DESTAQUE

COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

ASCENSÃO E QUEDA DE PABLO ESCOBAR – CAPÍTULO 1


Pablo Escobar
ASCENSÃO E QUEDA DO GRANDE TRAFICANTE DE DROGAS



Palavras por Alonso Salazar J



Título original: La parábola de Pablo



Tradução: Eric Heneault, Olga Cafalcchio



Editora Planeta, 2014



O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Pablo Escobar, ASCENSÃO E QUEDA DO GRANDE TRAFICANTE DE DROGAS, de Alonso Salazar J, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah




ORELHAS



Das salas e salões da paradisíaca Hacienda Nápoles, uma propriedade de cerca de 20 km, localizada a 320 km de Bogotá, capital da Colômbia, rodeado de girafas, hipopótamos, elefantes e aves exóticas, Pablo Emilio Escobar Gaviria ergueu seu império de drogas, tornando-se o bilionário “Rei da Cocaína”.

Por quase duas décadas, em paradoxo à sua imagem de marido amoroso e pai dedicado, ele promoveu o terror pela América Latina, mandando matar quem o incomodasse ou atrapalhasse a sua trajetória de maior narcotraficante do mundo, fosse essa pessoa um dos seus comparsas ou um ministro de Estado.


Adorado pela população mais pobre da Colômbia, que reconhecia nele um Robin Hood moderno, Pablo Escobar foi demonizado e caçado pela agência antidrogas americana, que o listou entre os mais perigosos criminosos do mundo.


Em Pablo Escobar, o jornalista colombiano Afonso Salazar reconstrói a complexa e ambígua figura desse icônico personagem da história latino-americana. Através de informações e relatos garimpados em reportagens da época na qual Escobar viveu e em entrevistas com seus parentes, vizinhos, amigos e também inimigos, o jornalista apresenta uma história intensa e sem maniqueísmo das diversas e contraditórias facetas do maior narcotraficante do mundo, morto aos 44 anos durante uma ação policial em 1993, no telhado de seu esconderijo.

Alonso Salazar é um jornalista nascido em 1960 na Colômbia, dedicado às reportagens investigativas em seu país. Como tal, foi autor de várias matérias que retratavam a vida de colombianos em meio à violência provocada pelo tráfico de drogas. Essa sua vivência o levou a escrever dez livros, entre eles Drogas y Narcotráfico en Colombia, La Cola del Lagarto: Drogas y Narcotráfico en la Sociedad Colombiana, Pablo Escobar e Profeta en el Desierto: Vida y Muerte de Luis Carlos Galán.


Salazar também foi prefeito de Medellín entre 2008 e 2011.





INTRODUÇÃO



A história de Pablo Escobar aqui narrada foi reconstruída com o olhar de diversos protagonistas que entrevistei ao longo dos últimos anos. Falei com alguns de seus familiares, vizinhos e pessoas que trabalharam para ele (de operários a seus advogados, passando pelos homens de sua organização), com pessoas que foram suas vítimas e, além de toda essa gente, com aqueles que o combateram dentro da lei ou na ilegalidade.

Foi árduo o trabalho de localizar as fontes, conseguir autorização para visitar alguns deles nas prisões ou nas casas onde eles hoje procuram se manter no anonimato, tendo sido difícil, às vezes, conseguir que rompessem o silêncio. Foram incluídos também trechos de uma entrevista realizada pela jornalista Ana Victoria Ochoa com dona Hermilda Gaviria, para um documentário ainda inédito intitulado Madre de espaldas con su hijo.


A reconstrução dos fatos se alimentou também de fontes escritas, entre elas os livros que foram publicados sobre o personagem ou abordando episódios relacionados a ele. Além disso, com a publicação de centenas de notícias de jornais a respeito do narcotráfico, especificamente sobre Escobar, ao longo de dezesseis anos, que inventariei e analisei cuidadosamente. Por último, foram-me muito úteis manuscritos e correspondências, vários deles inéditos, que algumas pessoas mantêm guardados, mas generosamente puseram à minha disposição.


Enfim, somando vozes, procurei construir um olhar multifacetado de um personagem que só de ser mencionado já suscita controvérsias, mas que definitivamente nos marcou e foi o símbolo maior do estigma que hoje nós, colombianos do mundo inteiro, carregamos: o narcotráfico.


É verdade que em muitos dos episódios há versões diferentes e até conflitantes. Nesses casos, procurei incorporá-las.


Inventei um personagem, Arcángel, em cuja boca coloquei opiniões que alguns dos protagonistas não querem assumir publicamente. Arcángel também foi útil, do ponto de vista narrativo, para apresentar alguns fatos que poderiam comprometer judicialmente aqueles que os revelaram.


Nunca se sabe com certeza qual é o momento oportuno para se entrar numa história dessa magnitude e, sobretudo, qual o momento de contá-la. Não deixa de ser um atrevimento este escrito. Mas talvez seja proveitoso para a Colômbia, e em alguma medida para o mundo, evitar que o esquecimento sepulte as tramas complexas tecidas em torno de Escobar, e que, afinal, nos reste o retrato pitoresco de um traficante de quem simplesmente se pode dizer que foi uma pessoa cruel e desmedida.


Este texto não busca revelar verdades judiciais não pronunciadas, mas quer tão somente contribuir para a construção de uma verdade histórica. Quer, sobretudo, contar que Escobar não é um caso fortuito, mas produto de algumas circunstâncias históricas e culturais específicas de um país como a Colômbia – que sempre parece inacabado, pela metade –, combinadas com o grande negócio do fim do século XX: a produção e exportação de drogas ilícitas.


Em uma de suas acepções, “parábola” significa narração da qual se deduz um ensinamento ou história de conteúdo moral. A história de Escobar questiona a sociedade inteira, as elites da política, a economia e as Forças Armadas sobre a coerência de nosso Estado e nossa suficiência para constituir uma nação na qual seja possível uma vida digna para todos. E interroga a comunidade internacional, em especial os Estados Unidos, sobre o embuste de manter uma guerra, a chamada guerra contra as drogas, que não diminuiu o consumo, mas, em vez disso, criou fenômenos sem precedentes de criminalidade e destruição da vida e da natureza.





CAPÍTULO I



Bairro dos deitados é como as pessoas se referem a Montesacro. Ele fica ao sul 
de Medellín, exatamente sobre uma pequena colina, no município de Itagüí, e é um cemitério como qualquer outro: um extenso terreno onde abundam tumbas rasas, identificadas por uma pequena placa de mármore, sendo quase todas adornadas com flores já quase murchas. Só que esse cemitério abriga um defunto diferente dos outros: “Aqui jaz Pablo Emilio Escobar Gaviria, um rei sem coroa”, anuncia uma placa de mármore assentada sobre a sepultura.

Cheguei ali em 2 de Dezembro de 1995. Esperava encontrar no local o túmulo de um príncipe. Imaginava que alguém que havia chegado a ser um dos homens mais ricos do mundo vivia sua posteridade em um mausoléu de mármore e chapas de ouro, e me desencantei ao ver uma morada humilde, adornada com pinheirinhos, gladíolos e açucenas.

Eu havia começado a pesquisar a história desse defunto a respeito do qual 
basicamente sabia que causara sofrimento a todos  à cidade inteira e ao país provocando em nós uma mudança definitiva. Ele, assim como centenas de latino-americanos, conheceu no início dos anos 70 o comércio da cocaína; sabia que era algo que dava dinheiro, mas estava longe de imaginar que se tratasse de uma caixa de Pandora da qual brotariam mananciais de riqueza e, depois, como no mito grego, tempestades e guerras. Tanto as riquezas quanto as tempestades o levaram por caminhos nunca imaginados. Pablo se diferenciou de seus pares porque, além de ser um próspero narcotraficante, transformou a morte em um inigualável instrumento de poder, em um grande negócio e em sua sina.

Sonhava que sua verdadeira humanidade estava descrita em algum lugar. Mas 
em tudo o que disse, no que ficou escrito ou gravado, pelo menos no que se conhece, ele, campeão do mimetismo, sempre ocultou seu ser.

Cheguei a Montesacro em 2 de Dezembro porque se comemorava, como todo 
ano, o aniversário do nascimento e da morte de Pablo, e eu teria a oportunidade de ver dona Hermilda, sua mãe, e Arcángel, um homem que se tornara popular porque permanecia, havia dois anos, como um guarda junto ao túmulo. Eu esperava, e de algum modo comprovei, que um homem que vinha tomando conta de um morto durante dias, semanas e anos pudesse ter conhecimento e confiança para descrevê-lo a fundo e com sinceridade.

Observei atentamente Arcángel 
 sua pele trigueira e a aparência de homem simples , ele estava limpando e preparando o cenário da homenagem ao morto considerado o mais vivo de toda a Colômbia. Pablo  como continua sendo chamado pela maioria das pessoas, sem nem sequer dizer seu sobrenome, como se se tratasse de um amigo ou alguém da família  foi seu companheiro de infância e um homem que marcou definitivamente sua vida; por isso lhe dedica uma espécie de amor perene que o leva a cuidar de seu repouso.

Arcángel me falou da peregrinação incessante a esse túmulo. Para lá vai gente 
procedente de todos os rincões, de países distantes, mas principalmente muitos colombianos. Alguns vão por simples curiosidade; outros para lhe prestar um tributo de admiração, e outros ainda para implorar favores. Uns fazem isso silenciosamente, mas há aqueles que, ao contrário, perturbam a paz do defunto para lhe agradar. Com certeza são bem-sucedidos, porque ele sempre gostou de pessoas simples. “Certa madrugada, não há muito tempo, chegou um grupo de rapazes que, depois de uma rumba, começou a saudá-lo aos gritos e a oferecer-lhe uma garrafa de uísque, que, como numa homenagem, derramaram sobre a grama.” Por seu espírito guerreiro e generosidade, Pablo tinha a admiração sem limites da gente do povo. Ele próprio demonstrou isso quando, na prisão de La Catedral, recebeu milhares de cartas de jovens, crianças, meninas, padres, juízes, freiras, esportistas, estudantes universitárias... “Ninguém o substitui no mundo, não existe ninguém como você, nunca houve e jamais virá a existir”escreveu-lhe uma mulher humilde que vivia no depósito de lixo da cidade e recebeu uma das quinhentas casas construídas por ele no bairro da Virgem Milagrosa. Outros lhe pediam perdão por sua vida, lhe davam parabéns por ter se entregado, o adulavam ou pediam autorização para vê-lo. Ele próprio mostrou a sua mulher uma carta na qual algumas universitárias de Bucaramanga, jovens e virgens, lhe ofereciam seu sexo, como se para elas isso fosse uma honra.

Arcángel disse que vinham até lá pessoas que permaneciam chorando sua morte 
por considerá-lo um homem de bom coração. Peregrinavam seguindo sinais recebidos em sonhos: Pablo as ajudaria a conseguir casa, pagar dívidas ou ganhar na loteria. Aqueles cujos pedidos já haviam sido atendidos asseguravam que, se deixassem de visitá-lo, iriam se dar mal.

Há gente que convoca o espírito poderoso de Pablo, o Chefão, entoando rezas, 
sozinhos ou acompanhados, com o santinho que traz sua fotografia, repetindo com fervor uma oração que certa vez uma anciã criou para ele:


Multiplicai-me se necessário;

fazei que eu desapareça
quando for preciso.
Convertei-me em luz
quando for sombra;
Transformai-me em estrela
quando for areia...


Arcángel catava o lixo e procurava conter os predadores que destruíam o que 
encontrassem para levar algo como talismã. Apesar de seus cuidados, todo dia tinha que tampar os buracos deixados por aqueles que levavam dali punhados de terra e flores em quantidade, que ele repunha. Todo mês, o dia 2 é de alerta máximo, em especial 2 de Dezembro, data de aniversário de seu nascimento e morte. A peregrinação não parava. Arcángel observava a chegada de algumas mulheres bonitas que vinham visitá-lo com certa regularidade e iam embora em silêncio. Devem ser femeazinhas que o amaram ou simplesmente lhe ofereceram suas graças em busca de recompensa, diz. Elas, como muitas outras pessoas, guardavam pequenas partes da vida desse homem que tanto nos assombrou e destruiu, e de quem sabemos muito pouco. Por outro lado, havia aqueles que não resistiam a contar casos, cheios de verdades e invenções, que pintavam uma história sem pé nem cabeça, difusa e contraditória.

Arcángel não só havia escutado pessoas que o admiravam, como também 
aquelas que reclamavam dele com muito rancor. Certa madrugada, chegaram alguns jovens que vinham de uma festa e começaram a sapatear sobre o túmulo, gritando: Era assim que queríamos ver você, rendido a nossos pés. Queriam cobrar dele a dinamite que derrubou edifícios, arruinou comerciantes ricos e pobres, mutilou e matou centenas de transeuntes anônimos; as rajadas, os estilhaços cravados na sociedade; a multiplicação do ódio provocado pelo estampido de seus guerreiros. Quanta dor seu fantasma semeou e quanta dor ainda causa? Há quem, em uma matemática imprecisa, lhe atribua 4 mil homicídios diretos, além de afirmar que por sua influência se desencadeou a pior epidemia de morte já vivida pela sociedade colombiana.

Hoje, 2 de Dezembro de 2000, cinco anos depois, esse aniversário é 
comemorado como a encenação de uma ópera. Chegam os fiéis que moram no bairro Pablo Escobar e, liderados por um veterano travesti, entoam a novena. Lá vem dona Hermilda, sua mãe, a mais fiel no cemitério, anuncia Arcángel. Os olhos claros se deixam ver através dos óculos, o cabelo é grisalho e com alguma cirurgia plástica conseguiu apagar um pouco as marcas dos anos; anda apoiada nas filhas, mas continua altiva e inteira. De rosário na mão, vestida de luto, soma-se à romaria da reza. Embora não haja horário fixo para visitas  porque os pobres não lhe dão sossego, ficam à espreita para pedir sua misericórdia nunca prolonga sua ausência por mais de três dias, já que sabe como é importante orar pelos defuntos diante de seu túmulo. Todas as almas, sem exceção, diz dona Hermilda, vão temporariamente para o purgatório, pois ao nascer cada um de nós já traz consigo o pecado original herdado de nossos pais, Adão e Eva. O tempo de permanência lá vai depender da gravidade dos pecados de cada um e da fé e intensidade das rezas. Voltada para sua memória, ela começou, como sempre, a falar do filho:

“Elogio em boca própria é vitupério, mas inteligência Pablo herdou de mim e 
honradez, do pai. Ele era ambicioso, como somos todos, queria dinheiro para que sua família vivesse bem, especialmente seus pais, os irmãos e também para manter muito bem a mulher. Mas nunca tirou um centavo de ninguém e, como homem honrado, fazia negócios de boca, não com papéis, e cumpria o que prometia.”

Ao vê-la, um grupo de jovens pediu-lhe a bênção, elogiando-a por haver trazido 
a este mundo um autêntico varão, um homem tal que talvez nunca volte a existir outro nesta terra. Ela os abençoou, enquanto outro de seus familiares explicava a curiosos a origem da fortuna de Pablo:


[...] que desde pequeno alugava bicicletas e gibis, como o Llanero Solitario, Zorro e Santo, que os jovens dos anos 1960 liam; que vendia lápides nos povoados; que distribuía catálogos da empresa telefônica da cidade e, por ter tanta sorte, achava dinheiro entre os exemplares velhos; que vendia bilhetes de loteria e ganhava.



Enfim, que conseguiu fazer fortuna com trabalho e habilidade, que o restante 
eram calúnias dos gringos, do governo, dos jornalistas e dos ricos invejosos que o impediram de realizar seu anseio de ajudar os pobres, como mandava seu bom coração. Dona Hermilda vai pondo flores e limpando outra placa de mármore que diz: “Você vive em um mundo maravilhosamente real: nosso coraçãoenquanto isso, fica ouvindo Arcángel falar sobre as romarias que passam para vê-lo. Ela dedica a vida a manter e depurar a lembrança de Pablo, que viu estirado sobre um telhado, em 2 de Dezembro de 1993, quando fazia 44 anos, alguns minutos depois de ter sido abatido pelo Corpo de Elite da Polícia. Foi o fim de uma angústia prolongada por longos anos de guerra e confrontação; o início de uma tristeza, a da ausência, da qual ainda não havia conseguido se recuperar. Ela mesma o havia levado a esse jardim. A massa, como um redemoinho incontrolável, passou por cima da tropa e quebrou vidros para entrar na capela. Alguns desses milhares de pessoas conseguiram vê-lo, mas nem essa evidência os convenceu de sua morte.

Nesse momento a revista Semana, de Bogotá, descreveu assim a pegada que 
ficaria marcada na história da Colômbia:

Não deixou que três presidentes governassem. Transformou a língua, a cultura, a fisionomia e a economia de Medellín e do país. Antes de Pablo Escobar os colombianos desconheciam a palavra “sicário. Antes de Pablo Escobar, Medellín era considerada um paraíso. Antes de Pablo Escobar, o mundo conhecia a Colômbia como a Terra do Café. E antes de Pablo Escobar, ninguém pensava que na Colômbia pudesse explodir uma bomba num supermercado ou num avião no ar. Por causa de Pablo Escobar há carros blindados na Colômbia e as necessidades de segurança modificaram a arquitetura. Por causa dele mudou-se o sistema judicial, reorganizou-se a política penitenciária e até o projeto das prisões, e as Forças Armadas se transformaram. Pablo Escobar descobriu, antes de qualquer antecessor seu, que a morte pode ser o maior instrumento de poder.

Dona Hermilda olha o vasto mar de mortos estendido a seus pés, mas seu 
coração de mãe só vê o túmulo do filho. E se condói do que chama de seu sacrifício e dos que o atraiçoaram: “Aqueles que aqui não vêm são os tortos, os que lhe deram as costas, diz, “os que passaram por Nápoles, sua fazenda, para oferecer e pedir. Ele mandava buscar de avião ou helicóptero em Bogotá políticos, empresários, ex-presidentes, artistas, jornalistas, rainhas, divas.”

Se metade do país não está na cadeia por corrupção é porque Pablo sempre pagou em dinheiro, nunca em cheque, é o que se ouve com frequência. Deu dinheiro a políticos, a magistrados de altos tribunais, que recomendavam fórmulas jurídicas para guerrilheiros com cuja causa ele simpatizava; banqueiros e construtores que lhe sugeriam excelentes negócios... A outros não deu dinheiro, mas lhes fez favores. Um político o procurava para pedir que lhe emprestasse aeronaves para sua campanha eleitoral, outro, que matasse uma pessoa sequestrada. Outro ainda para lhe dizer: Faça-me o favor de cometer dois atentados, e Pablo, generoso, os presenteava com dois auto-atentados, atraindo a simpatia popular e impulsionando sua eleição.

Graças a esses bons tempos de múltiplas relações, achou que podia ingressar na 
alta sociedade. Para sua surpresa, fecharam-lhe as portas. Mas se meu dinheiro vale tanto quanto o deles..., reclamava, ressentido com a oligarquia, por sua moral dupla; e assim foi cultivando um apurado espírito de ressentimento. Consolava-se ao comparar sua fortuna com a daqueles que o desprezavam: Como são pobres os ricos de Medellín, dizia, quando constatava a enormidade de seu próprio poder econômico.

Pablo não está só nesse bairro dos deitados, está rodeado de amigos e inimigos, veja, eu lhe mostro, me diz Arcángel. Ao seu lado está Álvaro de Jesús Agudelo, Limón, o guarda-costas que o acompanhava no dia de sua morte.” Como foi esse dia? O coronel Aguilar, do Corpo de Elite da Polícia, conta que Pablo, conversando por telefone com seu filho Juan Pablo, confunde o barulho na porta com os ruídos de uma construção vizinha. Três homens da polícia entram preparados para disparar, mas encontram o primeiro andar vazio. Pablo se despede da pessoa com quem estava falando ao telefone, procura a janela por onde saiu Limón e o segue pelo telhado. Volta o olhar e vê um policial junto à janela, que dispara com uma pistola automática Zig Sauer. O oficial se atira no chão. Os policiais que cobrem a parte traseira da casa disparam neles com fuzis R15. Limón cai na calçada e Pablo, sobre o cavalete do teto. O oficial no comando grita: Viva a Colômbia!. Agarra-o pela camiseta azul, esboça um leve sorriso e faz pose com sua presa para a câmera. Os comandos reportam a ocorrência ao ministro da Defesa e ao presidente da República. Eles duvidam, temem uma nova batida em falso. Esperam ansiosos e... fazem o anúncio ao país. Osito, o irmão mais velho de Pablo, sempre se irritava quando diziam que foram os tombos  como são chamados os policiais  que mataram Pablo. Mentira!, assegura. Meu irmão se suicidou, sempre deixou claro que não se deixaria pegar vivo, já que só a morte ou a extradição o esperavam, por isso se antecipou, e para não dar gosto a seus inimigos, disparou com sua pistola atrás da orelha.

A poucos passos do túmulo de Pablo repousa Gustavo Gaviria, seu primo, com 
quem era unha e carne, que talvez o tenha superado em riqueza por sua moderação para gastar. Lembram que, quando o enterraram, seu filho, também chamado Gustavo Gaviria, conhecido como Tavito, lhe ofereceu uma serenata de música camponesa com a qual quis dizer que herdava seu poder, a luta e até sua maneira de ser. Tavito, que tinha 23 anos, foi morto às 11 da manhã do dia em que mataram Pablo. Os dois, pai e filho, estão aqui na mesma cova, um em cima do outro, o filho acima do pai.

Do outro lado está Mario Henao, cunhado e companheiro de andanças, morto na 
selva do Magdalena Medio em 22 de Novembro de 1989, quando levava para o Chefão uma femeazinha, porque mesmo nessas épocas de perseguição gostava da companhia de mulheres jovens e formosas. Também descansa, um pouco mais acima, Jotaeme, um traqueto – como são chamados aqui os traficantes –, sobre cujos ossos seus trabalhadores lançaram dinheiro no momento do sepultamento, à maneira das culturas indígenas, que enterravam seus defuntos com riquezas e comida. Mas para que dinheiro no além?, perguntou um dos que assistiam à cerimônia. Para que tenha com que coroar rainhas e virgensresponderam, e com que molhar a mão de São Pedro para deixá-lo descer à Terra para dar umas voltinhas. Mais além, num território sem nome, repousam Kiko Moncada e Negro Galeano, dois sócios com quem Pablo trabalhou por toda a vida e os quais mandou executar por serem tortos, desleais, sentenciou, sem calcular que esses mortos entornariam o copo de seus próprios aliados, ousando pela primeira vez na vida se insubordinar, o que seria o princípio de seu fim.

Sigo os passos de Arcángel até o setor 8, onde jazem três trompetistas da banda 
Marco Fidel Suárez. Desde criança todos conhecíamos esses músicos, que animavam as festas religiosas e comunitárias. E Pablo, assim que foi aquinhoado pela fortuna, adotou-a como a acompanhante permanente de suas festas. Mas Arcángel me lembra que eles acabaram explodidos pela dinamite que o mesmo Chefão mandou detonar no final de uma tourada, na Plaza de la Virgen de la Macarena.

Arcángel prossegue com uma descrição tão cheia de mortos que me faz pensar 
que a geografia de cruzes ultrapassa os limites do cemitério e se estende pelos vales e montanhas do país. No Valle del Sinú repousa Fidel Castafio, sócio, amigo e responsável por sua derrota final, a quem a guerrilha mandou para o mundo dos deitados algum tempo depois. E no Valle de Lágrimas está o coronel Valdemar Franklin e muitos dos policiais por cuja morte Pablo pagou, e aqueles que, como homem que era, executou com as próprias mãos. E também uma bebezinha de meses  cuja foto sem nome apareceu no jornal , que morreu atirada contra uma parede após a explosão de um de seus carros-bomba.

Passando o largo rio Magdalena, sobre a outra montanha, está um de seus 
maiores sócios, o Mexicano. E mais distante ainda, sobre a planície central de Bogotá, Luis Carlos Galán, candidato à presidência a quem Pablo, o Mexicano e outros mais mandaram sacrificar. E ao lado de Galán, outros grandes inovadores da política, cujas mortes lhe atribuíram, embora ele sempre tenha negado: Bernardo Jaramillo, dirigente da esquerda; e Carlos Pizarro, o dirigente guerrilheiro que liderou a paz. E muitos outros mortos de categoria porque, como gostava de dizer ao Chefão: Neste país, onde só os pobres morriam assassinados, talvez a única coisa que se democratizou foi a morte.”

Mas Arcángel, apesar de associar Pablo à corrente de mortos, defende-o, como o 
fazem implacavelmente aqueles que estiveram ao seu lado como beneficiários. Por isso, só consegue garatujar uma face de Pablo: era um homem bom a quem obrigaram a fazer o mal. Mas seus rostos na realidade são muitos mais do que os que esse cego admirador imagina. Às vezes, parecia que o próprio Pablo não sabia reconhecer seu verdadeiro rosto e procurava estilo pessoal e identidade nas figuras que admirava, como o Padrino e Siciliano, ambos personagens de Mario Puzo; do primeiro dizem que aprendeu o hermetismo, os modos lentos e os longos silêncios; do segundo, admirou a vocação social. Também foi influenciado pelos personagens do filme Os Intocáveis, que viu umas três vezes do princípio ao fim. Assim, segundo se dizia, comprou e levou para a Colômbia o automóvel onde foram baleados Bonnie e Clyde, e se fez fotografar disfarçado de Pancho Villa, com ombreiras, botões de prata e um chapelão, e também de Al Capone, com chapéu de aba quebrada e cigarro na boca. Mesmo assim, continuava lhe escapando o essencial de sua imagem, e ele acabou sendo um ser de mil rostos.

Mas não só imitou como conseguiu uma marca de fábrica bem singular, 
superando seus ídolos em crueldade. Às rajadas de metralhadora dos gangsters somou a dinamite, que ele chamava de bomba atômica dos pobres. E explodiu mais bananas do que as que haviam estourado desde a independência do país. É que o Chefão dizia: Manda!, e ativavam uma engrenagem que funcionava com perfeita sincronização: um escritório recebia a ordem, conseguia um intermediário que recrutava grupos para executar a ação... “Manda!, dizia, e algo detonava um tiro, uma rajada ou uma explosão. “Manda!, e morria o diretor de um jornal, um magistrado, um oficial, um candidato à presidência, um ministro, um capo inimigo, um capo amigo, uma centena de transeuntes desprevenidos. Arcángel me adverte com tranquilidade que, se eu quiser procurar quem fale mal de Pablo, devo perguntar a seus inimigos. “Mas aos inimigos vivos, porque os mortos às vezes não falam, diz e começa a fazer a lista: o DEA [Drug Enforcement Administration] o qualifica como o maior criminoso da história. Na Colômbia, o general Miguel Maza, seu arqui-inimigo, que o perseguiu de maneira sistemática e implacável  contra quem Pablo fez estourar duas cargas apocalípticas de dinamite , o descreve como “um homem excepcional, uma dessas pessoas que a natureza produz a cada século entre milhões, que desperdiçou a vida fazendo o mal. O general Hugo Martínez Poveda, um dos homens que o derrotaram, o define, ao contrário, em termos lacônicos: “Não tinha características de líder, foi o que foi pelo dinheiro, que usou para buscar carinho e proteção entre os humildes. Mas o reverencia por sua capacidade para se infiltrar nos órgãos de segurança e reconhece que por isso fugia das maneiras mais insuspeitadas; se esfumava, se desfazia quando os oficiais davam por certa sua captura. “Braço armado do regime corrupto, era como o chamaram outros, que insistem em que Pablo foi atiçado e usado pela burocracia militar e política, e por setores oligárquicos, inimigos da moralização do país. Um sociopata é como o definem os psiquiatras que estudam obsessivamente sua personalidade: “Um homem edipiano, egocêntrico, desafiador da autoridade e das normas, sem reato moral.” Francisco Santos, uma de suas vítimas, um dos herdeiros de El Tiempo, o jornal mais importante do país, o define como “um Da Vinci do crime. O político Alberto Villamizar, a quem Pablo tentou matar, de quem sequestrou a mulher e a irmã e que desempenhou um papel preponderante em sua entrega à Justiça, diz que ele “era um homem inteligente e guerreiro, que não conhecia o limite entre o bem e o mal, e não tinha o menor respeito pela vida humana”.

Pablo? Pablo era o melhor amigo e o pior inimigo. Nunca lhe faltaram guerras 
– em certa medida, viveu delas e para elas  e as fez com obstinação de sagitário acompanhado de homens rebatizados como Pasarela, Suzuki, Carrochocao, Trapiadora, Arcángel, Tyson, Pinina, Chopo, Mugre, Arete, Angelito, Cuchilla, Pájaro, Boliqueso, Bocadillo, Monja Voladora, Chapeto, Zarco, Risas, Comanche, Nangas, Misterio... Alguns se vincularam recém-graduados no colégio dos salvatorianos. Em vez de padres, como suas famílias queriam e como em algum momento eles próprios chegaram a acreditar, acabaram como bandidos. Mas como aquele que peca e reza empata, segundo diz um ditado antigo, ainda no furor de sua maldade eles participavam da Semana Santa em La Estrella. Na noite da prisão de Jesus, no Horto, na Sexta-Feira Santa, caminhavam descalços levando sobre os ombros, em grupos de doze, uma pesada imagem que evoca a cena em que Cristo segue para o julgamento, traído por Judas.

Todos aprenderam a matar, mas não faziam isso movidos por ódios aninhados 
nas entranhas, como os velhos pássaros  os assassinos da Violência de meados do século XX , que matavam com um sentimento que beirava o misticismo. Esses, os de Pablo, gente da cidade, filhos do capitalismo selvagem, matavam por negócio. Aprenderam o ofício com Jorge Mico e Elkin Correa, que o praticaram com eficiência nos anos 70, durante a guerra de contrabandistas. E de Tono Molina, que cada vez que matava alguém corria a sussurrar o pecado à Virgem da Candelária, na Catedral do Parque de Berrío, em Medellín.

Se para Pablo a excessiva crueldade foi o princípio de seu fim, o amor pela 
família o consumou. Ele tinha uma grande capacidade de organização, rodeou-se de poderosas redes de segurança e montou um grande aparato de inteligência. Mas seu cálculo e sangue-frio chegavam até onde nascia a fragilidade por sua família. Seus amigos dizem que ele acreditava profundamente em Jesus Cristo e admirava o Evangelho. Vivia num lar católico, com projeto de vir a ser numeroso, como as ancestrais famílias antioquenas. Era um pai tão bondoso que se afastava dos filhos para fumar um vareto  cigarro  de maconha, seu único vício permanente. Os filhos e a esposa foram seu calcanhar de Aquiles, e foi dessa fragilidade que seus inimigos acabaram se aproveitando para caçá-lo.

“Hoje, de novo, dona Victoria, a mulher do Chefão, está ausente
, me diz Arcángel, lamentando que ela, tanto na morte quanto em vida, permanecia olhando-o de longe, e que ele tentava chegar até ela, sem o conseguir. Agora me aponta a imagem onipresente de dona Hermilda. Aproximo-me para ouvir as declarações que ela faz à televisão:

“Fabio? Foi o melhor filho do mundo, o melhor colombiano que já nasceu
, diz ela, enquanto Arcángel vai arrancando o mato.




Manancial: Pablo Escobar, A ASCENSÃO E A QUEDA DO GRANDE TRAFICANTE DE DROGAS

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