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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

ASCENSÃO E QUEDA DE PABLO ESCOBAR – CAPÍTULO 2


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro 
Pablo Escobar, ASCENSÃO E QUEDA DO GRANDE TRAFICANTE DE DROGAS, de Alonso Salazar J, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah




CAPÍTULO 2




Palavras por Alonso Salazar J



Algumas quadras de Jardines Montesacro, na clínica Antioquia, está internado 
Roberto Escobar, o irmão de Pablo que todos conhecem como Osito. As autoridades penitenciárias têm permitido que ele ocupe um quarto nesse centro hospitalar, em reclusão, enquanto se recupera de ferimentos sofridos durante a guerra.

Depois de reiterados pedidos, ele concordou em falar comigo. Num pequeno 
saguão, a entrada é vigiada por um agente da polícia e outro da guarda das prisões. O pequeno aposento é quase todo ocupado por uma grande cama dupla e duas ou três cadeiras destinadas a visitas. A parede fronteira à cabeceira da cama é coberta por uma imensa pintura a óleo de um cavalo alazão, chamado Terremoto de Manizales, do qual ele fala com orgulho e nostalgia. Na parede da esquerda há uma janela na qual bate sol toda manhã, e até o canto estão penduradas fotografias de pessoas da família e outras em que ele aparece vestido de ciclista. E de um lado sobressai um cartaz de sua atual mulher, uma mestiça que foi eleita rainha de beleza do departamento de La Guajira.

O quarto está cheio de detalhes que Osito mantém consigo como símbolos de 
sua vida, mas fora do alcance de seus olhos. Uma grave cegueira e limitações da audição são as heranças que um assalto final da longa guerra conhecida na Colômbia como narco-terrorismo lhe deixou. Osito usa uns óculos de grossas lentes com os quais tenta transformar as sombras em imagens. Segundo dizem, parece que ele em parte o consegue. Em sua visão predomina uma penumbra na qual só chegam a se desenhar cintilações de luz. Para conversar, ele põe na orelha um aparelho eletrônico.

Com Osito Escobar acontece a mesma coisa que se passa com outros 
personagens deste livro: olho-o com suas precariedades físicas, com a pequena barriga, os gestos amáveis e seu tom alegre, e ele não me parece o homem que as autoridades e a imprensa pintaram durante anos como um grande criminoso. É como se essa humanidade bonachona não pudesse ser responsável por tudo
aquilo que lhe é atribuído.

Sentado numa cadeira de balanço, começa com voz enérgica a falar de sua vida, 
que inevitavelmente coincide com a de seu irmão Pablo. Mas avisa que não quer mexer em feridas nem dizer nada que possa provocar seus velhos inimigos. Inclusive, há pouco tempo mataram um filho seu, mas ele optou por não averiguar quem eram os culpados, permanecendo firme em seu desejo de paz. Há uma coisa que ele gosta de ressaltar a respeito de sua própria vida e da história de sua família e de Pablo: que eles foram empreendedores e desbravadores, como os autênticos paisas (gentílico mais usado como referência aos que nasceram na grande Antioquia, região localizada no noroeste da Colômbia, cuja principal cidade é Medellín).

Algum tempo depois, Osito, com o apoio de um jornalista, depois de revisar a 
versão final em braile, publicou um livro popular intitulado Meu Irmão Pablono qual relata as histórias que viveu ao lado de um grande homem que a Colômbia produziu. Com tudo e seus erros. Com tudo e suas virtudes.

Conta-me que sua família chegou a Envigado, um dos povoados localizados ao 
sul de Medellín, em 1961, a uma casa alugada pelo Instituto de Moradia Social do Estado de Envigado, ao redor da qual giraria a maior parte da vida de Pablo. Envigado era, então, um povoado tranquilo, com casas republicanas de grandes pátios internos e telhados de barro, encostado nas montanhas do sudeste do vale de Aburrá (principal cenário desta narrativa, que se identifica com Medellín, mas na realidade tem oito pequenos povoados situados às margens do rio que o cruza de norte a sul).

La Paz era um bairro novo, de poucas moradias e de ruas sem pavimento, 
formado numa fazenda fora de Envigado. Era habitado por uma comunidade na qual, apesar da humildade, em nenhuma casa faltava comida, e o personagem mais perigoso, chamado Arturo Maio, era um inofensivo usuário de maconha. Em um setor viviam professores universitários, entre os quais predominava o pensamento de esquerda, em outro viviam jornalistas e num terceiro, famílias de diferentes origens.

O entorno mudou, mas a casa em que viveu a família Escobar continua igual. É 
térrea, com uma sala-cozinha e dois ou três dormitórios. Entre seus antigos vizinhos, as lembranças continuam intactas. Arcángel, seu inseparável amigo de infância, se lembra do Pablo daquela época com seu ar tímido, cabelo cortado rente, topete e calça curta. De dona Hermilda — altiva, ruiva e de olhos azuis — se lembra muito bem, pois foi sua professora na casa de fazenda adaptada para servir de escola do bairro. E de Abelito, seu marido — modesto e mexicano de Campeche —, porque, exercendo a função de zelador, despertava os operários de madrugada. Completavam a família três mulheres — Luz Marina, Luz María e Gloria — e três homens — Osito, internado no Instituto Salesiano; Argemiro, que trabalhava nas Metalúrgicas Apolo; e Fernando, o mais novo.

Entre os paisas, as festas da Virgem, com muitas procissões e bandas de música, 
eram a celebração principal do ano. Pendurados no casaco de sua mãe, Pablo e seus irmãos assistiam às fervorosas procissões, que fechavam a noite com pesadas cargas de pólvora que lembravam o clima de guerras antigas e de presenças pagãs filtradas na festa católica. Atraía a atenção das crianças a vacaloca, uma caveira de boi de chifres salientes e chamas que, ao correr de modo frenético e ao mesmo tempo ameaçador, espantava e atraía a multidão de pequeninos. A banda Marco Fidel Suárez, com seus instrumentos de fole e tambores, dava à celebração um ar épico.

“Éramos adolescentes felizes
”, relata Arcángel. “Com Pablo, seus irmãos e os demais amigos, caminhávamos pelas casas de campo dos arredores. Pescávamos corronchos e capitares em recantos de águas frescas e passávamos as horas em um bosque que batizamos de La Selvita, e lá, nas noites de lua, brincávamos de guerra libertada, esconde-esconde e polícia e ladrão. Na Selvita, víamos os maiorzinhos fazendo carinhos em suas noivas e os primeiros hippies, com os quais Pablo aprendeu, e para sempre, os encantos da maconha.

Cresciam em meio à algaravia e rivalidade. Porque sim ou porque não, os de La 
Paz guerreavam com os do bairro vizinho, El Dorado. Redobravam a guarda quando se tratava de meninos que invadiam seu território em busca de namoradas. Às vezes a disputa descambava em pedradas entre grupos rivais, o que deixava alguns machucados, ou, então, em disputadas partidas de futebol, pelas quais Pablo tinha uma paixão especial. Ele, amigo de ganhar, quando estava para perder uma partida, armava uma confusão e a abandonava.

Nesse começo dos anos 1970, nós, os adolescentes de Medellín, íamos a vários 
lugares que eram como o símbolo do progresso da cidade: à fonte de águas luminosas do Parque de Bolívar; ao Caravana, primeiro mercado a instalar escada rolante na cidade; à construção do Centro Coltejer, o primeiro grande edifício da cidade; e ao aeroporto, que chamavam de campo de aviação.

Pode-se imaginar Pablo nessas romarias. Arcángel fala de quando visitaram o 
campo de aviação. Um dia, em bicicletas alugadas, pedalaram até a cabeceira da pista. Passaram a tarde fascinados, sentindo a descarga de ar das turbinas no momento de alçar voo e vendo os aviões quase sobre a cabeça deles ao descer para a pista. “Em algum momento, Pablo, deitado de barriga para cima sobre a grama, enquanto via voar esses aparelhos majestosos, jurou que se quando completasse 25 anos não tivesse um milhão de pesos, se suicidaria.

Por instinto, porque a genética o fez inteligente, por influência de sua família e 
de seu tempo ou pelos astros — é difícil saber —, Pablo sobressaía entre seus companheiros. E até nos sinais de uma sonhada prosperidade ele se diferenciava.

Em 1962, aos 13 anos, havia ingressado no Liceu de Bacharelado da 
Universidade de Antioquia. Lá ouviu falar da revolucha, do compromisso revolucionário, da teologia da libertação. De Camilo, o padre guerrilheiro, e da Cuba de Fidel; aprendeu uma série de frases anti-imperialistas e antioligárquicas que repetiria pelo restante da vida, e adquiriu uma efervescência que disparou seu espírito. Eleito presidente do Conselho de Bem-Estar estudantil, conforme lembrou com orgulho anos depois, batalhou por ajuda para o transporte e alimentação dos estudantes pobres. Além disso, tornou-se rebelde.

Seus primos, os Gaviria, colegas de colégio, se surpreendiam com o fato de 
Pablo levar no bolso chaves de diversas salas do liceu e de entrar e sair delas com naturalidade, como se fosse ele o dono. “Estão ganhando da álgebra?perguntou-lhes certa vez. “Não, estamos perdendo. Pois já vão ganhar, disse ele, exibindo uma cópia antecipada do exame final, subtraída da sala do professor.

“Tenho que suspender Pablo por uns dias
, disse para dona Hermilda o reitor, de
cenho franzido e ar preocupado. “E desta vez por quê?” É que Pablo dá uma de
líder, sobe na carteira e diz aos colegas que os exames estão muito difíceis, que
não devem fazer porque não vão passar, e os rapazes lhe obedecem.

Lucho, um colega dele, que como muitos de sua geração se bandeou para a 
guerrilha, lembra-se dele como um líder calado que não falava nas assembléias — ficava sentado, brincando com pedacinhos de papel que de vez em quando enfiava na boca —, mas era um líder ativo, que gostava de adrenalina, metia a mão na massa, era aguerrido nas batalhas, atirava pedras e bombas molotov. Com o tempo, Pablo, que queria ser de esquerda, porém rico, acabou como Rei dos Bandidos, e Lucho, como o líder das milícias guerrilheiras. Em seu reencontro nas guerras dos anos 1990 em Medellín, Lucho o olhava e se perguntava: Como esse vagabundo, que conheci tão quietinho, se transformou no chefe do cartel?

Já desde então Pablo tinha em sua maneira de ser três características que o 
acompanhariam por toda a vida: espírito inalterável, caráter forte e uma dissimulada vaidade. Seus amigos de bairro mexiam com ele por cuidar exageradamente do cabelo. Obsessivo com a própria imagem, depois que a mãe lhe dera permissão para deixar crescer o cabelo, vivia com um pente no bolso a fim de alisar as mechas crespas da testa, ao ver-se no vidro de alguma janela pela qual passasse. Mas a gozação dos amigos não ia longe; eles o respeitavam por ser o único da turma que sempre tinha algum dinheiro. Estudava, fumava maconha e, numa lambreta vermelha, vendia cigarros Marlboro de contrabando no comércio do bairro. Em meio a tanta agitação, como não devia lhe sobrar muito tempo para estudar, perdeu o ano e o expulsaram do liceu. Dona Hermilda o matriculou, então, no Liceu Enrique Vélez, onde se graduou como bacharel em 1969.

Na memória de Arcángel permanecem frescas as caminhadas em grupo à colina 
La Paz, que coroava o bairro. Lá de cima eles dominavam toda a paisagem do vale Aburrá, no centro de Medellín, que já crescia de maneira vertiginosa, subindo como trepadeira pelas encostas do rio até se perder no norte. Da colina La Paz partiam antigos caminhos reais que levavam a outros povoados. Cordilheira acima, na direção leste, passando por uma finca chamada La Catedral — que anos depois viria a se tornar célebre — e por bosques cheios de musgo e névoa, depois de um dia de caminhada chegavam ao município de El Retiro. Indo na direção sul, ladeira abaixo, caíam em Sabaneta e Caldas. À esquerda viam a cidade de Itaguí e o povoado de La Estrella, com El Ancón, lugar que se tornaria famoso porque lá foi realizado o primeiro concerto hippie na Colômbia, o Woodstock criollo. Apesar das advertências de seus pais, Pablo, Arcángel e seus amigos presenciaram a chegada dos cabeludos vindos de todos os cantos do país, entregues à maconha, ao ácido lisérgico, ao rock e ao amor. As autoridades de Medellín — cidade do rosário — acreditaram que se tratasse de uma invasão do demônio e, como numa cruzada mariana, perseguiram os hippies até expulsá-los.

Essa geografia dos arredores de Envigado, onde Pablo cresceu, veio a ser a 
região em que ele comprou boa parte de suas propriedades, onde foi construída a prisão em que ele ficou recolhido e viria a se esconder, em muitas ocasiões, de seus implacáveis seguidores.

Nas noites em que a família se reunia, dona Hermilda relembrava a história de 
seu próprio pai, Roberto Gaviria, comerciante, aventureiro, segador e, além disso, contrabandista. Segundo ela, Papai vivia em Canasgordas, onde chegou a ser prefeito, embora fosse, acima de tudo, contrabandista. Comprava uísque em Urabá, trazia-o pelo monte em um caixão de defunto, com toda a parentada, quatro casais vestidos de preto, que choravam ao passar pelos guardas. Enterravam o caixão no cemitério da cidade, e à noite, protegido pela escuridão, ele pegava sua carga e a levava a um local onde perfurava ovos, extraía seu conteúdo e injetava neles o uísque, que vendia aos bebedores. Como sempre existiram espiões em toda parte, acabou sendo delatado. Mas alguém conseguiu alertá-lo, dizendo-lhe que se mandasse dali porque já estavam de olho nele, já sabiam de tudo. Mas dom Roberto, como se nem tivesse ouvido, saiu como sempre com seu caixão e o levou ao cemitério, para lhe dar um enterro cristão. No meio da cerimônia, caíram em cima dele: Está preso! E por quê? O que eu fiz? Você traz contrabando! Não trago contrabando. E o que traz aí? Nada, não trago nada. Vamos abrir. Abra-o. Abriram o caixão, e ele estava cheio de pedras. Decepcionados, disseram: Não, este não é contrabandista. É um velhinho louco.

Em seguida, vovô Gaviria viajou com a família para a cidade de Frontino, onde 
viveu a prosperidade da mineração do ouro, mas em 1930 teve que emigrar, arruinado, endividado. Como ele, sua mulher — mamãe Inés — e os filhos passaram a se apresentar em hospedarias como jograis, contando histórias, cantando, com o que conquistavam a simpatia dos proprietários, que os recompensavam com comida e pousada. Ao chegar a Medellín, alugaram uma casa em La Toma, um bairro da periferia.

A pequena, mas crescente cidade, transformava-se em um importante centro de 
desenvolvimento dos negócios, bancos e indústrias, e as linhas de bonde que a atravessavam lhe davam um ar de progresso. Por sua cultura, baseada no crescimento material e exagerada na cotização, não teve dúvidas em arrasar seu centro histórico para construir edifícios modernos.

Eram tempos em que a Igreja Católica desempenhava um papel-chave no 
desenvolvimento industrial. Em seu afã de moralizar e disciplinar os trabalhadores para torná-los mais produtivos, foram desenvolvidas várias campanhas combatendo o alcoolismo, por intermédio de suas ligas operárias. Combatiam-se especialmente as bebidas fermentadas, como a chicha, porque, segundo afirmavam, ela levava ao embrutecimento, à loucura e ao crime. No entanto, as autoridades não adotaram medidas como a lei seca, que deu lugar aos Al Capones americanos.

Em contraste com o desprestígio das bebidas alcoólicas, permitia-se a venda de 
xaropes com alto teor de ópio e coca. Em Medellín, como em quase todos os lugares do mundo, nossos avós compravam, nas boticas Láudano Syndenham, cloridrato de cocaína, pó Dower, gotas de Gallard, pílulas de Segond, xarope de ópio, de morfina... Drogas em sua maioria importadas da Alemanha, Holanda e Estados Unidos. A Merck, da Alemanha, estava na vanguarda na venda de emulsões de coca e as comercializava anunciando que fortificavam o corpo e o espírito. Também se usava a maconha, que crescia largamente em terrenos baldios; era misturada com álcool e se aplicava nas juntas para combater a artrite. Os médicos locais se limitavam a advertir que esses preciosos agentes de saúde, se usados com moderação e prudência, redimem a humanidade; mas se houver abuso em seu emprego, eles se tornam uma espada de dois gumes que tira a inteligência e a vida dos pacientes.{3} Um sentido semelhante ao que Paracelso havia dado séculos antes, quando definiu as drogas como substâncias que são ao mesmo tempo remédio e veneno, dependendo da dose.

Nessa Medellín paroquiana, a avó Inés — matrona invencível, esteio da família — 
tentou enfrentar a pobreza com um espetáculo de variedades e zarzuela chamado Frutos de mi tierra, baseado na obra do escritor Tornás Carrasquilla; depois de temporadas bem-sucedidas em Medellín, realizou nos anos 1940, não se sabe como, uma temporada na Argentina. Essa história é contada por alguns familiares e parece fantasia. Evita Perón, ao ver o grupo de sua avó, se sentiu cativada e o convidou para se apresentar em recepções particulares em que eles tocavam coiri graça acordeom, dançavam flamenco e contavam piadas. Evita, em retribuição, nomeou dona Inés chefe de uma casa de viúvas, cargo que exerceu durante dez anos. Nos relatos, não é precisa a data em que voltaram ao país, mas os netos afirmam que dona Inés, sua mãe, católica praticante, rezadeira, se impressionou com o toque populista de Evita e o peronismo.

No entanto, no fim dos anos 1940, seus filhos, os irmãos Gaviria, foram se 
instalando aos poucos em Medellín. Hernando era um dos mais populares condutores do bonde da cidade. Tornou-se sindicalista e fundou o jornal El Tranviario, com o qual impulsionou greves e protestos. Gustavo, guitarrista e violinista, se tornou seresteiro. À noite, entretinha os enamorados com seus toques e cantos. Hermilda, de formação autodidata, foi nomeada professora por dom Joaquín Vallejo, secretário de Educação de Antioquia, para ocupar uma vaga na região de El Tablazo, na fria planície do município de Rionegro, a leste de Medellín, onde ele possuía uma finca. Os camponeses se lembram dela altiva, de figura ereta, com capacidade de mando e um espírito tão férreo que a definiram carinhosamente como um general de três sóis. Encantavam-se com sua ordem, vendo-a confeccionar a roupa dos filhos, admiravam o compromisso que mantinha com a comunidade e a habilidade com que desenhava, usando giz de várias cores, pinturas famosas como A última ceia, de Da Vinci.

Em El Tablazo, dona Hermilda conheceu Abel Escobar — homem do campo 
calado e trabalhador, chamado por todos de Abelito —, com quem se casou em 4 de Março de 1946. “Passei muita fome e terríveis necessidades para criar meus garotos, conta ela desfiando as recordações. De todos os seus pequenos ela conta casos, mas seus olhos nunca brilham tanto como quando fala do segundo filho. Deu-o à luz em 2 de Dezembro de 1949, ao meio-dia. Batizou-o com o nome de Pablo, como o evangelista que se habituou às artes do mal, mas depois se consagrou a ponto de oferecer a vida para servir a Deus.

Dona Hermilda fez de Pablo seu filho preferido, menino mimado e favorecido, 
cheio de gracinhas e muito risonho. Seu padrinho de batismo foi Joaquín Vallejo, o secretário de Educação, para quem Abelito trabalhava como mordomo. Pablo cresceu sabendo que era muito amado, e ameaçava com choro e birra quando seus caprichos eram contrariados ou não o pegavam no colo. “Mas você já é um homem crescido, disse-lhe a mãe aos quatro anos, “logo vão começar a aparecer os pelos da barba, é uma vergonha carregá-lo no colo porque suas pernas vão encolher e você não vai poder andar.{4}

Abelito queria criar os filhos com austeridade e controle, mas Hermilda preferiu 
que eles se parecessem com ela: empreendedores, amantes do dinheiro e seguros de si. Na área de El Tablazo, à qual agora se chega, saindo de Medellín, em apenas uma hora por uma estrada pavimentada, fica a igreja, a igreja branca em que Hermilda, crente fervorosa, encomendou o filho à Virgem de Fátima, pedindo-lhe que, além de inteligente, fizesse dele uma pessoa caridosa. “E a Virgem me ouviu, disse ela, “pois deu a meu Pablo o dom da generosidade, qualidade suprema das pessoas. Agora, quando o visito, El Tablazo está mais povoado, mas ainda há muito verde, que atrás da igreja se perde entre estrebarias e cultivos em direção às colinas e na frente se estende até Llano Grande. É uma paisagem de clima frio, comumente tomada pela névoa. Osito conta que se levantava às três da manhã em meio à neblina e ao frio, para ir buscar as vacas no pasto, ajudar na ordenha e recolher lenha. Lembra-se de dona Hermilda como uma mãe severa, mas caridosa, que, como professora primária, o ensinou a ler e escrever. Depois, matriculou-o em uma escola municipal de Rionegro; para assistir às aulas, ele caminhava duas horas de ida e duas horas de volta por caminhos nos quais, muitas vezes, não faltavam atoleiros. Para amenizar a jornada, ela lhe comprou uma bicicleta que reduziu esse tempo em uma hora. No ano seguinte ela lhe impôs uma tarefa difícil: levar Pablo todos os dias na garupa. Ia tudo bem quando seguiam por terreno plano, mas nas subidas a situação se complicava: Osito tomava impulso e pedalava até onde tinha forças; então, já quase se rendendo para conseguir chegar ao alto, gritava para o menino: “Salte! Ao iniciar a descida, punha-o de novo na garupa.

Algum tempo depois, dona Hermilda deu uma bicicleta de presente a Pablo e 
aliviou a carga de Osito.

Nas férias, recebiam a visita dos primos Gaviria, dos quais, por coincidência de 
idade, Gustavo era o preferido. Juntos percorriam o campo, colhiam goiabas, pescavam, matavam passarinhos com estilingue e faziam maldades: Osito se punha na extremidade de uma frágil ponte suspensa sobre o rio Negro e Gustavo, na outra. Então balançavam a ponte, e Pablo, abandonado no meio dela, gritava aterrorizado e, assim que podia, corria para junto da mãe. Osito levava fortes surras de cinta, mas era um garoto irrequieto e não se cansava de fazer maldades.

Certa Sexta-Feira Santa, Abelito, seguindo as tradições camponesas, saiu com 
um vizinho para ir em busca de luzes — fogos-fátuos, almas penadas — que os levassem até um cemitério indígena, onde haveria um tesouro dentro de peças de cerâmica repletas de ouro ou chocolateiras com libras esterlinas, como são chamadas pelos camponeses as moedas de ouro coloniais. Logo viram uma luz. Seus companheiros, em vez de se alegrarem, correram espantados, mas Abelito, provando sua coragem, seguiu em frente. Logo passou o susto, pois se tratava de um frasco de vidro com uma vela dentro, pendurado numa árvore, que alguém fazia subir ou descer por meio de uma corda. “Quem me pregaria essa peça?perguntou furibundo ao voltar para casa. “Sei quem foi, disse dona Hermilda, lembrando que minutos antes Osito e Pablo haviam chegado agitados. O que se seguiu foi uma surra de cinta que chegou a cortar a pele de Osito, apesar da roupa que o protegia. Pablo, por ser pequeno, foi poupado.

Esse mundo pobre, mas idílico de El Tablazo, acabou. O assassinato do líder 
liberal Jorge Eliécer Gaitán, ocorrido em 9 de Abril de 1948, havia desatado uma confrontação que deixou em polvorosa não apenas Bogotá, a capital, mas se espalhou como uma guerra civil por vastas áreas do país. As elites políticas empurraram as populações pobres e camponesas a enfrentamentos absurdos, para depois redistribuir o poder entre si. Seguidores do liberalismo e do conservadorismo, os dois partidos tradicionais, se organizaram em grupos armados, conhecidos como chusmas, para incendiar cidades, eliminar seus inimigos e se apoderar de suas terras em uma grande confrontação na qual práticas extremas — como abrir o ventre de mulheres grávidas para eliminar a semente do inimigo — se tornaram corriqueiras.

Em clima de plena violência, transferiram dona Hermilda para outra escola numa 
área do distante município de Titiribí. Ela se instalou com o marido e os filhos numa casa anexa à escola. A chusma de godos — como eram chamados os conservadores — não podia admitir que uma professora liberal como Hermilda Gaviria, supostamente portadora de espíritos maçônicos e ímpios, educasse as crianças da região e fez um cerco à escola. Ao ouvir o estrondo e a ameaça de aproximação da morte, dona Hermilda, Abelito, Roberto, Pablo e os outros meninos, como única defesa, subiram na cama e, abraçados, rezaram para o Menino Jesus de Atocha:

Glorioso Menino de Atocha, astro divino de excelsa majestade, eu te saúdo e 
adoro e te suplico que dispenses tua demência em memória do inefável gozo que sentiu tua Santíssima Mãe quando te recebeu em seus braços e quando os coros angélicos entoaram jubilosamente por todos os âmbitos as doces harmonias do Gloria in Excelsis Deo, em sinal de louvor ao Todo-Poderoso por tua vinda ao mundo para o bem da linhagem humana.

Dona Hermilda havia aprendido com a avó, a quem recorria para tudo, a ter fé 
no Menino de Atocha. E nesse momento crucial, Ele de novo a ajudou. A multidão tentou incendiar a casa, mas as madeiras não pegaram fogo; tentou arrombar as portas, mas o Menino transformou a casa em um bunker. E permaneceu guardando-os até que o exército os resgatasse, já de madrugada. Ao sair, viram algo que nunca mais haveriam de esquecer: camponeses liberais da região haviam sido pendurados pelos pés nas vigas da escola e decapitados com machado. O sangue, escuro e espesso, cobria o corredor e grudava em seus pés. O exército recomendou que fugissem imediatamente, sem nem mesmo recolher a roupa, e os escoltou por umas duas horas até chegarem à cidade, de onde seguiram sozinhos pelo caminho até o trem que os levaria de volta a Medellín.

Desde então, Dona Hermilda prometeu a esse Menino prodigioso — de origem italiana, que liberta perseguidos da justiça de modo arbitrário, cura enfermos e cumula de riqueza os pobres — que construiria para Ele uma capela e cultivaria sua devoção.

À fuga precipitada de Titiribí veio se somar uma peste apocalíptica que 
exterminou o pouco gado que a família tinha na Finca El Tablazo. Nessas circunstâncias, Abelito abandonou com nostalgia suas tarefas no campo e no bairro La Paz se transformou em guarda noturno e numa espécie de sombra de sua empreendedora esposa. Algum tempo depois, quando a vida dos filhos já estava tranquila, ele se refugiou novamente em sua pequena finca no campo. Pablo sempre lhe deu apoio e fez de tudo por ele quando anos mais tarde o
sequestraram.

“Abelito nunca foi uma figura significativa em nossa vida”, disse Osito, e 
entendo isso como uma maneira de dizer que na família de Pablo o sobrenome que marca seu caráter não é Escobar, mas sim Gaviria. Na verdade, Pablo deveria ter sido chamado de Pablo Gaviria e não Escobar. Dona Hermilda, sua mãe, deu a ele um apoio incondicional e um amor onipresente que marcaram o essencial de seu caráter e sua maneira de ser.

A partir de 1960, os irmãos Gaviria — tios de Pablo — montaram algumas 
indústrias. Criaram a fábrica Dicolor, que produzia anilinas coloridas destinadas a padarias e à empresa do aqueduto de Medellín para testes nas tubulações e passaram a fabricar betume e cera com fórmulas inventadas por eles. Na família de dona Hermilda, a cota industrial foi dada por Osito. Quando menino, havia sido coroinha no bairro de San Benito, onde viveu sua avó Inés nos anos 1950. Depois trabalhou na Mora Hermanos, uma loja de eletrodomésticos na qual adquiriu experiência em eletrônica. Arcángel se lembra de quando, ainda pequeno, o viram montar o primeiro televisor de sua casa, o que os livrou de terem que pedir aos vizinhos que os deixassem ver programas como Bonanza e Gilligan, seus preferidos.

Osito alternava o trabalho com sua paixão por bicicleta. Correu na Volta da 
Colômbia e em diversos clássicos ciclísticos, aos quais Pablo o acompanhava. Fez cursos de especialização na Alemanha e dirigiu, como técnico, algumas seleções da Colômbia que competiram em diversos países. A Liga de Ciclismo de Caldas o contratou como treinador. Em Manizales ele encontrou uma cidade em que as bicicletas praticamente não existiam e, com espírito de negociante, montou a Fábrica de Bicicletas Osito. A empresa lhe proporcionou uma vida próspera, mas não o salvou do empurrão de seu irmão Pablo, que acabou por arrastá-lo no redemoinho de sua desmedida riqueza, de suas guerras e tragédias.

Gustavo Gaviria, o seresteiro, instalou uma fábrica de lápides de alumínio. Vem 
daí a relação tantas vezes mencionada de Pablo e seu primo Gustavo com os cemitérios. No início, ambos viajavam para vender lápides nas cidades. Indagavam nas funerárias sobre os mortos da semana, ofereciam aos familiares diversos modelos — com a Virgem Maria ou o Coração de Jesus em relevo, com o nome do defunto lindamente trabalhado e um pequeno recipiente para pôr flores.

Parece que logo encontraram uma variação desse negócio: roubavam lápides de 
mármore do Cemitério de São Pedro, onde as famílias ricas de Medellín tinham luxuosos panteões, para vendê-las aos recicladores. Era bom negócio vender ou arrancar lápides à escondidas? Não, não era muito bom. Nessa época, as mortes eram raras; e aquilo de vender túmulos, caixões, flores e velas, de montar casas de velório, jardins cemitérios, veio a se tornar rentável depois, quando eles mesmos — Pablo, Gustavo e sua tropa — propagaram a plomonía,  a grande epidemia de fim de século em Medellín.

Já fazia algum tempo que Pablo se matriculara no curso de contabilidade na 
Universidade Autônoma, até que, preocupado com a pobreza da família, comunicou a dona Hermilda que ia abandonar os estudos. “Fiquei agradecida por sua intenção de me ajudar”, disse dona Hermilda; “não achei ruim que tivesse adquirido gosto pelo dinheiro, porque, se a pessoa não tem um tostão no bolso, fica aborrecida, triste, cabisbaixa, não acha saída para a vida.” E Pablo, com a lição aprendida, costumava dizer: “Pobre eu não morro; para mim, primeiro Deus, depois a grana.” Foi nesse momento que Pablo deixou de cortejar o delito para assumi-lo como profissão. Ao renunciar aos mecanismos de ascensão social, como a educação, tomou definitivamente o caminho da criminalidade como meio para conseguir realizar o desejo que predeterminara para sua vida: ser rico.

Entre o final dos anos 1960 e o início dos 1970, caminhava pelas ruas de 
Envigado, de boina e bengala, Fernando González, um filósofo provocador tão fecundo em seu pensamento quanto inútil para uma terra como a antioquena, onde se proclama uma depurada moral católica e se reza sem descanso, mas se praticam sem pudor formas rápidas, e às vezes ilícitas, de enriquecimento; onde se sonha exageradamente com dinheiro, com o vil metal. Os niilistas — discípulos de González, a versão beatnik dos colombianos — se propuseram a subverter essa pequena Detroit, onde, em suas palavras, não havia espaço para a criação e a fantasia, para a flor inútil da poesia, apenas para o fazer e o acumular. Pablo ouviu pelo rádio os sermões do padre Fernando Gómez Martínez — cruzado contemporâneo — contra esses niilistas criollos, quando um dia, com ânimo para sacudir o espírito paroquial, eles tomaram conta de uma missa na catedral e, no momento da comunhão, jogaram a hóstia no chão e a pisotearam. Indignados, os paroquianos perseguiram os sacrílegos. Chegaram a cravar nas entranhas de um deles um crucifixo, mas a vingança maior veio pela vontade do próprio Deus, ao fazer apodrecer o pé com que um dos malditos profanou o Corpo de Cristo.

Pelo mesmo parque de Envigado também passeava dom Alfredo Gómez — homem idoso, diabético, conservador, de pose aristocrática, vizinho do bairro El Poblado —, que, apesar de ter conseguido fortuna contrabandeando cigarros, eletrodomésticos, uísque, tecidos e porcelanas, era considerado um gran senor. El Padrino — como passaram a chamá-lo depois da publicação do livro de Mario Puzo{7} — chegou a ser tão poderoso que o recebiam quase como chefe de Estado quando visitava o Panamá, Honduras e El Salvador, países onde tinha grandes investimentos. Na Colômbia, os políticos e generais lhe faziam reverência e inclusive lhe emprestavam soldados para escoltar suas caravanas de contrabando e para servirem de pedreiros na construção de sua casa no bairro de Santa María de los Ángeles, em El Poblado. Pablo conhecia a vida, obra e milagres desse Padrino local; além disso, segundo se lembra Arcángel, falava-lhes de outros contrabandistas prósperos como Jaime Cardona Vargas, conhecido como Rei do Marlboro, e de dom Alberto, aos quais definia como homens guerreiros, inteligentes e habilidosos, que faziam contrabando, apostas ilegais e comércio de jóias”.

E o torto — como chamavam o ilícito — encontrava ambiente em Medellín, que, 
segundo os astrólogos, como Chicago, está em um campo de alta concentração de energia, onde a vida e a morte se enlaçam numa dança que acaba facilmente em destruição. Em todo caso, os contrabandistas e os espertos rezadores seduziam Pablo mais do que os filósofos de boina e bengala. Porque tinha talento natural para as artes do mal. Os veteranos dos negócios tortos, como o próprio Padrino, se espantavam de ver como Pablo, com senso de oportunidade e inteligência aguda, calculava tudo, fosse o que fosse, como ficava amigo de todo mundo, perguntava, conhecia e aperfeiçoava o que aprendia.

Desde que os Escobar eram adolescentes, lá no bairro de La Paz, tinham como 
vizinhos os Henao, uma família que se destacava por sua prosperidade na periferia local. Dom Carlos Henao, o pai, numa caminhonete Chevrolet modelo 50, distribuía geleia de goiaba nas casas e lojas. Seu filho Mario, que, graças à situação folgada da família, estudava psicologia na universidade, se tornou amigo de Pablo e Gustavo. Formaram um triunvirato que mudaria a história do bairro. Eles, os James Dean, os rebeldes sem causa, chamavam a atenção de crianças e adultos por suas constantes travessuras, mas principalmente porque sabiam que eles haviam iniciado atividades delituosas.

Fernando, o irmão mais novo de Pablo 
— e os outros homens da família Henao — Carlos e Fernando  seguiam seus passos. Participavam ativamente da vida social do bairro de La Paz, que ficara famoso principalmente por seus bailes. Toda semana, não havia casa em que faltasse uma rumba, que dançavam ao som de orquestras tropicais como La Billos, Los Melódicos, Los Hispanos e a música da nova onda, o rock and roll.

Pablo pôs os olhos em uma das irmãs Henao. Mario se ardeu de ciúme, 
principalmente porque ele havia escolhido não uma irmã mais velha, coisa que lhe pareceria normal, mas uma das mais novas, Victoria, de apenas 13 anos. Como um vagabundo tão velho como você, com 24 anos nas costas, vai se meter com uma menina? Respeite-a. Não se meta com ela!

Para Pablo, os Henao eram a referência mais próxima da prosperidade que ele 
ansiava. E namorar Victoria era uma maneira de ter acesso a esse reino do qual se sentia excluído. Ele, experiente em áreas escabrosas da vida, mas tímido no amor, depois de mil voltas se declarou. Ela o aceitou, e eles foram tomados por um sentimento que, do início ao fim, se revelou sem limites e os uniu até que a morte os separou.

À oposição de Mario somou-se à dos pais 
— dom Arturo e dona Nora , que proibiram Victoria de se encontrar com o namorado. Mas ela, desde o início, mostrou que seu amor era incondicional e se arriscava a vê-lo de vez em quando. Ninguém jamais conseguiu impedir esse amor.

Foi com o Padrino, capo de todos os capas daquela época, que Pablo e Gustavo 
entraram na rota dos grandes delitos. Trabalhando como guarda-costas, conheceram dois homens da cidade de La Estrella, experimentados no negócio do gatilho. Tratava-se de Elkin Correa — filho de família tradicional e cristã, com o rosto marcado por acne juvenil, que havia sido inspetor de polícia em Sabaneta — e de Jorge González — a quem desde então chamavam de Jorge Mico  um homem de pavio curto e puro instinto, como os galos de briga que criava.

Elkin Correa e Jorge Mico foram essenciais para Pablo pelas conexões que 
tinham, mas principalmente porque sua experiência em matar os tornaria sócios importantes para a indústria da morte que ele montou mais tarde.

Pela mão de Jorge Mico, Pablo conheceu as rotas do contrabando. Ele ficara 
fora por uns dias e, ao voltar à esquina do bairro, contou aos amigos a história, que todos ouviram boquiabertos e com inveja. Desembarcaram a mercadoria procedente do Panamá em embarcações médias em algum ponto do bosque pantanoso do mar do Caribe, perto do povoado de Turbo, tomado por nuvens de mosquitos. Um pessoal experiente da região carregou os volumes por entre os bosques de mangue, colocaram-nos em caminhões, camuflando-os com folhas de bananeira. Para chegar a Medellín, atravessaram a cordilheira Ocidental e o rio Cauca, subindo depois a cordilheira Central, até o vale de Aburrá. Durante as 24 horas que durou a marcha, passaram por postos da Armada Nacional, do Exército, da Polícia e por guardas aduaneiros. Todo mundo os via percorrer essa longa rota, chamada Estrada do Mar, sem que nada acontecesse; à frente deles sempre ia o mosca, como era chamado o homem encarregado de subornar as autoridades.

Os patrões de Pablo o viam como um homem sério, que não bebia nem fumava, 
e o encarregaram do trabalho de mosca, no qual ele chegou a guiar caravanas de até quarenta caminhões de contrabando e com que ganhou seus primeiros pesos. Nessa época, Pablo, que estava com 24 anos, adotou o costume, que nunca abandonou, de se deitar tarde e levantar mal nascido o dia. O cérebro funciona melhor à noite, costumava dizer.

Adquiriu um velho automóvel Zastava e punha dinheiro em casa, dois motivos 
suficientes para que sua mãe não o julgasse e fizesse ouvidos moucos a rumores da rua que o tachavam de bandido. A primeira coisa que Pablo colocou no para-brisa traseiro foi um decalque que dizia: “Antioquia federal, porque ele compartilhava a ideia, generalizada entre os paisas, de que eles eram uma espécie de raça superior à dos demais colombianos e de que, se conseguissem ter maior grau de independência perante o governo central de Bogotá, seu desenvolvimento se multiplicaria. Essa visão, compartilhada pela maioria dos medelinenses, se resumia numa frase curta, mas contundente: “Nós, os paisas, somos foda para tudo.

Jorge Mico, reconhecendo em Pablo um homem de caráter, levou-o também

para Santísima Trinidad, o temido bairro de putas e bandidos, para lhe
apresentar, como havia prometido, uma fêmea de verdade. Chegaram a um
pequeno estádio. Griselda Blanco, que já vencera o título de Rainha da Coca,
presidia a festa sentada numa espécie de trono na tribuna; exibia um vestido de
listras pretas e brancas, como as de uma zebra, e um chapéu de tecido. Estava
rodeada por pessoas de seu círculo, e o restante das tribunas circulares estava
ocupado por trabalhadores, amigos e habitantes do bairro. Apostava-se em
dólares, bebia-se muito uísque e as rancheiras davam o tom na arena, e o furor
dos galos — a espora e sangue — excitava os apostadores. "Aquele é Pablo, um
homem que pode lhe ser útil", disse Jorge Mico a Griselda, num dos intervalos.
Ela o cumprimentou com simpatia e lhe pediu que voltasse para visitá-la. Pablo
fez isso dias depois na companhia de seu primo Gustavo. E foi com ela que
ficaram conhecendo mais de perto o tráfico de maconha e cocaína, e a guerra.
Enganam-se aqueles que pensam que Pablo foi o princípio e o fim do traqueteo,
como era chamado desde então o narcotráfico. (Traquetear não é, como muita
gente pensa, por onomatopeia, disparar, mas sim traficar.) Ali, naquele bairro da
Santísima Trinidad, o tráfico já tinha uma longa trajetória. Esse monte de
bairros proletários da periferia da cidade, em cujo céu explodiu o avião em que
morreu o cantor Carlos Gardel, acabou sendo um importante centro de
delinquência depois que um prefeito os declarou, por serem distantes e habitados
por pobres, a única zona de tolerância. Apesar da marcha de protesto do pároco e
das mães católicas, com a Virgem del Carmen levada no alto, os tratores do
município chegaram repletos de putas, que acabaram ficando para sempre.
Ali, no Santísima Trinidad, foi formado o grêmio dos chamados galafardos,
homens apaixonados por música antilhana e tango, bonitões que morriam em
disputas de amor e de honra. Era um tempo em que matar e morrer tinha uma
dose de dignidade, em que os duelos se iniciavam em pé de igualdade, não se
atacava ninguém pelas costas e as facas se moviam com cadência e ritmo,
anúncio de sangue. Os galafardos do bairro da Santísima Trinidad foram artífices
de uma linguagem nova, sonora e sedutora, que fundia o lunfardo do tango com
a slang gringa e acrescentavam palavras de invenção própria: os caminhões
eram patas-dehule, a cama, cambuche; a gravata, hélice; o espelho, luna; os
cigarros Pielroja, tiraflechas. Matar era chuliar, e o defunto, mufieco.
Linguagens estranhas construídas, no dizer da gente de bons costumes, sob a
influência dos defumadores e das pastas de seconal.
Os galafardos sonhavam com dólares, dolaretes, dolorosos... Para ir buscá-los,
Darío Pestanas e alguns outros formaram uma espécie de cartel de cosquilleros  como eram chamados os mãos de seda que despojavam as vítimas de suas
carteiras sem dor, com uma coceguinha, sem que elas percebessem. Viajavam
para o Panamá, Caracas, Porto Rico e Nova York para roubar no metrô, nos
ônibus e nas ruas, e voltavam para levar vida de bacanas, vida suave em bares e
prostíbulos, exibindo boa-pinta e boas meninas. Que a maconha enlouquecia, era
o que diziam os porta-vozes públicos. Darío Pestanas e outros galafardos não
faziam caso e, além de fumá-la, exportavam-na, aproveitando a vizinhança de
seu bairro com o aeroporto da cidade. Levar uma maleta com erva para os
Estados Unidos naqueles tempos, sem a Imigração, sem controle aduaneiro, era
fácil. "Um negócio para bobos", dizem. De volta, além dos dolorosos, traziam o
calo dos pachucos{8} mexicanos, o consumismo do sonho americano, os acetatos
com o swing dos habitantes de bairros latinos de Nova York — Ismael Rivera,
Cheo Feliciano, Barreto, Los Palmieri e todos os duros que logo formariam La
Fania. Pouco tempo depois, pediram cocaína, e eles, nem tímidos nem
preguiçosos, arrancaram o poder da neve, que se consolidou no mercado;
aprenderam que, como costumavam dizer, "como potência para o dinheiro, a
maconha é como a prata, enquanto a coca é mais que ouro".
Pestanas, pioneiro no uso de pequenos aviões para o tráfico de cocaína, usava
em suas operações várias empresas de fachada em Guayaquil e Quito, no
Equador; e Colón, no Panamá. A pasta que traziam do sul era lançada dos
aviões na parte norte da pista do aeroporto de Medellín, quando os aviões
aterrizavam. Os habitantes do bairro da Santísima Trinidad a recolhiam e a
levavam para os laboratórios. Transportavam a cocaína por terra até Urabá e de
lá passavam para o Panamá. Utilizavam rotas de contrabando que existiam desde
a época da Colônia. (Os visitantes da Colônia espanhola já descreviam os
antioquenos como talentosos, poupadores e perturbadores da paz.)
Pablo falava de Pestanas como um sujeito folgazão, bem-vestido, de trajes
verdes e gravatas verde-claras ou brancas e meias brancas. Do lavador de carros
que fora se transformou em um ativo assaltante. Embora tenha enriquecido,
conservava a cadência e o ritmo dos folgados e a belezura daqueles que se
criaram na vida dura do subúrbio.
"Pestanas saiu na revista Vanidades, disse-nos Pablo, mostrando sua foto na
página vermelha do jornal El Colombiano", lembra Arcángel. Aparece de
costeletas, usando gravata e barba de bode. Usava carros de luxo da Ford,
viajava pelo mundo, mas a prosperidade não pôs fim em sua inquietação.
Continuava nervoso, irrequieto, inseguro, não conseguia ficar por muito tempo
em lugar algum. Vangloriava-se de ter muitas amantes, mas todos sabiam que
algumas delas se queixavam de sua impotência.
Por volta da metade da década de 1970, a bonança se multiplicou. (Por 7 mil
dólares conseguia-se 1 quilo de coca na Colômbia. Nos Estados Unidos,
colocava-se num moedor, picava-se, acrescentava-se lactose, e ele se
transformava em 3 quilos. E 150 mil dólares.) Os carros de luxo davam volta
sem parar em exibição pública, as casas se encheram de budas de barriga
generosa e porcelanas orientais, de Vênus de Milo e esculturas de mármore, de
móveis dourados no estilo dos Luíses da França, pinturas fosforescentes e um
sem-número de objetos que os gostos refinados qualificaram como
quinquilharias, como estilo de novos-ricos. As rumbas se tornaram aparatosas,
instituíram a compra e venda de dólares, cassinos e cavalariças. Depois, como
se se tratasse de certa retaliação social, os filhos das putas, que a cidade havia
empurrado para o bairro da periferia, em sua condição de novos-ricos se
mudaram para o exclusivo bairro El Poblado, que por um tempo ganhou o nome
de Altos de la Santísima Trinidad. Os ricos tradicionais os receberam ao mesmo
tempo de bom grado e com desdém: "Que bom o seu dinheiro, mas que
folgados eles, filhos de negros pobres, praga de mau gosto!".
Pestanas levou ao altar Griselda Blanco — caribenha, tronco de fêmea, filha de
prostituta , que logo ficaria viúva e se tornaria mítica na guerra. Porque em
Trinidad, no bairro da Santísima Trinidad, a vendetta mafiosa teve seu primeiro
cenário. "Foram os próprios sócios que puseram o pijama de madeira em
Pestanas  conta Arcángel  , com inveja de seu poder cada vez maior, mataramno
em um posto de gasolina, a três quadras do Aeroporto Olaya Herrera." Assim
escreveu sobre sua morte um cronista judicial:
Enquanto ouvia música e revisava documentos, foi baleado à queima-roupa.
Pestanas, pistoleiro da velha guarda, não chegou a sacar a pistola Beretta,
carregada com projéteis blindados. Em seus bolsos encontraram algumas letras
de câmbio assinadas por agentes do corpo de segurança da cidade a quem ele
costumava emprestar dinheiro.{9}
Griselda  coração duro, esquecimento rápido  se casou com outro, Darío
Sepúlveda  homem fanfarrão, de vício e revólver , e, para que não ficasse
nenhuma dúvida sobre quem eram eles e o que queriam, batizaram seu primeiro
filho de Michael Corleone. Sepúlveda a envolveu em mil guerras pelo controle
do negócio, mas morreu rápido, e ela herdou seu poder e a guerra, que se
prolongaria até o final dos anos 1970. Com seus filhos transformados em tropa,
com rapazes da periferia como valentões, cúmplices no Exército e na Polícia,
jornalistas silenciados, cresceu a lenda da temível Griselda, a Rainha da Coca:
que matou o pai de um de seus filhos; que mandava executar seus próprios
sócios e, para completar a trama, assistia ao enterro como a mais sentida das
mortais e pagava os gastos do sepultamento; que tinha um anel da rainha Isabel,
que matava seus amantes depois das bacanais... Tantas realidades e lendas
fizeram-na merecer na literatura gringa sobre o narcotráfico o título de Viúva
Negra. O próprio chefe do B-2, a inteligência do Exército de Medellín, advertia
os jornalistas: "Cuidado, essa velha é muito astuta, muito brava, não aprontem
com essa velha Griselda, deixem-na em paz". "Eu sou filho dessa guerra", disse
certa vez Pablo ao jornalista colombiano Germán Castro Caycedo, explicandolhe
que ele e Gustavo Gaviria acabaram por se criar como bandidos na primeira
guerra entre clãs que migravam do contrabando para o narcotráfico. Os capos
brigavam por contas, por honra, por fêmeas ou porque sim, e uma vez decidido
o enfrentamento, que inclusive transcendia as fronteiras e se projetava em
Miami e Nova York, ninguém o segurava.
Desde 1973, as autoridades sabiam da vinculação do Padrino  Alfredo Gómez, o
grande capo do contrabando — com o narcotráfico. Um laboratório instalado em
Bogotá, várias casas de campo onde aterrizavam pequenos aviões mexicanos que
transportavam cocaína e duas empresas aéreas utilizadas para fins semelhantes
eram de sua propriedade. Apesar do escândalo, a justiça não podia processá-lo.
Segundo denúncia contida em uma notícia de jornal, a imunidade do Padrino se
evidenciava no fato de que sua fortaleza, no bairro de Santa María de los
Ángeles, em El Poblado, continuava intocável. Em seu interior permaneciam
sentinelas armados de pistolas metralhadoras Ingram e, fora, fortes pressões que
vinham de cima tiravam do meio os poucos oficiais que se atreviam a intervir.
Apesar das denúncias, o Padrino movimentava suas fichas políticas com
desenvoltura. Em 1974 se agitava no país uma ácida campanha eleitoral.
Disputavam a presidência dois herdeiros: Álvaro Gómez  filho do ex-presidente
Laureano, o godo, com um discurso arrasador e instigador do sangue  e
Alfonso López Michelsen, que nos anos 1940 havia causado a renúncia de seu
pai, Alfonso López Pumarejo, a seu segundo período presidencial por graves
acusações de corrupção.
Padrino, famoso desde jovem por ser um bêbado, mulherengo e propenso a
desavenças, apoiou Álvaro Gómez, de quem apreciava o perfil moralista e
repressor. Mas não adiantou! Alfonso López, que usou como símbolo em sua
campanha um galo de briga, o venceu. E, como o pai, se envolveu em
escândalos de corrupção.
No entanto, Padrino perdeu só parcialmente porque também havia apostado nas
coligações menores e conseguiu eleger vários senadores e representantes com
dinheiro de seu bolso. Em Dezembro de 1974, debatia-se no Congresso da
República sua influência sobre a classe política conservadora. Padrino contou
com a defesa incondicional do parlamentar Guido Parra — um advogado alto, de
nariz proeminente e inteligência aguda , que anos mais tarde viria a ser o portavoz
de Pablo.{10}
Enquanto a imprensa conservadora de Medellín mantinha silêncio sobre as
manobras políticas do Padrino, a imprensa liberal de Bogotá parecia disposta a
pôr o dedo na ferida. À medida que a polêmica esquentava, Pablo, que a
acompanhava com paixão, recortava e guardava zelosamente os extensos artigos
que apareciam diante de seus olhos como provas fidedignas do poder de seu
patrão.
Nesse mesmo ano, Pablo foi detido por estar dirigindo um carro roubado.
Descobriram, nas investigações, que não se tratava de um caso fortuito, mas de
um negócio que envolvia a compra de carros velhos ou em mau estado, em
desmanches, para usar suas placas em carros roubados. Na prisão La Ladera se
encontrou com o Padrino, que finalmente fora detido por contrabando
transportado em caminhões militares. O carregamento foi apreendido por um
coronel da polícia que resistiu ao suborno e, além do mais, deteve o mosca,
assim como os soldados e o capitão, que, como já se tornara costume, faziam a
escolta. Um juiz da alfândega ordenou a captura do Padrino como proprietário
da carga e o mandou para a prisão.
Àqueles que o visitavam, Pablo falava com admiração do companheiro preso.
Descrevia-o como uma pessoa de grande coração, que dava remédios e
alimentos aos presos pobres e lhes pagava fiança e advogados. O bom coração é
testemunhado por uma irmã do Padrino, pertencente a uma comunidade
religiosa, que recebia ajuda para suas obras sociais. Ela retribuía essa caridade
guardando no convento, com a permissão do Altíssimo, mercadorias proibidas.
Pablo também contava, com admiração, o fato de que haviam estado na cela do
Padrino políticos de estatura nacional, como Alberto Santofimio. A convivência
de Pablo com o mestre foi interrompida porque o Padrino teve que ser
transferido para a Clínica Santa María devido a uma emergência cardíaca.
Meses depois, foi libertado por falta de provas.
Pablo também saiu da prisão sem que seu delito pudesse ser comprovado, mas
em sua ficha ficou registrada a observação de um delegado da Procuradoria
denunciando-o pela morte de várias testemunhas e por outras irregularidades.
Entre os bandidos, ter passado pela finca — pois era assim, como casa de campo,
que chamavam a prisão — rendia pontos e prestígio. Por isso, para Pablo, seu
tempo de prisão acabou sendo uma espécie de graduação. Já era voz corrente
que Pablo e Gustavo se igualavam em tudo: dizia-se que haviam roubado um
caminhão com mercadorias na estrada de Gómez Plata e se tornaram os
pioneiros da pirataria terrestre; que roubaram dez automóveis da Renault, que
presentearam amigos, entre eles Humberto Buitrago, funcionário da área
judiciária, vizinho de bairro que lhes havia feito alguns favores; que assaltaram
o Teatro Manrique; que tinham uma moto vermelha de um lado e branca do
outro, para despistar as autoridades; que com essa moto vermelha — que Pablo
guardou como lembrança por muitos anos — assaltavam bancos; que eram
contratados como pistoleiros... que Pablo dirigia enquanto Gustavo atirava. E
assim, nessa época em que um crime ainda merecia manchete de primeira
página nos jornais de Medellín, eles contribuíram para a invenção desse tipo de
atirador, que era chamado de "assassino da moto".
Há quem assegure que em 1975 Pablo viajou para Bogotá como acompanhante
do Padrino para uma reunião de capos. Ficou assombrado ao ver tal
demonstração de poder e luxo. Viajaram em aviões particulares, hospedaram-se
em mansões alugadas especialmente para a ocasião e se protegeram com
quadrilhas de assassinos armados com pequenas metralhadoras e fuzis. Depois
de concordar, entre outras coisas, em organizar e financiar quadrilhas armadas
para enfrentar os sequestradores, que nessa época começavam a proliferar, se
despediram com uma estrondosa comemoração. Quinze deles, surpreendidos
pelas autoridades quando subiam cada um em seu próprio avião no Aeroporto
Eldorado, saíram completamente livres.
Nessas andanças, Pablo compreendeu que os chefes, apesar de seus pecados, se
moviam no mundo legal com uma liberdade surpreendente. Em Medellín, via o
Padrino, dom Alberto, o Rei do Marlboro, Griselda, os Bravo e seus súditos se
reunirem num puteiro de La Curva de El Bosque.
Com frequência as noitadas eram animadas por Macuá, um homossexual — uma
louca, como se dizia na cidade — que os divertia com suas excentricidades.
Macuá havia se tornado famoso por um desfile que, com o apoio dos mafiosos,
fez durante os anos 1970. Vestido de príncipe árabe, com sedas e turbantes, e
montado em um elefante, mandava beijos para a multidão. No dia a dia, quando
não estava se exibindo, Macuá se vestia de mulher, cumprimentava com
beijinhos no rosto e levava para todo lado um cesto de vime com agulhas e fios
para fazer sua roupa de crochê. "Pablo ria muito só de vê-lo e chegou a apreciálo
tanto que, tempos depois, lhe deu de presente um apartamento em Miami,
onde Macuá viveu por vários anos", conta Arcángel.
Pablo observava seus mestres sem perder nenhum detalhe: aprendia sua maneira
de fazer dinheiro, de gastá-lo, de ser inflexíveis e caridosos e de decidir sobre a
morte alheia. E aprendeu que o dinheiro era usado para subornar juízes e
policiais, para comprar políticos e para, de vez em quando, oferecer-se um
banquete de mulheres de pele fresca, seios novos e corpo trabalhado. Pablo
invejava seus patrões, queria ser como eles. Certa ocasião, ele os definiu como
modelos de sua juventude.
As acusações contra o Padrino não cessaram. Denunciaram-no perante a
presidência por se infiltrar na segurança do Estado e manter negócios ilícitos
com mais de 260 agentes, e por suposta participação no homicídio de
testemunhas. Apesar das extensas acusações, só foi possível detê-lo novamente
num caso parecido com o de Al Capone, por um delito banal: acharam em seu
edifício um circuito de televisão sem documentos legais. Na busca, também
foram encontrados uma balança e outros indícios de narcotráfico. O processo
coube a uma jovem juíza de instrução aduaneira.{11}
O Padrino foi outra vez para a prisão, com uma condenação de um ano, após o
que foi para a cidade caribenha de Cartagena. Voltou para Medellín já
aposentado porque, a seu ver, o negócio desenvolvido por pessoas de bem, com
aceitação social, havia desandado por permitir que os negrinhos e os pobres de
Envigado, Aranjuez e do Bairro Antioquia se metessem. "Pablo e esses
guerreiros ficarão com o negócio, são irrefreáveis", disse a seus antigos sócios,
recomendando-lhes que se aposentassem.
Nessa época em que se traficava quilo a quilo, Pablo e Gustavo camuflaram suas
primeiras viagens nos para-lamas de um automóvel Renault 4. Compravam a
base de coca no Equador, processavam-na em Medellín e a vendiam aos
exportadores, entre os quais já encontravam os Ochoa.
Depois Pablo afiançou contatos no Equador, por meio dos quais trazia base de
coca do Peru e da Bolívia. Certo dia, os homens de Pablo entregaram o dinheiro
e receberam a mercadoria. Minutos depois foram detidos pela Polícia
equatoriana. O episódio se repetiu várias vezes. Pablo descobriu que seus
contatos equatorianos o traíam, executou vários deles e deixou ao lado dos
cadáveres uma mensagem: "Para que vocês saibam com quem estão lidando".
Desde então decidiu trabalhar sem intermediários e conquistar com colombianos
a rota do sul. Viajou para o Peru e estabeleceu canais para multiplicar os envios
da base de coca. Mario Henao, seu cunhado, se tornou um cozinheiro
experiente, melhorou a qualidade e aumentou a produção de coca.
À medida que seus homens viajavam, iam se relacionando com guardas,
ditadores e governantes, assim como com velhas e novas máfias. Na Bolívia,
fizeram contato com militares e fugitivos nazistas — como o Açougueiro de
Lyon, Klaus Barby — que lidavam com o comércio da base de coca nas selvas.
Os homens de Pablo viram ali como os seguidores de Hitler, quarenta anos
depois da Segunda Guerra Mundial, em plena selva, continuavam usando
uniforme e desfilando em honra do grande Führer. Essas máfias, das quais
participavam militares, nazistas, políticos, punham e tiravam, a seu capricho,
ditadores na Bolívia.
Pablo, ao completar 25 anos, estava no lucro, pois já havia ultrapassado em
muito sua meta de ter um milhão de pesos. "Você se livrou do suicídio, bacana",
disse-lhe Arcángel, lembrando-o da promessa que havia feito, numa tarde já
longe, de tirar a própria vida se aos 25 anos não tivesse essa soma de dinheiro.
Ele respondeu com um sorriso.
A família Henao não se acostumou com o fato de Victoria continuar envolvida
com um homem que nem estudava nem tinha uma profissão certa. A
desconfiança não era gratuita. Deixando de lado sua origem pobre, segundo os
rumores, Pablo já tinha má reputação.
Mas como o amor tudo vence, ela contrariou a proibição da mãe e, usando
muitas artimanhas, resistiu aos castigos para manter a relação, e em março de
1976, com apenas 15 anos, fugiu de casa. Mario suspeitou que Pablo a houvesse
levado à força. Correu até o aeroporto e, nos registros de passageiros, constatou
que Pablo e Victoria haviam embarcado num avião rumo à cidade de Cali.
Como a avó dos Henao vivia naquela cidade, telefonaram-lhe para que ela os
esperasse no aeroporto. A avó, ao surpreendê-los, disse a Pablo: "Para levar a
mocinha, tem que casar", e o levou pela orelha até o altar.
De volta a Medellín, o casal se instalou em um apartamento de dois andares no
bairro El Poblado. No primeiro andar, ficavam a cozinha, a área de serviço, uma
sala e a copa. No de cima, ficavam os quartos.
Em 11 de junho, Pablo deu mais um tropeção que interrompeu seu recente
casamento. A notícia foi publicada pelo jornal El Tiempo, com fotos e tudo,
uma extensa matéria intitulada: "Caiu cocaína em Itagüí, por 23 milhões de
pesos"{12}, com a qual Pablo começou sua coleção pessoal de artigos de
vaidades. Os Yards — como eram chamados os funcionários do Departamento
Administrativo de Seguridad (DAS) — estavam seguindo alguns membros de seu
bando. Em Ipiales, no sul do país, eles foram vistos recebendo a mercadoria e
camuflando-a nos pneus de um caminhão modelo Ford 54. Os Yards os
rastrearam até Medellín, e na Quarta-feira, 9 de Junho, às 7h30 da manhã,
ocuparam a Sorveteria La Playa, no município de Itagüí. Detiveram o motorista
e seu ajudante. No pneu de estepe encontraram dez quilos de cocaína. Os
agentes iam com o encargo do chefe, Carlos Monroy Arena, de se deixar
subornar para tentar chegar aos cabeças da quadrilha. O motorista do caminhão
deu um telefonema. Minutos depois apareceu Pablo, com Gustavo e seu cunhado
Mario, para enfrentar a situação. Pablo cumprimentou de modo amável os
agentes e os convidou a se sentar a uma mesa. "Tudo na vida tem solução",
disse, enquanto fazia um pequeno cilindro de papel com os dedos anular e
médio da mão direita, gesto característico que fazia quando seu instinto se
aguçava. Percebeu que os agentes estavam receptivos. "Dou-lhes cinco mil
dólares como adiantamento de uma cifra mais gorda, e tudo fica em ordem",
dizia ele, quando outros agentes ocuparam a sorveteria. "Estão presos por tráfico
e tentativa de suborno." Retiveram seus três veículos e levaram-nos para a
prisão. Na foto da matéria, Pablo tem o "escapulário" 128482 da Prisão do
Distrito Judicial de Medellín. Está sorridente, muito sorridente. "É curioso. É a
única fotografia das centenas já mostradas de Pablo na qual ele esboça um
sorriso e mostra seus belos dentes", sublinha Arcángel.
Manieta Espinosa — uma mulher alta, magra, inteligente e honesta — exercia a
função de juíza em Itaguí e teve que assumir o caso. Quando se iniciou o
processo, como surgiram ameaças, ela se mostrou irredutível: "Se tiver que
morrer por meter alguém na cadeia, por mais importante que seja, morro", disse
ela.
Quando Victoria visitou Pablo na prisão, encontrou-o inquieto e com planos de
fugir. "Não vá fazer essa loucura", disse ela com sua característica autoconfiança
e o convenceu. Mas no dia seguinte, diante de uma ação do Exército fora da
instituição penal, Pablo se encheu de temores, pulou um muro e fugiu. Foi dona
Hermilda, sua mãe, que ajudou a localizá-lo e convencê-lo, em tom de
reprovação, a voltar para a prisão.
Desde esse momento, Pablo concentrou a atenção no judiciário. Conseguiu, sem
que a decisão fosse aprovada pela Corte Suprema de Justiça, não se sabe com
que artimanhas, que o processo fosse transferido para um tribunal da distante
cidade de Ipiales, argumentando que a mercadoria fora comprada lá. Como
advogado, Pablo contratou para defendê-lo um irmão do próprio juiz que havia
recusado a oferta de suborno. O novo juiz concordou, em troca de dinheiro, em
colocá-lo em liberdade em poucos meses.
Mariela Espinosa teve que arquivar o caso, mas não isentou Pablo e seus
homens, além de deixar registrado que o diretor do DAS, os detetives e ela
própria haviam recebido ameaças. Pablo não a matou, mas por sua obstinação
condenou-a a andar a pé pelo restante da vida, pois cada vez que ela comprava
um carro, ele o roubava, jogava-o num precipício ou o incendiava. Dois dos
agentes que participaram da operação e Monroy Arenas, o diretor do DAS em
Medellín, foram assassinados.
No dia 24 de fevereiro de 1977 nasceu seu primogênito. "Nasceu homem,
senhores, nasceu homem...", dizia Pablo a seus amigos, meio que entoando o
estribilho de uma salsa. Sentia-se orgulhoso: Juan Pablo, como foi batizado,
levaria seu sobrenome e seria seu herdeiro. O neto e a riqueza cada vez maior
do genro mudaram a opinião de dona Nora de Henao, que acolheu Pablo como
mais um membro da família.
Para Pablo e os outros traficantes, os anos seguintes seriam chamados de Idade
de Ouro. "Coroar" era a palavra dita quando se queria conseguir que um
carregamento chegasse aos Estados Unidos. E a conjugação desse verbo
desencadeava festas inesperadas e comemorações com pólvora em meio à
silenciosa cidade, sem que seus habitantes entendessem a origem dos estrondos.
Pablo processava a cocaína e a vendia a outros grupos, como o dos Ochoa, que a
transportavam e vendiam nos Estados Unidos. Como não havia dinheiro
suficiente para movimentar o crescente negócio, num primeiro momento foram
criadas várias modalidades de participação, como as natilleras — que reuniam o
dinheiro de vários sócios, e os apuntados  levar outras pessoas na viagem , o
que permitia que os narcos naquele momento conseguissem capital para
movimentar o negócio e que pessoas da alta sociedade obtivessem benefícios
sem se envolver muito.
Mais adiante, como os compradores em Medellín já não eram suficientes, Pablo
se aventurou na conquista da rota do norte, dos Estados Unidos. Pilotos
aventureiros viajavam, mais pelo instinto do que pela técnica, poucos metros
acima do nível do mar para fugir do controle dos radares. Alguns bombardeavam
cocaína nas ilhas do Caribe, de onde a recolhiam em lanchas rápidas; outros,
mais ousados, aterrizavam em estradas da Flórida. Muitos naufragaram nessa
aventura. (Há quem se lembre de que um governador de Antioquia morreu de
pesar porque um de seus filhos se perdeu no mar quando tripulava um pequeno
avião carregado de cocaína.)
Estabeleceram-se redes de distribuição nas grandes cidades dos Estados Unidos,
desalojando num piscar de olhos as máfias tradicionais, como as italianas e
cubanas, que foram se retirando por considerar os colombianos temerários e
violentos demais.
Para Antioquia e Medellín, diante da queda de suas indústrias tradicionais, o
tráfico surgiu como uma tábua de salvação. Naquele tempo, era tímida a moral
que julgava o negócio da exportação de cocaína. Ele era visto como uma
indústria próspera que continuava a tradição do contrabando. Pablo, em um
manuscrito retido pela Polícia anos depois, pensando a respeito do ilícito das
drogas, citou à sua maneira sóror Juana Inés de la Cruz:
Quem tem mais culpa, embora qualquer mal faça: quem peca pela paga ou
quem paga por pecar?
Pablo comprou uma suntuosa mansão diagonal ao Club Campestre, o clube dos
ricos tradicionais da cidade. Ali, em 2 de dezembro de 1977, comemorou com a
família e os amigos seus 28 anos. No mesmo setor também compraram Fidel
Castano, Pablo Correa, os Ochoa e outros capos. Foi nesse momento, depois da
venda de suas propriedades em dólares, que os ricos de Medellín, com mais
lustro que dinheiro, se tornaram verdadeiramente ricos. Enquanto falavam mal
dos narcos, tentavam tudo o que era possível para fazer negócio com eles. Até
as bibliotecas de alguns de seus avós, fundadores da República, ficaram nas
mãos dos novos proprietários, enquanto eles se mudaram para apartamentos
para ter mais capacidade de investir e gastar. Mas, como vinham de uma
sociedade de alto valor moral, não reconheciam publicamente que estavam
vendendo a traficantes e preferiam dizer que haviam vendido a um "rico criador
de gado".
Para captar dólares do tráfico como divisas para a nação, o presidente López
liberou o regime cambial e estabeleceu o chamado "guichê sinistro", no qual o
Banco de la República permitiu a lavagem dos dólares do tráfico de maconha e
cocaína. Na comemoração do Natal de 1977, notou-se, como nunca, a bonança
da família Escobar Gaviria. Segundo o costume, montaram o presépio, a árvore
com luzes e guirlandas - luzinhas coloridas nas janelas e árvores na fachada da
casa; rezaram todos os dias a novena e prepararam doces e bolos. Pablo, que
havia passado a noite de Natal com Victoria e o filho na casa de dona Hermilda,
foi generoso em presentes. Os destaques, no entanto, foram o carro que deu de
presente a Fernando, seu irmão mais novo, por quem sentia um carinho
especial, e a casa de dona Hermilda no setor do estádio, com um grande terraço
onde oferecia festas com o grupo musical Los Ayers, com muitas flores,
fantasias e comida fina, como ele havia sonhado.
Pablo queria que todos os seus amigos e vizinhos desfrutassem de sua riqueza,
por isso nessa noite também os ajudou, dando-lhes coisas que lhe pediam com
mais frequência para sair de situações difíceis: cirurgia de uma menina,
pagamento da hipoteca da casa, de estudo... Ele colaborava com generosidade.
Na manhã de 25 de dezembro, ele acordou com um telefonema de sua mãe: "Ai,
mataram Fernando e Piedad". "O que aconteceu?", perguntou ele, ainda meio de
ressaca. "Não se sabe de nada. Ele pediu a Arcángel que o apanhasse para leválo
a Envigado." Fernando, tímido como Pablo, havia conquistado Piedad, uma
vizinha do Parque de Envigado. No início lhe mandava recados e bilhetes pelos
amigos, sem se atrever a uma aproximação direta. Depois se decidiu e, já aceito,
visitava-a na moto vermelha de Pablo. Eles mantinham um relacionamento
típico, com brigas tolas, e discos e talcos perfumados como presentes de
reconciliação. Atendendo a um pedido de Fernando, dona Hermilda conseguia
que permitissem, às Sextas-feiras, depois de sair do colégio, que Piedad os
acompanhasse nos passeios de fim de semana. Ela trocava o uniforme por jeans
e camiseta e os acompanhava até a finca de campo de Abelito; Piedad, sem
dúvida, amava Fernando, embora de vez em quando deixasse escapar uma
queixa, e sua mãe lhe dizia: "Essa gente está metida em coisas malucas. É você
que resolve".
Fernando, ao terminar o segundo grau, aceitou o convite de Osito para trabalhar
em sua fábrica de bicicletas, em Manizales. Viajava para Medellín toda semana
para ver Piedad, enquanto esperava com paciência que ela se formasse e eles
pudessem se casar. Mas Piedad estava indecisa. Nos primeiros dias de
dezembro, o rapaz que entregava o jornal em sua casa havia morrido afogado
com a namorada num balneário fora da cidade. "Que bom morrer com o noivo",
disse Piedad. "Não diga bobagens", disse dona Consuelo, sua mãe. A cerimônia
de formatura se realizou em 23 de dezembro. Fernando não pôde comparecer,
mas pediu a sua irmã Gloria que levasse rosas. "Isso dá má sorte", disse Gloria,
ao ver as flores murchas que colocava na mesa. "Todas vocês deram para dizer
bobagens", disse a mãe de Piedad.
No dia 24, Fernando, estreando o carro, foi buscar Piedad. Durante o dia,
subiram a El Tablazo, até a finca de Abelito; passaram a meia-noite na casa de
ambas as mães para felicitá-las pelo Natal e saíram de novo juntos. Tinham um
motivo duplo para comemorar: o aniversário de namoro e a formatura. Dona
Consuelo viu chegar o novo dia acordada e, preocupada porque a filha não
costumava amanhecer fora de casa, saiu para procurá-la. "Passou a noite em
claro?", perguntou ao subir no táxi. "Sim, senhora, amanheci vendo um
acidente." "E como era o carro do acidente?" "Um Toyota vermelho." "E como
se chamavam os defuntos?" "Parece que era um casalzinho." Dona Consuelo,
com a certeza de seu instinto de mãe, pediu que a levasse ao anfiteatro. Ao ver
os corpos de Piedad e Fernando, correu desesperada para a casa de dona
Hermilda. Pablo ouviu atentamente algumas versões sobre o ocorrido. Como o
carro estava sem placa, o papel da licença para circular no trânsito devia ter sido
arrancado pelo vento. No riacho La Ayurá, a polícia os teria parado por falta de
identificação. Também é possível que tenha ocorrido da seguinte maneira:
Fernando estacionou o carro depois do riacho, numa área residencial solitária, e
começou a beijar Piedad, e as carícias se prolongaram até escandalizar os
vizinhos, que acabaram chamando a polícia. O que se segue é igual nas duas
versões: um policial bêbado, que não sabia dirigir, golpeou Fernando com a
coronha do revólver, empurrou-o para o assento do passageiro e pegou no
volante. Ao sair da avenida a toda a velocidade, atirou o carro contra a calçada e
o lançou no riacho. Ali ficaram os três.
Quando os outros membros da patrulha voltaram à estação, o comandante,
inteirado de todos os pormenores, os advertiu: "Vocês não sabem no que se
meteram. Vão ter que se haver com o fodidão", disse ele, pensando na reputação
que Pablo já tinha.
Essa tragédia, de quebra, propiciou a Pablo a amizade com René Meza, o
médico que, mediante um ótimo pagamento, fez as autópsias. Ele era líder
político liberal de Envigado e, desde então, aliou-se a Pablo para tomar o
controle político do município e dar a ele proteção e imunidade.
O enterro do casalzinho foi um acontecimento. Do bairro de La Paz saíram os
homens carregando o féretro de Fernando e, acompanhados por centenas de
pessoas, caminharam até a casa de Piedad; lá, suas colegas de colégio, vestidas
de uniforme  camisa e meias brancas, saia e sapatos vermelhos, carregavam o
dela. Os dois cortejos se reuniram e prosseguiram até a Igreja de Santa
Gertrudes, no parque principal. Todos, inclusive os homens, choravam
descontroladamente. Pablo e Gustavo todo o tempo estavam acompanhados por
seus guarda-costas, numa demonstração de poder que todo o povo sentiu.
Naquele tempo se dava preferência a homens adultos e bem-vestidos; eles não
gostavam dos jovens desatinados que recrutaram mais adiante. Os dois foram
enterrados em jazigos contíguos. (Dona Hermilda — mãe na vida e na morte ,
todos os sábados, por volta das 9h30 da manhã, os visita no cemitério, enfeita os
túmulos com crisântemos, antúrios e açucenas. Todo início de novembro, no dia
das almas, ora para eles de modo especial.)
Ao sair do cemitério, Pablo e seus homens abordaram dois camponeses. A
poucas quadras dali, um policial lhes fez sinal para que parassem. "Identidade."
"Não temos", respondeu Pablo. "Licença para uso de armas." "Também não
temos." "Por que andam sem documentos e sem licença?" "Porque somos
bandidos", disse Pablo, com tranquilidade e uma segurança de pasmar. Arcángel
observou como o policial, petrificado diante da imponência do personagem e de
suas respostas, deixou que seguissem. Todos caíram na gargalhada, pois se
sentiam contagiados pelo poder do chefe.
Pablo e Gustavo foram saindo da penumbra que os mantinha num anonimato
sempre igual e insuportável e começaram a circular em busca de um cenário que
desse sentido a sua riqueza. Em seu caso, como no de muitos outros, o mais
fácil de adentrar foi o dos esportes. Tornaram-se competidores em corridas de
motociclismo e automobilismo. Pablo, além de suas habilidades, se valia de
tramoias. Arcángel lembra que na competição Subida do Santa Elena o rival era
o bem-sucedido piloto Ricardo Cuchilla Londoño. "Pablo me chamou e disse:
"Cuchilla seguramente vai sair na frente; então, vá para o quilômetro 20 e regue
a espalhe na pista tachinhas para furar seus pneus, e logo que ele passar, varra
tudo com uma vassoura, porque logo atrás virei eu". Assim se fez."
Pablo proclamou, com bumbo e pratos, seu triunfo diante dos microfones da
rádio à qual pagava grandes somas pela transmissão dessas competições. No
arquivo está a fotografia dele cercado de jornalistas. Apresentavam-no como
homem do progresso e se lembram dele como alguém rodeado de guarda-costas,
distante, mas com ar de vencedor. Em outra foto, depois de uma corrida oficial,
Pablo usa uma coroa de louros que o identifica como vencedor.
Ao se iniciar 1978, Pablo deixou crescer o bigode, que o caracterizaria pelo
restante da vida, e conseguiu realizar um de seus maiores sonhos: a compra dos
primeiros 531 hectares de sua fazenda, entre as grandes extensões de terra de
criação de gado e mata fechada da vertente da cordilheira Central, na região do
Magdalena Médio.{13}
Ele havia visto terras em várias regiões do departamento sem encontrar o que
procurava, até que um intermediário o levou a Puerto Triunfo. "São terras
bonitas, novas, e por lá logo passará a autoestrada, deixando-a só a três horas de
Medellín e a umas cinco horas de Bogotá", lhe diz para convencê-lo. Ele aceita
ir vê-las. Saem numa Quinta-feira, às 14:00. Como até o momento só
existem caminhos estreitos, Paulo, Gustavo, Mario, Arcángel, três guarda-costas
e o guia montam em barulhentas motos de prova, de 250 cm3 de cilindrada. A
caravana para várias vezes para tomar aguardente e fumar maconha.
Em meio à bebedeira, há muitas piadas e brincadeiras pesadas, como apostar
corrida e um derrubar o outro em alta velocidade. Na verdade, eles parecem um
grupo de adolescentes malcomportados. A esse passo, às 7h00 da noite,
fustigados pela chuva, na metade do caminho o guia lhes recomenda que
durmam em San Carlos. Uma hora mais tarde, fazem uma entrada estrondosa no
silencioso lugarejo, em que o comércio está fechado e todos parecem dormir.
"Arcángel, precisamos de roupa e comida, você sabe como é", diz Pablo,
entregando-lhe um maço de notas. Oferecendo pelos produtos o quádruplo ou
quíntuplo do preço, convence o dono do armazém e do restaurante a abrir as
portas. Todos se abastecem de roupas, sapatos e mantas. No dia seguinte,
retomam o caminho. Na entrada de San Luis encontram uma tropa de mulas.
"Devagar, devagar", grita o guia, "as mulas se assustam." Como se tivesse dito
exatamente o contrário, Pablo acelera e a caravana o segue. Com o barulho, os
animais saem em disparada pelas ruas do povoado. As mulas, nas curvas,
escorregam no pavimento e se estatelam contra uma casa, contra um caminhão
de escada, contra... e causam grande comoção. O guia olha para eles
assombrado. A tropa vai em frente contagiada pelas risadas.
Ao sair de San Luis, alucinados pelo calor e a umidade da selva, pela bebida e a
maconha, Pablo e o guia se acendem numa competição tenaz, com uns saltos e
uma velocidade que por várias vezes parecem arrebentados. No caminho,
encontram uma mula com uma carga de madeira. O guia tenta frear, a moto
resvala, e ele, ao ver-se em cima do animal, se joga. A moto continua e vai de
encontro à mula, lhe arrebenta as patas e a joga no chão. Pablo, com uma
habilidade extraordinária, vai firmando sua moto no chão, enquanto se abaixa.
Corre para ver o que houve com seu companheiro. Nada. Ele não acredita. O
camponês olha espantado para o animal, que geme, enquanto seu sangue se
espalha em quantidade sobre a areia. O restante da caravana chega. "Não se
preocupe, velho. Quanto vale sua mula?", pergunta Pablo. "Trinta mil pesos".
"Vou lhe dar cinquenta mil para que fique tranquilo, mas o que vamos fazer
com a mula? Eu pago por ela, mas não vamos deixá-la sofrendo; tome isto,
Arcángel!", diz Pablo, que não suporta ver o sofrimento de animais e
imediatamente lhe passa uma pistola. Arcángel dispara pela primeira vez. Com
tranquilidade, "foi por uma causa nobre", diz ele. O animal dá duas sacudidas, e
dois tiros na cabeça o levam desta para melhor. Por fim, chegaram a Puerto
Triunfo. Percorreram algumas ruas do pequeno povoado e pararam na barragem,
à margem do imenso rio Magdalena, que ali, na metade do percurso que faz de
sul a norte do país, passava lento e ainda limpo de tanta morte que arrastou nos
anos que se seguiram. Viram diversas casas de campo e se deleitaram com os
rios de águas transparentes e pisos de mármore que cruzam a região. Chegaram
à casa onde iam se alojar. O anfitrião era um homem da vizinhança de
Envigado com quem Pablo trocara socos quando menino, brigando por causa de
namoradas. Depois de se cumprimentarem e relembrarem suas histórias, eles
passaram a falar de negócios. "A casa de que gostamos é esta", disse Pablo;
"Pablo, esta terra não está à venda, é herança, e todos os irmãos investimos
muita energia..." "Nesta vida, tudo se vende..." "Não, nem tudo se vende, esta
terra não está à venda." "Diga-me uma coisa, embora não me venda, quanto vale
esta casa?" "35 milhões de pesos." Gustavo Gaviria ria em um canto,
convencido de que venceriam com uma oferta para o homem. "Dou-lhe o dobro
por ela — 70 milhões de pesos", disse Pablo. "Não, não está à venda", "Então
quanto vale? Peça." "Desculpe-me, mas não está à venda. Nem tudo se vende."
A conversa terminou áspera. Arcángel, que havia observado com expectativa o
desafio, secretamente admirou a firmeza do anfitrião, que resistiu à oferta por
mera dignidade. No dia seguinte, visitaram outras fincas. Acabaram comprando
terras por um preço três ou quatro vezes maior que o valor comercial da época,
e nelas Pablo construiu sua Fazenda Nápoles, que durante anos seria o centro
de seu reinado.
Sobre o alto da fachada, instalou um pequeno avião de matrícula HK 617-P,
com o qual, segundo se repetiu mil vezes, coroou sua primeira viagem de
cocaína para os Estados Unidos. Ao lado, instalou uma cerca grande: "Aqui
protegemos a natureza". A quatro ou cinco quilômetros da estrada, construiu a
casa principal, com todas as comodidades: bar, piscina, salão de jogos, sala de
jantar para sessenta pessoas, e mandou cavar depósitos onde guardava toneladas
de comida para um batalhão, fez uma pista de aterrizagem, hangar, comprou
setenta motos, carros-anfíbios, caminhonetes, esquis, aerobarcos, instalou um
posto de gasolina, centro médico, cavalariças e um zoológico. Tinha uma casa
adicional a uns cinco minutos da casa do mordomo, com acesso por meio de
carreta.
Para a inauguração, convidaram uma multidão de pessoas. Pablo e Victoria
chegaram em seu primeiro helicóptero — branco com listras alaranjadas.
Discretos em sua maneira de ser, eles contrastavam com alguns dos guardacostas
e familiares, que ostentavam correntes e anéis. Cumprimentaram os
serviçais com tanta amabilidade que alguns pensaram que os guarda-costas, que
andavam acima do chão, como pavões, eram os patrões. Eram esperados por
cerca de trezentos parentes, convidados para essa apresentação de sua nova
condição. Já não seriam mais os primos pobres, os que viviam no extramuros
do bairro La Paz. Não. Agora viviam em El Povoado, de frente para o Club
Campestre, em uma luxuosa casa de dois andares, com piscina e prados. E na
Rua 10, acima do parque, em setores exclusivos. Não os movia nenhum
sentimento negativo. As portas estariam abertas para toda a família. Os
negócios, em expansão e bem-sucedidos, permitiam que muitos encontrassem
um lugar.
Pablo, sem esquecer seu passado humilde, havia chegado a metas longínquas e
pessoas poderosas que antes considerava inalcançáveis. Suas obras faziam-no
sentir-se capaz de realizar novos sonhos. Sentava-se na sacada com sua imagem
inalterável: cabelo repartido de lado, pequenas costeletas, buço, sempre vestindo
jeans, camisas claras com listras finas, botas americanas ou tênis. Um homem
robusto, sensível e paroquiano que não usava joias, nem correntes, nem anéis,
apenas um relógio fino. Uma aparência que não condizia com sua fama de
homem poderoso. Só impressionava um pouco algumas pessoas quando elas o
viam ajeitar um calibre 22 que usava amarrado na panturrilha, escondido sob as
calças. À tarde, saía para percorrer a fazenda ou recebia convidados especiais,
gente de cinema e teatro, esportistas, humoristas e políticos na cabana de

Honduras.

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