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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

PABLO ESCOBAR, MEU PAI – CAPÍTULO 10: Papai narco


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Pablo Escobar, meu pai, de seu filho, Juan Sebastián Marroquín, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah



CAPÍTULO 10



PAPAI NARCO




Palavras por Juan Sebastián Marroquín



Enquanto meu pai estava vivo, várias vezes perguntei qual era o montante de sua 
fortuna, quanto tinha, porque escutava muita gente dizendo que ele era um dos homens mais ricos do mundo. Sempre respondia a mesma coisa:

– Um dia tive tanto dinheiro que perdi a conta. Descobri que era uma 
máquina de fazer dinheiro, então parei de me preocupar em ficar contando.

Costumo ver citadas cifras astronômicas que representariam a fortuna de meu pai. A revista Forbes afirmou que ele tinha $3 bilhões de dólares, mas nunca ninguém tentou contatá-lo para verificar os dados. Em algum lugar deparei com a desatinada quantia de $25 bilhões de dólares. Tenho certeza de que, se eu resolvesse determinar uma quantia, também estaria enganado.

O tráfico de drogas deu a meu pai tudo e também tirou tudo dele. Até a vida. 
De modo que, pessoalmente, tenho sérias dúvidas sobre a rentabilidade a longo prazo desse negócio, pois acaba inevitavelmente se tornando um fator de poder e, por sua vez, de violência. Para mim, é um aviso suficiente.

Este capítulo não pretende traçar um raio X exaustivo da maneira como meu 
pai traficou cocaína. Quero apenas demonstrar de maneira breve que ele e um punhado de traficantes aproveitaram talvez o único momento em que era possível traficar sem grandes riscos, porque ninguém nos Estados Unidos, e menos ainda na Colômbia ou no resto do mundo, sabia da amplitude do alcance que o negócio da cocaína teria.

Não conheço em detalhes as atividades de meu pai como narcotraficante, mas 
devo dizer que me esforcei para me aproximar o máximo possível dessas histórias em minha pesquisa para este livro.


Ao voltar da longínqua cidade de Pasto, após ser solto da prisão nos primeiros dias de Setembro de 1976, meu pai desceu do ônibus com os mesmos sapatos bege que calçava quando foi preso pela primeira e única vez em sua vida por tráfico de cocaína.

No caminho até a casa de minha avó Hermilda no bairro de La Paz, 
encontrou com Alfredo Astado, a quem cumprimentou com um abraço apertado e pediu uma moeda para fazer uma ligação de um telefone público. Falou em código com alguém, e desligou dois minutos depois.

Tendo chegado à casa de sua mãe, largou a bolsa em cima de um sofá e se 
sentou para descansar um pouco. Estava esgotado por causa da longa viagem do sul do país até ali, mas meus tios e os amigos de seu grupo do bairro que vieram vê-lo notaram em seu rosto uma estranha determinação.

Duas horas depois apareceu um homem que lhe entregou uma caminhonete 
Toyota nova e 200 mil dólares em dinheiro. Ninguém nunca soube quem foi que mandou aquilo para meu pai, mas entenderam que o veículo e o dinheiro estavam de alguma forma relacionados com a ligação que ele havia feito. Naquele momento, para todos os que lá estavam ficou claro que os três meses que ele permanecera na cadeia não haviam afetado seu objetivo de se tornar milionário por meios ilegais.

Pelo contrário, naquela tarde notaram ainda mais coragem nele, que, após falar com seu contato em Loja, Equador, enviou até lá um de seus trabalhadores no veículo e com o dinheiro que lhe havia chegado, para comprar pasta de coca. No entanto, no dia seguinte lhe informaram que a polícia do município de La Virginia, no estado vizinho de Risaralda, havia detido um veículo numa blitz e encontrara os dólares escondidos no sistema de ar do carro. Meu pai e Gustavo Gaviria correram até lá, pagaram uma generosa propina e voltaram com o veículo e o dinheiro.

Longe de se amedrontarem, os dois decidiram ir buscar a pasta de coca direto 
no Equador. Dessa vez não tiveram inconvenientes; e a viagem foi importante para eles, pois conseguiram contatar alguns traficantes que meu pai conhecera na prisão de Pasto que os ajudaram a encontrar os melhores provedores e rotas para levar a pasta de coca até a Colômbia.

De tanto ir e vir do Equador, montaram uma estrutura que lhes permitiu receber frequentemente carregamentos cada vez maiores de pasta de coca. Para tanto, contrataram um coronel do Exército equatoriano, a quem começaram a pagar muito bem; ele se tornou a ponte entre os vendedores em Loja e uma dúzia de trabalhadores que recebiam até vinte quilos de alcaloide camuflados dentro de blocos de madeira ocos.

Levando a carga no ombro, iniciavam uma longa travessia pela selva, em 
trajetos a pé de quinze ou vinte horas seguidas até o rio San Miguel, na fronteira entre a Colômbia e o Equador, onde então funcionários de meu pai a recebiam. Os blocos de madeira eram transportados em pequenos caminhões que faziam um longo percurso, de cerca de mil quilômetros, até as cozinhas que meu pai e Gustavo haviam montado em modestas propriedades nas zonas rurais dos municípios de Guarne, Marinilla e El Santuario, no leste de Antioquia. Tinha ficado para trás a perigosa época em que meu pai chegara inclusive a esconder na escola do bairro de La Paz os produtos químicos que usava para processar a pasta de coca.

Contudo, faltava chegar ao elo seguinte da cadeia do tráfico de drogas: o 
consumidor, que estava distante porque meu pai e Gustavo ainda vendiam a coca processada para traficantes que chegavam dos Estados Unidos para comprá-la em Medellín.

Cansado de ter de ficar se dividindo entre as casas de minha avó Hermilda e a de sua sogra para dormir, sem poder ficar o tempo todo com minha mãe, que estava prestes a dar à luz, meu pai alugou um apartamento a alguns metros do supermercado La Candelaria, uma rede popular num bairro de Medellín conhecido como Castropol. Assim, de uma hora para outra meu pai saiu do bairro de La Paz, treze anos após ter chegado ali, ainda muito pobre, com uma mão na frente e a outra atrás.

Naquele momento o dinheiro ainda não era abundante, porque o narcotráfico 
é um negócio arriscado no qual hoje você pode ser rico e amanhã estar com milhões de dívidas. Meu pai vivia assim, pois não conseguira ainda começar a pelechar”, isto é, a progredir. Mas ele tinha certeza de que aquele era seu caminho, embora muitas vezes não desse conta nem de pagar o aluguel.

Alguma venda grande de coca deve ter ocorrido, pois semanas depois chegou 
a sua casa com um caríssimo Porsche Carrera GT conversível. Minha mãe nem carro tinha ainda, embora de vez em quando lhe emprestassem uma caminhonete Toyota vermelha.

Foi nessa época que nasci, em 24 de Fevereiro de 1977, na Clínica del 
Rosario, no bairro de Boston em Medellín. Minha mãe tinha apenas quinze anos e Sofía se tornaria minha babá desde então.

A abundância começou a aparecer quando meu pai pôde enfim comprar uma 
casa bem ampla no bairro de Provenza, no luxuoso distrito de El Poblado, a qual depois vendeu para um rico empresário de Medellín que só recebia em dólares: 82 mil dólares.

Meses depois, meu pai tirou sua família do bairro de La Paz: para minha avó 
Hermilda deu uma casa na região do Estádio, e acomodou as irmãs em apartamentos próximos à casa, e mais tarde em El Poblado, uma das regiões mais promissoras de Medellín. O avô Abel já havia voltado para sua propriedade em El Tablazo, e meus tios Roberto e Fernando moravam em Manizales e trabalhavam na fábrica de bicicletas Ossito. Ou seja, toda a família Escobar Gaviria saiu de La Paz quando meu pai enfim começou a ganhar muito dinheiro.

O negócio ilegal ia tão bem que meu pai e Gustavo cancelaram seus tradicionais encontros nas sorveterias do bairro, e meu pai resolveu montar um escritório em nossa casa, mas meu tio Mario Henao sugeriu que ele não misturasse sua vida familiar com os negócios. Meu pai ouviu o conselho, e se transferiu para um escritório muito próximo à igreja de El Poblado. Depois iriam para outro lugar muito maior, a cem metros do Centro Comercial Oviedo, no recém-construído edifício Torre La Vega, onde ele e Gustavo compraram o quarto andar inteiro para despacharem e desenvolverem suas coisas.

A compra de imóveis nos melhores lugares de Medellín foi uma prova 
irrefutável de que meu pai começava a ser dono de uma grande fortuna. Mas não apenas ele, porque muitos outros traficantes aproveitaram o desconhecimento que havia nos Estados Unidos e na Colômbia sobre o tráfico de cocaína. Seus governos e autoridades tampouco sabiam que nas longínquas terras da América do Sul um lucrativo negócio estava no forno, negócio esse que, quarenta anos mais tarde, ainda não desapareceu; pelo contrário, cresceu exponencialmente, pois nunca deixou de ser rentável.

Não podemos esquecer do fato de que, naquela época, a cocaína era bem 
vista nos círculos sociais norte-americanos. Foi assim que a prestigiosa revista Newsweek a apresentou em sua edição de Maio de 1977 – três meses após meu nascimento –, dizendo num artigo que, nas grandes festas das celebridades em Los Angeles e em Nova York, era moda distribuir cocaína em bandejas de prata, acompanhada por um fino caviar Beluga e champanhe Dom Perignon.

O fato é que, com a estrutura que já haviam montado em meados de 1977, em pouco tempo meu pai e Gustavo encontraram suas próprias rotas para levar a cocaína até os Estados Unidos, onde os sistemas de controle nos aeroportos e nos portos eram muito deficientes. A ingenuidade das autoridades de então facilitou seu trabalho, pois não precisavam de grandes esforços para camuflar a droga. Naquela época não havia raios X nos aeroportos, nem cachorros farejadores, nem agentes, nem revistas e inspeções exaustivas. Uma simples maleta com fundo falso era suficiente para levar muita droga sem risco de ser detectada.

Tampouco existiam leis muito específicas sobre o tema, e o tráfico de 
cocaína era considerado simples contrabando. A demonização e a criminalização do negócio viriam depois.

Meu pai me contou uma vez que ele e Gustavo ensaiaram sua primeira remessa com cem quilos de cocaína num avião bimotor Piper Seneca, que chegou sem qualquer contratempo a um pequeno aeroporto de Opa Locka – um terminal aéreo privado no coração de Miami em que pousam apenas as luxuosas aeronaves dos norte-americanos ricos. Quando lhes confirmaram que o carregamento havia chegado em segurança, meu pai e Gustavo fizeram uma grande festa para celebrar o fato na discoteca Kevins de Medellín, na qual houve muita bebida e belas mulheres.

Estavam diante de uma mina de ouro, porque o quilo já processado custava 
para eles 200 mil pesos na Colômbia (aproximadamente 5 mil dólares na época); já chegado em Miami, incluindo as despesas de transporte e seguro, tinha um custo total de aproximadamente 6 mil dólares. E, vendido em quantidades menores nas ruas, um distribuidor atacadista como meu pai podia chegar a receber 20 mil dólares por quilo no sul da Flórida, ou de 25 mil a 30 mil dólares em Nova York.

Apesar da alta rentabilidade, a verdade é que meu pai só recebia 10% do 
valor de cada quilo, porque o restante ficava com os revendedores norte-americanos, que além de tudo adicionavam cal, aspirina, vidro moído, talco ou qualquer pó branco à cocaína. De um quilo de coca puríssima conseguiam fazer render três ou quatro, que eram vendidos por grama e podiam gerar um ganho de até 200 mil dólares cada.

O negócio começou a crescer feito massa de pão, e meu pai e Gustavo encontraram grandes provedores no vale do Alto Huallaga, no norte do Peru, onde começava a se configurar um dos maiores centros de fornecimento de pasta de coca do continente.

Novos jogadores entraram no negócio e pouco a pouco deixaram de lado os 
trabalhadores que caminhavam muitas horas para transportar alguns quilos de coca. De uma hora para outra, apareceram também pilotos experientes, que mudaram a dinâmica do tráfico de drogas; meu pai e Gustavo encontraram neles o ingrediente que faltava para se tornarem os líderes do negócio.

Então, criaram uma espécie de ponte aérea entre as pistas de pouso 
clandestinas nas regiões de Monzón e de Campanilla – no Alto Huallaga – e as que eles haviam construído no leste e no Magdalena Medio de Antioquia. Enormes carregamentos de pasta de coca começaram a chegar duas ou três vezes por semana após cruzarem sem qualquer problema o espaço aéreo de pelo menos quatro países.

O êxito de meu pai e de Gustavo atraiu os olhares de outros pequenos e grandes traficantes de drogas, que os procuravam para fazer negócios. Entre eles estava Fidel Castaño, que um dia chegou ao escritório de meu pai acompanhado do irmão, Carlos, um jovem de meia estatura e olhos espertos.

Fidel disse para meu pai e para Gustavo que tinha contatos nas extensas 
plantações de folha de coca em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde produziam grandes quantidades de pasta base de coca. A empatia de todos pelo negócio foi geral e quase imediatamente começaram a trazer carregamentos de cerca de trezentos e quinhentos quilos num avião, que pousava numa propriedade no município de Obando, ao norte do Valle del Cauca; a droga era recolhida ali em um ou vários veículos e era levada às cozinhas em Antioquia.

Assim começou a relação entre meu pai e os irmãos Castaño, que por muito 
tempo seria cheia de cumplicidades; tantas, que Fidel contou a meu pai um de seus maiores segredos: que um de seus principais contatos nos Estados Unidos para vender a droga era o famoso cantor Frank Sinatra.

Como já assinalei antes, naquela época os Estados Unidos eram um enorme buraco, porque ainda não haviam sido criados sistemas de controle nos aeroportos, estradas e portos que detectassem o pó branco que entrava aos montes no país. Essas falhas foram aproveitadas por narcotraficantes colombianos e de outros países, que repartiram a seu bel-prazer o enorme território norte-americano e o inundaram com cocaína.

Os mafiosos de Medellín, tendo meu pai como cabeça – e Gonzalo 
Rodríguez Gacha, “El Mexicano”; Gerardo “Kiko” Moncada; Fernando Galeano, Elkin Correa e muitos outros –, tomaram conta do sul da Flórida e dos estados próximos; os de Cali – os Rodríguez, “Pacho” Herrera e “Chepe” Santacruz, principalmente – ficaram com Nova York, com a Big Apple. O mercado era tão grande e promissor que nunca houve conflitos; pelo contrário, mantiveram por anos uma notável proximidade e cumplicidade, que somente se romperia por fatos alheios ao negócio.

Como já tinham conseguido fazer chegar um carregamento pelo aeroporto de 
Opa Locka, este foi, por mais de um ano, o lugar por onde meu pai preferiu traficar. Pequenos aviões executivos – carregados no início com cem ou cento e vinte quilos, mas depois com trezentos ou quatrocentos – aterrissavam ali duas ou três vezes por semana, após fazerem escala em Barranquilla, no norte da Colômbia, e em Porto Príncipe, a degradada capital do Haiti. Os pilotos das aeronaves apresentavam planos de voo nos quais diziam que levariam turistas em busca de sol e centros comerciais para fazer compras.

Mais tarde, Carlos Lehder se juntaria ao lucrativo negócio com sua famosa 
ilha particular com pista de pouso nas Bahamas.

Muita cocaína também foi transportada de barco naqueles anos dourados. As embarcações saíam dos portos de Necoclí e Turbo, no mar do Caribe, e chegavam carregadas de bananas ao de Miami; não eram revistadas porque as frutas iam perfeitamente empacotadas e não causavam suspeitas, mas na verdade seus compartimentos de armazenagem guardavam até oitocentos quilos do alcaloide. Essa foi uma rota famosa, conhecida na máfia como Platanal (Bananal).

A cocaína que chegava em aviões e barcos era transportada para casas em 
áreas residenciais como Kendall e Boca Ratón, onde os homens de meu pai a guardavam em esconderijos subterrâneos, enquanto os distribuidores locais, que pagavam em dinheiro, iam buscá-la.

Os novos donos da coca tinham uma maneira bem simples de distribuí-la por toda Miami e seus arredores mais próximos, como Fort Lauderdale, Pompano Beach e West Palm Beach: ligavam para seus clientes e marcavam de se encontrar em lugares públicos não muito cheios. O negócio não poderia ir melhor: a droga era vendida que nem pão quente.

Naquela época, meu pai começou a viajar para Miami em voos comerciais. 
Hospedava-se no luxuoso hotel Omni como gerente da Fredonian Petroleum Company – uma piada interna, porque nesse povoado do sudoeste de Antioquia não há sequer uma gota de petróleo.

Nesse caríssimo hotel, reservava um andar inteiro para receber diversos 
traficantes norte-americanos, aos quais agradava com festas até altas horas da madrugada, acompanhados de entre trinta e quarenta belas mulheres contratadas dos melhores night clubs da cidade.

Na manhã seguinte e após uma noite de excessos, os clientes de meu pai 
pagavam pela cocaína e recebiam as chaves de carros novos, que estavam parados no estacionamento do hotel. No porta-malas do automóvel encontravam a “mercadoria” perfeitamente embalada.

Diamante. Esmeralda. Com os nomes dessas duas pedras preciosas, meu pai e Gustavo identificavam seus carregamentos de cocaína. Um carimbo com a imagem dessas gemas era impresso em cada pacote de um quilo. “El Mexicano” escolheu o nome Reina, e sua marca se tornou muito desejada pelos compradores americanos devido ao alto grau de pureza.

Durante muito tempo, Diamante, Esmeralda e Reina foram indicadores de 
qualidade, embora a cocaína de meu pai tivesse começado a ficar com má fama porque sua qualidade não era das melhores e os pacotes pareciam bolas deformadas improvisadas. Inclusive uma vez um distribuidor – um perigoso mafioso gringo – devolveu um carregamento a meu pai. O episódio foi muito comentado no grupo, porque era a primeira vez que, depois de ter desembarcado um quilo, voltava a seu país de origem.

Sobre essa devolução, meu pai me contou um dia que de fato mandava coca 
de baixa pureza porque – como bom malandro que era – achava que os consumidores eram uns viciados que não sabiam diferenciar entre “a boa mercadoria e a ruim”.

“Kiko” Moncada era outro traficante que procurava chegar a um produto 
final com alto nível de pureza, e seus pacotes sempre foram bem embalados e apresentados, como se fosse um produto de supermercado.

Naquela época, os controles de movimentações financeiras internacionais 
eram quase inexistentes e, por intermédio de laranjas que abriram contas bancárias, meu pai recebeu centenas de milhões de dólares por canais oficiais. Basta lembrar daquelas imagens do célebre filme Scarface em que os mafiosos entravam nos bancos para depositar seu dinheiro com bolsas cheias de dólares, sob o olhar complacente dos gerentes.

Esse mercado crescente o forçou a mandar alguns de seus funcionários de confiança para receber parte do dinheiro e procurar alternativas para trazê-lo por debaixo dos panos para a Colômbia. Otoniel González, de apelido “Otto”, foi o encarregado dessa tarefa por um tempo. Muitas vezes, as mesmas aeronaves que levavam a cocaína voltavam com enormes sacolas cheias de dólares, mas quando isso não era possível meu pai tinha de optar por outras soluções: importar máquinas de lavar roupa, das quais retiravam as peças grandes, deixando apenas a casca, e as enchendo com maços de dólares; também escondiam o dinheiro em maquinário industrial, carros novos trazidos por reconhecidas importadoras, motos, televisões, equipamentos de som e outros eletrodomésticos.

Com o passar do tempo, meu pai não trazia mais apenas dólares, mas 
também armas de todos os modelos e calibres, pois surgira a necessidade de proteger os carregamentos. Não foi difícil para ele, porque naquela época existia nos principais aeroportos do país o chamado “correio das bruxas”, uma espécie de alfândega paralela que permitia a entrada de qualquer coisa, sem deixar nenhum rastro, em troca de uma generosa propina.

A abundância de dinheiro abriu caminho, muito rapidamente, para todo tipo de excesso. Como as festas, que em determinado momento chegaram a ser diárias. As discotecas Acuarios e Kevin’s foram os lugares mais frequentados por meu pai, que comprou também uma luxuosa cobertura num edifício próximo ao estádio de beisebol El Diamante, que ficava numa rua diagonal à sede da Quarta Brigada do Exército.

Ele chegava à noite a uma das boates e quase imediatamente se aproximavam 
belas mulheres, que conversavam e bebiam enquanto ele tomava água e fumava seu baseado. Lá pelas duas da madrugada, pagava a conta e convidava para seu apartamento quem ainda estivesse por ali. Obviamente, muitos queriam ir. Meu pai saía e, atrás dele, seguia uma caravana de não menos que cinco veículos cheios de mulheres bonitas, prontas para continuar farreando, sem hora para terminar.

O crescimento vertiginoso da demanda por cocaína no mercado norte-americano 
alimentou a criatividade dos traficantes, que procuraram novas rotas para facilitar o envio de seus carregamentos. Cada organização mafiosa fazia do seu jeito, mas meu pai encontraria o caminho mais rentável que se teve notícia no mundo do narcotráfico. A rota foi batizada pelas autoridades de a “Fania”, mas na verdade meu pai dizia que havia lhe dado o nome de “Fanny”. Fanny era o nome do barco que ficava ancorado em alto-mar na costa do Equador, que ele carregava com farinha de peixe e, em seus enormes refrigeradores, escondia até quatro toneladas de cocaína que sempre, sempre chegaram sem nenhum contratempo ao porto de Miami. Algumas pessoas que estiveram ao lado de meu pai me disseram que foi essa a rota que de fato o tornou rico.

Sua prosperidade econômica por conta da cocaína era incomparável, e ele começou a gastar o dinheiro sem reservas. Da ampla casa no bairro de Provenza – onde minha mãe completou dezessete anos e meu pai lhe deu de presente uma serenata do grupo argentino Los Chalchaleros – nos mudamos para uma mansão no bairro de Santa María de los Ángeles, a um quarteirão e meio de distância do Clube Campestre de Medellín.

Um dia, meu pai resolveu que queria virar sócio do clube, mas a diretoria 
negou sua entrada porque, embora tivesse muito dinheiro, não pertencia a uma família tradicional, condição requerida pela conservadora classe alta de Medellín.

Ele ficou furioso e, acostumado a ter sempre sua vontade feita, entrou em 
contato com alguns trabalhadores do clube e lhes pagou uma fortuna para começarem uma greve, alegando baixos salários. Assim se deu, e foi a primeira e talvez única vez que o clube metido a besta fechou as portas por vários dias.

Quase uma semana depois da paralização, ele foi até lá e se reuniu com os 
empregados.

Patrão, por quantos dias mais você quer que a gente continue a greve?


– Por mais uns quinze, eu vou pagar tudo o que vocês precisarem, não vai 
faltar nada. Ah, e eu queria pedir um favor. Peguem o caminhão basculante, encham ele com bastante terra e vão dar umas voltas no campo de golfe, para danificá-lo bastante. Depois joguem toda a terra da caçamba dentro da piscina.

Assim foi feito.


Em nossa casa do bairro de Santa María de los Ángeles, e com apenas quatro anos de idade, ganhei minha primeira moto, uma pequena Suzuki amarela, na qual meu pai mandou instalar rodas pequenas de cada lado, como as que se usam em bicicletas.

Lembro que ele me ensinava a pilotá-la no fim da manhã, antes ir para o 
escritório. Tirava as rodas laterais e corria atrás de mim, me segurando no assento, até que um dia me soltou. Desse dia em diante me tornei um apaixonado por motos e pela indescritível sensação de liberdade que elas dão.

A rentabilidade do narcotráfico levou meu pai a comprar suas duas primeiras 
aeronaves: um helicóptero Hughes 500 branco, amarelo-mostarda e vermelho, registro HK-2196, e um avião Aero Commander com dois motores. Numa ocasião em que falávamos sobre essas aquisições, meu pai lembrou que, em seu primeiro voo de helicóptero, foi visitar uma pessoa muito especial para ele: dom Fabio Ochoa Restrepo, que encontrou em sua fazenda La Clara, no município de Angelópolis, sudeste de Antioquia.

Depois, levou vários amigos do bairro para passear pela represa de Peñol, e, após uma hora de voo, aterrissaram para tomar café numa venda. O piloto temia que a curiosidade matasse as dezenas de pessoas que imprudentemente se aproximavam para ver a máquina.

Enquanto isso, a demanda por cocaína crescia de tal maneira que com 
frequência surgiam novas rotas para traficar. Como a do México, para onde meu pai começou a enviar carregamentos de mais ou menos mil quilos em aviões que saíam de pistas clandestinas em Urabá, La Guajira, Fredonia, Frontino e La Danta.

A rota pelo México era conhecida como Las Cebollas e ocorria da seguinte 
maneira: a cocaína saía camuflada em grandes caminhões repletos de sacos de cebola que passavam pela fronteira na região de Laredo e depois se dirigiam a Miami. Cada veículo transportava entre oitocentos e mil quilos. Na Colômbia, Leonidas Vargas foi sócio de meu pai nessa rota e, no México, Amado Carrillo Fuentes foi a conexão ponta firme de que ele precisava para fazer a cocaína entrar nos Estados Unidos.

Outra modalidade utilizada para traficar era “bombardear”, isto é, pequenos aviões que voavam a baixa altura despejavam os carregamentos no mar perto da costa de Miami, enquanto lanchas rápidas ou pequenos veleiros recolhiam os pacotes. Também se “bombardeava” em pântanos dos Everglades, no sul de Miami. Mas no começo muita droga foi perdida, pois os pacotes não eram herméticos e a cocaína se molhava.

Meu pai quase nunca se gabava de suas proezas no mundo do crime. Mas 
uma vez não aguentou: assistíamos ao telejornal e as autoridades informavam que haviam descoberto uma nova modalidade de tráfico de cocaína, os jeans impregnados de coca.

Meu pai sorriu por um bom tempo e depois disse que fora ele o inventor 
daquela maneira de impregnar calças com o alcaloide, e isso permitia exportá-lo legalmente para várias cidades dos Estados Unidos. Uma vez lá, os compradores lavavam as peças de roupa com um líquido especial, retiravam a coca líquida e a punham para secar. Embora não se tratasse de grandes carregamentos, meu pai disse que por vários meses aquela foi uma via segura, porque nenhuma autoridade estava preparada para detectar tamanha ousadia. Disse ainda que, para evitar que os cães farejadores descobrissem a manobra, passavam nos jeans um spray especial, que os espantava. Todavia, a rota dos jeans com coca “caiu” porque algum dedo-duro nos Estados Unidos contou às autoridades.

Vários dias depois, meu pai, sorrindo novamente, disse:


– Pessoal, lembram que a minha rota dos jeans tinha caído?

– Sim, patrão.


– Então, continuei mandando os mesmos jeans e o pessoal da DEA está louco 
da vida porque os lavam trezentas vezes e não sai nada. O que a gente faz agora é impregnar as caixas nas quais os jeans vão embalados e recuperamos a droga depois que eles as jogarem fora.

Com tais “realizações” como mafioso, meu pai já era reconhecido como um 
grande capo. A cada dia, mais e mais pessoas sabiam que aquele negócio era altamente lucrativo, e por isso começaram a querer participar dele, incluindo boa parte das pessoas “de bem” de Medellín.

Eu costumava ir falar com meu pai em seu escritório e via no mínimo cem veículos estacionados num lote de um esconderijo chamado Lagos. Eu não achava nada anormal naquilo, mas alguns de seus empregados me contaram depois que, num dia comum, poderiam aparecer até trezentas pessoas, lhe propondo todo tipo de negócio. Boa parte dos visitantes casuais queria que meu pai incluísse em seus carregamentos dez ou quinze quilos da droga deles, pois sabiam que o ganho era garantido.

Por ali passaram engraxates, ciclistas, jornalistas, empresários, políticos, 
policiais e militares dos mais diferentes cargos, e até estrangeiros querendo tentar a sorte no tráfico. Quase sem exceções, pediam para sua cocaína ser inclusa na rota Fanny. Também era comum ver o jovem Carlos Castaño de mensageiro, levando recados de seus irmãos ou de outros mafiosos.

A ansiedade das centenas de pessoas que esperavam a vez para entrar no 
negócio era notada à distância. Aquela gente ficava ali dois ou três dias seguidos, com a mesma roupa, sem tomar banho e sem sair do lugar, esperando “uma reuniãozinha com dom Pablo”.

Mas nem todas as propostas que chegavam até meu pai eram ilegais. Um dia, 
um conhecido executivo da cidade foi até seu escritório e lhe propôs que investisse numa sociedade que seria criada para a montagem das primeiras redes de gás doméstico de Medellín. Com um ar sério, ele respondeu:

– Sinto muito, mas acontece que eu não faço negócios lícitos.


Houve algumas vezes que tomei um susto ao ver chegarem vários policiais e entrarem na sala de meu pai. Pensei que se tratava de uma operação de busca, mas saíram poucos minutos depois. Iam atrás da “ajudinha” deles – de dinheiro.

Meu pai havia demonstrado à exaustão que suas rotas eram muito seguras, 
quase infalíveis. Tanto, que chegou ao ponto de oferecer um seguro para os carregamentos, isto é, garantia com o próprio dinheiro o retorno do investimento, mais os lucros, para se por acaso um carregamento fosse pego. Mas meu pai e Gustavo também utilizaram uma modalidade única: dar um bônus especial aos mais próximos, aos mais fiéis. Muitas vezes meu pai disse a esses sortudos que iria lhes dar cinco ou dez quilos de presente, isto é, lhes dava o dinheiro equivalente a essa quantidade de droga sem que tivessem investido um único peso ou participado do negócio.

Mas do mesmo jeito que era capaz de ajudar os que considerava próximos, 
meu pai também podia chegar a extremos inimagináveis de violência. Como no dia em que, conforme me contaram, mandou afogar um de seus trabalhadores numa piscina, na frente de muitas pessoas, para que servisse de lição.

Disseram-me tempos depois que o ocorrido fora o seguinte: meu pai contratara como guarda de seu escritório um amigo militar, que anos antes havia resgatado de helicóptero na ilha-prisão de Gorgona, onde cumpria uma longa pena por homicídio.

Certa vez 200 milhões de pesos que ele guardava num esconderijo dentro do 
escritório desapareceram, e logo o milico surgiu como suspeito, porque no dia anterior era seu turno.

Seu destino foi selado horas depois, quando alguns empregados de meu pai 
encontraram o dinheiro na casa dele. Levaram-no até o escritório e meu pai mandou que todos seus funcionários fossem até a piscina. Então, amarraram-no e o jogaram na água.

– Quem roubar um peso de mim morre – meu pai disse, depois que o militar 
já tinha se afogado, diante do olhar paralisado dos que estavam ali.

Semanas mais tarde, meu pai decidiu investir uma pequena parte de seu 
dinheiro em Miami. Em 1981 foi para lá e comprou uma casa no bairro chique de Alton Road, em Miami Beach. Custou 700 mil dólares, quantia que ele levou da Colômbia e declarou na alfândega norte-americana.
Era uma mansão enorme, de dois andares, com uma entrada monumental, cinco quartos, piscina com vista para uma baía e uma das poucas da cidade com um cais particular. Gustavo Gaviria não ficou para trás, e comprou um gigantesco apartamento de 1 milhão de dólares lá.

Meu pai resolveu aumentar seus investimentos em imóveis e muito 
rapidamente adquiriu um complexo habitacional com duzentas moradias no norte de Miami, pagando em dinheiro, que declarou na alfândega e que foi transportado em maletas, sem o menor problema, pelo aeroporto internacional daquela cidade.

A administração de todas essas propriedades viria a se tornar uma enorme dor 
de cabeça, pois com frequência ele recebia ligações de pessoas se queixando: alguns crocodilos dos lagos próximos caminhavam pelos corredores do complexo.

Não obstante, e contra a opinião de meu pai, Gustavo vendeu seu 
apartamento, porque achou que a situação dos dois iria se complicar nos Estados Unidos. Mas meu pai era muito teimoso e achou que não teria problemas, uma vez que havia declarado os recursos com os quais comprara os bens.

As viagens cada vez mais frequentes de meu pai para os Estados Unidos por 
conta de seus negócios nos levaram até Washington, onde ele resolveu provocar o rígido controle de entradas no edifício do FBI. Sem se importar com os riscos, apresentou documentos falsos na recepção, e minha mãe entregou os passaportes meu e dela. Por sorte, não houve problemas e nós três fizemos a visita guiada pelo edifício. Dali fomos para a Casa Branca, onde minha mãe tirou a famosa fotografia em que estou com meu pai na frente do edifício.

No fim de 1981, com o crescimento transbordante de seu negócio ilegal, meu pai e Gustavo formaram sua própria frota de aviões e helicópteros: compraram três Aero Commander, um Cheyenne, um Twin Otter e um Learjet, bem como dois helicópteros, um Hughes 500 mais novo e um Bell Ranger. O intermediário dessas aquisições foi o ex-automobilista Ricardo “Cuchilla” Londoño, por meio de sua empresa de importações e exportações em Miami. Conforme alguém me disse, Cuchilla era também um experiente piloto de aviões, que entrava à noite nos pequenos aeroportos de Miami, roubava aeronaves por encomenda e recebia muito bem pelo serviço quando chegava com elas a Medellín.

Muito já se especulou sobre as possíveis relações entre meu pai e o ex-presidente 
da República Álvaro Uribe Vélez. Ao longo dos anos, os detratores de Uribe insistiram em que, quando ele foi diretor da Aeronáutica Civil, entre Janeiro de 1980 e Agosto de 1982, expediu licenças ilegais e favoreceu em geral o crescimento do narcotráfico em Medellín.

Porém, como este livro não tem nenhuma intenção oculta ou 
comprometimento de qualquer tipo para favorecer ou manchar qualquer pessoa, pesquisei a fundo para saber com exatidão como se deu a relação entre ambos, se é que houve uma relação.

Consultei tenentes e amigos de confiança de meu pai, e fiquei surpreso com 
suas respostas, porque na verdade meu pai chegou a oferecer 500 milhões de pesos pela cabeça de Uribe. O motivo? Durante boa parte de sua gestão como diretor da Aeronáutica Civil, Uribe dificultou a vida no aeroporto Olaya Herrera, porque mandou acirrar os controles, as inspeções e os procedimentos para a entrada e saída de aeronaves.

A intenção de acabar com a vida de Uribe não ficou apenas nessa oferta de dinheiro: os capangas de meu pai falharam em pelo menos três atentados contra ele.

As pessoas consultadas sobre esse assunto esclareceram que o poder de 
suborno de meu pai com os funcionários de campo foi mais forte que as ordens emitidas por Uribe de Bogotá.

Muito também foi escrito e especulado sobre a relação de meu pai com José 
Obdulio Gaviria, seu primo.

Tais apontamentos carecem de fundamento, pois lembro de ter visto meu pai 
xingar seu primo José Obdulio por ele se achar de melhor família.

Meu pai se referia a ele como “o primo metido a besta que tenho por aí”. 
Foram poucas as vezes que meu pai o mencionou, pois não tinha motivo algum para fazê-lo, já que José Obdulio nunca se comportou como um parente de Pablo Escobar.

Preciso dizer, também, que entre as milhares de fotografias da família que guardamos desde a década de 1970, José Obdulio não aparece em evento algum.

Naquela época, meu pai não tinha inimigos poderosos e tampouco assuntos 
pendentes na Justiça, mas seu crescente poder econômico criou a necessidade de contratar os primeiros guarda-costas. Foram eles Rubén Darío Londoño, “La Yuca”, um jovem criminoso do município de La Estrella, e Guilhermo Zuluaga, o “Pasarela”.

Pouco depois ele percebeu que precisava de alguém que fosse capaz de 
segui-lo de moto para onde fosse, sempre ao lado da janela do motorista. Procurou e procurou, entrevistou e testou muita gente, mas nenhum deles conseguiu acompanhar seu ritmo. Só um: Luis Carlos Aguilar, “El Mugre”, que passou numa prova difícil, porque meu pai se metia na contramão pelas ruas, atravessava as rotatórias em alta velocidade e subia em qualquer calçada que aparecesse pelo caminho.

“El Mugre” começou a trabalhar com meu pai em 1981, e de cara recebeu uma 
potente moto Honda XR-200 e uma arma.

Meu pai chegou em casa com seus três primeiros guarda-costas e disse que 
eles ficariam por ali e nos acompanhariam vinte e quatro horas por dia. Com o passar do tempo, meu pai, minha mãe, eu e depois minha irmã Manuela estaríamos sempre sob a proteção de um exército de delinquentes.

Por conta da vida que tivemos de levar, compartilhei grande parte de minha infância com muitos dos piores criminosos do país. Meus companheiros de jogos nos esconderijos ou aqueles que viajavam comigo eram personagens que eu conhecia apenas por apelidos, como “Palillo”, “Archivaldo”, “Agonías”, “El Arete”, “Otto”, “El Mugre”, “Pinina”, “Pasarela”, “Flaco Calavera”, “Chopo”, “Chicha”, “Chiquilín”, “Séforo”, “Monín”, “Pitufo”, “Orejitas”, “Cejitas” e “Misterio”, entre muitos outros. Por esse motivo, tornaram-se pessoas muito próximas. Lembro que os inimigos de meu pai diziam que ele tinha um exército de pistoleiros, mas ele mesmo esclarecia, brincando, que o que tinha era um exército de “boiolas”.

Ao grupo de delinquentes que começou a flutuar em torno de meu pai se 
somou uma figura que vale a pena mencionar: “Paskín”, um rapaz muito particular por sua cultura mafiosa, seu jeito de andar, seu domínio do lunfardo – linguagem dos bairros pobres de Buenos Aires –, seu gosto pelas “femeazinhas” ou “cadelinhas do tráfico”, como costumava chamar seus mil e um amores; mandava esculpi-las nuas em ouro maciço em pingentes, correntes, anéis, pulseiras e relógios. Um homem fiel a seu revólver Smith & Wesson calibre .38 e a uma AK-47 que não largava nunca.

Eu não tinha amiguinhos com quem me distrair nos esconderijos de meu pai, 
e por isso acabava jogando futebol ou o Nintendo com os guarda-costas dele; quando estávamos em poucos, brincávamos de “bobinho”, um jogo em que um único homem tem que conseguir tirar a bola de outros oito ou dez. Eu sempre era o “bobinho” e ficava com muita raiva por não me darem a bola.

A verdade é que eu não tinha muitos amigos de minha idade porque já nessa época vários pais de famílias do colégio San José de la Salle haviam proibido seus filhos pequenos – meus colegas de sala – de se relacionarem comigo. Dizer sou filho de García Márquez não era o mesmo que dizer sou filho de Escobar Gaviria. E com isso vieram diversas formas de discriminação.

Não cresci indo sempre ao Clube Campestre, embora morasse muito perto 
dele; não posso dizer que fui amigo de pessoas distintas da sociedade, pois esse tipo de gente só se aproximava de meu pai para lhe oferecer suas propriedades em dólares, ou vender obras de arte, ou para ser inclusos no negócio dele, mas não para fazer amizade. Contudo, meu pai viveu cercado pelas pessoas mais corajosas de todas, que, desde minha infância, eu via como uma grande família, porque aquele era o meu entorno e o meu mundo, minha única realidade tangível.

Voltando ao tema do narcotráfico, a construção da fazenda Nápoles e a 
ousada montagem do zoológico no Magdalena Medio mudaram a rotina de meu pai e de toda a família.

A fazenda se tornou uma espécie de plataforma da qual dia e noite saíam aviões repletos de cocaína em direção ao México, à América Central, ao Caribe e aos Estados Unidos.

Quando a viagem era noturna, no começo e no final da pista os funcionários 
de meu pai colocavam aros parecidos aos que se usam nos circos e os acendiam com um combustível conhecido como acpm, que demorava bastante tempo para se apagar; depois, acendiam dezenas de lanternas e tochas que demarcavam o caminho de ponta a ponta da pista de novecentos metros de extensão.

Lembro que no primeiro Ano-Novo que passamos em Nápoles, quando 
Pastor López e sua orquestra tocaram durante um mês inteiro, numa daquelas noites meu pai entrou na caminhonete Nissan Patrol e partiu rumo à pista, porque, conforme escutei os rapazes dizerem, um voo vindo do México estava por chegar. Eram onze horas da noite, daquela noite clara e tranquila do dia 31 de Dezembro. Ele e seus trabalhadores colocaram os aros de fogo, as lanternas e as tochas e a aeronave aterrissou sem dificuldades. Em menos de dez minutos carregaram a cocaína, mudaram o registro e a bandeira do avião, que decolou novamente. Depois apagaram as tochas e os aros, enfiaram as lanternas em sacos e voltaram para a festa.

Meu pai se esforçava para tentar evitar que eu me metesse nas coisas dele, 
mas às vezes era em vão, pois tudo isso era visível do campo de futebol da fazenda, onde estávamos soltando fogos.

Falei com muitas pessoas para recriar os acontecimentos para este livro, e me chamou a atenção como todos falaram a respeito da capacidade que meu pai tinha para enganar as autoridades. Quando uma pista sua era localizada e destruída, ele achava outra rapidamente; se um laboratório fosse descoberto, ele montava outro em poucos dias.

Um dos truques que quase todos mencionaram foi o de uma pista de 
aterrissagem localizada numa planície a uma hora de distância da fazenda, próxima a uma região conhecida como Lechería. Quando se chegava ao local, via-se apenas uma estrada sinuosa e uma casinha de campo pela metade. Ocorre que a planície era perfeita para o pouso, e tinha quase um quilômetro de comprimento; meu pai mandou plantar pasto de tal maneira que do ar se visse apenas uma estrada sinuosa com uma casa humilde cortada ao meio.

O truque consistia no seguinte: a suposta casinha de campo estava em cima 
de um trailer com rodas, era puxado alguns metros por uma caminhonete de modo que deixava o caminho livre para os aviões que chegavam e saíam.

Meu pai a projetou e mandou construí-la para confundir os aviões de 
reconhecimento da Força Aérea e os helicópteros antidrogas da polícia, que quando passavam ali por cima viam apenas uma bela paisagem. Mas quando se anunciava a chegada de um voo trazendo coca, um homem movia o trailer com a casa e de repente surgia uma pista de aterrissagem de mil metros.

As oscilações diárias do tráfico de cocaína, já que todas as etapas da cadeia eram clandestinas, forçavam meu pai e Gustavo a buscar novas e melhores rotas para o envio de coca para os Estados Unidos. Por isso, faz-se necessário citar aqui o tráfico de cocaína através da ilha de Cuba. A respeito desse tema, devo dizer que, nas investigações para este livro, vários dos homens que trabalharam com meu pai comentaram que, de fato, muitos de seus carregamentos saíram de lá, com a cumplicidade de altos oficiais do regime cubano.

Para realizar tal tarefa, enviaram Jorge Avendaño, “El Cocodrilo”, para 
Havana. Ele recebia os aviões provenientes da Colômbia numa pista de aterrissagem na costa leste cubana, e depois encaminhava a coca em lanchas rápidas até Islamorada, ao sul de Miami, na rota até Key West.

Essa complexa manobra funcionou sem qualquer contratempo por anos, até 
que os militares cúmplices de meu pai foram descobertos, acusados de trair a pátria e fuzilados em 1989, após um longo julgamento. Nunca falamos sobre esse assunto com meu pai, mas o interesse de seus homens pelas notícias vindas de Cuba sobre o escândalo deixou claro para mim, naquela época, que havia acontecido algo muito grave relacionado a meu pai.

Tendo obtido experiência por ter de lidar dia e noite com os diferentes elos da cadeia do tráfico de cocaína, um belo dia meu pai resolveu parar de processar a pasta de coca, por causa dos constantes problemas nos laboratórios, que sofriam com frequência operações de busca das autoridades; mas também se cansou da deficiente manipulação dos insumos químicos, que causavam constantes explosões, com mortos e feridos.

Assim, dedicou-se exclusivamente ao transporte do alcaloide por suas rotas, 
que continuavam sendo seguras, sobretudo Fanny e Platanal. Em pouco tempo, tornou-se um dos maiores transportadores de cocaína, mesmo cobrando muito caro para os narcos que queriam enviar seu produto para o exterior.

No fim de 1981, meu pai já havia se consolidado como o número um no 
tráfico de cocaína. Mas ele não queria ser só mais um narcotraficante, e Gustavo entendeu isso quando chegou sorridente para lhe contar que três aviões carregados de cocaína haviam chegado a seu destino.

– Pablo, os três chegaram direitinho.

– Muito bem, já temos o poder econômico, agora vamos atrás do poder 
político.

Meu pai estava prestes a adentrar a areia movediça da política, que seria sua 
perdição.





Meu pai e Gustavo Gaviria tiraram essas fotos em uma viagem a Las Vegas.

Meu tio Mario Henao era a única pessoa de quem meu pai tinha temor. Os dois estabeleceram uma amizade significativa, que terminou com a morte do primeiro.






Manancial: Pablo Escobar, meu pai

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