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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

ASCENSÃO E QUEDA DE PABLO ESCOBAR – CAPÍTULO 3


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Pablo Escobar, ASCENSÃO E QUEDA DO GRANDE TRAFICANTE DE DROGAS, de Alonso Salazar J, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah




CAPÍTULO 3



Palavras por Alonso Salazar




Em 1978, Julio César Turbay, do Partido Liberal, e o paisa Beliisario Betancur 
Cuartas, do Partido Conservador, disputavam a presidência da República. Nessa campanha, foram os conservadores os primeiros a mencionar a relação entre os narcotraficantes e a política. Num cartaz de propaganda, aparecia uma caricatura de Turbay com ar de mafioso e a legenda: “Não deixe que comprem a presidência”, e o ligavam aos marimberos da costa atlântica.

Turbay ganhou as eleições, mas sua imagem internacional não era das melhores: 
o programa de televisão americano Sessenta Minutos apresentou um extenso relato sobre o que o vinculava ao narcotráfico.

Falamos de um tempo em que a Colômbia era um país perdido na América 
Latina, tradicional quintal dos Estados Unidos, com um regime político fechado, tornado hegemônico por dois partidos tradicionais; as aristocracias, sem possuir títulos de nobreza, eram excludentes e sangrentas em suas disputas pelo poder. A guerra civil liberal-conservadora, a Violência, havia gerado um deslocamento de população tão dramático que em duas décadas o país, de rural, passou a ser de grandes cidades, com periferias habitadas por milhões de pobres. Em 1958, para cessar o confronto, as cúpulas dos partidos Liberal e Conservador subscreveram um acordo político no qual, durante dezesseis anos, decidiram se alternar a cada quatro anos no controle do Estado. Num período, o presidente seria um liberal, e no seguinte, um conservador. Mas nesse pacto não estavam incluídas reformas sociais, nem as massas camponesas e os novos pobres da cidade.

Alguns líderes guerrilheiros que haviam entregado suas armas ao governo foram 
assassinados nas ruas. Diante do que assumiram como traição, parte das guerrilhas camponesas, lideradas por Manuel Marulanda e Jocobo Arenas, evoluiu para posições comunistas. Como resposta, aviões oficiais bombardearam essas pequenas guerrilhas, precariamente armadas, que reclamavam o direito à terra e à democracia, e as obrigaram a penetrar nas selvas do sudeste do país, onde sobreviveram por décadas sob o nome de FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Por influência da Revolução Cubana, surgiram outros dois grupos guerrilheiros – o ELN (Exército de Libertação Nacional) e o EPL (Exército Popular de Libertação) – com influência sobretudo em setores camponeses e estudantes universitários. Essas guerrilhas se mantinham fragilizadas por suas divisões sectárias e expurgos internos, e pelo férreo controle do exército, a linha divisória nas extensas e recônditas selvas do país.

E ainda faltava outro grupo. Em 19 de Abril de 1970, Misael Pastrana, candidato 
dos partidos tradicionais, e o general Gustavo Rojas Pinilla, em nome de um movimento populista, a Aliança Nacional Popular (Anapo), se enfrentaram pela presidência da República. Os partidos tradicionais no poder, em uma eleição inflamada e questionada, entregaram o poder a Misael Pastrana. Diante desse fato, um setor revolucionário da Anapo decidiu formar um novo grupo armado e adotou, pela data considerada uma fraude, o nome Movimento 19 de Abril (M-19). A existência de quatro grupos guerrilheiros era o anúncio de que o país tão cedo não sairia do labirinto de suas ancestrais violências.

O M-19 ressoou nos meios de comunicação pela espetacularidade de suas ações militares. Seus comandos roubaram a espada do libertador Simón Bolívar de sua casa-museu para adotá-la como símbolo de luta, retiraram por um túnel milhares de armas do Quartel Central do Exército, em Bogotá, e frequentemente assaltavam caminhões com víveres, que distribuíam nos bairros pobres das grandes cidades. O governo de Turbay, para fazer frente a eles, atacou-os com detenções em massa e torturas, até conseguir capturar a maioria de seus comandos. A frase do coronel Nungo, É melhor condenar um inocente do que libertar um culpado, resume a arbitrariedade que os militares aplicaram nessa ofensiva.

O M-19 respondeu a esse ataque com o lançamento de um par de potentes 
morteiros no Palácio Presidencial e com a ocupação, em 27 de Fevereiro de 1980, da Embaixada da República Dominicana em Bogotá. Duas dezenas de embaixadores que comemoravam o dia nacional dominicano foram capturados como reféns por um comando que pretendia trocá-los por prisioneiros políticos. Embora não tenham conseguido atingir seu objetivo, satisfeitos com o impacto nacional e internacional, os guerrilheiros abandonaram o país. Uma multidão entusiasta despediu-se deles como heróis ao longo da Avenida Eldorado, em Bogotá, quando se dirigiam de ônibus ao aeroporto a fim de tomar um avião para Cuba, onde finalmente libertaram os reféns. As palavras do M-19 contrastavam com a cartilha rígida da esquerda marxista-leninista, pela primeira vez uma guerrilha colombiana ancorava sua luta em símbolos nacionais e usava uma linguagem popular. Jaime Bateman – comandante da organização, homem alto, de nariz enorme, loquaz como ninguém – afirmava que a revolução era uma festa e dava declarações à imprensa arrumando o cabelo de secador na mão.

Todos esses fatores contribuíram para que alguns narcotraficantes vissem com 
simpatia o M-19. Pablo, por seu espírito rebelde, pelos discursos que ouvira no liceu, se declarava amigo da guerrilha. “Esses caras são muito corajosos”, dizia, maravilhado com suas ousadias militares. Os insurgentes, por seu lado, olhavam para os narcos como gente rara que, em todo caso, poderia ser uma boa fonte de recursos.

Por esses dois fatores, por causa das guerrilhas e dos narcos, o governo dos 
Estados Unidos tinha os olhos voltados para a Colômbia. No país, especialmente em sua zona caribenha, o cultivo da maconha já havia se estendido. Os corpos desse tráfico, conhecidos como marimberos, gozavam de enorme popularidade por seus gastos desenfreados nos carnavais e por suas intermináveis guerras de clãs. Ainda que na Colômbia os vínculos com a classe política lhes permitissem movimentar-se com impunidade, nos Estados Unidos o puritanismo republicano pregava a guerra contra a maconha e a cocaína, numa cruzada semelhante à luta contra o álcool nos anos 1920.

Turbay, para se congraçar com os Estados Unidos, bloqueou por água e ar a 
saída de maconha, destruiu extensos cultivos e, em 1979, sem que o país tomasse pleno conhecimento disso, subscreveu o Tratado de Extradição que daria origem, na década seguinte, a uma grande confrontação entre setores do narcotráfico e o Estado. O tratado, uma vez aprovado pelo Congresso da República, foi assinado, numa das viagens do presidente ao exterior, pelo ministro Germán Zea Hernández, que o representava naquele momento. O narcotráfico foi se consolidando, até se tornar quase tema das relações binacionais.

As histórias cruéis e fantásticas sobre o narcotráfico corriam de boca em boca, 
mas o tema não era debatido publicamente. Raras vozes, como a de Luis Carlos Galán, um jovem dirigente liberal, se faziam ouvir para denunciar. Em 1976, ele escreveu, a propósito de um companheiro de partido: A morte atroz de Rubio Pupo o transforma em um símbolo que reclama do governo, dos partidos, da imprensa e de todas as instituições-chave da sociedade uma frente unida intransigente contra a sombria coalisão das três máfias dispostas a impor suas leis na Colômbia, a serviço do tráfico de drogas, do contrabando e do negócio ilegal de esmeraldas, e que chegaram ao ponto de colocar seus agentes na própria administração do Estado e no Congresso. Galán – figura quixotesca de nariz adunco, homem introvertido e seguro de si – havia sido ministro da Educação aos 27 anos e, mais tarde, senador da República. Em 1978, quando decidiu ser candidato ao Conselho de Bogotá, formou uma equipe de colaboradores entre os quais incluiu Alberto Villamizar, um concunhado seu que exercia na época a função de gerente de vendas de uma fábrica de pneus e que, pelo conhecimento que tinha da cidade, o ajudou a traçar a estratégia eleitoral de Bogotá.

Eleito conselheiro, Galán se propôs a tarefa titânica de renovar os costumes 
políticos para desafiar a hegemonia dos liberais e conservadores, que ele associava a práticas daninhas, como a corrupção e o clientelismo. Agregou a sua equipe líderes regionais, como o apita Rodrigo Lara Bonilla e o samario Enrique Parejo, com quem começou a divulgar sua proposta por vários pontos
do país.

Três anos depois, o Novo Liberalismo, como se chamou seu movimento, era 
uma força modesta, porém significativa no panorama político colombiano. A voz de Galán ressoou forte, mas solitária contra o narcotráfico nos anos 1980, quando, enquanto os marimberos entravam em decadência, cresciam os traficantes de coca.

Em Medellín, os Ochoa, filhos do criador de cavalos Fabio Ochoa, haviam 
ficado famosos. A família, que durante mais de cem anos tinha se dedicado a essa atividade, sempre se vangloriou de haver criado a raça colombiana de passo fino.

O pioneiro foi o avô Abelardo Ochoa, que, no início do século XX, enriqueceu 
vendendo dormentes para as linhas de estrada de ferro. Mandou um dos filhos para uma faculdade de veterinária na França, e um ano depois viajou para selecionar animais de diferentes espécies para melhorar as raças colombianas. Numa espécie de Arca de Noé embarcou, entre outros animais, burros, cabras, ovelhas, gado vacum e porcos. Absteve-se de trazer cavalos por considerar que as raças existentes em seu país, por seu fenótipo e características – pequenos, brilhosos e suaves –, apresentavam melhores condições para a sua geografia. O aprimoramento das raças com os exemplares trazidos da Europa fez que o governo colombiano condecorasse Abelardo Ochoa, em 1927, com a medalha Cruz de Boyacá.

Nos anos 1970, dom Fabio, filho de Abelardo Ochoa, possuía um tipo de haras 
– espécie de restaurante e clube com cavalariças para seiscentos animais – chamado Las Margaritas, próximo à Feira de Gado, onde trabalhavam sua mulher e os filhos. Frequentavam o local os ricos de Medellín amantes de cavalos e um bom número de contrabandistas e delinquentes de alta linhagem que podiam circular sem muitas complicações. Em Las Margaritas, além do mais, havia sempre muitas mulheres bonitas sempre vestidas na moda, bebidas finas e carros caros.

Foi nesse cenário que se começou a ver a ostentação nessa região, na qual, com 
certo espírito calvinista, se teciam loas ao trabalho e os poderosos tinham um estilo de vida sóbrio e discreto.

Jorge Luis, um dos irmãos Ochoa, pressionado pelas dívidas, foi para Miami, 
onde começou a trabalhar numa fábrica de madeira. Um professor lhe pediu cocaína. Jorge Luis a comprou de traficantes colombianos em Miami e ganhou sua primeira comissão. Logo descobriu que quem ganhava mesmo era quem a levava diretamente da Colômbia e, então, pediu a seu irmão Fabito que enviasse a merca de Medellín.

Fabito, o mais novo dos filhos Ochoa, o mais aficionado pelos cavalos, 
permanecia no haras e, por ser um ótimo profissional nessa área, acabava amigo da maioria dos visitantes. Mas quem o tratava com mais consideração eram os contrabandistas, que o tornaram uma espécie de mascote do clã.

Fabito, por intermédio de seus amigos contrabandistas, conseguiu meio quilo de 
cocaína, e com a colaboração de seu cunhado Alonso Cárdenas e de seu colega de bairro, que aqui chamaremos de Mauricio Restrepo, organizou a remessa. Embalaram-na no salto e sola de alguns sapatos, e um amigo da família, que trabalhava num cruzeiro do Caribe, foi encarregado de levar a droga até Miami. Essa pequena aventura foi o início de um dos grupos mais importantes e famosos do tráfico em Medellín.

Também se falava em Medellín, entre outros traficantes, de Pablo Correa 
Arroyare – um homem alto, ruivo e bem-vestido , próspero no negócio; de Griselda Blanco, a Rainha da Coca; e dos Pablos, como chamavam Pablo Escobar e Gustavo Gaviria, a quem viam como almas gêmeas; na cidade de Cali eram notórios os irmãos Miguel e Gilberto Rodríguez Orejuela, Pacho Herrera e Chepe Santacruz; em Bogotá, Gonzalo Rodríguez Gacha, conhecido como El Mexicano; e em Armenia, Carlos Lehder.

Falava-se de máfias criollas, mas não se tratava, na verdade, de lojas com 
tradições, rituais e códigos de honra como as da Sicília, com sua omertá, ou como a japonesa Yakuza, com seus códigos samurais, mas de grupos de traficantes e bandidos a quem caíam bem os termos mágicos e emergentes, como foram batizados na linguagem popular. Mágica talvez seja a associação de mafioso e milagroso – que pode tudo ou que aparece de repente –, mas o termo emergentes tem um significado mais óbvio: o narcotráfico propiciou a insurreição de setores plebeus que protagonizaram uma profunda transformação de Medellín e do país, que um escritor chamou de revolução sem filósofos.

Os novos ricos compraram carros de luxo, casas de campo e mansões, ajudaram os familiares e amigos, e festejaram com carnavais e fogos de bengala o sucesso dos embarques, que para eles significava uma sempre inusitada prosperidade. Em Envigado, com a bonança, os costumes aprazíveis mudaram. Ainda persiste a lembrança da chegada das primeiras caminhonetes Toyota de quatro portas, logo batizadas de narcotoyotas, e dos carros de luxo que se misturavam aos cavalos, também exibidos como símbolo de status. Para as mulheres, entrou em moda uma sensualidade aberta e desafiante, aprimorada com silicone e o cabelo ruivo preso em cima, imitando os modelos de beleza do norte. Os novos ricos compravam caras e extravagantes obras de arte. Aqueles que queriam superar o mau gosto se assessoravam com especialistas e compravam, por preços sempre altos, aquilo que estes lhes aconselhavam. Uma arquitetura desmedida e de gosto duvidoso se multiplicou em centros comerciais, edifícios e casas de campo, e deu a certos setores da cidade um ar típico de Miami.

A riqueza começou a ser medida em milhões de dólares e as terras, em milhares 
de hectares. Era tanta a bonança que as propriedades tinham que aparecer em nome de terceiros. Recorda-se que, no norte do vale, um desses homens tinha um assistente só para carregar, dia e noite, um mico. Acreditava-se que ele era um pouco excêntrico, mas na verdade o mico era um testa de ferro. Seu nome e impressão digital funcionavam no cartório, com a complacência de um funcionário corrupto, como a de qualquer proprietário.

O capital financeiro disparou. O dinheiro quente servia para formar grupos 
econômicos momentâneos, que compravam empresas tradicionais do país. Mas o espírito também disparou. Os novos bandidos, entediados na abundância, diziam: “Vamos roubar, vamos procurar inimigos.” Nessa disparada, e ao longo desses anos, ocorreram histórias absurdas: os bandidos do bairro La Paz enfiaram uma garota dentro de uma caixa e a balearam por resistir a seus caprichos. Exibia-se tudo, especialmente a morte. Enlouquecidos, mataram muita gente, fosse porque eram ladrões, por vício, por capricho; depois se mataram uns aos outros, por vingança, por contas malfeitas, e mais tarde mataram autoridades e opositores, até conseguirem o domínio.

Em 1980, ouvíamos falar desses mágicos, de suas excentricidades e dos 
fabulosos presentes que davam em suas festas. Eles exibiam suas riquezas sem pudor, e sabíamos, ao contrário do que as leis vigentes indicavam, onde eram seus escritórios. Funcionavam abertamente, com alta tolerância das autoridades. Gente como os Ochoa era aceita socialmente. Segundo lembrança de Jorge Luis, os militares lhes pediam dinheiro até para pintar as instalações da Brigada e, segundo escreveu Fabito no livro Un narco se confiesa y acusa, os ricos os assediavam.

Por aquela época e até recentemente, os ricos queriam se relacionar conosco 
porque, quase sempre, desejavam vender caro suas casas de campo, residências ou pacotes de ações de empresas quebradas ou à beira disso. E quase sempre desejavam receber o pagamento em dólares no exterior. Ou quando a amizade era já meio sólida, sua pretensão era conseguir um bom crédito, sem juros e pagamento incerto. Inclusive uns poucos, na euforia provocada pela bebida, sugeriam que os incluíssemos em alguma remessa, observando quase sempre em voz baixa: “Mas que não se saiba, com a maior reserva, entendeu?”

Pablo, por seu lado, tinha um escritório no setor de El Poblado e começou a 
ganhar notoriedade por suas obras sociais. Medellín, que crescia exageradamente, engoliu Envigado e outros municípios vizinhos. O rio que atravessa o vale se tornou escuro e suas águas, apodrecidas. A indústria, diante da competência do contrabando e da obsolescência tecnológica, entrou em decadência, e milhares de operários foram postos na rua. As montanhas continuaram sendo povoadas por pobres, alheios à economia formal e ao Estado, e cada vez mais distantes dos poderes tradicionais e do catecismo católico, que pregava resignação e submissão.

Esses povoadores, descrentes dos partidos políticos tradicionais, só se ligavam a 
eles por ínfimos benefícios provenientes de uma manipulação clientelista do Estado. Mas também não haviam encontrado uma opção entre as esquerdas e a guerrilha. Nessas montanhas, habitadas por despossuídos, que Pablo percorria em um Renault 18 de cor havana, ele iniciou as obras sociais que, entre os humildes, lhe dariam para sempre a fama de homem bondoso.

Ele já tinha aquela aparência que o caracterizaria pelo restante da vida: o 
bigode, cabelo penteado com um caracol para a direita, e certa obesidade que fazia sua barriga saltar acima da cinta e o obrigava a ficar sempre levantando as calças.

Inaugurou, às vezes acompanhado pela esposa, Victoria, e o pequeno Juan Pablo, 
umas cem quadras de futebol com postes de iluminação. Nesse bairro, Lovaina, a velha zona de tolerância de Medellín, organizou uma partida entre uma equipe de prostitutas e outra de travestis. Um famoso locutor de futebol da cidade narrava enquanto Pablo, cercado por sua comitiva, assistia com simpatia ao espetáculo. Medellín Cívico, o jornal de seu tio Hernando Gaviria, que se tornou o meio de expressão mais conhecido, trazia a manchete: Nos bairros populares
a noite se fez dia.”

Embora Pablo desse suas baforadas diárias de maconha, ele aproveitava seus 
discursos para pregar contra a dependência de drogas. “A droga é a pior coisarepetia insistentemente, e seus amigos são testemunhas de que ele detestava os chirretes, os que se embalavam com o vício.

Sempre me angustiou ver nos bairros populares as crianças e jovens expondo a 
vida ao correr atrás de um balão pelas ruas cheias de carros em alta velocidade – dizia Pablo. – Eu sonhava com o dia em que essa juventude tivesse estádios próprios para poder brincar sem se humilhar diante de ninguém nem se expor a um acidente. Foi assim que nasceu minha vocação para a criação dos campos esportivos. Hoje construímos quadras de futebol, basquete, vôlei e poliesportivas; quem sabe amanhã possamos estender nossa ação a campos de beisebol, piscinas e ginásios em quantidade para o povo.

Para alguns traficantes, nem a riqueza nem o poder tinham sentido sem a 
possibilidade de ostentá-los. Todos se exibiam em suas cidades e comarcas, como numa espécie de peça teatral, onde faziam o papel do homem que é guerreiro e ao mesmo tempo bondoso. Mesmo El Mexicano, o mais tímido dos capos, foi visto distribuindo dinheiro aos flagelados pelo terremoto da cidade de Popayán.

No caso de Pablo, há algo que se deve observar: não se tratava de um narco que 
jogava dinheiro fora. Ele procurou construir um discurso social e organizou cerca de cem comitês aos quais fornecia materiais e assessoria técnica para desenvolver projetos comunitários. Palavras como ecologia, participação, autogestão, uma novidade para os líderes daquele tempo, apareciam em seu discurso misturadas com um populismo e uma exaltação desmedida de sua personalidade.

Esses conceitos modernos presentes em seu projeto poderiam ser explicados 
pela vinculação à sua equipe de personagens provenientes da esquerda, pela tradição política de seu tio, o jornalista Hernando Gaviria, veterano dirigente sindical, que, além disso, havia transitado por movimentos de ideias socialistas e populistas. Havia também a influência de Carlos Lehder, que liderava uma experiência política, o Movimento Latino Nacional, e editava na cidade de Armenia o jornal Quindío Libre, com discursos nos quais misturava doutrinas fascistas com marxismo e pensamento patriótico.

Em suas andanças, Pablo conheceu o bairro Moravia, cuja gente estaria desde 
então indissoluvelmente ligada a sua vida. Por uma estreita via, subiu em círculos até o alto de um monte formado pelo lixo da cidade. Ao chegar lá, viu com assombro o retrato vivo de uma sociedade indolente. Viu os casebres, um ao lado do outro, e sentiu o cheiro do metano. Viu, assustado, como a multidão – de homens e mulheres, anciãos e crianças – se lançava sobre o lixo esvaziado pelos caminhões. “Não concebo que seres humanos vivam nessas condições”, disse, enquanto continha a náusea provocada pelo lixo da cidade.

Ali, no monte de lixo, com a cidade próspera ao fundo, o mesmo Pablo recorreu a suas lembranças para explicar por que se sentia comprometido com os humildes, em um discurso meio destemperado, mas muito aplaudido:

Em 1968 me vinculei à Junta Cívica de meu bairro. Muitas vezes tenho 
trabalhado duro, alegre e suado. Desde pequeno tive obsessão por escolas, talvez por ser filho de uma abnegada educadora que ama sua profissão. Quando ajudamos a construir escolas parece que nos reencontramos com a pátria pela qual ansiamos. Temos visto com muito pesar crianças sentadas sobre tijolos, em locais carentes de quase tudo, e os professores vivendo sem nenhuma proteção diante da indiferença do Estado. Amamos a Colômbia e agora que estamos em condições de lhe devolver um pouco daquilo que nos deu esta bela pátria, estamos fazendo isso.

Nada é tão ruim que não possa piorar. Alguns dias depois, as casas miseráveis 
de Moravia se incendiaram, e aqueles que não tinham nada a perder perderam tudo. “Vamos para lá”, ordenou Pablo ao saber da notícia. E imediatamente colaborou com materiais para a reconstrução dos ranchos, além de prometer que construiria casas para eles e daria dignidade à sua vida. À noite se reuniu com seus assessores. Enquanto brincava com um pedacinho de papel que enfiava e tirava da boca, perguntava: “Quanto custa a construção de uma casa simples?” Acreditava que poderia construir 5 mil moradias para erradicar os tugúrios de Medellín. Londofio White, profissional na área de propriedade raiz, tomou conhecimento dessa necessidade e ofereceu um lote que se ajustava a um plano de casa popular.

Londofio White, filho de importante família paisa, havia sido diretor de 
Planejamento Municipal. Mais adiante serviria para promover contato entre os narcos e o governo em busca de saídas negociadas.

Pablo voltou a Moravia e, num ato multitudinário, anunciou que construiria mil 
moradias para os habitantes dos chamados tugúrios. Entre o séquito se encontrava o padre Elías Lopera, encarregado de dar a bênção católica ao movimento. O arcebispo de Medellín, Alfonso López Trujillo, zeloso guardião da liturgia católica, que perseguia ferreamente párocos de zonas populares que organizavam as comunidades eclesiais de base sob a influência da teologia da libertação, mantinha silêncio público sobre o trabalho de Lopera e outros capelães dos narcos e bandidos, e sobre a efervescência que ocorria em algumas paróquias que narcos e bandidos haviam transformado em santuários.

Alguns meses depois, quando Pablo quis transformar sua ação em propaganda, 
organizou palcos nos quais misturava apresentações de artistas populares com discursos nos quais os seguidores, como Édgar Escobar, o elogiavam desmedidamente.

Hoje está nos visitando o senhor Pablo Escobar Gaviria. Nascido em um lar 
católico no belo planalto de Rionegro, lá cresceu sonhando e construindo, entre dificuldades, um futuro que foi se abrindo entre brincadeiras, letras, números e picardias juvenis. Em Envigado, em cujas ruas transcorreu sua juventude e ele se tornou viajante vendedor de esperanças, carregado da fé cristã recebida de sua mãe e mestra – mamãe Hermilda –, adquiriu as ideias, princípios e sua veia de líder. Amealhou com engenho uma significativa fortuna e, agora, oferece um novo estilo de ser rico: simples e generoso. Sente-se administrador dos bens de um povo. Já é um líder indiscutível em Envigado e Sabaneta, e vai adentrando toda a Medellín e o vale de Aburrá com uma nova forma de fazer política: já não é blá-blá-blá de promessas. De sua mente de gênio, nasce uma Medellín sem tugúrios, uma corporação cujo objetivo é erradicar os casebres de lata e papelão. A primeira empresa desse tipo iniciada no mundo por uma pessoa particular. Uma obra aplaudida por gregos e troianos. O mero grito de uma Medellín sem tugúrios pode ser símbolo de mudança e lema de um governo do povo e de uma revolução. Anseia e planeja uma mudança para a Colômbia: que os endinheirados gozem plena liberdade e garantia para seus investimentos e negócios. Mas que não continuem usando o Estado para subsidiar seus investimentos. Que o Estado se dedique o quanto antes, em seu intervencionismo, a promover o desenvolvimento da população pobre, solucionar seus problemas e satisfazer suas necessidades.

Com essas obras sociais, começou a se dar, em certa medida, uma reedição dos 
personagens medievais ou de outros mais contemporâneos, como o bandido siciliano Salvatore Giuliano, cuja história é narrada por Mario Puzo em um livro que o próprio Pablo tinha em sua biblioteca, cuja leitura ele recomendava de modo especial. Esse siciliano, que teve seu auge por volta de 1940, enchia os bolsos de notas e saía caminhando por aldeias montanhosas, entre Montelepre e Piani di Greci, repartindo entre os pobres parte de seu butim; dava comida para as anciãs que estavam morrendo de fome, dinheiro para os camponeses que estavam a ponto de perder seu sítio e para doentes que precisavam de hospitalização. As crianças rezavam para que ele não fosse detido pelos carabinieri, a quem Salvatore dinamitava com frequência. Giuliano e Pablo se parecem em duas coisas: ambos eram guerreiros e generosos. E ambos tinham uma mistura de bandido social e político primitivo.

Em 13 de Novembro de 1981, Jorge Luis Ochoa despertou Pablo ali pelas 7h30 
da manhã. “Sequestraram minha irmã, Marta Nieves”, disse ele. Na casa dos Ochoa, Pablo, um homem observador, reparou no álbum de formatura de segundo grau de Marta Nieves e reconheceu numa das fotos de seus colegas Luis Gabriel Bernal. “Este foi... são os do M-19; sou amigo deles... vou procurá-los, dou-lhes um sermão e pronto, disse, tranquilizando-o.

Pablo já tinha relações com os homens do M-19, que conhecera em 
circunstâncias estranhas. No início de 1981, os militares, que pagavam favores, chamaram Jorge Luis Ochoa para informá-lo sobre conversas interceptadas do M-19 nas quais falavam de sequestrar um narco; Ochoa, por sua vez, procurou Pablo, que então já exercia liderança especial entre os narcotraficantes por seu poder militar. Pablo, por meio do serviço de inteligência, reteve vários guerrilheiros, e entre eles estavam Elvencio Ruiz, Luis Gabriel Bernal e Pablo Catatumbo. Levou-os para seus escritórios, onde tinha duzentos bandidos bem armados, para atemorizá-los. “Demorei só três dias para detê-los, portanto não se metam conosco porque perdem o ano; não vou lhes fazer nada porque não há necessidade, e sobretudo porque sou um homem de esquerda”, disse-lhes. Para resolver o assunto com astúcia e diplomacia e não torná-los seus inimigos, liberou-os e lhes deu de presente 15 mil dólares. Depois do incidente, os homens do M-19 se tornaram visitantes assíduos do escritório. Ali, trabalhadores como Pinina, El Chopo, Yuca, Elkin Correa e Arcángel os conheceram, jogaram com eles duas partidas de bilhar e, além disso, em longas conversas, compartilharam suas paixões guerreiras. Parecia que muitas coisas os uniam.

A convivência durou pouco. O sequestro de Marta Nieves era um novo desafio. 
Pablo mandou buscar Elvencio Ruiz e ele negou qualquer responsabilidade no fato. Entrou em contato com os homens do M-19 detidos na prisão La Picota, de Bogotá. “Diga-lhes que está feito, que ganharam, e de que modo vamos resolver.” Na prisão, eles consultaram Iván Marfa Ospina, Álvaro Fayad, Carlos Pizarro, a cúpula do M-19, que afirmou não saber de nada.

"Isso foi para guerra”, anuncia Pablo, e convoca uma reunião do grêmio de 
exportadores de cocaína, na Fazenda Nápoles. Comparecem duzentos parcos de todo o país. Haviam ouvido falar uns dos outros, mas poucos se conheciam. Todo o grupo de Medellín comparece, liderado por Pablo, delegados do grupo de Cali, Carlos Lehder pelo grupo da zona cafeeira e o de Bogotá, liderado pelo El Mexicano. Chegaram em pequenos aviões e em carros de luxo, com escolta de príncipes.

Destacaram-se na reunião o próprio Pablo e Carlos Lehder porque, entre outras coisas, falaram sem sentir complexo de delinquentes e porque propuseram ações até então nem sequer imaginadas por seus colegas. Lehder - baixinho, bem fornido e excêntrico – era conhecido por haver construído na cidade de Armenia um monumento em homenagem a John Lennon, por ter presenteado o governo de seu departamento com um avião e por declarações a uma cadeia de rádio nas quais reconhecia ter usado Cayo Norman, uma das ilhas Bahamas, como base para inundar os Estados Unidos com cocaína. Lehder estava alerta contra o M-19, porque não fazia muito tempo que essa organização havia tentado sequestrá-lo. Segundo contou, no momento de detê-lo os guerrilheiros o fizeram numa perna só, mas mesmo assim Lehder – que se vangloriava de ser um guerreiro valente – conseguiu escapar lançando-se de um carro em movimento.

Cada narco contribuiu com homens e dinheiro para a formação de um grupo, a 
que chamaram Morte a Sequestradores (MAS), que se encarregaria de libertar Marta Nieves Ochoa e exterminar todos aqueles que constituíssem uma ameaça. Em Dezembro, um avião pequeno sobrevoou os estádios das principais cidades, lançando volantes nos quais se dava a notícia, e Lehder publicou na imprensa páginas inteiras assumindo a gritaria contra o sequestro e falando do MAS:

Temos uma Colômbia bela, grande, livre, fértil e cheia de oportunidades para os 
justos e empenhados. Ao sequestrar empresários e dirigentes, nossa economia desmorona. Na falta desses honrados e dedicados dirigentes que passaram metade da vida estudando para ser úteis à grande era que esta República e o mundo estão vivendo, não podemos pensar que o assustado Bateman vai dirigir as grandes empresas ou as universidades: a experiência e os conhecimentos não têm substitutos. Durante os últimos dez anos, centenas de prestigiosas famílias, assustadas, tiveram que sair do país. Milhares de belas e produtivas fazendas foram abandonadas. Os industriais e construtores venderam e se foram. Os que se negaram a ser sequestrados foram torturados no ato. Em mim os sequestradores dispararam um tiro de revólver, dizendo: “Somos do M-19, você foi sequestrado. Por milagre consegui fugir. Sabia da decisão tomada pela família Ochoa. Depois de cinquenta dias de expectativa – recebendo gélidos telefonemas de assassinos cínicos exigindo 12 milhões de dólares pela vida da irmãzinha – um anjo no início da vida –, disseram: “Chega de ameaças. Vamos procurar nossa irmã e recompensar os cidadãos que nos ajudarem para que os culpados sejam levados perante a Justiça Militar. Saibam que o sequestro requer um tratamento mais rápido, tático, metálico e drástico. Devemos nos unir e eliminar pela raiz esse venenoso fenômeno para que ele não contamine as futuras gerações. Venceremos! O que proponho é um trabalho anti-sequestro semelhante ao da Comissão de Paz, só que paramilitar. Que essa comissão especial anti-sequestro reúna e instrua duas forças: uma equipe de juízes e fiscais, especializados em sequestro e terrorismo; e outra força tática, formada pelos mais destacados e exímios ex-militares e ex-agentes, os mais experientes civis paramilitares, defesa civil, mercenários estrangeiros, os mais excelentes esportistas e exímios atiradores, carabineiros, polícia especializada, inteligência do DAS, os falcões da Força Aérea e os Tubarões da Marinha. Teriam uma academia-quartel, com bancos de fotos e de dinheiro, centro de comunicações e informações, com veículos especiais equipados com sofisticados sistemas de vigilância e camuflagem, helicópteros, aviões, anfíbios e botes. Uma força de 2 mil homens seria suficiente. Uma força que nós, os sequestráveis, ajudaríamos a financiar, porque preferimos gastar nossa fortuna defendendo a própria família e o povo a permitir que os tirem de nós. Para a nova prisão anti-sequestro vamos pedir aos americanos o último e mais poderoso sistema de cadeira elétrica com incinerador incorporado, com a permissão da Cúria. E veremos o que diz a Suprema Corte ante a próxima petição de solidariedade colombiana pedindo a pena de morte por sequestro. Que Deus nos ilumine! O MAS é um movimento de fé e consagração cívica e física, e deve preocupar única e exclusivamente os sequestradores comuns e os subversivos. Carlos Lehder (ex-sequestrado). Nos avisos, aparecem fotografias de Elvencio Ruiz e Jaime Bateman, o comandante do M-19, com uma observação: “Sequestradores fugitivos”.

“Pablo recebeu como um chute no saco a traição de Elvencio Ruiz e do M-19”, 
disse Arcángel, lembrando que ele tratava os traidores com uma crueldade que superava em muito a que usava com seus inimigos. E menciona o caso de um tenente, um homem que Pablo ajudou a sair da prisão e que lhe roubou 100 mil dólares de um barco sob seus cuidados.

Pablo ordenou a seus homens que o levassem a uma piscina, onde, amarrado a 
um guindaste, o mergulharam seguidamente até afogá-lo. Envolveram seu corpo num tapete, lançaram-no na Curva del Diablo, um lixão de cadáveres próximo de Moravia. “Tu és pó e ao pó retornarás”, gritou um dos homens ao borrifar gasolina no tapete e atirar nele um fósforo.

Ante do reiterado desafio do M-19, os narcos tinham que demonstrar sua 
capacidade militar. Das ações do MAS participam ativamente Chepe Santa Cruz, homem forte de Cali, e homens a serviço de Pablo, como Chopo, Jorge Mico e Yuca. Arcángel, que naquele momento trabalhava como cuidador de um barco de Pablo, é chamado para o enorme grupo, e embora nunca tivesse disparado contra ninguém, não pode recusar. “Aí vai aprendendo”, lhe diz a Yuca e o soma a cerca de mil homens que atuavam em colaboração ativa com militares e policiais. Arcángel conhece a velocidade do sangue, a adrenalina pura. “A sensação de grupo, de mandar na cidade, de derrotar os tortos, dá uma espécie de êxtase”, diz.

Também participa Fidel Castafio, um homem trigueiro, alto, encorpado e de 
espírito ansioso que Pablo apreciava por sua capacidade militar e seu arrojo. Castafio seria muito importante nas guerras colombianas dos anos 1980 e 1990. Havia passado pelo narcotráfico e se aposentou cedo, dedicando sua grande fortuna à criação de gado e à luta contra a guerrilha, que sempre foi sua obsessão.

Mauricio Restrepo, amigo dos Ochoa, havia trabalhado nos Estados Unidos 
como contador da organização, tornou-se marinheiro, recolhia nas Bahamas pessoas que enviava e as descarregava em algum porto de segunda, antes de voltar para Miami; agora ia ajudá-los no resgate da irmã.

Para a perseguição dos sequestradores, conseguem cem rádios e se distribuem 
pela cidade para cuidar dos telefones públicos. Quando os homens do M-19 ligam para negociar, o telefone é localizado na central da polícia e, imediatamente, homens localizados perto do local agarram o suspeito. Assim são pegos. Detêm Paulo Catatumbo e Elvencio Ruiz em Bogotá, Luis Gabriel Bernal, a esposa e a filha em Cali. Borrifam a menina com gasolina e acendem um fósforo. “Fale ou a queimamos!” Alguns detidos, para escárnio público, são acorrentados nas grades do jornal El Colombiano com um aviso que os aponta como sequestradores. Outros são detidos numa adega localizada nas proximidades das ruas Palacé e San Juan, em Medellín. Arcángel aprende, como todos os seus companheiros, as técnicas de tortura dos militares, mestres excepcionais no uso do choque, do tanque de afogamento, da venda, do terror psicológico, e as pratica como quando o dentista extrai um dente, de modo profissional, sem remorso. Alguns detidos se mostram tão fortes, tão dispostos ao silêncio, que Pablo diz: “Esse, matem-no de uma vez, porque é um durão.” Mas outros se esgotam e delatam, e inclusive acabam trabalhando para o Chefão.

Numa casa do bairro San Javier, no oeste da cidade, um carro derruba a porta de 
uma garagem. Imediatamente se inicia um forte tiroteio. Nessa operação morrem dois militantes e é detida uma mulher do M-19. Encontram o documento de Marta Nieves e se convencem de que poderão resgatá-la. A adrenalina é tanta que se injeta no cérebro de Arcángel, que só percebe que está ferido quando cessam as ações.

Os guerrilheiros, diante do assédio, escondem Marta Nieves na boca do lobo 
– em La Estrella. Os homens do MAS os rastreiam e invadem a casa onde a mantinham reclusa. Encontram-na vazia. Cinco minutos antes, os guerrilheiros haviam colocado a sequestrada num carro. A partir desse momento, eles perdem a pista.

Depois do curativo no ferimento do braço, Arcángel continua na perseguição, 
em que não há limites entre o legal e o ilegal. Militantes que haviam fugido para outras cidades são detidos e levados para Medellín em pequenos aviões do MAS e entregues ao exército. Um grupo do M-19 assediado sequestra um avião da empresa aérea Avianca e o leva para Cali, com o propósito de levantar voo para Cuba. O industrial Carlos Ardila, num gesto de boa vontade, empresta um avião particular para que os perseguidos deixem o país. Ao final, a ofensiva deixa cerca de quatrocentos mortos entre militantes, amigos e familiares dos guerrilheiros, e vinte militantes detidos.

Os raros contatos feitos não vão adiante porque as estruturas de organização, as 
células do M-19, se acham atomizadas e isoladas. Aqueles que estavam com Marta Nieves haviam perdido o contato com o restante da organização. Por essa razão, Pablo acaba com o grupo regional do M-19 em Medellín, mas não consegue libertar a cativa. Então, os Ochoa procuram mecanismos de negociação. Recorrem, por intermédio de políticos, ao líder venezuelano Carlos Andrés Perez, que, por sua vez, pede ao general Torrijos – o homem forte do Panamá – que colabore na negociação.

O general Torrijos havia adquirido notoriedade internacional quando, desafiando 
a hegemonia dos Estados Unidos, exigiu a devolução do canal interoceânico a seu país. O Panamá, num continente de ditaduras de direita e de árduas repressões, também havia se transformado num pequeno paraíso para as esquerdas e guerrilhas latino-americanas porque o general lhes permitia usar seu país como retaguarda. Torrijos encarrega Manuel Antonio Noriega, o chefe de inteligência de seu governo, a fazer os contatos com o M-19.

Após a esgotante perseguição, o M-19 aceita negociar e liberta Marta Nieves em 
Armenia, em 16 de Fevereiro de 1982. Eles a haviam levado à zona cafeeira, no centro do país, para a mesma casa que haviam preparado para esconder Lehder. Por outro lado, os narcos liberam os vinte detidos e pagam 1,5 milhão de dólares. Com a liberação de Marta Nieves, sela-se um pacto de paz entre Pablo e o M-19 que se projetaria no tempo.

Noriega, que o cartel vê agora como um novo e valioso contato, recebe uma 
generosa soma por haver facilitado o encontro.

A vinculação do narcotráfico com a guerra política, que de alguma maneira a 
própria guerrilha precipitou com suas ações, fez com que as habituais técnicas da guerra suja, que os militares haviam aprendido com os militares americanos e os Exércitos do Cone Sul, se somassem ao estilo aberto da vendeta, próprio das máfias. E algo ainda mais problemático para a institucionalidade colombiana: setores das Forças Armadas que haviam se aliado aos narcos romperam seus marcos legais e institucionais para participarem de organizações paralelas que a sangue e fogo tentaram derrotar as guerrilhas. O MAS, criado por Pablo, foi o início do paramilitarismo na Colômbia.

Outro efeito não esperado desse sequestro foi a criação do Cartel de Medellín. 
Grupos dispersos do narcotráfico se uniram sob a hegemonia de Pablo Escobar, que daí em diante exerceu seu reinado com o título de Chefão. Foi o traficante Santiago Ocampo que organizou a festa em que, de algum modo, ele foi coroado como o capo dos capos. Foi realizada em La Rinconada, um haras localizado em Girardota, ao sul de Medellín, que possuía praça de touros e pista para cavalos.

Por volta das 9h00 da noite, quando a primeira orquestra começou a tocar, um 
grupo de adolescentes queimou fogos de bengala e lançou foguetes de pólvora que se derramavam no céu como fogos de artifício. Arcángel ainda se lembra de que por volta das 10h30 da noite, quando o salão fervia de gente, chegou Pablo. El Patrón, el Patrón, correu o rumor, e todos os presentes se levantaram para aplaudi-lo. Vestido com simplicidade e um pouco tímido pela homenagem, fez sinal para que seus admiradores se sentassem enquanto ele calmamente ia para um canto discreto. À sua volta se acomodaram os grandes senhores, de estilo sério e roupas sóbrias, cujos nomes eram sussurrados pelos presentes, enquanto se falava de suas riquezas e façanhas. Pablo irradiava uma aura especial. Estava rodeado por Gustavo Gaviria, Pablo Correa, os Ochoa, Griselda Blanco, Fidel Castano, El Mexicano e o Rei do Marlboro, um dos poucos capos do contrabando que sobreviveu no mundo dos novos traquetos. E acompanhava-o, a uma prudente distância, o grupo que comumente se chama de nata: banqueiros, industriais, jornalistas, rainhas da beleza, modelos, autoridades civis e militares, um padre, artistas e políticos de vários setores.

Nos corredores foram instalados os soldados rasos, quase todos jovens, de 
origem humilde, com pouca instrução e estilo rude: falavam aos gritos e apostavam por tudo. Sua rudeza, lealdade, malícia e coragem davam-lhes o lugar de guerreiros na organização.

O animador da festa anunciou a popular orquestra Los Melódicos de Venezuela, 
que abriu a apresentação cantando A Medellín. A seguir, entrou em cena o cantor venezuelano José Luis Rodríguez, o Puma, famoso galã de telenovelas, com um buquê de rosas vermelhas, que distribuiu entre algumas mulheres presentes, e com sua voz aveludada e suave iniciou o show que as fez delirar. Mais tarde, a orquestra de salsa Fruko y sus Tesos interpretou temas populares, como Nació varón, El preso e Virgen de las Mercedes, despertando o furor entre os homens, pondo-os para dançar. Na cadência folgazã de sua dança se notava a procedência de boa parte dos presentes.

Ocampo havia contratado cardápios do Inter, o melhor hotel da cidade. Também ofereceram várias bebidas, de champanhe a aguardente. Alguns veteranos comiam com cerimônia e boas maneiras, outros, de maneira tão precária que os filhos lhes faziam gestos para que, segundo as boas maneiras recém-aprendidas, não misturassem o arroz com a lagosta, ou não comessem as empanadas com goles de Don Perignon; ou para que não colocassem um delicioso molho de queijo azul sobre as doces natillas. Mas eles não pareciam interessados em fazer caso da vergonha de seus garotos e comiam do jeito que gostavam.

A crônica do jornalista do El Tiempo conta que à meia-noite as pessoas se dirigiram, por um caminho cercado de lindos jardins onde havia lírios e azaleias, e sob um céu estrelado, até um pequeno estádio. Muitos dos convidados, dada a insuficiência de assentos, ficaram de pé junto à pista. No centro se colocaram Pablo, alguns de seus convidados e os domadores oficiais. Quatro magníficos equinos entraram no recinto. Um era branco, outro negro como piche com uma mancha branca na frente, e os dois restantes, castanho-escuros. Os cavaleiros montaram; Danilo, o diretor da banda Marco Fidel Suárez, acompanhante permanente dessas comemorações, deu o sinal e soou um pasodoble, apagaram-se as luzes brancas e acenderam-se as lâmpadas de luz negra. Os cascos dos cavalos, pintados de quatro cores diferentes, verde-limão e laranja nas patas dianteiras e azul-rei e lilás nas traseiras, puseram-se em movimento numa bela dança. As patas de cada animal pintadas na mesma cor subiam e baixavam ao mesmo tempo, enquanto as pintadas nas outras cores permaneciam, ao mesmo tempo, ou no ar ou na pista, seguindo o compasso de pasillos e pasodobles. A plateia explodiu num caloroso aplauso.

Estreando seu reinado, Pablo viajou ao Rio de Janeiro para passar o carnaval 
com dez amigos, entre os quais se encontravam o Negro Galeano, Pelusa Ocampo, Jorge Luis Ochoa, Gustavo Gaviria, Pablo Correa e o Rei do Marlboro. Reuniu entre eles 500 mil dólares e enviou a um de seus homens para que ele organizasse tudo. Ficaram hospedados no Hotel Meridian, alugaram cinco Rolls Royce e uma limusine. Assistiram a partidas de futebol no Estádio do Maracanã, compraram joias, fecharam o show mais importante da cidade para uma sessão privada. A dança do samba, as cadeiras balançando, ombros sensuais, acelerou seu sangue e o desejo. Visitaram as melhores fazendas dos arredores do Rio. Na imprensa brasileira uma manchete sobre o excêntrico grupo: “Colombianos se divertem no Rio.” Eles haviam previsto uma viagem de iate com apresentação particular de garotas, mas a publicidade alertou Gustavo Gaviria. “Eu não vou. De repente fazem um atentado contra nós e acabam com a máfia colombiana”, disse. “Mas está tudo pago”, protestou Pablo. “Não importa, mas não vamos nos arriscar”, insistiu e convenceu Pablo a voltar.

Pablo Correa, que vivia com várias amantes sob o mesmo teto, ficou tão 
entusiasmado que "importou" uma mulata para aumentar seu pequeno harém. Pablo, que nessa época estava em sossego e prosperidade em sua fazenda Nápoles, durante uma festa lembrou-se com desejo do movimento dos quadris das garotas. E disse a seu piloto: “Vá me trazer umas mulatas de um cabaré do Brasil.” Olhando para o relógio, ele respondeu: “Dentro de quinze horas estou de volta.” De fato, voltou com o avião carregado de garotas típicas de carnaval, com bundas portentosas que, agitadas de maneira singular, fazem qualquer plateia entrar em transe. Enquanto se enlevava com as mulatas, Pablo foi avisado de que sua mulher, dona Victoria, estava indo para Nápoles em seu helicóptero. O Chefão levou um susto. Ordenou imediatamente que desaparecessem com as provas da farra e que as convidadas subissem com suas bagagens no avião. Quando sua mulher chegou, tudo estava em ordem, e, quando enfim partiu, Pablo mandou que o avião, que ficara dando voltas durante umas três horas sobre os céus de Nápoles com as dançarinas, aterrizasse de novo.

A ação social fez disparar em Pablo o vírus da política. Com sua liderança 
popular sempre crescendo, nos primeiros meses de 1982 fez campanha para se tornar parlamentar.

Nesse ano disputavam a presidência da República Alfonso López Michelsen, do 
Partido Liberal, e Belisario Betancur – um homem de origem camponesa e estilo rococó –, do Partido Conservador. Também aspirava entrar na política o jovem dirigente liberal, Luis Carlos Galán, pelo Novo Liberalismo. Galán, categórico no falar e de espírito férreo, se transformava pouco a pouco em um caudilho popular, visto com suspeita pela burocracia política tradicional.

Jairo Ortega – o antigo advogado do Padrino Gómez – fundou o Movimento de 
Renovação e aderiu à candidatura de Galán. Ortega também convidou Pablo para participar de seu movimento e lhe ofereceu uma suplência na lista que encabeçaria para a Câmara de Representantes. Pablo aceitou, mas naquele momento preferiu que a decisão fosse um segredo.

Os seguidores de Galán em Antioquia realizavam a contragosto a campanha 
com Jairo Ortega e faziam objeção a ele por seus vínculos com os narcos. Galán lhes respondia: Não tenho motivos concretos para expulsá-lo da campanha. Mas chegou o dia em que a situação se tornou insustentável. Organizava-se um grande ato do Novo Liberalismo no centro de Medellín, no qual teriam a palavra Jairo Ortega, o próprio Galán e seu segundo a bordo, Rodrigo Lara Bonilla. No dia anterior, o Movimento de Renovação inscreveu sua lista de aspirantes à Câmara de Representantes na qual Pablo aparecia como suplente. Galán, reunido com sua equipe de colaboradores, analisou a situação, calculou os riscos e decidiu expulsá-los.

A manifestação foi realizada numa noite em que, apesar da chuva, várias 
centenas de pessoas se congregaram para aclamar seus líderes. No Parque de Berrío, no coração de Medellín, Galán e Lara, diante de milhares de seguidores, declararam Pablo e Jairo Ortega pessoas indesejáveis. Pablo, memória de elefante, nunca esqueceu a ofensa. A esta altura, cabem duas perguntas: por que Pablo aderiu a Galán, o mais moralista dos candidatos? Porque ele denunciava o sistema e falava de reformas ou só para se camuflar? Por que compartilhava de fato com Galán a luta contra a classe política corrupta, como lhe disse várias vezes? Se foi assim, deve ser porque, em sua ética peculiar, considerava imoral roubar o erário e nada desonroso ser um próspero exportador de cocaína. Jairo Ortega se vinculou, então, ao grupo do liberal Alberto Santofimio. Este havia sido ministro, presidente da Câmara, tinha passado pela prisão acusado de se apropriar de recursos do Estado utilizando documentos de pessoas falecidas e agora era candidato presidencial.

Humberto Buitrago, um dos advogados de Pablo, já o havia aconselhado a não se vincular à política e voltou a insistir: “Esse caminho pode levá-lo à perdição porque a classe política colombiana é fodida, avisou. Mas Santofimio, hábil com a palavra, afagou o ego de Pablo para atraí-lo à sua campanha: “Você, com o dinheiro e a inteligência que tem, seguramente será presidente da Colômbia.” Pablo ficou tão convencido que, àqueles que o preveniam sobre o perigo de permanecer na política, proclamava: “Já temos o poder econômico, agora vamos atrás do poder político.

No ato de lançamento da nova aliança, aparecem Ortega e Santofimio de gravata 
e paletó, e um cravo na lapela. Pablo também exibe o cravo, porém veste camisa de manga curta.

Essa campanha de 1982 foi a primeira que originou na Colômbia debates 
públicos sobre a entrada de dinheiro quente na política. Contudo, há quem assegure que o candidato conservador Belisario Betancur teria recebido, desde 1978, para a campanha eleitoral que disputou com Rurbay, 12 milhões de pesos das mãos de Jesús Valderrama, gerente das empresas de gado do clã Ochoa.


Para essa nova eleição, a campanha conservadora realizou no Museu El Castillo 
um leilão de arte do qual participou Gustavo Gaviria, que ofereceu apoio e infraestrutura. Segundo narra Osito, Betancur exigiu que o avião que lhe emprestaram fosse pintado com a cor azul de seu partido. Embora El Mexicano tenha qualificado como descarado o pedido, no final o atenderam. (Essa mesma aeronave depois foi arrolada em operações de tráfico de drogas.) Gaviria, que era conservador, participou da comitiva eleitoral de Belisario, que publicamente se comprometeu a não extraditar colombianos.

Afonso López Michelsen foi eleito candidato oficial do Partido Liberal à 
presidência da República numa convenção realizada na cidade de Medellín. Santofimio acolheu a decisão e se uniu a ele.

Como chefe nacional da campanha nomearam o jovem político Ernesto Samper 
e como coordenador em Antioquia, Santiago Londoño White. Em um giro por Medellín, López, que já havia sido presidente e queria repetição, e Samper, que uma década depois chegaria à presidência, se reuniram no Hotel Intercontinental com os capos do narcotráfico a fim de receber doações para a campanha.

O episódio foi controvertido e, depois de dois anos, cada um dos protagonistas continuava apresentando sua versão. Segundo Samper: Londoño White, motivado pelos importantes resultados que seu irmão Diogo – tesoureiro da campanha conservadora em Antioquia – estava registrando na obtenção dos recursos desses sinistros personagens, convocou-os para a reunião na qual os capas efetivamente aceitaram comprar bilhetes para a rifa de um carro. O dinheiro deve ter sido utilizado, sem ser registrado, para financiar atividades da campanha liberal em Antioquia, cuja organização gozava de completa autonomia em relação à campanha nacional.

Nessa versão, tanto Samper quanto López, vítimas de um golpe, receberam 23 
milhões de pesos, permaneceram só uns minutos com esses personagens, que não conheciam e sobre os quais ouviram algumas queixas exóticas, como as dificuldades que tinham para fazer entrar no país animais para um zoológico, e só meses mais tarde, por declarações dadas por Pablo a uma cadeia de rádio, ficaram sabendo de quem se tratava.

López se exime de responsabilidade dizendo que foi à reunião, mas não se 
sentou.

Eu estava com pressa, entrei por um momento e nem sequer me sentei. Dei a 
mão a uns tipos que nem sequer conhecia. Depois, no curso dos acontecimentos, descobri que eram os Ochoa, Pablo Escobar e, provavelmente, Lehder e Rodríguez Gacha.

Outros protagonistas dos episódios narram de maneira distinta os fatos. Federico Estrada Vélez, senador liberal, chamou Santiago Londofio para lhe informar que alguns senhores, que já nessa época soavam como emergentes, queriam colaborar com a campanha presidencial. Londofio informou a oferta à coordenação da campanha em Bogotá. Ele foi autorizado a organizar uma reunião aproveitando uma visita próxima do candidato a Medellín, com base nos rumores de que dinheiro da mesma procedência estava entrando na campanha do candidato conservador. No encontro, numa suíte do Hotel Intercontinental, presenciou a maior reunião do narcotráfico em Medellín, e da parte da campanha participaram López, Samper, Santiago Londofio e vários dirigentes de Antioquia. Londofio recomendou a López que participasse só por uns minutos. “Perfeito. Ernesto fica com vocês, disse López. E assim aconteceu. López chegou às 2h30 da tarde, agradeceu a colaboração e dez minutos depois se retirou para cumprir outros compromissos. A reunião se prolongou até as 6h30 da tarde, com Samper como figura central.

Os narcos compraram cupons para a rifa de um carro no valor total de 23 
milhões de pesos. Samper tentou levar as contribuições para Bogotá, mas os coordenadores de Antioquia o impediram. No entanto, na semana seguinte, Samper assumiu um compromisso com Londofio sobre 8 milhões de pesos que haviam passado para a campanha do departamento do Chocó. “Depois faremos o reembolso, disse, mas não cumpriu a palavra. Jorge Luis Ochoa mencionou em várias oportunidades que o total do dinheiro entregue passou dos 50 milhões de pesos.

Embora os dirigentes da campanha o neguem, alguns amigos de Pablo insistem 
em que López se comprometeu a visitá-lo em Nápoles. Para Pablo, ser visitado por um ex-presidente em seu principado do Magdalena Médio era um grande sonho. López – o candidato de esporas e malícia fina –, embora em sua campanha tenha passado perto, não cumpriu o compromisso. Deixou preparado o bufê e o grupo de música argentina Los Visconti, que animaria a reunião.

Parece que – embora sua fortuna fosse alucinante – Pablo queria essa coisa tão 
constante na história dos homens: a aceitação daqueles que detinham legitimidade como líderes da sociedade. Para ele, esses contatos eram fundamentais porque ele começava a tomar consciência de que seu objetivo não era ser narcotraficante, nem um homem rico como seus amigos, sua vocação era o poder – e a glória que ele traz em si –, e o tráfico só era um instrumento, uma alavanca para consegui-lo.

Ele já andava obcecado com sua imagem: “O que disseram hoje de Reagan e de 
mim?”, perguntava a cada momento, em tom de brincadeira. Encheu cômodos inteiros com recortes em todos os idiomas em que era mencionado. Convidava os jornalistas para ir a Nápoles para falar-lhes de seus projetos e depois os levava para passear e lhes dava as melhores atenções. Os políticos que o visitavam fugiam dos jornalistas, porque sabiam que de algum modo estavam cometendo pecado. Uma tarde Pablo, tendo levado alguns deles para um passeio de barco pelo rio, aproveitou e, rindo espertamente, pediu a um jornalista do El Tiempo que os fotografasse. Posteriormente, a imprensa publicou registros de políticos, como o próprio Santofimio, Ernesto Lucena Quevedo, David Turbay e William Jaramillo, usando o avião Cheyenne II, de Pablo.

Betancur, eleito presidente, entre outras coisas, porque Galán atrapalhou López 
ao tirar muitos votos do liberalismo, enviou uma carta a Hernando Gaviria – o tio de Pablo –, que foi publicada no jornal Medellín Cívico: Receba minha manifestação de agradecimento por sua decisiva contribuição para o Movimento Nacional que me conduziu à presidência da Colômbia. Esta grande cruzada, da qual você fez parte, compromete minha gratidão e convoca todo o meu esforço para conseguir, no quatriênio que se inicia, a mudança que o país reclama. Valho-me dessa oportunidade para exortá-lo a abraçar a tarefa de governo que empreenderemos. O país pode ter a segurança de que vou vincular a essa obra todo o meu esforço e desvelo para construir uma pátria melhor, com
oportunidade para todos, sob o império da paz e da justiça social. Muito cordialmente, de seu compatriota e amigo, Belisario Betancur.

A campanha liberal em Medellín apresentou um déficit de 15 milhões de pesos, 
que foi assumido com o patrimônio pessoal de alguns dirigentes da campanha nesse departamento. Quando eles questionaram Samper a respeito do dinheiro, ele respondeu: Vou lhes pagar quando for presidente. Um excedente da campanha nacional foi usado por Samper para criar o Instituto de Estudos Liberais.

Nessas eleições Jairo Ortega obteve uma cadeira na Câmara na qual, seguindo 
um costume tipicamente colombiano, ele se alternava com Pablo. No dia da posse, Pablo chegou à Plaza de Bolívar de terno escuro, acompanhado de Victoria, que exibia um vestido claro e uma grande echarpe preta em volta do pescoço. Pablo se surpreendeu por não terem permitido que ele entrasse no recinto da Câmara sem gravata. Contrariando sua vontade, teve que usar a que lhe emprestou o cinegrafista. No juramento de posse, enquanto outros representantes levantaram a mão solenemente, ele fez com os dedos indicador e médio o V de vitória. Tinha 32 anos e estava feliz, com ar de triunfo. A revista Semana, a mais importante do país, dedicou a ele a capa e uma extensa reportagem na qual são mencionadas suas obras sociais e o chamam de Robin Hood paisa.



O simples fato de citar seu nome – afirmava a matéria da revista – causa todo 
tipo de reação, de alegria explosiva a um profundo temor, de grande admiração a um cauteloso desprezo. Para ninguém, no entanto, o nome Pablo Escobar é indiferente. Ele vai dar muito que falar no futuro.

Pablo, reunido com seus assessores, comentou a matéria. No final, olhando sua 
foto na capa, permaneceu um minuto em silêncio e saiu. Dois de seus assessores ficaram no escritório: “Definitivamente, ele acredita que será presidente da República, se sente capaz ou aspira a que pelo menos um de seus filhos seja presidente. Um deles afirmou que Pablo, em meio a sua alucinação, disse a um de seus chefes militares que o nomearia ministro da Defesa.

Daí se seguiu em sua vida uma temporada na qual ele “tocou o céu com as 
mãos”: desfrutou plena e publicamente de sua popularidade e riqueza, teve acesso a círculos sociais em Bogotá e viajou pelo mundo. Dessas viagens há lembranças especialmente de duas: no dia Primeiro de Outubro assistiu com Santofimio Botero e Jairo Ortega, convidados pelo Partido Socialista Operário Espanhol, à cerimônia de posse de Felipe González como presidente do governo. Pablo ficou admirado com a popularidade de González, que era então o grande herói da Espanha e refletia poder e glória. Um dos presentes à reunião privada que se seguiu ao ato lembra esses fatos incidentais: que Pablo agia como um homem silencioso que respondia solícito aos pedidos de Alberto Santofimio, que inclusive o encarregava de servir os uísques, e que diante do pedido de cocaína feito por um conhecido jornalista colombiano, Pablo disse: “Sou um homem saudável, não consumo isso.”

A segunda viagem foi aos Estados Unidos, país que mais que qualquer outro o atraía. Acompanharam-no Osito, Gustavo Gaviria e Pinina, um jovem que o servia como mensageiro e carregava suas malas, e que depois se tornou um de seus pistoleiros mais reputados, a quem ele nunca chamava pelo verdadeiro nome, John Jairo Arias Tascón.

Em Miami se hospedaram numa casa com praia particular, que Pablo havia 
comprado por 700 mil dólares, e se deslocavam em uma limusine. Miami, que já nessa época era chamada de capital da América Latina, exercia uma atração especial sobre os narcos. Tinham ali as coisas oferecidas pelo consumismo, tinham as marcas que nela haviam deixado as máfias americanas de diferentes épocas, mas por ser uma cidade sem memória conseguiu ser em alguma medida moldada pelos latinos. O narco emergente, desprezado em sua própria terra por sua origem humilde e a marca de bandido, em Miami se convertia numa pessoa reconhecida porque nessa cidade, desde os tempos em que Al Capone a utilizava como um lugar de veraneio, era o dólar que definia a hierarquia social.

Os dados sobre a viagem são fragmentados: em Dallas, Pablo visitou a rua onde 
mataram o presidente Kennedy; do Texas levou um touro mecânico, desses do oeste. (Em Nápoles, sua fazenda, desafiava os visitantes a montar nele. Que peças pregava nas pessoas. E o homem se divertia.) Visitou a Califórnia, onde conheceu o mundo do cinema e a grande farândola. Em Washington, no museu do FBI, se fez fotografar ao lado do primo Gustavo Gaviria, uma foto famosa em que aparecem disfarçados de gangsters, no estilo Al Capone. E viu por fora a Casa Branca. Aí foi feita a foto em que ele está de calça de cor café, camisa creme de mangas compridas dobradas até o cotovelo, o clássico bigode, o cabelo anelado penteado para a direita, em pé com sua aparência de camponês e homem indefeso, de olhar perdido para baixo e levando o filho Juan Pablo pela mão. Um homem que havia feito chover coca sobre os Estados Unidos parado ao pé da casa de Ronald Reagan. No Dicionário do crime, de Oliver Cyriax, em que sua biografia aparece ao lado da dos grandes protagonistas do mal, garante-se que ele teria comprado um velho automóvel Packard, que por décadas se exibiu como recordação de uma época em que as máfias governaram as cidades americanas. O carro, ao que parece, pertenceu ao casal Bonnie e Clyde, dois gangsters famosos de Louisiana que morreram depois de receber, na velha charanga, 187 balas. Segundo conta a história, assim que se propagou a notícia de sua morte, as vias em volta se encheram de carros. Calcula-se que 9 mil curiosos invadiram a cidade de Arcadia, e quando se investigou o veículo que rebocava o carro, dezenas de escolares se precipitaram para untar as mãos com sangue e arrancar mechas de cabelo e tiras do vestido de Bonnie. O automóvel, vendido por 175 mil dólares, apareceu na fazenda Nápoles. Em outro livro se afirma que nesse carro foi assassinado Dillinger. Mentira!”, diz Osito, "era simplesmente um carro velho que alguns desocupados lá em Nápoles metralharam, nada mais.

Em suas obras sociais, Pablo não se esqueceu de La Paz, o bairro de sua 
infância. A estréia da quadra que ele construiu e iluminou foi algo esplendoroso. Campeonato de futebol, concursos, transmissão por cadeias de rádio e visitantes ilustres. Enquanto a banda Marco Fidel Suárez interpretava ritmos caribenhos, como gorros e cumbias, no centro do campo aterrizou um helicóptero do qual, para assombro dos espectadores, desceu Virginia Vallejo, a diva da televisão
colombiana. Os homens de Pablo viajavam de quando em quando para a capital para levar dinheiro e recados para duas mulheres importantes dos meios de comunicação. Uma delas era Virginia Vallejo, de quem Pablo, assim como a maioria dos colombianos, ficava preso observando pela televisão um comercial de meias em que ela exibia suas pernas esplendorosas. Quero falar com essa mulher”, havia dito a alguns de seus homens. Os desejos do patrão eram ordens inquestionáveis. Nessa ocasião, como em muitas outras, moveram-se céus e terras para levar até ele a fêmea do comercial de meias Ricchi. Para sua sorte, ela sucumbiu aos encantos do pretendente e aceitou o convite. O avião de Pablo foi buscá-la em Bogotá, e desde seu encontro iniciaram uma relação que além do mais seria muito útil para ele em seu trabalho de parlamentar. Arcángel lembra que ela não era tão alta como se imaginava, mas sim uma fêmea formosa, de rosto fino, cabelo negro e corpo de rainha. La Vallejo também esteve no Primeiro Fórum contra a Extradição realizado na discoteca Kevins, uma espécie de clube social dos narcos localizado em uma ladeira de Las Palmas, de onde se dominava a paisagem de Medellín. Ao lado de Virginia e de Pablo, na mesa diretora, sentaram-se Carlos Lehder e alguns sacerdotes e magistrados que haviam se juntado à causa. A ameaça de que os narcos haviam sido entregues à justiça americana começava a crescer, e Pablo liderava a denúncia incessante do Estado. A campanha, que incluiu uma manifestação maciça na Plaza Bolívar, em Bogotá, foi complementada com grafites nas principais cidades do país.

Virginia também o entusiasmou com a ideia da televisão. Constantemente 
requisitado pela imprensa, preocupado com sua imagem, pediu a ela, experiente nesse meio, que o assessorasse. Organizaram uns encontros de televisão com o duplo objetivo de afinar suas respostas a respeito de alguns assuntos sobre os quais reiteradamente lhe faziam perguntas e corrigir alguns tiques. A sessão se iniciava às 6h00 da tarde e durante horas a apresentadora lhe fazia perguntas candentes, enquanto uma câmera indiscreta o filmava. Embora tenha melhorado as respostas, eram muitos os tiques. Coçava a cabeça com uma frequência inaudita, enfiava o dedo na orelha e o pior: às vezes dava aquela singular coçada na genitália própria do paisa do monte. Quando o câmera dirigia a lente para essas intimidades, os guarda-costas lhe diziam, assustados: “Não grave isso.” “É nisso que consiste este trabalho”, respondia o câmera. Ao projetar o material, Pablo corava. Mas, decidido a aprender, aguentava as observações indiscretas. Pablo tinha tanta consciência da importância dos meios de comunicação que, numa época em que a televisão era estatal e centralizada em Bogotá, criou em Medellín uma programadora e um noticiário chamado Antioquia em Dia, fato que o tornou pioneiro da televisão regional na Colômbia.

O noticiário era transmitido todos os dias às 12h30, em cadeia nacional, como uma seção do programa de notícias do benemérito godo (conservador) Arturo Abella. Pablo de vez em quando metia o nariz na sua orientação. Arcángel lembra sobretudo o alvoroço que armou quando entrevistaram o prefeito Pablo Peláez, um homem da aristocracia que combatia os narcotraficantes e organizou a primeira estratégia de defesa para impedir que os narcos tomassem suas empresas. “Não deem trela a meus inimigos”, disse, e ordenou que nunca mais voltassem a entrevistá-lo, e mais tarde mandou executá-lo.

A emissora lhe serviu, além do mais, para melhorar suas relações sociais. Os 
técnicos ainda se lembram de quando gravavam o arcebispo em sua própria casa, das homilias que semanalmente transmitiam para Bogotá. Ele, prelado atento, abria sua geladeira com vinhos e queijos, e só fazia uma advertência: “Vejam lá se não vão se embebedar.” E recordam também como o arcebispo recebeu de Pablo um crucifixo com incrustações de esmeraldas, se tornou cardeal e foi para Roma ser guardião da fé. É curioso que o tenham escolhido para preservar a ortodoxia católica, porque em Medellín, sob sua administração, floresceu uma forma de religiosidade fetichista, com a Virgem como centro e a paróquia de María Auxiliadora de Sabaneta como santuário principal. Se os jovens voltaram para a missa e se encheram de símbolos religiosos, não foi pela pregação dos arcebispos, mas porque os narcotraficantes, apegados a sua religiosidade tradicional, ocuparam os santuários e se converteram nos evangelizadores dos anos 1980 em Medellín.

Pablo pediu ao produtor que fizesse a lista dos equipamentos necessários para 
agregar mais tecnologia à estação de televisão. E um mês depois lhe mostrou, na fazenda Nápoles, uma adega repleta. Trouxeram o que ele havia solicitado – câmeras e mesas de edição da geração sp, o que havia de mais avançado no momento em tecnologia, mas tudo multiplicado por cinco. “O senhor pode organizar um pouco os equipamentos para que possamos mostrá-los em funcionamento?”, perguntou ele. O produtor filmou os arredores da fazenda Nápoles. Quando Pablo, amante da natureza, viu os planos delicados dos animais e da intensa paisagem se entusiasmou tanto que propôs a produção de uma série de documentários sobre a flora e a fauna da região... “E quem vai nos servir de guia?”, perguntou. "Eu mesmo, e começamos amanhã às 4h00 da manhã, portanto nada de rumba por hoje.

Produtor e assistente chegaram às 4h00 da manhã e encontraram alguns 
convidados que vieram para a rumba, ou seja, a festa. Pablo, que contra seus costumes fora se deitar cedo, já os esperava. Subiram em buggies e sem guarda-costas iniciaram o percurso por uma série de caminhos na selva, um labirinto, nos quais Pablo se sentia muito à vontade. Gravaram documentários sobre a fauna, a flora e a paisagem da região que Pablo posteriormente exibiu com orgulho para os amigos.

Arturo Abella, dono da emissora de TV nacional, apresentou o material a seus 
novos sócios, e eles realizaram, além do noticiário “Antioquia em dia”, um programa infantil. O programa, que veio a se chamar “Gente miúda”desenvolvia temas de educação, ecologia e compromisso social. Premiavam a audiência com bicicletas da fábrica que Osito Escobar havia montado em Manizales. O principal apresentador era Gustavito Gaviria, filho de Gustavo de Jesús, sócio e primo de Pablo. Os realizadores se lembram dele como um adolescente de grande talento e fácil aprendizagem, organizado e sensato.

Ali na sede da estação, Pablo recebeu Yair, um enviado especial de Jaime 
Bateman, primeiro comandante do M-19. Bateman – caribenho festeiro – se deslocava com desenvoltura no Panamá, paraíso de contrabandistas, vendedores de armas e narcotraficantes. Pelo porto livre de Colón, circulavam volumes de mercadorias só comparáveis aos de Hong Kong. Na Cidade do Panamá, os capos circulavam em limusines e se hospedavam em hotéis de luxo. Um sistema bancário de legislação liberal servia para movimentar, sem grandes exigências, fortunas fantásticas.

Bateman, sentado no Aeroporto Tocumen, viu aterrizar um avião Cheyenne do 
qual desceu Pablo. “É preciso falar com esse homem, ele vai ser muito importante”, disse. Sua proposta heterodoxa de reunir setores diversos interessados na mudança o fazia pensar que inclusive os narcos, como parte da nação colombiana, podiam ser atraídos para a causa anti-imperialista e antioligárquica.

Yair, seu assistente pessoal, de contato em contato, chegou a Pablo. Chamaram sua atenção os avisos de “Cuidado, crianças na via”, e alguns homens que treinavam artes marciais nos jardins da casa. Entraram numa pequena oficina à qual chegaram margeando a piscina. “Jaime Bateman, nosso comandante, lhe manda um cumprimento.” Pablo lhe respondeu amavelmente. Yair foi ao ponto: “O senhor fundou o MAS, e posso estar no lugar errado.

Os senhores sequestraram a irmã de um homem que considero meu irmão. Nós 
soubemos que eram vocês e dissemos: já ganharam, é preciso pagar e pronto, mas não houve resposta, e nos coube sair e procurar, e então fundei o MAS, e o senhor já sabe os resultados: os senhores ganharam, nós ganhamos, resgatamos a pessoa, embora tendo que dar algum dinheiro, tivemos que dar baixa em algumas pessoas, alguns dos nossos também perderam a vida. Mas devo lhe dizer que, terminado esse trabalho, eu não prossegui, e o que se falou do MAS posso lhe assegurar que foi o Exército, usando a sigla em seu trabalho sujo, então lhes proponho apagar tudo e começar de novo, o que me interessa é conversar com vocês.

Pablo aceitou que os homens do M-18 organizassem uma reunião com Bateman 
no Panamá e se encarregassem da segurança. Depois de idas e vindas, na viagem para comparecer ao encontro com Pablo a pequena aeronave em que viajava Bateman se acidentou. Pablo emprestou homens e aviões para a busca. Depois continuaram com helicópteros da guarda panamenha, mas o cadáver só pôde ser resgatado um ano depois.

Yair, em nome do M-19, ficou um tempo trabalhando com a proposta cívica de 
Pablo. Para um observador desprevenido, guerrilha e narcotráfico seriam polos opostos. Então, por que o M-19 se aproximou de Pablo Escobar?

Pablo Escobar era um homem com talante de estadista – explica Yair. – Terminou uma guerra em dez minutos. Ele me parecia um homem em cuja cabeça cabia um país. Enfiar-se na Moravia, o famoso cerro onde as pessoas viviam em cima do lixo, para levá-las para um bairro com tudo dentro da lei, era um fato político que todo país tinha que conhecer. Pablo não tinha a aparência de homem mau; era um bonachão, parecia, para usar um termo daquela época, um sujeito bacana. Geralmente, um homem humilde quando chega a ter dinheiro e poder perde a cabeça, se desfaz em ostentação. Mas ele, não; nunca o vi exibindo nem uma corrente, nem um anel; vestia-se com roupa cara porém discreta. Chamava-me a atenção e me fazia rir a importância que ele dava a seu penteado. Parecia-me engraçado que se preocupasse tanto com uma mecha de cabelo. As pessoas assistiam aos milhares as ocasiões em que ele fazia um discurso. Interessava a nós aproveitar essa plataforma para que as pessoas conhecessem nosso projeto, exposto por outra pessoa. Ele dizia: “Eu tomei ônibus durante 28 anos, portanto sou de vocês, sou daqui, considerem-me um de vocês, e estou aqui porque as condições econômicas mudaram, e venho compartilhar com vocês o que é meu, a compartilhar com vocês o direito que nós, colombianos, temos de viver com dignidade. Vamos fazer tudo o que for possível para que a juventude não entre no vício da droga, etc.

Não digo que não tenha sido mau o modo como a imprensa o descreveu, mas o

Pablo que conheci tinha outras facetas. Inclusive o levei até o hoje cardeal,
candidato a papa, monsenhor Darío Castrillón, porque eu conhecia o
pensamento religioso de Pablo e pensei que, não só do ponto de vista da política
e do social, mas também do ponto de vista cristão, poderia encaminhar toda essa
força para a realização de coisas benéficas para o país. Numa guerra, se a
ideologia não une, os objetivos unem. Esse projeto precisava de alguém que,
partindo de uma opção política revolucionária, o aprovasse. Os interesses que
Pablo Escobar podia manipular eram contrários aos nossos, mas num dado
momento eles também podiam coincidir, sem a ilusão de transformá-lo num
revolucionário da noite para o dia. Eu sabia que essa relação era passageira, mas
considerei importante minha estada ali, numa coisa que nunca foi explícita, mas,
de fato, foi uma assessoria política.

Pablo apoiou o M-19 com recursos e dinheiro. Se houvesse necessidade de 
informações do alto comando militar, Pablo chamava algum general amigo, se algum comando do M-19 – como acontecia frequentemente com Iván Marino – estivesse em extremo risco, podia ir até Medellín e abrigar-se sob o teto de Pablo e seus homens. Por isso, Yair afirma: “O Pablo narcotraficante, bandido sempre teve um critério a favor de um processo revolucionário na Colômbia, e foi um aliado, um admirador do M-19.

O desenvolvimento da Fazenda Nápoles nunca cessou. Pablo a abasteceu de 
animais, construiu uma praça de touros, ampliou-a para 3 mil hectares e a estava arborizando porque queria que o rio Cocorná, que atravessa suas terras, se transformasse numa fonte de oxigênio para o grande rio Magdalena. Também iniciou a construção de uma represa, com uma ilha no centro, que chamaria de Ilha da Fantasia.

As famílias de Pablo e Gustavo desfrutavam estadias em Nápoles. Tinham à 
disposição peões e meios de transporte para o que quisessem fazer. Para Victoria, um trabalhador levava um carrinho de golfe por toda a fazenda. A senhora quer jogar tênis? Recolhia as bolas; quer dar uma volta no zoológico?... Vamos... Todo o tempo havia trabalhadores acompanhando os garotos Juan Pablo e Gustavo. Gustavito, um pouco maior, praticava motocross por todos aqueles montes com tanto entusiasmo que, para comemorar seus 14 anos, seu pai construiu uma moderna pista considerada por especialistas a melhor do país. Foi inaugurada com uma competição da qual participaram os mais reconhecidos crossistas da Colômbia e América Latina.

Dos passeios por Nápoles, o que mais os entusiasmava era o do rio Claro. 
Levavam aerobarcos nos trailers, e a comitiva incluía o chefe as cozinheiras. Havia abundância de frutas, refrescos, carnes, bebidas... Pablo acionava os motores  que soam como uma pequena aeronave  e subia e descia pelo rio voando pela água com a emoção de um menino, até que acabava estatelado contra as pedras. Um helicóptero levava o veículo danificado e trazia outro bom, que de novo acabava em pedaços.

No final de 1980, abriu para o público um zoológico que exibia cerca de mil 
animais fantásticos, importados de diferentes lugares do mundo: belas cacatuas pretas, rinocerontes, camelo, girafas, elefantes pretos, zebras, alces, flamingos, avestruzes, cavalos puro-sangue, cavalos pequenos provenientes da Argentina, touros pequenos e macacos, que mandou soltar no monte porque fediam muito.

Construir e dotar o zoológico de animais de todo o planeta teve suas 
dificuldades. Zebras importadas ilegalmente foram confiscadas pelas autoridades e levadas para o zoológico oficial da cidade de Medellín. Segundo relatou Pablo ao jornalista Cerán Castro Caycedo, um empregado do zoológico se encarregou de substituir as zebras por burros, malhados de manchas brancas e pretas. O zoológico se tornou uma grande atração. Milhares de pessoas o visitavam gratuitamente toda semana. “O zoológico é do povo colombiano, e o dono não pode pagar para visitar o que é seu, proclamava Pablo com orgulho.

Ele não gostava dos peixes, serpentes, cachorros, gatos, tigres e leões; amava as 
aves exóticas e, segundo lembra Arcángel, só ocasionalmente caçava jacarés. No zoológico de Nápoles, nasceu pela primeira vez um dromedário em cativeiro. Pablo se sentiu orgulhoso, mas o animal morreu, e o veterinário teve que aguentar sua fúria. Certa ocasião, seus empregados enjaularam alguns veados porque eles destruíam os jardins. Ele ordenou que os soltassem, com uma frase de gaveta: “A liberdade é preciosa.

A generosidade tinha sua contrapartida: o esterco de alguns desses animais era 
utilizado para untar os pacotes de cocaína e espantar com o cheiro os cachorros que a detectavam pelo faro.

À noite, Pablo atendia alguns assuntos e se afastava de Victoria e dos filhos para 
fumar um cigarrinho de maconha. Ia para a cama de madrugada. Tomava o café da manhã ao meio-dia no imenso refeitório junto da piscina. Às vezes, rompia o mutismo e falava de seus projetos com os empregados de confiança. E recebia pessoas da região que o procuravam para pedir dinheiro. O pároco de Puerto Triunfo descia até a entrada, e, embora os motoristas da fazenda se oferecessem para levá-lo para dentro, ele preferia caminhar para chegar agitado e suando, queixando-se da falta de um carrinho. Pablo, homem piedoso, o fez subir em seu bom jipe, um Nissan, e o padre, por esse e outros favores, colocou sob o altar as fotos de Pablo e Gustavo, para incluí-los em todas as suas orações.

Dona Hermilda, orgulhosa da prosperidade do filho, convidava com frequência 
suas colegas de magistério, associadas a seu grupo das Damas Prateadas, dedicadas a obras de caridade, e lhes mostrava, altiva, detalhe por detalhe, os domínios de Nápoles, que considerava seus. As visitantes recebiam a atenção solícita mas distante de Pablo, e se assombravam de ver tanta abundância: se o televisor falhava, jogavam-no no lixo e pegavam um novo; se alguém pedia um cigarro, traziam-lhe um pacote com dez maços; se pediam um gole, mesmo que se tratasse do champanhe mais caro, traziam-lhe uma garrafa... “Olhem, observem bem, que isto não vai durar muito”, disse um dos assessores de Pablo ao ver essa ilusão de ótica de abundância.

Às vezes, as estadias em Nápoles não eram de familiares. Pablo, Gustavo, Mario e seus homens chegavam de grandes noitadas. Pablo desfrutava da companhia de Mario, uma pessoa compulsiva pelo vício, que nunca estava em estado normal, que levava sempre grupos de música típica. Também vinha com ele Fernando, o outro cunhado, apelidado de Yerbas, porque mantinha sempre um cigarro de maconha aceso. “Bem, chegou o Chefão, seus preguiçosos, vamos trabalhar”, instruía Yerbas. Retirem o tabaco de todos os cigarros deste pacote de Marlboro e preencham com maconha.” Enchiam pacotes inteiros de Marlboro com maconha dichavada, bem soltinha, que depois ele oferecia como cigarros normais a fumantes ingênuos, dos quais zombava ao vê-los cair em sua pequena armadilha.

Certa noite, no início de 1983 – é difícil precisar a data –, com o calor amenizado 
pela brisa, Pablo tinha uma reunião especial em Nápoles com alguns dos capos importantes do país. Sentia orgulho por estar acompanhado de Virginia Vallejo, a grande Diva. Para deixar todos boquiabertos e com inveja, apresentou-a com calma a cada um dos convidados. Este é Gonzalo, um homem leal que gosta muito de comer e de coisas boas”, disse para apresentar-lhe El Mexicano, um homem que continuava sendo, apesar de seu poder, um camponês rústico, tímido, simples no modo de falar, que usava um chapéu típico, decorado com a cabeça de uma cobra, cristas de galo de briga e uma pequena ferradura de boa sorte. Vestia-se com mau gosto e usava muito brilho: uma corrente grossa com um crucifixo, um anel de esmeralda, pulseira, mas sobretudo se distinguia porque tinha hálito de pólvora.

El Mexicano havia se tornado bandido ao lado de Gilberto Molina, um dos 
czares das esmeraldas. Os esmeraldeiros, por suas velhas e longas guerras, tinham equipamentos militares de porte. Mais tarde ele se especializou na exportação de droga. Sua fortuna e suas guerras eram amplamente conhecidas. A região das esmeraldas, seu território natural, descia até Puerto Boyacá, na margem oeste do rio Magdalena. Cruzando o rio, a quinze minutos pela estrada, ao lado de Puerto Triunfo, em Antioquia, ficava a fazenda Nápoles. Essa região, a do rio Magdalena Médio, se transformaria, com o passar dos anos, no cenário do paramilitarismo e do narcotráfico. E a partir de 1989, em um dos cenários de guerra do Estado contra ambos os capos – Pablo e El Mexicano.

Dizia-se que El Mexicano pertencia ao Cartel de Medellín, mas na realidade 
operava de forma autônoma. Tornou-se aliado de Pablo para enfrentar a extradição, a tal ponto que chegaram a ser compadres e compartilhavam gostos, como o futebol, mas sempre mantiveram grandes diferenças: enquanto Pablo, homem da cidade, diplomático em sua maneira de ser, posava como homem de esquerda, o Mexicano era um camponês de trato rude e francamente de direita.

Virginia cumprimentou Gustavo Gaviria, de quem sabia que era não só principal 
sócio mas também uma espécie de alma gêmea de Pablo. Tudo o que um tinha o outro também tinha. Se um fazia uma casa de campo, o outro fazia uma igual ou melhor, se Pablo comprava alguma coisa para sua casa, Gustavo fazia o mesmo, chegou um helicóptero para Pablo e chegou outro para Gustavo, o avião para Pablo e outro igual para Gustavo.

“Este é Jorge Luis Ochoa, a quem você já conhece”, disse Pablo, e em seguida o 
apresentou a Kiko Moncada. Um homem que por sua aparência  baixinho, magrinho e vestido sem graça. Dava a impressão de ser um joão-ninguém quando na realidade havia se tornado um homem rico e pessoa importante no cartel. Havia aberto rotas como a Fania, que permitiram a exportação de cocaína durante anos. Moncada havia chegado a Nápoles numa Ferrari de meio milhão de dólares, que mostrou orgulhoso a seus companheiros.

Depois, Fernando, o negro Galeano, do município de Itagüí, que havia se 
iniciado no mundo do crime nos anos 1970, seguindo os passos de um irmão mais velho, já então morto e homem incondicional de Pablo, que o acompanhava no negócio e no tropel. Também estava o já então famoso Carlos Lehder.

Seguiu Fidel Castano, oriundo de Amalfi, um povoado distante do departamento 
de Antioquia, renomado não pelo narcotráfico – ofício que já havia abandonado , mas por sua decisão de enfrentar a guerrilha e seus supostos aliados. Castanho era um homem forte, discreto, calado mas enfático, bem-vestido, que só tomava um pouco de bom vinho, não fumava e era desportista consumado. Trotava dez quilômetros por dia e no calor de trinta ou mais graus do departamento de Córdoba, onde tinha seus domínios. Um gentleman, dizem os que o conheceram. Castafio fazia contraste com seus amigos porque não usava carros pomposos ou coisas semelhantes, podia inclusive se deslocar de ônibus, táxi, em carros simples ou a pé. Havia comprado de um industrial uma casa chamada Montecasino, que segundo alguns construtores era a mais bonita de Medellín naqueles tempos. Tinha ali uma coleção de arte e de vinhos que despertava inveja em seus sócios.

Assim, um a um, Pablo apresentou seus amigos a Virginia. Pablo falava de 
todos com respeito e consideração e não demonstrava que interiormente se sentisse superior. Achava que, embora chegassem a superá-lo, por exemplo, em riquezas, não se equiparariam a eles em inteligência e habilidade. Ao vê-los nessa fraternidade do mal não se poderia suspeitar que acabariam se devorando uns aos outros.

Ele se sentia orgulhoso de estar acompanhado dessa mulher que sem dúvida 
naquela época era o símbolo da beleza e da fama na farândola nacional. E ela se mostrava lisonjeada de ser a companheira do grande patrão. Pablo lhe retribuía com atenções e presentes. Há quem garanta que lhe comprou a fábrica de meias para a qual fazia comerciais e chegou a lhe prometer a compra de uma emissora de televisão nacional. Mas a guerra e o desencanto que costuma acontecer em muitos romances atrapalharam.

As mesas estavam dispostas ao redor da piscina da casa principal. Para essa 
festa convidaram um cantor espanhol, Montecristo, um humorista da região, e para arrematar, um grupo de música típica do país. Mais tarde, ouviam rancheiras.

A velha geração de contrabandistas continuou desaparecendo. Para o além 
viajou o Rei do Marlboro, quando um aviãozinho explodiu no céu acima de sua linda finca em Caucasia. Anos mais tarde, o Padrino Alfredo Gómez, capo dos capos, foi fulminado por um infarto quando caminhava, em sua aprazível velhice, por uma rua do Centro Sul-Americano de Medellín. Alguns narcos, que ainda se lembravam dele como o grande mestre, enviaram flores. Eram agradecidos a ele porque havia oferecido seu conhecimento de rotas, formas de comprar autoridades e políticos de todo tipo, inclusive os presidenciáveis. E Griselda, a Rainha da Coca, foi presa e condenada a mais de vinte anos nos Estados Unidos.

Com os novos traficantes, o negócio da coca como indústria próspera agregou 
tecnologia. Pela alta umidade da base de coca, Pablo instalou secadoras na Bolívia para diminuí-la e obter mais rendimento no transporte. Mas a demanda continuava crescendo, e buscar a base no Peru e na Bolívia ficava uma tarefa cada vez mais complexa devido aos controles aéreos; então iniciou-se um plano de substituição de importações. Semeou-se na Amazônia e na Orinoquia colombiana, nos anos 1980, coca da variedade chamada peruana para abastecer diretamente os laboratórios e escapar dos controles aéreos.



Consolidou-se a colonização da coca. Pobres dos campos, sobrecarregados 
pela quebra da economia cafeeira, pobres das cidades, cansados do desemprego ou dos baixos ganhos, partiram para a devastação das florestas no sudeste do país, onde a guerrilha das FARC estava assentada havia anos e relativamente isolada. Pequenos grupos de casas cresceram até se transformar em prósperos povoados, e foram se formando novos assentamentos, como Medellín do Ariari.

A fim de expandir os cultivos entre os colonos das florestas, os narcos 
ofereceram o que o Estado nunca lhes proporcionara: sistemas de crédito, assessoria técnica e sistemas de mercado ágeis. Nas épocas de bonança, com a economia medida em gramas de coca ou em dólares, se desencadeava um consumismo desmedido, pululavam os bares e as putas, e o carnaval. Uma vida mais cara que a de Paris. Nessas regiões se afirmou uma Colômbia afastada do poder central e insondável como suas florestas, onde a guerrilha se constituiu em governo de fato.

E essa mesma floresta foi povoada de laboratórios. Pablo Correa, El Mexicano, 
os Ochoa e outros capos construíram nas florestas do Yarí o mais sofisticado complexo para o processamento de cocaína, e o chamaram de Tranquilândia. Para chegar à floresta espessa e inacessível, abriram um pequeno descampado, e do helicóptero desceram homens que abriram um pequeno heliporto. Aterrizaram helicópteros com mais pessoas e equipamentos. Depois abriram uma pista para permitir a descida de pequenos aviões e iniciaram a montagem do laboratório.

Arcángel ajudou a recrutar pessoas para operar o laboratório. “Precisamos de 
cinquenta operários”, dizia, e se registravam jovens de todo tipo, até de classe média, que, ansiosos pela passagem, iam pegar em pás onde se processava o alcaloide. “Precisamos de senhoras para a cozinha”, e apareciam trabalhadoras mulheres que queriam ter com que criar os filhos. Próximo à Tranquilândia, El Mexicano montou outro grande complexo de coca.

Homens das FARC dominaram a região. Os cocaleiros, chamados de 
raspachines, constituíam sua base social, e o tributo imposto ao comércio da base da coca, chamado de gramaje, se transformou em sua principal fonte de financiamento. Assim, o narcotráfico se converteu, desde essa década de 1980 no principal combustível para o andamento do projeto das FARC, e lhe permitiria transformar-se de uma guerrilha camponesa e periférica em um exército médio com capacidade real de desafiar o poder do Estado. A folha da árvore da coca é poderosa, doce e ingênua. Por sua riqueza nutritiva, Abraham Cowley, um botânico europeu, definiu sua fruta como a mais completa. A planta de coca existe desde sempre nessa floresta e desde sempre tem sido consumida pelas comunidades indígenas desta forma: as folhas tostadas, transformadas em um fino pó, são mascadas, o que lhes proporciona grande capacidade física, por seu poder alimentício, e possibilidades de conexão espiritual em rituais coletivos, pelo seu poder psicoativo. Por isso ela é considerada uma planta sagrada, e, como dizem os velhos índios huitotos da Amazônia, vendê-la equivale a vender a alma.

A coca introduzida pelos narcos não só era uma variedade diferente, mas 
também, em essência, se desconectava dos circuitos culturais tradicionais para se converter numa mercadoria capitalista, É o poder químico da coca – a cocaína –, transformado em bem ilegal mas desejado, que se transforma em uma força capaz de desencadear destruição e guerras.

Em um livro que publicou em 1992, Pablo Escobar em caricaturas, quando 
estava na prisão, Pablo incluiu um discurso no qual se lembra da euforia causada pela cocaína no século XIX, quando era utilizada para fabricar bebidas que prometiam vitalidade e juventude. Menciona os experimentos de Freud e de Karl Koller, que a utilizou como anestesia, a massificação do consumo ao longo do século nos Estados Unidos, as campanhas de proibição, etc.

Uma reflexão que Pablo tinha presente: “As sociedades nunca conseguiram 
derrotar os vícios. Ele sabia que poderia ser derrotado, mas que nunca seriam suficientes os pressupostos nem os agentes dispostos a esse combate. A batalha contra o tráfico estava perdida de antemão. Mais que ninguém, ele sabia que o negócio só se desarticularia quando fosse legalizado.





Manancial: 
Pablo Escobar, ASCENSÃO E QUEDA DO GRANDE TRAFICANTE DE DROGAS

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