uma mente insana, fuma charutos de Havana como Suge Knight e diz com cautela cada uma das vinte linhas. Um passo em falso nessa estrada já era. Por isso, seu flow suave reflete na mente do ouvinte de um jeito que ele possa se sentir atraído, tendo suas linhas cerebrais se embolando junto com a louca sanidade do Bernardo De Marsillac Romeiro Neto aqui neste registro encantador.
Com a fé nós pega a estrada, olho vivo nas blitada/ Minha guia azulada protege nosso bonde na jornada.” Com a fé eles pegam a estrada rumo aos shows, mas de olho nas possíveis blitz policiais, para que ela não os impeça de seguir sendo protegidos.

Com fé nos Orixás não passa nada, você está ciente disso? Espero que sim, porque a vida é (também) baseada em viagens surreais e delírios tão reais. Hélio não mentiria sem necessidade.



“Na verdade, só quem é fortalece a corrente” — Hélio Bentes



Logo, Funkero vem com sua bagagem pesada iniciando seu verso com uma (aparente) referência foda: “Infinita Highway, a vida é uma eterna viagem.” “Infinita Highway” pode ser referente à música de mesmo nome da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii.
Cada ponto, aeroporto, fica um pouco de mim/ Eu não me importo com o fim/ Quero a beleza no caminho, sabores do caminho.” Muito boa! 1) Cada lugar que ele vai, quando chega a hora de ir embora fica um pouco dele lá. De alguma forma ele é lembrado. 2) Ele não se importa com o fim da sua vida. Ele quer mesmo é viver, sem regras, sem limites, sem preocupações. 3) Seu desejo é explorar tudo que puder. Usufruir de tudo que puder.
Vivo a vida como Ronin, moderno samurai.” Ser “Ronin” consistia em viver peregrinando, ocupando-se de pequenos serviços em troca normalmente da refeição do dia e da prática das artes samurai.
Ronin em geral é um solitário. Na cultura Japonesa, crê-se que todo homem segue um destino, uma linha. Ronin por sua vez faz jus ao seu nome: Homem-Onda. Não tem sentido, nem destino.

E Mr. Hélio diz, para finalizar a viagem, uma máxima que despertou minha atenção: “Tive que ficar na paz para atingir, no meio da guerra, mais um dos meus ideais.”


Tattoos, Modelos, Pitbulls


Essa é mais uma daquelas faixas onde o Erik rouba a cena com seus scratches.

Ber, com sua voz tenebrosa, chama a responsa e antecede o refrão, para em seguida dominar o primeiro verso, muito bolado por sinal. Apesar de linhas curtas, usa um flow envolvente com um conteúdo afável e com aquelas referências que você já sabe que ele adora.
Já na primeira linha ele cospe (“Alquimia, a bela e a fera/ Supremacia Bourne, encontro a sintonia dela enquanto o mundo dorme”) com a intenção de fazer o ouvinte dar um Google e procurar a melhor interpretação. Aqui ele executa duas referências: 1) Digamos que ele se refere à icônica Bela e a Fera no sentido de encontrar a sintonia dela para que seu lado Fera se sinta confortável ao lado dela. 2) Ao filme Supremacia Bourne (2004).
Tatuando os espaços vazios, ele solta: “Minha família é tipo Yakuza: Tatuada além das blusas.” Ou seja, ele ama tatuagem, e enquanto tiver espaço no corpo, vai adir uma tattoo ali. Por conseguinte, alude à Yakuza, cujo membro é, geralmente, todo tatuado.
E como um obsessivo fã de Pitbull, ele dropa: “Soltaram os Pitbulls e eles pulam além do céu.” Fuja!

Funkero chega somando no segundo verso (também) com uma referência irada e aquela magia em seu flow, fazendo jus à sua chegada ao Cartel. Foi impecável a sua vinda a esse grupo fantástico. Não desperdiçou uma linha sequer.
Sente o cheiro de Napalm no ar/ Apocalipse agora RJ...Primeiro, Napalm foi uma arma muito utilizada na Guerra do Vietnã. Segundo, uma baita referência ao filme de 1979 Apocalipse Now, onde Funk alude à fala do Bill Kilgore: “... Adoro o cheiro de napalm de manhã...”
Com olhos pequenininhos por causa da erva e passando na perimetral (quando existia) com o som acima do normal, seu carro enfumaçado é mais que trivial, tendo sempre consigo: rep, sexo, drogas. (“carro enfumaçado” também lembra uma cena do filme Dois Doidões em Harvard.)
Isso é Cartel, Medellín...” Só que o Funkero esqueceu de avisar, gente, que essa droga feita aqui não é perniciosa como a poderosa coca. Ele até alude à El Patrón, mas de modo fugaz, porque aqui no Brasil quem manda é o Cartel da música [hahaha].
Um milhão de modelete na fila do toilette/ Um entra e sai/ Do nada todas ficam resfriadas.” Clara referência às mulheres na fila do banheiro para usar cocaína. Logo, saem parecendo estar resfriadas pelo efeito que ela causa no nariz.

Delarima, straight outta Zona Sul e old school, está no Tivoli Park (um parque de diversões da Lagoa, RJ) e chega sabendo que as minas rendem ao Label Blue (referente ao uísque Blue Lable).
Ele tem ciência de que o Cartel entrou na matrix. Logo, esquivando das balas que nem Keanu Reeves, referenciando de montão ao filme Matrix.


Beijo da Morte


Sabendo que a realidade nunca foi para homem fraco, Erik expõe isso aqui graças ao seu talento com os scratches. Ele dá aula, assim como Mãolee nesse Boom bap de arrepiar os cabelos das pernas (quem tem. Quem não tem, só lamento). Então, tome muito cuidado, pois Marya Bravo e Darryu vem aí para fazer desse refrão uma obra-prima grandiosíssima.



“Rebeldia é vida, submissão é morte.” — Funkero



Ber chega nervoso. Com seu som da rua e tendo a aprovação dos Orixás e da Lua, a saga continua. Ele assume o controle nesse registro maravilhoso e abre o portal do Cartel carioca, trazendo consigo linhas sinistras (“Tipo mestre Maçom, e da Kabala”) que o tornam um MC interessante. Sua suavidade através de rimas permitem que o ouvinte vá se entregando, assim como ele faz cuspindo em seu fabuloso verso, onde não existe verdade absoluta.

Darryu e Marya Bravo performam parecendo que foram feitos um para o outro, que trabalham juntos há anos, que têm uma sintonia absurda. Os dois nesse refrão foi a junção de duas vozes repletas de luz, seres iluminados capazes de proporcionar ao mundo essa incomensurável lírica, flow e linhas memoráveis.

Enquanto o beijo dela não vem, Funkero corre a 100 por hora, porque a hora é agora. Chegou o grande momento. Brigando para ser eterno, caneta sangra no caderno, fazendo de tudo para tornar suas linhas imarcescíveis — e ele já conseguiu.
Só uma coisa na nossa vida é certa. Sei que não quero encontrar, ela encostada em algum lugar; pronta pra me seduzir, me enganar, me levar.” Irada essa referência à morte. Assim como ele, ninguém quer ter esse encontro, mesmo que cada minuto aparenta ser único e último.
Pique Kurt Cobain, ele incorpora [filme] Mad Max e sai acelerando pela terra de ninguém, passando a responsa para...

Delarima chega viajando no beat, apaixonado pela maneira como ela vem maquiada, sedutora, atraente e viciante. Porque, na verdade, ela é manipuladora e só quer ser sua amante. Ademais, ela se amarra num junkie (viciado em drogas). Então, não porventura, ela se prende ao Delarhyme, que vive na madrugada, numa euforia de instante e é nesse momento que o tempo passa rapidamente, principalmente aqui na Sin City, recebendo referência até de Atlantic City, Nova Jersey, EUA. E para finalizar, Dela usa seu lado introspectivo para deixar bem claro uma coisa: “Eu vou vivendo a vida e da morte sempre esquivo.”


Onda Máxima


Acredito que é impossível não exaltar o Sydens por essa produção. Erik nos rabiscos. Os versos aqui cuspidos. Cara, mesmo se ninguém dissesse porra nenhuma sobre esse beat a onda ia ser máxima, porque de cara você já surta. A vibe da batida entra na sua mente fodendo com o seu psicológico, abalando da melhor forma e deixando o ouvinte persuadido pela ambientação que a faixa proporciona. É impossível não ressaltar a grandeza que a produção expressa. Muito provavelmente, Sydens estava no tema dessa música quando tirou essa do baú. Indubitável. Irrefutável. Inconfundível. Icônico.

Delarhyme passa a visão no primeiro verso, dopando seus ouvintes com barras de muita, muita, muita referência e flow de contagiar geral. Espalhar energia. Sem o menor óbice ele consegue. Facilmente.
Iniciando a bomba sonora, “We Trippy Mane” é um termo usado principalmente pelo iluminado Juicy J, um condecorado repper do Sul dos EUA.
Fumando tevin cocin [gramas] do verdin e ficando louco de codein, em seguida Dela faz uma citação em homenagem ao Maestro do Canão, Sabotage.
Em “Gravidade atuou, cabeça pesou (Isaac Newton)”, ele faz uma notável referência ao físico Isaac Newton, que formulou a Teoria da Gravidade. O que Dela possivelmente quer dizer aqui é que o uso das drogas deixou sua cabeça pesada.
Seu café da manhã é lean, coke e rock n’ roll, onde já inicia o dia com o Cartel no Trap modo motion slow, voando pique Denzel Washington no filme O Voo (2012), onde ele interpreta um piloto viciado em drogas e álcool.
Curtindo festas em piscinas ao som do Miami Bass e o Grime de Londres, ele chapa com dirty sprite em seu double cup. Ele anseia em ficar chapado. Ele só quer curtir na...

O refrão não podia ser mais perfeito. Interpretado por Delarhyme e [Marya] Bravo, Juicy J volta a ser lembrado: “We’ll be trippin’ for life.” Aqui a intenção é enaltecê-lo em homenagem à sua fala popular que ganhou até título de álbum [Stay Trippy], e os Cristais de MD, vários quilates mantêm a onda máxima lá em cima.

Dos sound freak, os beats punks do Daniel [Sydens] fazem Ber viajar nessa good trip. Afinal, meu caro, aqui é onde as lindas fazem strip. Não porventura, a pista é o pinel, os amigos são sick e a vida é um bordel. Por isso, mantenha-se ciente de que YOLO (“You Only Live Once”), então viva sempre intensamente mas sem perder a linha.
[Graças a Deus] que o Cartel passou de fase e vem nos Trap em outro nível, porque assim vagabundo fica perplexo com as produções cabulosas abordadas aqui na cidade do pecado e ficam cientes de que comprar o mundo com notas de $100 não significa nada quando se é ninguém.

Funkero emerge com sua voz bombástica em 14 lines de muita loucura, explodindo em seu verso.
Ele entra na Drogaria Cartel S.A. e pega várias drogas ilícitas. Essa é a drogaria mais completa do Brasil para quem gosta de drogas do tipo. É onde tem as drogas capazes de fazer os olhos das minas girarem, onde a galera frita numa onda máxima para lá de Bagdá. E, como de costume, a vizinha fofoqueira fica de butuca pelo basculhante, pensando consigo: “Haja comprimido para essas malucas toda.” Mas ela se esqueceu que elas querem onda máxima, e o resto que se foda.

Cachorro Magro faz aqui a sua única participação com esse nome. Shawlin foi descansar, mas CM está muito preparado, porque aqui ele dropa um flow completamente sinistro e fugaz, acelerado pique Eminem em “Rap God”.
Os manin vem fazer freestyle no meu ouvido/ Exataltado e cuspindo/ Outra onda foda que ele nem sequer é meu amigo/ Eu fitando uma mina, ele estragando o meu clima.” A inconveniência sempre andou de mãos dadas com muita gente. E para que ele pudesse sair com educação de perto dos “manin”, ele disse: “Já volto.” E saiu de fininho com a garota para um outro canto pensando sarcasticamente, tipo, “Foi bom ter te interrompido.
Aproveitando que ela está na vibe cristaleira que combina com seu haze, ele anseia que a bunda brasileira dessa mina se encaixe na sua face. Afinal, qual homem não quer? A menos que ele sinta nojo de chupar boceta e apreciar uma [bela] bunda em sua cara.
Com sedas, blunts, Jack Daniels, Single rocks [apenas uma pedra de gelo no copo, para não alterar o efeito da bebida] e Red Bulls, ele brinda com os irmão da Norte de rolé na Zona Sul e delirando com a mágica que são as “mulé”.


Queda Livre


Um dos primeiros singles do Sin City, senti uma energia sinistra quando apreciei sem moderação assim que saiu do forno. Cartel de formação nova, geral pronto para vir com um disco no melhor estilo Cartel, enfim... MÁGICO! Um som que, de fato, marcou.

Após o refrão que todos dizem pular, Ber é o primeiro a realizar. Ele vem com seu conteúdo inflamável, admirável; é o Cartel invencível, interminável, que eleva a um nível, imensurável, inconfundível, inconjugável, não perecível, ingovernável, inesquecível, irrecusável, e incorrigível. “Nossa, mas por que tudo isso?” pergunta um hater. “Porque meu bonde é terrível.” [Hahahahah]
Ber tira muita onda nesse som. Sua entrega diante do mic é muito extraordinária. Ele realmente se jogou.
Vivendo o underground mais sujo do rep, ele vai no Dirty South, Trap, Boom bap... Ele voa nas track.
Sem paraquedas nós brinca no tema (...) Pablo Escobar que manda no bar. Pode esquiar só não pode roubar.” Brincando no tema da música, Ber referencia Escobar que, de acordo com o meu ponto de vista, alude à uma de suas regras: não roubar. Uma vez, em um restaurante que Escobar tinha, um funcionário roubou um par de talheres. O que era isso para ele, que era milionário? Tudo. Hoje rouba talheres, amanhã podia ser 1kg de coca. Em sumo, Escobar jogou esse funcionário na piscina após amarrá-lo nas mãos e nos pés, e assistiu sua morte se divertindo com o resto do pessoal.

Em 3, 2, 1, Funkero se joga em queda livre sem paraquedas reserva, queimando erva, mas com um copo de cerva... e ele diz: “Não se espanta: nosso bonde está fechado tipo FARC, Colômbia. Cartel é fogo na bomba! Puta, não corta minha onda!” Aqui tem duas referências: 1)FARC, Colômbia” é Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, uma organização guerrilheira. 2) Refere à música “Bitch Don’t Kill My Vibe” do Kendrick Lamar.
Antes do chão chegar, ele vai voando baixo para ser indetectável no radar, e observa a Babylon queimar. Deixa queimar, taca fogo. É o Cartel pesado, incendiários, acabando com o jogo como Pablo Escobar fazia na Colômbia, incendiando e explodindo vários lugares.
Todos infectados, acidente de Chernobyl.” Funk se refere ao ocorrido em Chernobyl, Ucrânia, onde um acidente nuclear deixou uma área por lá completamente vítima da consequência de uma explosão, fazendo centenas de vítimas.
E voando mais baixo ainda, ele vai aterrissando bem no alvo: o pescoço das meninas.

Delarima chega sagaz, contendo algumas linhas que chamam atenção. Por exemplo: “Pique Scarface, dente trincado/ Disparos no Sosa, no Frank e no Mel.” Clara referência ao icônico filme Scarface (1983), onde Tony Montana passa a consumir sua própria droga, e logo fica cansado desses caras, assim disparando contra o traficante de cocaína Frank e [detetive] Mel, matando-os. Sosa é um boliviano que está irritado das atitudes de Tony, e é o único que permanece vivo, cujo próprio é o mandante da morte de Tony. Mas Sosa não é vítima de Tony. A idéia aqui pode ser que Delarima, indignado com as atitudes dos três citados, quer o fim deles, por isso sente que eles mereciam bala. (Agora, se os homens de Sosa não matassem Tony, com certeza ele seria a próxima vítima.)
Cola com o bonde pra viver um filme de Scorsese/ Sou Double X Saint Blaise.1) Ele convida as amigas para colar com o Cartel para viver um filme de Scorsese no sentido de fugir da realidade, viver um filme tipo Taxi Driver, Cassino, Goodfellas, ou até mesmo o mais recente, um ano antes desse disco sair do forno, O Lobo de Wall Street. 2) [Double X] é referência ao seu antigo distrito na França, juntamente com a comuna Saint-Blaise.
Para tudo ficar perfeito, só está faltando um Rolex, uma BM5X e uma cobertura no Arpex. “Só”. [Hahaha]

Logo em seguida vem Darryu, voando bem alto. A queda é livre, mas sem medo, gata, peça seu último drink. Fique à vontade, pode tirar a roupa também. Daí já pula bonito. Realiza uma queda fascinante.
Cartel reforçado é foda. São 6 cargas de 50 e 200 gramas de drogas. Durante a escolta, faz fumaça, acende um daqueles bolados. E na rota, fica um de escolta enquanto o outro enquadra. Vai vendo!


Sonhos de Escobar


O que Pablo Emilio Escobar Gaviria fez para mostrar seu poder não é coisa desse mundo. Se ele não pudesse te corromper, te mataria. Se você roubasse um mísero talher, ele te mataria. Se você traísse o que ele mais prezava [lealdade], ele te mataria. Enfim... Acho que a única coisa boa que ele fez foi ajudar os pobres, que como em qualquer país, vivem em condições precárias. E naquela época, durante seu reinado, El Patron era também o Robin Hood, o herói desse povo. Para muitos, independente do estrago que ele causou na Colômbia, ele é um santo que protege milhares. Acredite.

Está para nascer (ou não) alguém melhor que Funkero para falar sobre Pablo e esse assunto de narcotráfico. Ele não tem sua face tatuada em seu braço à toa. Seu conhecimento em seu verso mostra o quanto o conteúdo é monstro. Seu flow perfeito nesse Boom bap impecável produzido por Kolombiano, dando um clima da música tradicional da Colômbia, prova isso. Erik dá uns scratches para fechar o disco com aquela classe de se admirar incansavelmente. Aqui tudo faz sentido. Você só poderia esperar um registro desse se fosse feito pelo Cartel MCs. Só vivência. Não há boçais aqui. Ninguém cuspiu uma asneira sequer.

A idéia que o Funkero dá aqui é ímpar. Pega a visão: A guerrilha avança pela floresta para ter maiores chances de êxito. Enquanto é feita a colheita da santa Coca para europeu cheirar nas festas, faz pobre aqui tomar bala na testaSe esgueirando nas fronteiras igual mula de carga e com vários quilos entocado, mascando a folha amarga é o ideal para conseguir ficar na disposição. Enquanto prendem um, prende um, mas passam milharesToneladas de narcóticos são trazidos em aviões militares. Produto exportação, selo de qualidade vindo diretamente pela Colômbia, pela Bolívia trazendo morte para as cidades. Essa cocaína batizada, com sangue latino americano, não chega facilmente ao destinatário. Rola muita coisa para que ela chegue em perfeito estado. Tem até bandido dando revólver para criança de 15 anos. O trabalho escravo vive sonhando com milhões, sobretudo vão morrendo por centavos. E durante essa guerra de coca e pólvora que acontece nas trincheiras, outros vão espalhando esse câncer pela nossa terra inteira. Fazer o quê? Isso também faz o mundo girar. É muita grana, filho.

As crianças estão prontas para atirar, e de 1 a 100, a chance de pararem é zero. Enquanto isso, droga chega por mar e ar para nos matar, não vai parar. Vários moleques nas favelas desfilando com uma AK sonhando ser Beira-Mar. Esses são os Sonhos de Escobar. Muita gente seguiu esse rumo após presenciar o que o seu Cartel de Medellín causou no final dos anos 80 e início dos 90.

Trabalhando a pasta base virado há dias, Ber está no sonho de coiote, num bando de Abadía, um megatraficante de Valle del Norte, Colômbia, onde é sua refinaria. Pode ser uma referência ao ex-megatraficante Juan Carlos Ramírez Abadía, líder do importante cartel de drogas Valle del Norte, na Colômbia. Foi preso em Março de 1996 e cumpriu quatro anos e três meses por enviar 30 toneladas de cocaína aos Estados Unidos. Agora cumpre pena de 250 anos.
A pureza cristalina vai para o mundo em várias vias, seja pelo ar ou pela terra, e nego punk também morre de overdose. Essa droga santa faz viciados trocarem até o relógio por mais uma dose, vivendo momentos de psicose. E a mula, antes de embarcar engoliu quase um kg para lá na frente vomitar. [A cocaína] vai para as festas de Ibiza, para as favelas brasileiras, que logo vira crack, vira merla — e nas bandejas são carreiras. Ela abastece o mundo todo e o bolso de todo o esquema. Vai do crackudo na esquina à madame de Ipanema. Oriunda da América, ela já segue sua rota a caminho da Europa.

[Essa porra veio para te matar (...) Essa porra está em qualquer lugar]

Ao chegar no mundo antigo, o produto é distribuído. Quanto mais difícil a entrada, mais lucro para o bandido, porque aí ele vai ter mais dor de cabeça para conseguir passar pela fiscalização. Delarima, que na época deu um giro pela Europa, soube que no Reino Unido preço [é] mais alto, em Amsterdã fica barato, na Bélgica vale um galo, e na França 80 euros fácil. Não obstante, africanos, latinos, muçulmanos estão dominando um negócio que rende bilhões por ano. Como não é surpresa, [a coca] de primeira qualidade vai para alta sociedade. Na boate, várias modelos, toalhetes com pias de mármore e suas filas da branca para as modelinhos de Gucci (famosas ou não) caírem dentro. Se ilude facilmente. O drug dealer e a cliente transformaram a magia do lugar, onde ficou nevado pelo entorpecente. Como resultado, as minas ficam esqueléticas (magrelas), o amigo roda na festa, 3 anos de reclusão, e a perdição para a mina é o que resta. Essa tal cocaína elegante traz amante, traz dinheiro e pode escolher: tu se fode ou acorda como o El Arriero.



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2 comentários:

  1. Foda, simplesmente foda!
    Sou fã pra crl do cartel, e seu trabalho em cima dele ficou excelente!
    Parabéns Ridule

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