DESTAQUE

COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

AMANDO PABLO, ODIANDO ESCOBAR – CAP. 4: Morte aos sequestradores!


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Amando Pablo, odiando Escobar, de Virginia Vallejo, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah


CAPÍTULO 4

MORTE AOS SEQUESTRADORES!




Palavras por Virginia Vallejo




RETORNO A BOGOTÁ PARA gravar os meus programas de televisão e no fim de 
semana seguinte estou de volta a Medellín. Essa rotina vai se repetir por quinze meses, os mais felizes da minha vida e, segundo Pablo, os mais plenos da dele. O que ambos ignoram é que esse tempo tão breve vai embarcar os últimos dias perfeitos e leves de cada uma de nossas existências.


— Você tem meus onze aviões e dois helicópteros a seu dispor. E pode me 
pedir o que você quiser. Tudo, meu amor. Do que você precisa, para começar?


Respondo que só vou precisar de um de seus aviões para trazer a minha 
assistente e o cinegrafista de novo. Quero fazer algumas tomadas que ficaram faltando e gostaria de lhe fazer algumas perguntas adicionais em outro cenário: talvez num comício político.


Várias vezes ele insiste em querer me dar um presente especial, dizendo 
que sou a única mulher que na primeira semana não pediu nada a ele. Pede que eu escolha a cobertura mais bonita de Bogotá e a Mercedes que quiser.


— E como eu ia justificá-los ao Imposto de Renda? E aos meus amigos, aos 
meus colegas e à minha família? Eu me tornaria uma parasita, meu amor. Além disso, não dirijo, porque se tentasse me dariam prisão perpétua na cadeia de motoristas. Obrigada, Pablo, mas tenho um pequeno Mitsubishi com motorista e não preciso de mais do que isso. Os carros nunca me interessaram nem me impressionaram; definitivamente não tenho “coração de garagem”, e neste país um carro de luxo é apenas um convite para o sequestro.


Ele insiste tanto que decido lhe dar duas opções: ou um Pégaso igual ao 
dele — para o “coração de hangar” que estou estreando — ou 1 milhão de beijos. Ele desata a gargalhar e escolhe a segunda, mas não começa a contar os beijos um a um, mas de cem em cem, logo de mil em mil e, finalmente, de 100 mil em 100 mil. Quando termina em poucos minutos, o acuso de ser um convicto ladrão de beijos e pergunto o que eu posso dar a ele em troca.


Depois de pensar alguns segundos, diz que eu poderia ensiná-lo a dar boas entrevistas, porque ao longo de sua vida vai ter que conceder mais de uma; elogia as minhas e pergunta qual é o segredo. Eu respondo que são três: primeiro é ter algo importante, interessante ou original para dizer; também algo engraçado, porque todo mundo gosta de rir. E quanto ao segundo e ao terceiro, por eu ser uma mulher lenta, me recuso terminantemente a falar sobre eles na primeira semana.

Ele aceita o desafio com um sorriso meio malicioso e meio culpado, e jura 
que, se ensinar a ele meus segredos profissionais, ele também me confiará alguns dos seus.

Com a velocidade de um raio, respondo que o segundo consiste em não 
responder a tudo o que o jornalista pergunta, mas em dizer o que deseja; mas insisto que para jogar tênis bem é preciso ter anos de prática, quer dizer… anos de fama. Por isso, alguém como ele deveria dar entrevistas apenas para os editores ou diretores dos meios de comunicação — que sabem onde termina a curiosidade e onde começa o insulto — ou para jornalistas amigos.

— Os touros de raça são para bons toureiros, e não para bandarilheiros. 
Finalmente, como você ainda é o que em Hollywood chamariam de civilianrecomendo, por agora, dar entrevistas apenas a um grande jornalista, que conheça alguns de seus segredos profissionais, mas apesar disso te ame com todo o coração. E agora sim você vai me dizer quando deixou de roubar lápides e desmontar carros roubados para começar a exportar “rapé”. Porque é isso que realmente é um marco em sua atividade filantrópica… Não é, meu amor?

Ele olha para mim ofendido e baixa o olhar. Sei que o peguei de surpresa e 
passei dos limites, e me pergunto se toquei no seu tendão de aquiles muito rápido. Mas sei também que Pablo nunca se apaixonou por uma mulher de sua idade ou da minha classe e que, se vamos nos amar em termos de completa igualdade, deverei ensinar a ele desde o primeiro dia onde termina a diversão de duas crianças grandes e onde começa a relação entre um homem e uma mulher adultos. A primeira coisa que o faço compreender é que, se quiser se tornar senador, vai ter que se submeter à análise da imprensa, que, no seu caso, será implacável.

— Bom, o que você quer saber? Vamos jogar pingue-pongue, vamos lá… 
— diz, levantando a cabeça em tom desafiador.

Explico que, quando o programa sobre o lixão for ao ar, todo o país vai se perguntar não apenas como ele fez sua fortuna, mas também qual é o verdadeiro propósito de tanta generosidade. E com uma simples ligação para Medellín qualquer jornalista pode verificar em minutos alguns de seus segredos abertos. Eu o previno de que os donos dos meios de comunicação vão atirar para matar quando ele começar a aparecer com os seus milhões e as suas obras sociais para aqueles que eles deram de comer por um século, e que a sua generosidade vai ser uma bofetada na mesquinharia de quase todos os poderes estabelecidos da Colômbia.

— Por sorte você tem uma velocidade mental excelente, Pablo. E pode 
partir do princípio de que nenhum dos grandes magnatas colombianos poderia confessar toda a verdade sobre a origem de sua fortuna; por isso os super-ricos não dão entrevistas, nem aqui nem em nenhuma parte do mundo. O que te diferencia deles são as dimensões de suas obras sociais, e é a isso que terá que recorrer quando todo mundo cair em cima de você.

Entusiasmado, começa a me contar sua história: quando ainda era uma 
criança, organizou uma coleta de fundos em massa para construir o colégio do bairro La Paz em Envigado, porque não tinha onde estudar, e o resultado foi um estabelecimento para oitocentos alunos. Ainda pequeno, alugava bicicletas; garoto, revendia carros usados e desde muito novo começou a especular terras na região de Magdalena Medio. Num determinado momento para e me pergunta se acho que tudo isso é mentira; respondo que, ainda que saiba que é verdade, nada disso pode ser a origem de uma fortuna colossal, e peço a ele que me conte o que seus pais faziam. Responde que o pai trabalhava na fazenda do pai de Joaquín Vallejo, conhecido líder industrial, e a mãe era professora no campo.

Recomendo a ele, então, que comece respondendo algo como: “Do meu pai, um honrado camponês antioquenho, aprendi muito cedo a ética do trabalho duro, e da minha mãe, dedicada ao magistério, a importância da solidariedade com os mais fracos”. Mas lembro a ele que, como ninguém gosta que insultem sua inteligência, deve começar a se preparar para o dia em que, diante de uma câmera e de todo o país, alguma jornalista exibida lhe pergunte: “E quantas lápides de mármore são necessárias para conseguir uma bicicleta nova? Ou, ao contrário: quantas bicicletas de segunda mão podem ser compradas com uma boa lápide de luxo, Honorável Pai da Pátria (termo que descreve um líder político ou simbólico que se transformou numa espécie de pai. Seu heroísmo e sua autoridade moral costumam ser fonte de inspiração patriótica)?”

Ele diz que, sem vacilar um segundo, responderia:


— Por que não vai e confere quanto saem ambas e as avalia você mesma e 
faz as contas? Em seguida, consiga um grupo de jovens que não tenham medo dos defuntos nem do coveiro e se enfiem no cemitério de noite para levar essas lápides de merda que pesam uma tonelada!

E eu exclamo que, diante de argumentos tão lapidários, ela não teria mais 
opção além de reconhecer seu talento único, sua liderança nata, seu valor heroico e sua força descomunal.

Pablo me pergunta se, caso tivéssemos nos conhecido quando era pobre e 
anônimo, eu teria me apaixonado por ele, e, rindo, respondo que definitivamente não, nunca teríamos nos conhecido! Ninguém em seu pleno juízo teria a ideia de me apresentar a um homem casado, porque, enquanto ele lixava lápides, eu saía com Gabriel Echavarría, o homem mais bonito da Colômbia e filho de um dos dez mais ricos, e quando ele estava desmontando carros eu já estava saindo com Julio Mario Santo Domingo, solteiro, herdeiro da maior fortuna do país e o mais “bom-moço” de sua geração.

Ele comenta que, se esses são os meus parâmetros, então devo gostar 
muito dele. E eu confesso que é exatamente por esses padrões de comparação que o amo tanto. Com um carinho e um sorriso de agradecimento, me diz que sou a mulher mais brutalmente honesta que já conheceu, e a mais generosa.

Depois de ensaiar inúmeras vezes as respostas, sérias ou hilárias, que ele 
daria para justificar publicamente suas doações, seus aviões e, sobretudo, suas girafas, concluímos que Pablo vai precisar de parâmetros contidos na lógica e utilizados há 2.500 anos pelos gregos: porque para justificar sua fortuna terá que esquecer a “especulação de terras na região de Magdalena Medio” e pensar em algo como “investimentos em imóveis na Flórida”, mesmo que ninguém acredite ou, mais adiante, o pressionem tanto o Dian (Direção de Impostos e Aduanas Internacionais), na Colômbia, como o IRS e o Pentágono, nos Estados Unidos.

— A fama, boa ou má, é para sempre, meu amor. Por que você não 
conserva, ao menos agora, um perfil discreto e exerce o poder na sombra, como fazem os capi di tutti capi de todo mundo? Por que precisa se exibir se é melhor ser “tetramultimilionário” do que famoso? E na Colômbia a fama só traz muita inveja. Veja o meu caso.

— Você? Mas todas as mulheres deste país queriam estar no seu lugar!


Respondo que outro dia, não hoje, conversaremos sobre isso. E, em 
seguida, peço para mudarmos de assunto e digo que custo a acreditar que o resgate de Martha Nieves Ochoa foi resolvido apenas às custas de “rastreamento em rastreamento”. Parece se surpreender com a minha franqueza, e me responde que sobre esse assunto também falaremos outro dia.

Peço que me explique o que significa MAS. Baixando o olhar e com um tom 
de voz cheio de determinação, ele começa a me contar que “Morte aos Sequestradores!” foi fundado em fins de 1981 pelos grandes narcotraficantes e já tem muitos adeptos entre os fazendeiros ricos e alguns órgãos do Estado: o DAS (Departamento Administrativo de Segurança), o B-2 do Exército (Inteligência Militar), o GOES (Grupo Operativo Antiextorsão e Sequestro) e o F2 da polícia. Para que o dinheiro dos ricos não vá para Miami — e o de seus sócios e colegas não tenha que ficar no exterior —, o MAS está decidido a acabar com uma praga que só existe na Colômbia.

— Todos queremos investir o nosso dinheiro no país, mas com essa espada 
de Dâmocles fica impossível! Por isso não vamos deixar um único sequestrador livre: sempre que capturarmos um, vamos entregar ao Exército para que dê conta dele. Nenhum narcotraficante quer voltar a passar pelo que eu sofri com o sequestro do meu pai, ou pelo que passaram os Ochoa com o de sua irmã, ou a tortura que meu amigo Carlos Lehder de Quindío sofreu na própria pele. Todos estão se reunindo em torno do MAS e de Lehder e fazendo grandes contribuições: já temos um exército de quase 2.500 homens.

Sugiro a ele que a partir de agora, e dado que seus colegas são também agricultores, comerciantes, exportadores ou industriais, trate de se referir a eles sempre como “minha corporação”. Expresso minha preocupação pelo que aconteceu com seu pai e pergunto se também conseguiu liberá-lo em tempo recorde.

— Sim, sim, o resgatamos são e salvo, graças a Deus. Mais para a frente te 
conto como.

Já vou aprendendo a deixar para outro dia as perguntas sobre o que 
parecem ser métodos de resgate de excepcional contundência e eficácia. Mas expresso meu ceticismo sobre a capacidade do MAS de conseguir esses mesmos resultados em cada um dos 3 mil sequestros que acontecem anualmente na Colômbia. Digo que, para acabar com todos os sequestradores, eles teriam que terminar primeiro com vários grupos guerrilheiros que somam mais de 30 mil homens; em cerca de três décadas o Exército não apenas falhará em retê-los, como o número de tropas vai aumentar cada dia mais. Faço com que ele veja que os ricos tradicionais vão ficar felizes com o MAS — por não terem que contribuir com um só centavo, bala ou vida —, enquanto ele vai se responsabilizar pelos custos, os inimigos e os mortos.

Pablo dá de ombros e responde que não se importa com isso, porque a única coisa que lhe interessa é a liderança de sua corporação e o respaldo dela para apoiar um governo que acabe com o Tratado de Extradição com os Estados Unidos.

— No meu tipo de atividade, todo mundo é rico. Agora quero que você 
descanse e fique muito bonita para esta noite. Vou convidar dois dos meus sócios, meu primo Gustavo Gaviria e meu cunhado Mario Henao, e um pequeno grupo de amigos. Vou dar uma olhada nos ajustes finais da quadra de futebol que vamos dar de presente na próxima sexta-feira. Lá você vai conhecer toda a minha família. Gustavo é como um irmão para mim; é inteligentíssimo e praticamente quem conduz o negócio. Assim tenho tempo para cuidar das coisas que me interessam de verdade: minhas causas, minhas obras sociais e… suas aulas, amor.

— Qual é o seu próximo objetivo… depois do Senado?


— Por hoje já te contei muitas coisas, e, para completar os milhões de 
beijos que faltam, você e eu vamos precisar de mil e uma noites. Nos vemos mais tarde, Virginia.

Um pouco depois, escuto o barulho das hélices de seu helicóptero se 
distanciando daquela vasta extensão de terra que é sua pequena república, e me pergunto como esse homem com coração de leão vai fazer para combinar todos esses interesses contraditórios e alcançar metas de semelhantes dimensões numa única vida.

— Bem, na sua idade tem todo o tempo pela frente… — Suspiro, 
observando uma revoada de pássaros que também se perdem num horizonte que parecia não ter limites.

Sei que estou assistindo ao nascimento de uma série de processos que vão 
dividir em dois a história do meu país, que o homem que amo será o protagonista de muitos deles e que quase ninguém ainda se deu conta disso. Não sei se essa pessoa que Deus ou o destino colocou em meu caminho — tão absolutamente seguro de si, tão ambicioso, tão apaixonado por cada uma de suas causas e por tudo — um dia vai me fazer chorar muito, como me faz rir agora; mas reúne todos os elementos para se transformar num líder formidável. Para minha sorte, não é bonito nem educado, nem um homem do mundo: Pablo é, simples e claramente, fascinante. Eu digo a mim mesma:

— Tem a personalidade mais masculina que já conheci. É um diamante 
bruto e acho que nunca teve uma mulher como eu; vou tratar de poli-lo e ensinar-lhe tudo o que aprendi. E vou fazer com que precise de mim como de água no deserto.

Meu primeiro encontro com os sócios da família de Pablo acontece nessa noite no terraço da fazenda Nápoles.

Gustavo Gaviria Rivero é impenetrável, silencioso, furtivo, distante. Tão 
seguro de si como seu primo Pablo Escobar Gaviria, esse campeão de corridas automobilísticas raramente sorri. Embora tenha a mesma idade que nós, é, definitivamente, mais maduro que Pablo. Desde a primeira vez que encontro o olhar daquele homem pequeno e magro de cabelos lisos e bigode fino, tudo me diz que ele não toca no assunto de seu negócio com pessoas de fora. Parece ser um grande observador, e sei que está ali para me avaliar. Minha intuição me faz ver rapidamente que não apenas não está interessado no espetáculo ao qual Pablo aspira, como começa a se preocupar com os gastos exorbitantes do sócio em projetos sociais. Ao contrário do primo, que é liberal, Gustavo é afiliado ao Partido Conservador. Ambos consomem quantidades mínimas de licor, e observo que também não se interessam pela música nem pela dança: estão todos concentrados no negócio, na política, no poder e no controle.

Uma celebridade refinada relacionada com Holguines, Mosqueras, Sanz 
de Santamarías, Valenzuelas, Zuletas, Arangos, Caros, Pastranas, Marroquines — e, por profissão, trabalhador do mais seleto setor do poder político e econômico — é a última aquisição em matéria de conexões para esses capos recém-chegados ao mundo dos muito ricos e dos ainda mais ambiciosos; por isso, e como se estivessem hipnotizados, nas próximas seis horas nenhum daqueles três homens ousará olhar nem um segundo para outra mesa, para outra mulher, nem para outro homem, nem para qualquer outro lado.

Mario Henao, irmão de Victoria, a esposa de Pablo, é um profundo 
conhecedor e um amante efusivo de ópera. Reparo que ele quer me impressionar, talvez até me seduzir, com o último assunto no mundo que poderia interessar a Pablo ou Gustavo. E como sei que é também o último aliado a que alguém na minha posição poderia aspirar — sem nenhuma consideração por Caruso, Toscanini ou Maria Callas, a Divina, nem pela lendária paixão das famílias Capone e Gambino por aqueles três deuses —, desvio a conversa direto para as incumbências nas quais Pablo e Gustavo se destacam. Levo horas para conseguir que esse campeão frio baixe a guarda, mas a concentração rende frutos: depois de quase 150 minutos de entrevista obstinada e quase o mesmo tempo de uma aula entusiasmada sobre a forma de conseguir a disciplina e a precisão indispensáveis para controlar um carro que chega a 250 quilômetros por hora — e sobre as decisões de vida ou morte que devem ser tomadas numa fração de segundo para deixar para trás a competição e chegar à meta de ser o primeiro —, ambos sabemos que ganhamos se não o afeto, pelo menos o respeito de um aliado essencial. E eu aprendi de onde Pablo e seu sócio tiram a determinação feroz de ser sempre o número um, passando por cima de quem quer que seja, que parece refletir em todos os aspectos de sua vida.

Ao nosso redor, duas dezenas de mesas estão ocupadas por pessoas de 
sobrenomes como Moncada ou Galeano, cujos nomes e rostos hoje seria impossível de lembrar. Em torno de meia-noite, dois garotos armados com rifles automáticos de longo alcance chegam até nós suando, abordam os quatro e nos trazem para a realidade que nos cerca.

— A mulher de Fulano está procurando ele — dizem a Pablo —, que está 
aqui com a namorada. Imagina o problema, patrão! A mulher está uma fera! Chegou com duas amigas e exige que a gente a deixe passar. O que fazemos?

— Diga à senhora que aprenda a ser uma dama. Que nenhuma mulher 
que se dê ao respeito vai procurar um homem — seja marido, namorado ou amante — em lugar nenhum, e menos ainda de noite. Ela que vá tranquilamente para casa e o espere por lá com a frigideira e o rolo de macarrão, para dar uma surra nele quando chegar. Mas aqui ela não entra.

Os garotos voltam logo em seguida e explicam a Pablo que as mulheres 
estão decididas a entrar, porque ele as conhece.

— Eu conheço bem esse tipo de fera… — diz ele suspirando, como se de 
repente tivesse se lembrado de algum episódio que o entristecera profundamente. Assim, sem vacilar nem se sentir inibido pela minha presença, ordena: — Deem dois tiros para o ar bem perto do carro. Se elas passarem pela chancela, podem ameaçá-las. E, se seguirem adiante, disparem para matar sem pensar. Fui claro?

Escutamos quatro tiros. Deduzo que vão reaparecer com, no mínimo, três 
cadáveres e me pergunto quem será o quarto.

Cerca de vinte minutos depois, os rapazes voltam bufando, despenteados 
e muito suados. Estão cobertos de arranhões no rosto, nas mãos e nos antebraços.

— Que luta, patrão! Não se assustaram nem com os tiros: nos deram socos, chutes, e vocês tinham que ver as unhas de tigresa! Tivemos que expulsá-las debaixo de ameaças e com a ajuda de outros companheiros. Tomara que esse pobre homem chegue bem bêbado em casa!

— Sim, sim, vocês têm razão. Preparem um quarto para que ele passe a 
noite aqui! — ordena Pablo ostentando sua solidariedade masculina para com seus sofridos congêneres. — Se não, amanhã vamos ter que enterrá-lo!

— Essas paisas são muito bravas, Ave Maria! — dizem com um suspiro de 
resignação os três anjos que me fazem companhia.

Como Alice no País das Maravilhas, continuo conhecendo o mundo de 
Pablo. Aprendo que muitos homens severíssimos e riquíssimos são tratados pelas suas mulheres literalmente a patadas… e acho que sei por quê. Eu me pergunto quem é essa outra fera que ele diz conhecer tão bem, e algo me diz que não é sua mulher.

Com um grupo de amigos de Pablo e Gustavo, combinamos um Domingo 
para sair e brincar com o Rolligon. Olhando ao redor enquanto derrubamos arbustos com o trator gigante, sinto falta das risadas dos meus amigos de sete meses antes e sinto certa nostalgia pelas minhas beautiful people, aquelas entre as quais sempre vivi e com quem me identifico com facilidade em qualquer lugar do mundo sem importar o idioma. Na verdade não tenho tempo de sentir falta delas porque, ao bater num tronco, uma mancha negra de um metro de diâmetro vem em nossa direção como uma locomotiva zumbindo. Não sei por quê — talvez porque Deus reservou para mim um destino muito singular — numa fração de segundo desço do Rolligon em queda livre, me escondo entre o mato alto e fico tão quieta que só me atrevo a respirar quinze minutos depois.

O que parece ser 1 milhão de vespas agressivas sai a toda atrás daquela dúzia e meia de pessoas que tiram seu sustento do tráfico de cocaína. Milagrosamente, nenhuma me pica. Quando, graças ao meu vestido lilás, os homens de Pablo me encontram uma hora mais tarde, comentam que alguns convidados tiveram que ser hospitalizados.

Nos anos seguintes, eu passaria mil horas a seu lado e talvez mil em seus 
braços, mas — por razões que só pude compreender o correspondente a um século depois —, a partir daquela tarde, Pablo e eu não voltaríamos mais à Nápoles para nos divertir a sós ou na companhia de amigos naquele lugar onde estive a ponto de morrer três vezes e também de felicidade. Apenas mais uma vez — e para compartilhar o dia mais perfeito da vida dele e da minha — voltaríamos a viver horas despreocupadas naquele paraíso onde um dia ele tinha me arrancado dos braços de um redemoinho porque queria a minha vida para ele e onde, em pouco tempo, tinha decidido também me arrancar dos braços de outro homem para se apoderar dos espaços inexplorados da minha imaginação, dos tempos já esquecidos pela minha memória e de cada centímetro de pele que naquele momento envolvia o meu ser.

Onze anos depois, todos aqueles homens que tinham a idade de Cristo estariam mortos. Esta cronista de Índias sobreviveu a todos, é verdade; mas se alguém quisesse hoje pintar o retrato de Alice no País das Maravilhas naquele salão de espelhos, veria refletidas até o infinito reproduções fragmentadas de várias versões de O grito, de Munch, com a mão tapando os ouvidos para não escutar o barulho das motosserras e as súplicas dos torturados, o rugir das bombas e os gemidos dos agonizantes, o disparo dos aviões e os soluços das mães; com a boca aberta no meu próprio uivo impotente que só quase 25 anos depois consegue sair da garganta, e com os olhos abertos pelo terror e o espanto debaixo do céu vermelho de um país incendiado.

Aquela fazenda imensa ainda existe, também é verdade, mas do lugar de 
sonho onde por um tempo fugaz conhecemos as mais deliciosas expressões de liberdade e de beleza, as mais adoráveis de alegria e de generosidade e todas as de paixão e de ternura, a magia saiu correndo quase tão rápido quanto havia chegado. Daquele céu encantado só sobrou a nostalgia dos sentidos terrestres pelas cores, carícias, olhares e sorrisos. A fazenda Nápoles logo se transformaria no cenário de conspirações lendárias que mudariam para sempre a história do meu país e de suas relações com o mundo, mas — como naquelas primeiras cenas da versão cinematográfica de Crônica de uma morte anunciada ou de A casa dos espíritos — hoje aquele paraíso amaldiçoado está povoado apenas por fantasmas.

Aqueles homens jovens morreram já faz tempo. E de seus amores e ódios 
quando ainda não eram fantasmas, de suas causas e utopias, de suas lutas e guerras, de seus triunfos e derrotas, de seus prazeres e dores, seus aliados e rivais, de suas lealdades e traições, de suas vidas e mortes é do que trata o resto desta história que nem em sonhos eu ousaria mudar por um tempo mais breve ou um espaço menos pleno. Tudo começou com um hino simples de texto sublime e ritmo perfeito que certo dia chegou até nós vindo do Sul:


Se te quero é porque tu és

meu amor, meu cúmplice e tudo
e na rua lado a lado
somos muito mais que dois.


(Mario Benedetti, “Te quiero”, Canções de amor e desamor.)






Manancial: Amando Pablo, odiando Escobar

Sem comentários