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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

PABLO ESCOBAR, MEU PAI – CAPÍTULO 1: A traição


Para meu filho, que me dá a força e a energia necessárias para ser um homem de bem.

Para minha eterna amada e companheira de aventuras.

Para minha corajosa mãe.

Para minha irmã de sangue e de alma.

Para minha querida família.

E para os poucos amigos que conseguiram transpor o medo.



O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Pablo Escobar, meu pai, de seu filho, Juan Sebastián Marroquín, sem a intenção de obter fins lucrativos. — 
RiDuLe Killah




NOTA DA EDIÇÃO



Pablo Escobar, meu pai talvez seja um dos projetos editoriais mais complexos em que o grupo Planeta embarcou nos últimos anos.


Achávamos que tudo já havia sido dito acerca de Pablo Escobar. Sobre ele escreveram as melhores mãos, os jornalistas mais respeitados e até seus irmãos. O cinema também já recriou a vida do capo (chefe do tráfico).

Foi necessário que se passassem mais de duas décadas para que Juan Pablo Escobar, seu filho, resolvesse esmiuçar a fundo a vida que não escolheu e revelasse a todos nós as curiosas formas de amor paternal manifestadas num contexto de excessos e de violência. Os incontáveis detalhes inéditos que esta abordagem traz revelam um personagem ainda mais complexo.

E não apenas isso. Este livro também expõe uma versão diferente acerca de muitos episódios ocorridos naquela época na Colômbia.

Juan Pablo Escobar — que mudou sua identidade para Juan Sebastián Marroquín — e a editora Planeta trabalharam durante mais de um ano nesta obra, que precisou passar por rigorosos crivos editoriais e checagem de fontes de informação.

A extrema importância do tema, as feridas ainda abertas, as milhares de vítimas que ficaram pelo caminho, as investigações concluídas e as ainda em andamento contribuem para o fato de que, desde já, Pablo Escobar, meu pai se torne inevitavelmente uma referência incontornável, tanto na Colômbia quanto em outras latitudes.




APRESENTAÇÃO


Palavras por Juan Sebastián Marroquín



Mais de vinte anos de silêncio se passaram enquanto eu recompunha minha vida no exílio. Para tudo há um tempo, e este livro, bem como seu autor, precisavam passar por um processo de amadurecimento, autocrítica e humildade. Só assim estaria pronto para sentar e começar a escrever sobre histórias que ainda hoje para a sociedade colombiana são duvidosas.


A Colômbia também amadureceu os ouvidos, e por isso considerei que era chegada a hora de compartilhar com os leitores a minha vida ao lado do homem que foi meu pai, a quem amei incondicionalmente e com quem, por obra do destino, vivi momentos que marcaram parte da história da Colômbia.

Desde o dia do meu nascimento até o dia em que ele morreu, meu pai foi meu amigo, guia, professor e conselheiro. Uma vez lhe pedi que escrevesse sua verdadeira história, mas ele não quis: “Grégory, primeiro a gente faz a história, só depois é que escreve sobre ela.”

Prometi que vingaria a morte de meu pai, mas quebrei a promessa dez minutos depois. Todo mundo tem o direito de mudar, e há mais de duas décadas vivo totalmente imerso em regras claras de tolerância, convivência pacífica, diálogo, perdão, justiça e reconciliação.

Este não é um livro de repreensões e julgamentos; é um livro que propõe profundas reflexões sobre a configuração da pátria colombiana e de suas políticas, e sobre por que figuras como meu pai podem surgir em suas entranhas.

Respeito a vida, e foi com isso em mente que escrevi este livro; parti de uma perspectiva diferente e única na qual não tenho qualquer intenção oculta, ao contrário da maioria dos textos sobre meu pai que circula por aí.

Este livro tampouco é a verdade absoluta. É um exercício de busca e uma aproximação à vida de meu pai. É uma investigação pessoal e íntima. É a redescoberta de um homem, com todas as suas virtudes, mas também com todos os seus defeitos. A maior parte dos relatos aqui presentes me foi transmitida por ele, nas noites longas e frias de seu último ano de vida, ao redor de fogueiras; outros, ele me deixou por escrito, quando seus inimigos estavam muito perto de aniquilar a nós todos.

Esta aproximação à história de meu pai me levou a conversar com personagens que por muito tempo permaneceram escondidos, e que só agora se dispuseram a contribuir para este livro, para que o meu juízo e o da editora não fossem parciais. E, sobretudo, para que ninguém, nunca mais, herde ódios como os que existiram.

Nem sempre estive ao lado de meu pai; não sei todas as suas histórias. Quem disser que as conhece em sua totalidade estará mentindo. Todas as lembranças que estão neste livro me foram contadas muito depois de os fatos terem ocorrido. Meu pai jamais pediu a minha opinião sobre qualquer decisão que iria tomar, nem a de ninguém; era um homem que resolvia tudo por conta própria.

Muitas “verdades” sobre meu pai são conhecidas pela metade, ou nem sequer são conhecidas. Por isso, contar sua história implicava muitos riscos – deveria ser narrada com um enorme senso de responsabilidade, porque, infelizmente, muito do que já se disse parecia corresponder à verdade. Tenho certeza de que o crivo ferrenho que a Planeta e o editor Edgar Téllez mantiveram sobre o texto contribuiu para o sucesso desta empreitada.

O que faço aqui é explorar de maneira pessoal e profunda as entranhas de um ser humano que, além de ser meu pai, chefiou uma organização mafiosa de proporções que a humanidade nunca havia visto.

Peço perdão publicamente a todas as vítimas que meu pai fez, sem exceções; sinto uma dor profunda na alma ao pensar que essas pessoas sofreram as consequências de uma violência indiscriminada e sem igual, que matou muitos inocentes. A todos esses, digo do fundo da minha alma que busco hoje honrar a memória de cada um. Este livro foi escrito com lágrimas, mas sem rancores. Sem espírito de denúncia, nem de revanchismo, nem como desculpa para promover a violência, muito menos para fazer apologia ao crime.

O leitor se surpreenderá com o conteúdo dos primeiros capítulos, porque neles revelo pela primeira vez o profundo conflito que vivemos com meus parentes paternos. São vinte e um anos de desencontros, que me levaram a concluir que vários deles colaboraram ativamente para o desenlace final que matou meu pai.

Não seria errado dizer que a família de meu pai nos perseguiu mais que os piores inimigos dele. Sempre agi para com eles com amor e respeito absoluto pelos valores da família, que não deveriam se perder nem mesmo na pior das guerras e muito menos por dinheiro. Deus e meu pai sabem bem que eu, mais que qualquer outro, imaginei e quis acreditar que essa dolorosa tragédia familiar fosse apenas um pesadelo, e não uma realidade que eu precisava enfrentar.

Agradeço a meu pai por sua sinceridade bruta, aquela que por força do destino precisei e procurei compreender, embora sem qualquer tentativa de justificá-lo.

Após meu pedido de perdão no documentário Pecados de mi padre, os filhos dos líderes assassinados Luis Carlos Galán e Rodrigo Lara Bonilla me disseram: “Você também é uma vítima.” Minha resposta continua sendo a mesma desde então: se por acaso de fato sou vítima, serei a última de uma longa lista de colombianos.

Meu pai foi um homem responsável por seu destino, por seus atos, por suas escolhas de vida como pai, como indivíduo e, também, como o criminoso que produziu, na Colômbia e no mundo, feridas que permanecem abertas. Meu sonho é que algum dia elas cicatrizem e se transformem em algo que sirva para o bem, para que ninguém ouse repetir essa história, apenas aprenda com ela.

Não sou um filho que cresceu cegamente fiel ao pai, pois mesmo enquanto ele estava vivo questionei duramente a violência e os métodos que usava, e lhe pedi, de todas as maneiras possíveis, que abandonasse seus ódios, largasse as armas e encontrasse soluções não violentas para seus problemas.

No universo de opiniões e escritos a respeito da vida de meu pai, só há um ponto em que todos são unânimes: seu amor incondicional por esta, sua única família.

Sou um ser humano que espera ser lembrado por seus próprios atos, e não pelos de seu pai. Convido o leitor a não me esquecer enquanto avança por meus relatos, nem a me confundir com meu pai. Esta também é a minha história.



CAPÍTULO 1

A TRAIÇÃO




Era 19 de Dezembro de 1993, já haviam transcorrido duas semanas após a morte de meu pai, e nós continuávamos confinados e fortemente protegidos no vigésimo nono andar do apart-hotel Residencias Tequendama em Bogotá. De repente, recebemos uma ligação de Medellín em que nos informaram sobre um atentado contra meu tio Roberto Escobar, que recebera uma carta-bomba na prisão de Itagüí.


Preocupados, tentamos saber o que havia acontecido, mas ninguém dava notícias. Os telejornais diziam que Roberto abrira um envelope enviado pela Procuradoria, que explodiu e lhe causou feridas graves nos olhos e no abdômen.

No dia seguinte, minhas tias ligaram e nos informaram que a Clínica Las Vegas, para onde ele havia sido transferido em caráter emergencial, não possuía os equipamentos de oftalmologia requeridos para operá-lo. E, como se não bastasse, corria um boato de que um comando armado estava disposto a matá-lo no próprio quarto do hospital.

Minha família então decidiu transferir Roberto para o Hospital Militar Central de Bogotá, não apenas por ser mais bem equipado, mas também por oferecer condições adequadas de segurança. Assim foi feito, e minha mãe pagou os 3 mil dólares do aluguel de um avião-ambulância. Tão logo confirmei que ele já estava hospitalizado, decidimos ir visitá-lo com meu tio Fernando, irmão de minha mãe.

Quando estávamos para sair do hotel, estranhamos que os agentes do CTI [Corpo Técnico de Investigação] do Ministério Público, responsáveis por nossa proteção desde o fim de Novembro, houvessem sido substituídos justamente naquele dia, sem qualquer aviso prévio, por homens da Sijin [Seção de Investigação Criminal], a inteligência da polícia em Bogotá. Nada comentei com meu tio, mas tive o pressentimento de que algo ruim poderia acontecer. Em outras áreas do edifício, realizando diversas tarefas relacionadas a nossa segurança, havia também agentes da Dijin [Direção de Investigação Criminal] e do DAS [Departamento Administrativo de Segurança]. Do lado de fora a vigilância estava a cargo do Exército.

Algumas horas após chegarmos ao centro cirúrgico do Hospital Militar, um 
médico veio nos dizer que precisavam da autorização de algum parente de Roberto pois seria preciso extrair-lhe os dois olhos, muito danificados na explosão.

Nos negamos a assinar e pedimos ao especialista que, mesmo que as chances 
fossem mínimas, fizesse o que estivesse a seu alcance para o paciente não ficar cego, não importava o custo. Também dissemos que ele tinha carta branca nossa para trazer o melhor oftalmologista, qualquer que fosse o lugar onde ele estivesse.

Horas depois, Roberto saiu da cirurgia ainda anestesiado e foi transferido 
para um quarto onde um guarda do Instituto Carcerário e Penitenciário, o Inpec, estava à sua espera. Tinha ataduras no rosto, no abdômen e na mão esquerda.

Aguardamos pacientemente até ele começar a acordar. Ainda grogue por causa da anestesia, nos disse que enxergava luzes, mas não conseguia identificar nenhuma figura.

Quando vi que havia recobrado um pouco da lucidez, falei que estava 
desesperado, porque se o haviam atacado, era provável que seguissem a lista de parentes próximos e tentassem algo contra mim, minha irmã e minha mãe. Angustiado, perguntei se meu pai tinha um helicóptero escondido em algum lugar para fugirmos.

No meio da conversa, interrompida pela entrada de enfermeiras e médicos que vinham atendê-lo, perguntei várias vezes como iríamos sobreviver ante a clara ameaça dos inimigos de meu pai.

Roberto ficou em silêncio por alguns segundos, e então me disse para pegar 
papel e lápis e anotar uma coisa.

– Escreve o seguinte, Juan Pablo: “AAA”; e vai embora para a embaixada dos Estados Unidos. Pede a ajuda deles, diz que fui eu que te enviei.

Guardei o papel no bolso da calça e disse a Fernando para irmos até a 
embaixada, mas nesse momento o médico que havia operado Roberto entrou e nos falou que estava otimista, que fizera o possível para salvar os olhos dele.

Agradecemos o esforço do médico e nos despedimos para voltar ao hotel, 
mas ele me impediu, taxativo, afirmando que eu não podia sair do hospital.

– Como assim, doutor? Por quê?


– Porque a sua escolta não veio – respondeu.


As palavras do médico aumentaram ainda mais a minha paranoia. Como ele 
poderia estar tão a par do nosso esquema de segurança se permanecera na sala de cirurgia?

– Doutor, eu sou um homem livre. Diga logo que estou preso aqui, porque seja como for eu vou embora. Tenho motivos para acreditar que neste momento há um complô contra mim, cujo objetivo é me matar ainda hoje. Já até trocaram os agentes do CTI que estavam nos protegendo – respondi, muito assustado.

– Preso, não; protegido. Aqui neste hospital militar somos responsáveis pela sua segurança, e só podemos te entregar nas mãos da segurança do Estado.

– Os que deveriam responder pela minha segurança lá fora, doutor, são justamente os que virão me matar – insisti. – Então veja se me ajuda com a autorização para eu poder sair do hospital, ou vou ter que fugir daqui. Não vou entrar no carro daqueles que vêm para me matar.

O médico deve ter visto meu rosto aterrorizado e assegurou em voz baixa que não tinha qualquer objeção, e que assinaria imediatamente a ordem para que meu tio Fernando e eu saíssemos. Voltamos secretamente para o Residencias Tequendama e decidimos que no dia seguinte iríamos à embaixada.

Acordamos cedo e fui com meu tio Fernando para o quarto do vigésimo nono andar no qual os responsáveis por nossa proteção estavam alojados. Cumprimentei o “A-1” e disse que precisávamos que eles nos acompanhassem até a embaixada dos Estados Unidos.

– Fazer o que lá? – respondeu, de má vontade.

– Não preciso lhe informar o que vou fazer lá. Só me diga se vocês vão nos escoltar ou se vou ter que chamar o promotor geral e dizer a ele que você não quer nos proteger.

– No momento não há homens suficientes para levá-lo até lá – respondeu o funcionário do Ministério Público, incomodado.

– Como não há homens suficientes? Vocês têm um esquema permanente de segurança aqui com cerca de quarenta agentes do governo e veículos destinados especificamente para a nossa proteção!

– Pode ir se quiser, mas eu não vou tomar conta de você. E me faça um favor, assine aqui um papel dizendo que você renuncia à proteção que estamos oferecendo.

– Pode trazer o papel que eu assino – respondi.

O “A-1” foi a outro quarto a fim de pegar algo para escrever e nós aproveitamos esse momento para sair do hotel. Descemos correndo e pegamos um táxi que demorou vinte minutos para chegar à embaixada norte-americana. Naquela hora, oito horas da manhã, havia uma longa fila de pessoas esperando para dar entrada em vistos a fim de viajar para o país.

Eu estava muito nervoso. Fui abrindo caminho entre as pessoas, dizendo que iria realizar um trâmite diferente. Ao chegar à guarita da entrada peguei o papel com os três “A” que Roberto me havia ditado e decidi encostá-lo no vidro escuro e blindado.

Em instantes, quatro homens corpulentos apareceram e começaram a nos fotografar. Fiquei em silêncio, e alguns minutos depois um dos que tirava as fotos de nós se aproximou e me pediu que o acompanhasse.

Não perguntaram meu nome, não pediram meus documentos, não me revistaram, não precisei nem passar pelo detector de metais. Claramente o AAA era uma espécie de salvo-conduto que meu tio Roberto havia me dado. Eu estava assustado. Talvez por isso nem tenha pensado em questionar que tipo de contato o irmão de meu pai tinha com os norte-americanos.

Estava prestes a sentar numa sala de espera quando apareceu um homem mais velho, com o cabelo quase todo branco, muito sério.

– Meu nome é Joe Toft, sou diretor da DEA [Drug Enforcement Administration] para a América Latina. Por favor, me acompanhe.

Levou-me para uma sala contígua e me perguntou, sem maiores delongas, qual era o motivo da minha ida à embaixada.

– Vim pedir ajuda, porque estão matando minha família inteira... Como o senhor sabe, meu tio Roberto me disse para eu vir aqui dizendo que era da parte dele.

– Meu governo não pode lhe garantir nenhum tipo de ajuda – Toft disse, num tom ríspido e distante. – O máximo que posso fazer é recomendar um juiz nos Estados Unidos para que possa avaliar a possibilidade de dar a vocês residência lá, em troca de alguma colaboração sua.

– Colaboração em quê? Eu ainda sou menor de idade.

– Você pode colaborar muito conosco, sim... com informações.

– Que tipo de informações?

– Sobre os arquivos do seu pai.

– Vocês enterraram esses arquivos junto com ele.

– Não estou entendendo – disse o funcionário.

– No dia que vocês resolveram colaborar para assassinar meu pai... Os arquivos estavam na cabeça dele, e agora ele está morto. Guardava tudo na memória. A única coisa que guardava em arquivos, em agendas, eram informações sobre números de placas de carros e os endereços onde seus inimigos do cartel de Cali moravam, mas essas informações a polícia colombiana já tem, há muito tempo.

– Enfim, é o juiz que decide se você pode ser aceito lá ou não.

– Então não temos mais nada para conversar, senhor, vou embora, muito obrigado – eu disse para o diretor da DEA, que se despediu normalmente e me entregou seu cartão pessoal.

– Se algum dia você se lembrar de algo, não hesite em me contatar.

Saí da embaixada dos Estados Unidos com muitas perguntas. O inesperado e surpreendente encontro com a figura principal da DEA na Colômbia e na América Latina não serviu para melhorar nossa complicada situação, mas revelou algo que não sabíamos: os contatos de alto nível que meu tio Roberto tinha com os norte-americanos, os mesmos que três semanas antes ofereciam 5 milhões de dólares pela captura de meu pai, os mesmos que haviam mandado para a Colômbia todo o seu aparato de guerra para caçá-lo.

Parecia-me inconcebível pensar que o irmão de meu pai tivesse alguma ligação com seu inimigo número um. Essa possibilidade gerava novas inquietudes, como a ideia de que Roberto, os Estados Unidos e os grupos que integravam os Pepes (Perseguidos por Pablo Escobar) tivessem se juntado para capturar meu pai.

A hipótese não era descabida. De fato, ela nos fez pensar num episódio em que não havíamos reparado no momento em que se deu: quando meu pai e todos nós estávamos escondidos numa casa de campo na região montanhosa de Belén, distrito número 16 de Medellín. Foi quando meu primo Nicolás Escobar Urquijo, filho de Roberto, foi sequestrado por dois homens e uma mulher na tarde do dia 18 de Maio de 1993. Pegaram-no no Catíos, um restaurante de beira de estrada que fica entre os municípios de Caldas e Amagá, em Antioquia.

Ficamos sabendo disso quando estávamos nesse esconderijo, por uma ligação de um parente. Pensamos o pior, porque naquele momento, no afã de localizar meu pai a qualquer custo, os Pepes já tinham atacado muitos integrantes das famílias Escobar e Henao. Por sorte, acabou sendo só um susto; cinco horas depois, às dez horas da noite, Nicolás foi solto, sem um arranhão sequer, perto do hotel Intercontinental de Medellín.

Como a cada dia que passava ficávamos mais e mais isolados e sem comunicação, o sequestro de Nicolás acabou caindo no esquecimento, embora meu pai e eu nos perguntássemos como ele teria feito para sair vivo de um sequestro, que na dinâmica daquela guerra equivalia a uma sentença de morte.

De que maneira Nicolás se salvou? Em troca de que os Pepes o libertaram horas depois de sequestrá-lo? É provável que Roberto tivesse decidido fazer um pacto com os inimigos de meu pai em troca da vida do filho.

A confirmação dessa aliança veio em Agosto de 1994, oito meses depois da minha visita à embaixada dos Estados Unidos. Num daqueles dias, eu, Andrea (minha namorada), minha mãe e minha irmã Manuela fomos até as ruínas do pouco que restava da fazenda Nápoles. Tínhamos uma autorização do Ministério Público para ir até lá, pois minha mãe precisava se encontrar com um poderoso capo da região para lhe entregar algumas propriedades de meu pai.

Numa dessas tardes, andávamos pela velha pista de pouso da fazenda quando recebemos uma ligação da minha tia Alba Marina Escobar, dizendo que precisava falar conosco naquela mesma noite, pois o assunto que tinha para tratar era muito urgente.

Assentimos imediatamente porque ela utilizara a palavra “urgente”, que nos códigos de nossa família significava que alguém corria perigo de morte. Então ela chegou à fazenda de noite, sem nenhuma mala. Nós a esperávamos na casa do administrador, a única construção que havia sobrevivido às operações de busca e à guerra.

Os agentes do Ministério Público e da Sijin que eram responsáveis por nossa segurança esperaram do lado de fora da casa, e nós fomos até a sala de jantar, onde minha tia bateu um prato de sancocho. Depois, sugeriu que apenas eu e minha mãe ficássemos para ouvir o que ela tinha a dizer.

– Eu trouxe uma mensagem do Roberto para vocês.

– O que houve, tia? – indaguei, nervoso.

– Ele está muito feliz, porque existe uma possibilidade concreta de vocês receberem um visto para ir aos Estados Unidos.

– Que bom, e como foi que ele conseguiu isso? – perguntamos, e provavelmente ela notou a mudança na expressão de nossos rostos.

– Não é que os vistos vão chegar amanhã, assim do nada. Vocês precisam fazer uma coisa antes – disse, e seu tom me deixou desconfiado. – É muito simples... Roberto esteve falando com a DEA e pediram a ele um favor em troca dos vistos para todos vocês. A única coisa que precisam fazer é escrever um livro sobre o tema que quiserem, mas mencionando de algum jeito uma ligação entre seu pai e Vladimiro Montesinos, o chefe da inteligência de Fujimori no Peru. Além disso, têm de afirmar que Montesinos foi visto aqui na Nápoles falando com seu pai, e que ele vinha de avião até aqui. O resto do conteúdo do livro não importa.

– Não é uma notícia tão boa, tia – interrompi.

– Como assim, vocês por acaso não querem os vistos?

– Uma coisa é a DEA pedir que a gente diga algo que é verdade e que não haja problemas em contar, outra é me pedir para mentir com a intenção de causar um dano dessa proporção.

– É, Marina – minha mãe interveio –, isso que eles estão pedindo é muito delicado; como é que a gente vai fazer para explicar coisas que não são verdade?!

– Mas qual é o problema? Por acaso vocês não querem os vistos? Qual o problema de não conhecerem Montesinos e Fujimori e afirmar o contrário... O que vocês querem é viver tranquilos, não é? Enfim, aquela gente mandou dizer que a DEA ficaria muito agradecida a vocês e que ninguém iria incomodá-los nos Estados Unidos a partir de então. Eles também oferecem a possibilidade de levar dinheiro para lá e usá-lo sem problemas.

– Marina, não quero me meter em problemas novos, afirmando coisas que não são verdade.

– Coitadinho do meu irmão Roberto, todos os esforços que ele está fazendo para tentar ajudar vocês... E, na primeira ajuda que consegue, vocês dizem logo não.

Incomodada, Alba Marina partiu de Nápoles naquela mesma noite.

Poucos dias depois desse encontro e já de volta a Bogotá, recebi uma ligação. Era minha avó Hermilda, de Nova York, onde estava a passeio com Alba Marina. Depois de explicar que viajara como turista, perguntou se eu queria que ela trouxesse algo de lá. Ingenuamente e ainda sem entender o enorme significado que o fato de minha avó estar naquele país representava, pedi que ela comprasse vários frascos de um perfume que eu não encontrava na Colômbia.

Desliguei o telefone, desconcertado. Como era possível que minha avó 
estivesse nos Estados Unidos sete meses após a morte de meu pai, se até onde eu sabia os vistos das famílias Escobar e Henao haviam sido cancelados?

Já eram muitos os acontecimentos em que meus parentes apareciam com 
vínculos nebulosos com os inimigos de meu pai. No entanto, na luta por nos mantermos vivos, deixamos o tempo passar, sem indagar mais, ficando apenas na suspeita.

Passaram-se vários anos e, já radicados na Argentina, onde tínhamos ido 
parar após o exílio, espantamo-nos ao assistir no telejornal a notícia de que o presidente do Peru, Alberto Fujimori, havia fugido para o Japão e notificado sua renúncia por fax.

A surpreendente renúncia de Fujimori, que já tinha dez anos de governo, acontecera uma semana depois de a revista Cambio ter publicado uma entrevista em que Roberto afirmava que meu pai fizera um aporte de 1 milhão de dólares para a primeira campanha presidencial de Fujimori, em 1989.

Também afirmava que o dinheiro fora enviado por intermédio de Vladimiro 
Montesinos, que, segundo ele, viajara várias vezes para a fazenda Nápoles. Meu tio disse ainda à revista que Fujimori se comprometera a facilitar a vida para meu pai traficar em seu país quando assumisse a presidência. Na parte final da entrevista, esclareceu que não tinha provas do que estava dizendo, porque, segundo ele, a máfia não deixava rastros de suas ações ilegais.

Semanas depois foi publicado o livro Mi hermano Pablo (Meu irmão Pablo), 
de Roberto Escobar, com 186 páginas, pela editora Quintero Editores, em que ele “recriava” a relação de meu pai com Montesinos e Fujimori.

Em dois capítulos, Roberto narrava a visita de Montesinos à fazenda 
Nápoles, a maneira como traficava cocaína com meu pai, a entrega de 1 milhão de dólares para a campanha de Fujimori, as ligações em que o novo presidente agradecia a meu pai e a maneira como ofereceu sua colaboração em troca da ajuda econômica prestada. No final, uma frase chamou a minha atenção: “Montesinos sabe que eu sei disso. E Fujimori sabe que eu sei também. Por isso ambos caíram.”
Roberto relatou episódios nos quais garantia ter estado presente, mas que 
minha mãe e eu jamais vimos ou ouvimos falar.

Não sei se trata-se do mesmo livro que foi sugerido que escrevêssemos para obter os vistos norte-americanos. Minha única certeza sobre esse assunto veio acidentalmente no inverno de 2013, com a ligação de um jornalista estrangeiro a quem eu havia expressado minhas suspeitas em algumas ocasiões.

– Sebas, Sebas, tenho que te contar uma coisa que acaba de acontecer 
comigo, não aguento esperar até amanhã!

– Me diz, o que houve?


– Acabo de jantar aqui em Washington com dois antigos agentes da DEA que 
participaram da perseguição de seu pai; encontrei-me com eles para falar sobre a possibilidade de juntar você e eles numa futura série de tevê norte-americana sobre a vida e a morte do Pablo.

– Tá, mas o que foi que aconteceu? – insisti.


– Eles sabem muito sobre o assunto, e surgiu uma oportunidade para eu mencionar sua teoria sobre a traição do seu tio, de que tanto falamos. Então, é verdade! Eu não conseguia acreditar quando eles me confessaram que seu tio de fato colaborou diretamente na morte do seu pai.

– Viu como eu tinha razão? De outro modo, como explicar que os únicos 
exilados da família de Pablo Escobar sejamos nós? Roberto continuou vivendo tranquilamente na Colômbia, minhas tias também, sem ninguém sequer tocar neles ou ir atrás deles.




CAPÍTULO 2





Manancial: Pablo Escobar, meu pai

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