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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

PABLO ESCOBAR, MEU PAI – CAPÍTULO 3: Paz com os cartéis


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Pablo Escobar, meu pai, de seu filho, Juan Sebastián Marroquín, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah



CAPÍTULO 3

PAZ COM OS CARTÉIS




Palavras por Juan Sebastián Marroquín




O anúncio de que o criador de cavalos Fabio Ochoa Restrepo chegara para nos 
fazer uma visita no Residencias Tequendama nos tirou de um poço de tristeza e incerteza naquele dia 5 de Dezembro de 1993, menos de quarenta e oito horas após o enterro de meu pai em Medellín. Nós o conhecíamos desde o começo dos anos 80.


Autorizei a entrada. Dom Fabio chegou e nos deixou boquiabertos: trazia 
dezenas de panelas de todos os tamanhos, repletas de comida. Era como se tivesse desocupado todo o seu restaurante Margarita del 8, um refúgio de Antioquia na autoestrada do norte de Bogotá. Levou algo em torno de cinquenta bandejas paisas, que deram para nós e para soldados, policiais, detetives do DAS e agentes do CTI, da Dijin e da Sijin que nos protegiam. Um exagero no melhor estilo paisa, que foi muito bem recebido.

O banquete de feijões, arepas, carne moída, linguiça, torresmo, ovo e carne 
foi a única boa notícia que o patriarca dos Ochoa nos trazia. Como o que é bom dura pouco, no fim do encontro, lá pelas cinco horas da tarde, ele nos disse em tom sereno porém grave que haviam lhe dito que Fidel Castaño, o chefe dos Pepes, mantinha a ordem de assassinarem a mim, minha mãe e minha irmã.

– Fidel Castaño diz que Pablo Escobar foi um verdadeiro guerreiro, mas que 
cometeu o erro de formar uma família; e que é por isso que ele próprio não tem ninguém, para não ter a possibilidade de sofrer esse tipo de dor – dom Fabio Ochoa acrescentou, citando as palavras de Castaño ao justificar a intenção de nos matar.

A informação trazida por dom Fabio Ochoa nos chegou como uma sentença 
de morte. Sabíamos do enorme poder que Castaño possuía, pois encabeçara o grupo que perseguiu e assassinou meu pai.

A partir desse dia, e até deixarmos a Colômbia, nove meses depois, 
mantivemos com Fabio Ochoa Restrepo uma relação muito mais próxima do que tínhamos quando meu pai estava vivo. Constantemente nos mandava comida de seu restaurante e com alguma frequência minha irmã Manuela ia ao Margarita del 8 e montava os melhores cavalos dele.

Sabendo que Castaño mantinha sua decisão de nos matar, resolvemos dar 
uma última e desesperada cartada: mandamos uma mensagem para ele, assinada por minha mãe, na qual clamava pela vida de seus filhos, esclarecia que ela nunca havia se envolvido na guerra e se mostrava disposta a buscar a paz com os inimigos de seu falecido marido.

Minha mãe estava levemente otimista porque, como lembrou, ela e Fidel 
Castaño compartilhavam o gosto pela arte. Na época, ele era um amigo próximo de meu pai e juntos traficavam cocaína por diversas rotas bem-sucedidas. Castaño viajava com frequência para a Europa, em especial a Paris – onde dizia ter um luxuoso apartamento com grande parte de sua coleção de arte –, para visitar museus, visitar as melhores exposições e comprar obras de arte.

Em certa ocasião, Castaño foi até o edifício Mónaco em Medellín, e minha 
mãe lhe mostrou sua coleção de pinturas e esculturas, distribuídas pelos dois andares da cobertura de 1500 metros quadrados. Praticamente não havia uma única parede sem um quadro pendurado ou uma escultura próxima. Ela se orgulhava muito daquilo, porque um galerista famoso lhe havia dito que sua coleção de arte era a mais importante da América Latina naquele momento.

Naquele dia, Fidel Castaño ficou muito impressionado com a qualidade das 
obras que minha mãe havia adquirido de artistas como Fernando Botero, Édgar Negret, Darío Morales, Enrique Grau, Francisco Antonio Cano, Alejandro Obregón, Débora Arango, Claudio Bravo, Oswaldo Guayasamín, Salvador Dalí, Igor Mitoraj e Auguste Rodin, bem como valiosas antiguidades, como vasos chineses e peças pré-colombianas de ouro e barro.

Para devolver a gentileza, semanas depois Castaño convidou meus pais para 
jantar em sua enorme mansão conhecida como Montecasino, que ficava entre Medellín e Envigado. Um verdadeiro forte, rodeado por muros altos, onde os Pepes nasceram, e por trás de cujas paredes foram decididos os maiores crimes do paramilitarismo.

O encontro acabou sendo tenso porque meu pai se sentiu muito incomodado. 
Não estava acostumado a tanta ostentação de elegância: a presença de garçons, Fidel vestindo um smoking, a mesa posta com uma refinada louça de prata e cinco jogos de talheres. Na hora de comer, meu pai perguntou a minha mãe em voz baixa como se usavam as pinças para partir as patas de caranguejo, para não ser mal-educado à mesa.

Terminado o jantar, Fidel lhes mostrou a casa e sua adega de vinhos 
franceses, e disse ter preparado um banho turco de vapor e enchido a banheira de hidromassagem com água quente e espuma.

– Para a gente relaxar um pouco, Pablo.


Meu pai não conseguiu esconder o aborrecimento e declinou o convite com a 
péssima desculpa de que tinha outro compromisso.

Sempre pensei que Fidel Castaño sentia alguma atração por minha mãe, e 
vinha daí o incômodo de meu pai, que no fundo estava com ciúmes – chegou ao extremo de proibi-lo de visitar minha mãe no edifício Mónaco.

O otimismo moderado que tínhamos ao enviar a mensagem para Castaño se 
transformou em tranquilidade quando chegou sua resposta, numa carta de breves três parágrafos na qual ele dizia não ter nada contra nós e que, além do mais, havia mandado devolverem várias obras de arte que os Pepes roubaram de algum esconderijo, entre elas a caríssima pintura Rock and Roll do artista espanhol Salvador Dalí.

Tínhamos nos livrado de Fidel Castaño, mas não sabíamos que ainda 
precisaríamos percorrer um longo caminho.

Com efeito, com o passar dos dias começaram a chegar ao Residencias 
Tequendama as esposas ou companheiras dos mais importantes tenentes de meu pai, os que se entregaram à Justiça após a fuga de La Catedral, entre eles: Otoniel González, de apelido “Otto”; Carlos Mario Urquijo, o “Arete”; e Luis Carlos Aguilar, o “Mugre”.

Aquelas mulheres, que por vezes ficavam durante vários dias no hotel, 
traziam mensagens que indicavam que os capos dos cartéis que enfrentaram meu pai estavam pedindo dinheiro a todos como compensação pela guerra. A generosidade de meu pai com seus homens era conhecida entre a máfia, porque ele pagava grandes somas pelos serviços que prestavam, como sequestrar alguém, assassinar determinada pessoa ou realizar atentados. Por tudo que fizessem recebiam dinheiro, e eles se esforçavam para levar a cabo tudo o que era ordenado.

Uma das mulheres que nos visitou naquela época foi Ángela, a namorada de 
“Popeye”, que nos disse para visitarmos o traficante Iván Urdinola no Presídio Modelo de Bogotá, porque ele tinha uma mensagem da parte dos capos de Cali. Esse nome não era desconhecido para nós, porque em alguma ocasião meu pai nos havia mostrado umas cartas em que Urdinola lhe garantia não ser aliado dos capos do cartel de Cali e deixava transparecer certa simpatia por ele.

Embora a mensagem que Urdinola nos enviou pela namorada do “Popeye” 
tivesse parecido estranha, naquele momento não sabíamos que estava para começar uma das fases mais críticas e duras de nossas vidas, que chegou a ser até mais difícil e perigosa que os piores momentos que passamos escondidos com meu pai, quando os inimigos dele estavam o tempo todo em seu encalço. Estávamos prestes a iniciar um processo que era quase impensável: tentar a paz com os cartéis do narcotráfico. Eu ia fazer dezessete anos e fiquei apavorado só de pensar em ter de enfrentar essa realidade, mas não podia evitar isso, por mais que quisesse. Afinal de contas, eu era o filho de Pablo Escobar, e, com ele morto, era eu que estava agora na mira de seus inimigos.

Enquanto ainda decidíamos se iríamos ter com Urdinola, minha mãe e eu 
começamos a visitar os presídios Modelo e La Picota, com uma autorização do Ministério Público Federal, que, além de nos proteger, encarregava-se das permissões de entrada. Apesar de irmos escoltados, preferimos fazê-lo separadamente por temermos ser alvo fácil de um ataque. Nossa intenção era falar com todos os trabalhadores de meu pai, para saber qual seria sua postura diante da possibilidade de negociar a paz. Não foi muito difícil persuadi-los a deixar de lado qualquer hostilidade, porque nenhum deles possuía poderio militar e achavam que voltar para a guerra era suicídio. Além disso, muitos deles se entregaram pela segunda vez à Justiça sem sequer consultar meu pai porque estavam evidentemente cansados de tanta violência.

Num desses dias fui até o presídio La Picota, onde estavam presos “Arete”, 
“Tití” e “Mugre”; vi pela primeira vez, de longe, o lendário capo Leonidas Vargas, cujo centro de poder ficava no estado de Caquetá, perto da fronteira com o Equador.

De repente, um dos empregados de meu pai veio até mim e disse que 
Leonidas Vargas lhe havia pedido para me dizer que meu pai devia a ele 1 milhão de dólares e que nós deveríamos pagar a dívida. Achei que não devia ser verdade, mas vários dos detentos corroboraram a estreita relação de meu pai com “Dom Leo”. Um deles acrescentou:

– Juancho, é melhor vocês verem logo como fazer para pagar esse cara. Ele é 
muito sério, mas também é muito bravo. Então, é melhor que as coisas fiquem tranquilas com ele para que vocês não tenham nenhum problema.

Havia a dúvida, mas o problema maior era que não tínhamos dinheiro. 
Tínhamos recebido a notícia de que o Ministério Público ordenara a devolução definitiva de um dos aviões de meu pai, que havia sido confiscado dez anos antes. Chamamos um avaliador e o preço estimado foi em torno de 1 milhão de dólares, justamente o que devíamos a Leonidas Vargas. Num hangar abandonado do aeroporto Olaya Herrera de Medellín apareceram peças de reposição que só serviam para aquela aeronave e custavam 300 mil dólares. De modo que fizemos a proposta: ele receberia o luxuoso avião, e de quebra as peças de presente; sairia ganhando. Aceitou, depois de seus pilotos terem verificado que a aeronave estava em boas condições de voo.

Assim pagamos mais uma das dívidas de meu pai, e tiramos de cima de nós 
outro inimigo em potencial. Não queríamos mais guerra. Precisávamos desfazer qualquer possibilidade de violência e isso só era possível com dinheiro ou com bens.

Depois desse extenso périplo por algumas prisões, chegou a hora de enfim 
visitarmos Urdinola no presídio Modelo. Minha mãe já tinha ido falar com ele, mas ele insistiu que eu também fosse.

Eu estava pálido quando saí do Residencias Tequendama; os seguranças e o 
motorista que me acompanhavam naquela manhã do início de 1994 num carro blindado do Ministério Público devem ter percebido. Chegamos ao presídio na região de Puente Aranda em Bogotá; eu me preparava para descer do carro em frente a um edifício de dois andares, de onde o diretor do presídio despacha, quando o motorista me segurou pelo braço e me deu de presente um chaveirinho quadrado, branco e dourado, com a imagem do menino Jesus.

– Juan Pablo, quero te dar essa imagem para que ela te proteja, porque sei 
que você está passando por um dos momentos mais difíceis de sua vida – disse o homem, e eu agradeci, comovido, olhando em seus olhos.

Usando óculos escuros enormes para não ser reconhecido por nenhum 
detento, os guardas me facilitaram o acesso ao pavilhão de segurança máxima, onde encontrei “Otto” e o “Popeye”, que me deram o recado de que Urdinola me esperava. Nesse mesmo pátio avistei velhos conhecidos, ex-trabalhadores de meu pai, como José Fernando Posada Fierro e Sergio Alfonso Ortiz, apelidado de o “Pássaro”.

– Fica tranquilo, Juancho, dom Iván é gente boa, não vai acontecer nada 
contigo... Ele é padrinho do meu filho até – “Popeye” me disse, ao término de várias frases elogiosas sobre Urdinola que me pareceram excessivas.

Entrei na cela e encontrei Urdinola acompanhado de dois homens que não 
reconheci. Logo entraram mais cinco, um deles alto, com certo ar misterioso, que me chamou a atenção.

– Bem, meu irmão, você sabe quem ganhou a guerra; e sabe que o novo capo 
dos capos, o que manda em tudo, é o dom Gilberto (Rodríguez Orejuela); então, é você que vai ter que ir até Cali resolver o problema com eles, mas antes tem que dar um sinal de boa vontade.

Perguntei o que eu precisaria fazer para conseguir a benevolência deles, e ele disse que eu deveria me retratar de uma declaração no Ministério Público em que acusei os capos de Cali de plantar a bomba no edifício Mónaco no dia 13 de Janeiro de 1988. Senti que não tinha opção, e respondi que não haveria problema em fazê-lo. Então Urdinola disse que uma advogada me procuraria nos dias seguintes. Voltar atrás em uma velha acusação em troca de continuar vivo parecia algo simples, mas olhei Urdinola nos olhos e fiquei cheio de medo.

– Dom Iván, sinto muito, mas tenho muito medo de ir a Cali. Ninguém em sã 
consciência vai sozinho a um lugar para ser morto. Isso vai contra meu instinto de sobrevivência. Sei que muita gente foi e voltou com vida, mas não é o mesmo eu ir, vou acabar voltando numa sacola; é que sou filho do Pablo – respondi, e Urdinola ficou incomodado.

– Quem você pensa que é para não ir até Cali? Os que estão cuidando de 
você são os mesmos que já estão a postos para matá-lo; só estão esperando a gente ligar e dar a ordem; você acha que matá-lo dá muito dinheiro? Acha que os bandidos estão pedindo muito? Sua cabeça vale 300 milhões e se quiser podemos ligar já para os rapazes que vão fazer o serviço. Ah, vão embora daqui seus filhos da puta, que eu vou “pichar” (ter relações sexuais) com minha mulher – Urdinola concluiu a diatribe, enquanto sua esposa, Lorena Henao, entrava na cela.

As palavras de Urdinola me deixaram atordoado. Saí da cela com uma 
angústia indescritível; pensei que era a morte me encarando. Eu tinha apenas dezessete anos.

Estava distraído em meus pensamentos quando senti dois tapinhas leves no 
ombro. Era o homem alto e misterioso que minutos antes havia chamado a minha atenção. Ele me separou do grupo e falou para acompanhá-lo, pois queria conversar comigo.

– Juan Pablo, sei que você deve estar morrendo de medo de ir a essa reunião 
e entendo seus temores, que são válidos. Mas fica sabendo que o pessoal de Cali está cansado de tanta violência e por isso você deve aproveitar essa oportunidade para falar com eles e resolver de uma vez por todas os seus problemas. Urdinola acaba de dizer que sua morte está decidida, então se você não for vão matá-lo de qualquer maneira. Você não tem muitas opções, e é mais fácil se salvar se for lá e der a cara a tapa – disse o homem, e suas palavras pareceram sinceras.

– Obrigado pelo conselho, mas não sei quem você é... Que papel você tem 
nisso tudo?

– Meu nome é Jairo Correa Alzate, fui inimigo do seu pai desde a época de 
Henry Pérez (chefe paramilitar do Magdalena Medio). Sou dono da fazenda El Japón em La Dorada, Caldas, e tive muitos problemas com seu pai; estou detido porque estamos brigando na Justiça para saber se vou ser extraditado ou não.

O curto diálogo com Jairo Correa foi providencial, porque consegui ver uma 
luz no fim do túnel. Entendi que existia uma ínfima possibilidade de sair com vida de Cali.

Ao nos despedirmos, Jairo me apresentou a Claudia, sua esposa, e a uma das 
filhas mais novas, e pediu a elas que nos visitassem no apartamento para que a menina brincasse com minha irmã Manuela.

“Popeye” se ofereceu para me acompanhar até a porta de saída, e enquanto 
caminhávamos por um longo e estreito corredor ele disse que tinha algo para me contar:

– Juancho, tenho que lhe dizer que fui obrigado a ajudar o “Otto” a roubar de 
vocês a fazenda La Pesebrera, que fica no fim da Loma del Chocho. Tive que ajudar o “Otto” nesse serviço porque senão ia ficar mal na fita com ele.

A realidade indicava que até os velhos camaradas de meu pai agora estavam 
contra nós. Já não nos viam como a família do patrão que os tornara muito ricos, e, sim, como despojos. Dos homens de meu pai que sobreviveram depois de sua morte, posso dizer com certeza que apenas um foi leal. Nos demais vi apenas ingratidão e ganância.

Como combinado com Urdinola, alguns dias depois da visita à Modelo 
chegou uma advogada, com quem me reuni no segundo andar do apartamento de Santa Ana, onde os agentes do Ministério Público e da Sijin, que tinham um quarto dentro do imóvel, não poderiam nos ouvir.

A advogada foi direto ao ponto e me pediu para dizer que meu pai me havia 
forçado a apontar os capos do cartel de Cali como responsáveis pela explosão no edifício Mónaco em 1988, e que eu não tinha qualquer prova de sua autoria ou de que eles tivessem participado de qualquer maneira daquele atentado.

Acertamos isso e minutos depois chegaram a promotora do caso e seu 
secretário, que anotaram a nova declaração no térreo do apartamento, enquanto a advogada esperava no segundo. A expressão no rosto dos funcionários deixava claro que haviam percebido que eu estava sob uma enorme pressão. Em seus gestos transparecia a impotência de ver desmoronar um dos poucos casos sólidos que tinham contra os capos de Cali.

Mas não tinham o que fazer, e quando terminamos me entregaram uma cópia 
da declaração, que levei para a advogada. Após ler a retratação, pegou o celular na bolsa, ligou para alguém e disse: “Senhor, não se preocupe que está tudo resolvido.” Ter recebido o conselho de Jairo Correa foi tão importante que em outras três ocasiões visitei-o na prisão para pedir opiniões sobre diversos temas, pois sentia que era sincero. Lembro que passamos horas e horas falando de coisas da vida, refletindo sobre o que havia acontecido, numa atmosfera extremamente respeitosa e cordial. Tive a oportunidade de me desculpar pelo estrago que meu pai havia causado a ele e a sua família, e disse que não conseguia entender como era possível que eu e ele nos entendêssemos tão bem e o mesmo não tivesse ocorrido com meu pai. Lamentei o fato de os dois não terem conseguido conversar para resolver seus assuntos e viver em paz. Ele respondeu que meu pai sempre esteve cercado por maus conselheiros. Numa dessas visitas encontrei Urdinola muito bêbado, na companhia de um italiano que lhe estava vendendo máquinas industriais. Quando me viu, cumprimentou-me em bom tom – certamente porque estava embriagado – e abriu uma caixa com pelo menos cinquenta relógios, todos de marcas refinadas.

– Escolha o que você quiser.


– Não, dom Iván, para quê isso? Agradeço, mas não é necessário – insisti três 
vezes assim, mas ele estava decidido.

– Leve este, que me custou cem mil dólares. – Entregou-me e me obrigou a 
usá-lo, embora ficasse apertado em meu braço. Era um relógio Philippe Charriol com uma coroa de diamantes ao redor do mostrador e uma pulseira em ouro maciço.

As idas e vindas ao presídio Modelo tiveram uma primeira consequência: o 
primeiro contato direto entre os inimigos de meu pai e nós.

Urdinola interviu e facilitou um primeiro encontro entre Ángela a namorada do “Popeye” – e Ismael Mancera, advogado de meu tio Roberto Escobar, com os irmãos Miguel e Gilberto Rodríguez Orejuela, os capos do cartel de Cali. Urdinola sabia que “Popeye” não era importante dentro do cartel e por isso sempre quis que Vicky, a esposa de “Otto”, fosse a Cali, em vez de Ángela, mas como Vicky ficou com muito medo não restou outra opção a não ser enviar Ángela.

Os dois emissários viajaram para a capital do Valle e transmitiram nossa 
intenção e a dos homens que integraram o aparato criminoso de meu pai de acabar definitivamente com a guerra e procurar uma saída que nos permitisse sair com vida. Ao voltarem, Ángela e Mancera contaram que, embora tivessem sido comedidos, os Rodríguez se mostraram dispostos a aceitar uma aproximação direta conosco.

O plano deve ter surtido efeito, porque poucos dias depois recebemos uma 
chamada telefônica na qual um homem áspero nos ordenava que o recebêssemos porque trazia uma mensagem dos Rodríguez. Acabamos almoçando com um personagem muito conhecido, antigo inimigo de meu pai, cujo nome me abstenho de mencionar por questões de segurança. A conversa foi muito tensa, embora em alguns momentos ele tenha se mostrado compassivo. A mensagem que trazia era direta: viver teria um custo alto em dinheiro, porque cada um dos capos queria recuperar tudo o que tinha investido e mais um pouco.

– Juan Pablo, na guerra contra seu pai gastei mais de 8 milhões de dólares e 
tenho a intenção de recuperar tudo – disse, sereno, mas com o tom de quem está disposto a cobrar uma dívida por bem ou por mal.

Estávamos encurralados e assim entendemos a situação, porque o inesperado 
visitante nem sequer havia sido revistado nos cordões de segurança que nos “protegiam” no Residencias Tequendama. Já não restavam dúvidas de que permanecer com vida dependia única e exclusivamente da entrega de todos os bens de meu pai.

As mensagens, ameaças e incertezas teriam um desfecho na última semana 
de Janeiro de 1994, quando Alfredo Astado, um parente distante de minha mãe, chegou sem avisar para falar conosco, tendo acabado de voltar dos Estados Unidos. Estava havia vários anos radicado naquele país, para onde emigrou para fugir da guerra e proteger sua família, embora nunca tivesse se envolvido em negócios escusos ou tido imbróglios com a Justiça na Colômbia.

Ainda assustado, contou-nos que estava em casa quando recebeu uma ligação 
no celular de ninguém menos que Miguel Rodríguez Orejuela.

– Alfredo, quem fala é Miguel Rodríguez... Precisamos que você venha a 
Cali; queremos falar com você – disse o capo, seco, sem preâmbulos.

– Senhor, tenho várias coisas pendentes aqui ainda, só posso ir à Colômbia 
daqui a dois ou três meses.

– Te dou quatro dias. E se você sumir, eu te acho, mas de outra maneira. 
O relato de Alfredo era de fato muito inquietante porque poucas pessoas sabiam seu número, e ele estava havia seis anos numa cidade média dos Estados Unidos, na qual esbarrar com colombianos era algo muito raro. Por isso viajou para a Colômbia e veio falar conosco antes de ir ter com os capos de Cali.

Estava claro que os capos de Cali haviam rejeitado o movimento que o 
advogado Mancera e a namorada de “Popeye” haviam iniciado, e optado por ir atrás de um contato direto conosco.

Alfredo partiu imediatamente para Cali, hospedou-se no hotel 
Intercontinental e um homem foi buscá-lo no dia seguinte e o levou a uma luxuosa casa no sul de Cali, onde o esperavam os irmãos Rodríguez Orejuela e mais três pessoas que ele nunca havia visto.

– Senhor Astado, sabemos muitas coisas a seu respeito, porque investigamos 
a fundo. Você teve muita relação com a família Henao em Palmira, e é uma das pessoas que pode resolver este problema. A guerra com Pablo foi ficando cada vez mais feia e morreram muitos inocentes; queremos acabar com a raiz de tudo isso, e para tanto precisamos que você fale com a viúva – Miguel Rodríguez explicou, como porta-voz dos que ali estavam.

Alfredo entendeu a mensagem e ficou mais tranquilo, porque parecia não 
correr perigo. Depois tomou a palavra e, além de se oferecer para o que fosse preciso, propôs que eu e minha mãe fôssemos a Cali falar com eles.

Mas a resposta foi taxativa e dessa vez quem falou foi Gilberto Rodríguez:


– Ela sim, mas Juan Pablo Escobar não; ele come que nem um pato, anda que 
nem um pato, é um pato, igualzinho ao Pablo; é um menino e tem que ficar na barra da saia da mãe.

Apesar das palavras duras e do ódio mortal que os capos demonstraram para 
com meu pai, Alfredo voltou a Bogotá com uma mensagem tranquilizadora e com a ideia fixa de voltar o quanto antes a Cali, dessa vez com minha mãe.

Como não tínhamos outra saída, gastamos muito pouco tempo debatendo se 
convinha ou não entrarmos no incerto processo de aproximação aos inimigos de meu pai.

Então começamos a montar um plano para deixarmos o Residencias 
Tequendama sem que o Ministério Público percebesse. Depois de repassarmos diversas opções, concordamos em utilizar como escudo a psicóloga, que fazia terapia conosco uma vez por semana durante o dia todo. Não foi difícil explicar a ela o momento crítico em que vivíamos, e ela aceitou colaborar. Assim, minha mãe fingiu estar a portas fechadas com sua psicóloga durante todo o dia, com a desculpa de que iria se submeter a um tratamento especial para a depressão. Nenhum dos homens encarregados de nos proteger suspeitou de nada. Minha mãe desceu pela escada de incêndio do vigésimo primeiro andar até a rua, onde Alfredo a esperava num carro alugado.

A viagem foi relativamente normal, embora temperada com as incertezas 
próprias de quando se está prestes a encontrar pessoas violentas, que já haviam demonstrado seu enorme poderio econômico, político e militar. Não era exagero dizer que se tratava de lidar com os todo-poderosos chefes da máfia do país, que agiam a seu bel-prazer, pois tinham se livrado de meu pai, o único a enfrentá-los a ferro e fogo durante vários anos.

Tendo chegado em Cali, Alfredo ligou para Miguel Rodríguez, que se 
surpreendeu pela rapidez com que minha mãe havia aceitado ir a um encontro com a máfia toda. O capo disse que esperassem num hotel no centro, do qual era dono, enquanto convocava os demais.

Passaram-se vinte horas e incrivelmente o próprio Miguel Rodríguez chegou 
para buscá-los de carro e levou-os a uma propriedade na região de Cascajal, na estrada que vai para Jamundí, sede esportiva do time de futebol América de Cali.

Em trajes de luto, minha mãe entrou com Alfredo num salão onde já estavam sentadas cerca de quarenta pessoas que representavam a nata do narcotráfico da Colômbia; em outras palavras, a cúpula dos Pepes.

Haviam deixado para minha mãe uma cadeira na parte central da mesa, do 
lado esquerdo de Miguel Rodríguez e na diagonal direita de Gilberto Rodríguez, que a olhava com desprezo. Os outros lugares estavam ocupados por Hélmer “Pacho” Herrera, José “Chepe” Santacruz, Carlos Castaño e também por três representantes das famílias de Gerardo “Kiko” Moncada e Fernando Galeano, que foram assassinados por ordem de meu pai no presídio La Catedral. Alfredo se sentou em uma das quinas da mesa.

A reunião foi, do começo ao fim, cheia de tensão. O lugar estava repleto de seguranças fortemente armados. Minha mãe tinha uma garrafa de água mineral na mão.

– Senhora, diga o que veio dizer – Gilberto começou, num tom de voz 
distante e repreensivo.

– Vejam, senhores, esta guerra foi perdida; estamos aqui para chegar a um 
acordo com vocês para salvar a minha vida e a dos meus filhos, da família Escobar, de nossos advogados, enfim, das pessoas que estavam em volta de Pablo Escobar.

Miguel Rodríguez tomou a palavra e de cara começou a falar contra meu pai, a quem acusou de ter roubado muito dinheiro de todos eles, e reiterou o fato de que a guerra havia custado mais de 10 milhões de dólares para cada um deles, que esperavam recuperar.

– A senhora não venha pedir nada pelos irmãos daquele filho da puta do seu 
marido. Nem pelo Roberto, nem pela Alba Marina, nem pelo Argemiro, nem pela Gloria, nem por aquela velha malparida da mãe dele, porque são eles que vão arrancar até os seus olhos; a gente escutou todas as fitas que gravamos durante a guerra, e quase todos eles pediam mais e mais violência contra nós...

A intervenção do capo terminou dez minutos depois, quando explicou que o motivo principal daquele encontro era estabelecer se a família Escobar realmente tinha a intenção de procurar a paz. Depois passou a palavra para os presentes, que se referiram a meu pai em termos grosseiros e começaram uma espécie de inventário do que tínhamos que lhes pagar para saldar a dívida e para que nossas vidas fossem poupadas.

– Aquele filho da puta matou dois irmãos meus. Quanto que isso vale em 
dinheiro, além da grana que investi para matá-lo? – indagou um deles.

– Ele me sequestrou e tive que pagar mais de 2 milhões de dólares e dar umas 
propriedades a ele para ser solto. E como se fosse pouco, tive que fugir às pressas com a minha família – acrescentou outro, visivelmente furioso.

– Queimou uma das minhas propriedades, tentou me sequestrar, mas escapei 
e tive que ficar fora do país por anos. Quanto vocês vão pagar para compensar isso? – falou mais um.

Enfim, a lista de reclamações era interminável.


– Eu quero saber, quero que você me responda: e se nossas mulheres estivessem aqui sentadas com aquele filho da puta do seu marido, o que ele estaria fazendo com elas? Qualquer coisa horrorosa, porque ele era terrível. Responda! – exigiu um dos mais afetados pela guerra.

Minha mãe respondeu:


– Deus é muito sábio, meus senhores, e só ele pode saber por que motivo sou 
eu que estou sentada aqui, e não suas esposas.

Mais adiante, Carlos Castaño interviu, referindo-se a meu pai nos piores termos, e depois disse:
– Senhora, quero que saiba que a gente procurou você e a Manuela que nem 
agulha no palheiro, porque a ideia era pegar vocês, picar bem picadinhas e mandar para o Pablo embaladas num pacote.

Gilberto Rodríguez falou novamente, e repetiu o que já havia dito a Alfredo 
sobre mim:

– Olha, nós aqui podemos ficar em paz com todo mundo, menos com seu 
filho.
Minha mãe caiu em prantos e respondeu energicamente:


– O quê? Paz sem meu filho não é paz. Eu respondo pelos atos dele diante de 
vocês, até mesmo com a minha própria vida; garanto a vocês que ele vai seguir o caminho do bem.

– Senhora, entenda que existe aqui um temor, que é justificável, de que Juan 
Pablo fique cheio da grana e um dia desses se descompense e resolva formar um bando e comece a guerrear contra a gente. Por isso nossa decisão é que só as mulheres fiquem vivas. E vai haver paz, mas seu filho a gente vai precisar matar – insistiu.

Para acalmar os ânimos, Miguel Rodríguez explicou a razão pela qual tinham 
aceitado que minha mãe se reunisse com a máfia toda:

– A senhora está sentada aqui porque nós escutamos as suas conversas e você 
sempre procurava resolver as coisas; nunca disse a seu marido que fizesse mais guerra, que matasse a gente. Mas como você conseguia apoiar incondicionalmente aquele animal? Como escreveu cartas de amor para aquele filho da puta, que a traiu tanto? A gente colocou nossas esposas para escutar o que você falava nas gravações, para elas aprenderem como é que uma mulher deve apoiar o marido.

Mais tarde, e como aquilo era uma espécie de inventário, Miguel Rodríguez 
sentenciou:

– Senhora, precisamos que fale com o Roberto Escobar e com os capangas 
que estão presos, e diga que eles precisam nos pagar. Roberto deve 2 ou 3 milhões de dólares para a gente, e os detentos um outro tanto. Você deve algo em torno de 120 milhões de dólares, e pode ir pensando como vai nos pagar, mas tem que ser em dinheiro. Esperamos vocês daqui a dez dias, com uma resposta séria e concreta.

Um longo silêncio tomou conta do ambiente, e imediatamente minha mãe e 
Alfredo partiram de regresso a Bogotá; ela só fez chorar, inconsolável, durante todo o trajeto, enquanto Alfredo dirigia. Não disse uma única palavra nas dez horas do percurso. Estava abatida, baqueada, porque agora teria de enfrentar, sozinha, a corja que semanas antes havia caçado seu marido e que agora queria assassinar seu filho mais velho e se apropriar de tudo o que ainda lhe restava.

O sinuoso retorno à capital terminou sem que ninguém notasse a ausência de 
minha mãe, que entrou no Residencias Tequendama pela escada de incêndio, mesmo lugar por onde havia saído.

Após descansarem, Alfredo e minha mãe fizeram um relato completo do que 
havia acontecido, incluindo a decisão dos capos de me matar. No meio da conversa, minha mãe comentou que lhe havia chamado atenção o fato de “Pacho” Herrera, capo do cartel de Cali, não ter sido grosseiro durante a reunião, nem ter pedido uma indenização em dinheiro.

Nos dias seguintes, dedicamo-nos a fazer um balanço das propriedades de 
meu pai e das poucas obras de arte que tinham se salvado, do estado físico e legal em que se encontravam e de seu valor aproximado. Eu, minha mãe, sete advogados e outros assessores passamos horas compilando dados; perguntamos aos detentos e a pessoas próximas, porque nós não tínhamos conhecimento de mais de 30% dos bens de meu pai, que estavam espalhados por todo o país. Com essas informações, montamos planilhas que enviamos para Cali, para que cada capo escolhesse com qual dos bens queria ficar.

O mais importante era deixar claro para os capos que não tínhamos dinheiro 
em espécie, porque o montante do compartimento secreto desaparecera e meu tio Roberto havia torrado os 3 milhões de dólares que meu pai deixara com ele.

Na data indicada, minha mãe e Alfredo voltaram a Cali e se reuniram com o 
mesmo grupo de traficantes da primeira vez. Os capos insistiram demasiadamente em receber dinheiro em espécie, pois sabiam bem quantos anos de ataques foram necessários para que enfim conseguissem debilitar um pouco o poder econômico de meu pai; mas também sabiam que meu pai abandonara o tráfico de droga anos antes, pois a guerra o distraíra de seu negócio e ele acabara usando todo o dinheiro para lutar. Sabiam que os sequestros em troca de dinheiro que ocorreram a mando do meu pai se deviam justamente à sua falta de dinheiro corrente.

A situação de meu pai nessa época está relatada num livro à parte, Así 
matamos al Patrón (Assim matamos o patrão), publicado em Setembro de 2014 por Diego Murillo Bejarano, de apelido “Berna”. “Pablo era um homem sozinho, completamente encurralado; de seu poder e fortuna não restava praticamente nada. O homem que em determinando momento chegou a ser um dos mais ricos do mundo, entrou na lista da ‘Asotrapo’, Associação dos Traficantes Pobres.”

Dessa vez, a reunião em Cali foi muito mais longa, porque examinaram um a 
um os bens inclusos na lista que minha mãe levou, embora tivessem dito que aceitariam 50% da dívida em bens confiscados pelo Ministério Público e os outros 50% em propriedades livres de amarras judiciais e prontas para serem vendidas.

Não ficamos surpresos com o fato de quererem receber bens apreendidos. 
Poder-se-ia pensar que era uma estupidez, mas obviamente a luta contra meu pai conseguira unir traficantes, agentes e funcionários de altíssimo nível do governo colombiano e de outros países, e por isso tinham quem facilitasse a coisa para que tomassem posse “legalmente” daqueles bens. Propriedades que, a nós, o governo nunca teria devolvido.

Enfim, na enorme lista de bens que entregamos havia um lote de nove 
hectares que naquela época custava uma fortuna e que Fidel Castaño pediu através de “Alex” – como era chamado seu irmão Carlos nos Pepes –, porque era vizinho a Montecasino, sua mansão. Assim, ampliou mais ainda sua enorme propriedade.

Também entregamos outros lotes muito valiosos dentro da cidade, onde hoje 
funcionam dois hotéis e atividades comerciais muito rentáveis.

As reuniões a que minha mãe comparecia não eram realizadas apenas em 
Cali. Houve muitas em Bogotá, e numa delas ela levou dois quadros de Fernando Botero e algumas esculturas com a respectiva avaliação. Assim ia pagando os inimigos de meu pai pelos danos e prejuízos que ele lhes causara. No fim, restaram apenas peças de arte decorativas, que não interessaram a ninguém.

O complexo de torres de apartamentos Miravalle, em El Poblado, próximo à 
Loma del Tesoro, construído por meu pai na década de 1980, também não se salvou. Embora muitos apartamentos tivessem sido vendidos, ainda restavam mais de dez, que também entregamos. Por muitos anos minha avó Hermilda morou lá, numa cobertura.

Lembro que apareceu no inventário uma propriedade de que eu nunca tinha 
ouvido meu pai falar. Ficava nas Planícies Orientais, e quando vi a extensão que tinha pensei que se tratasse de um erro de digitação: 100 mil hectares.

A lista incluía aviões, helicópteros, todo tipo de veículos nacionais e também 
Mercedes, BMW, Jaguar, motos novas e antigas das melhores marcas, lanchas e jet ski. Entregamos tudo. Tudo. Não podíamos nos arriscar a mentir nem a esconder algum bem. Sabíamos que os Pepes tinham todas essas informações, pois haviam sido amigos de meu pai no passado.

Embora tivéssemos entregue muitas propriedades, sabíamos que ainda não 
era o suficiente para chegar na cifra descomunal que os capos haviam indicado; mas Carlos Castaño interveio de repente e lançou um pequeno bote salva-vidas para minha mãe:

– Senhora, eu tenho um Dalí que lhe pertence, o Rock and Roll, que vale 
mais de 3 milhões de dólares; estou lhe devolvendo agora, para que coloque aqui à disposição – disse Castaño, certamente cumprindo ordens de seu irmão Fidel, que já havia prometido devolver a obra.

– Não, Carlos, não se preocupe em devolver esse quadro; eu mando para 
você os certificados de origem, fique com ele – minha mãe respondeu, quase instintivamente, diante do olhar surpreso dos capos.

O encontro agitado teve outro tom dessa vez, porque a enorme mesa parecia 
mais a escrivaninha de um oficial de cartório em que os novos proprietários – assessorados por cinco advogados – escolhiam propriedades como se brincassem de figurinhas.

Três horas mais tarde, e à guisa de encerramento, Miguel Rodríguez disse:


– Aconteça o que acontecer daqui para a frente, nunca mais um monstro

como Pablo Escobar vai nascer na Colômbia.

Voltando de Cali, minha mãe novamente só fazia chorar. Porém, dessa vez, 
receberam uma ligação no meio do caminho. Era Miguel Rodríguez, ligando no celular de Alfredo.

– A viúva do Pablo não é boba; que golaço que ela fez hoje. Com a coisa do 
quadro do Dalí pôs no bolso ninguém menos que Carlos Castaño.

Na terceira reunião, dez dias depois e no mesmo lugar, havia menos capos 
presentes, pois vários já haviam considerado que sua dívida estava paga com os bens que receberam.

Mas esse novo encontro teve um ingrediente a mais: eu.


– Senhora, não se preocupe que depois disso tudo vai haver paz, mas seu 
filho a gente vai ter que matar – Gilberto Rodríguez reiterou.

Apesar do momento dramático e da sentença de morte, minha mãe insistiu 
repetidas vezes em garantir que eu não tinha nenhuma intenção de prolongar a guerra de meu pai; foram tantas e tão variadas razões que ela apresentou que no fim os capos a autorizaram a me levar à reunião seguinte, que ocorreria dentro de duas semanas. Lá, então, decidiriam meu futuro.

Eu, minha namorada e minha mãe começamos a entender que mais cedo ou 
mais tarde eu precisaria ir a Cali. Não incluíamos minha irmãzinha nesse drama todo, e a fazíamos acreditar que estava tudo bem e que nada de ruim iria acontecer.

Fugir e morrer na tentativa? Poderia sobreviver escondido por um tempo na 
Colômbia e depois no exterior, porque no fim das contas algo havia aprendido observando a forma como meu pai viveu mais de uma década na clandestinidade. Mas não comparecer ao encontro podia ter consequências para minha mãe e para minha irmãzinha. Também estava claro que o poder que os Pepes haviam alcançado era enorme, e poderiam me localizar em qualquer canto do mundo.

Não parecia fazer muito sentido me esconder, pois esse caminho perpetuaria 
uma guerra que eu não comecei, não inventei e muito menos comandei, uma guerra que na verdade me fez sofrer e da qual fugi desde que me entendo por gente. No fim, na hora de tomar a decisão, pesaram para mim os sentimentos mais íntimos, aqueles que me diziam que se eu quisesse a paz verdadeira deveria ir lá e tratar de fazê-la, honrá-la, selá-la, e apertar a mão dos inimigos de meu pai.

Na solidão e no frio da varanda de nosso apartamento alugado no bairro de 
Santa Ana, para onde havíamos ido após a ingrata estadia no Residencias Tequendama, refleti sobre o fato de que sempre tive de fugir, desde antes mesmo de nascer, desde que me recordo; desde criança me tratavam como se tivesse sido o próprio autor de todos os crimes de meu pai.

Deus sabe que em minhas preces nunca pedi a morte, nem a prisão, nem a 
ruína, nem a enfermidade, nem a perseguição, nem a justiça para os inimigos que herdei de meu pai – o que não é o mesmo que dizer meus inimigos, porque não fui eu que os fiz. A única coisa que pedi ao Criador foi que os mantivesse ocupados, que eu não fosse prioridade para eles, e que não me vissem como uma ameaça, porque não sou.

Novamente me encontrava numa encruzilhada. Tinha de comparecer à 
reunião em Cali e estava aterrorizado, porque ao que tudo indicava seria uma viagem sem volta.

O ambiente no apartamento de Santa Ana era tenso e profundamente triste. A 
estranha sensação de que minhas horas poderiam estar contadas me levou, dois dias antes da viagem, a escrever um testamento no computador, em que deixava para minha namorada e para a família de minha mãe as duas ou três coisas que eu ainda possuía.

Tinha a esperança de que, se me apresentasse voluntariamente, a vingança 
dos inimigos de meu pai viria apenas contra mim e não se estenderia a Manuela e a minha mãe. Devo ter entrado numa espécie de choque preventivo que me anestesiou ante a grande possibilidade de que minhas unhas, meus dentes e olhos fossem arrancados e de que meu corpo fosse desmembrado, como ocorreu com muitos amigos durante a cruel guerra entre os cartéis.

Assim, lá pelas quatro horas da madrugada e quando os guardas que nos 
protegiam estavam dormindo, descemos as escadas e partimos rumo a Cali – eu, minha mãe e meu tio Fernando Henao, que dirigia uma caminhonete Toyota. O trajeto foi tranquilo, e na maior parte do tempo falamos sobre como seria o encontro com os capos. Não havia muito o que pensar. Eu já me considerava morto.

Chegamos a Cali às seis horas da tarde e nos hospedamos num hotel, no qual 
entramos pelo subsolo e seguimos direto para um quarto grande no oitavo andar. Não fizemos check-in porque o cartel era dono do local. Uma vez instalados, tivemos a precaução de não falar em voz alta, porque achamos que os quartos poderiam estar cheios de microfones. Também não pedi comida, com medo de ser envenenado, e só tomei água da torneira.

Naquela noite, fiquei ajoelhado por um longo tempo, chorei e orei muito, 
pedindo a Deus que me salvasse, que me desse uma nova oportunidade e que amolecesse o coração de meus carrascos.

Sabíamos que nada aconteceria até a manhã seguinte, de modo que 
decidimos ir a Palmira para encontrar alguns familiares de minha mãe. Jantamos lá e pouco depois das dez horas da noite minha mãe recebeu uma ligação no celular. Era “Pacho” Herrera, que pediu que ela organizasse uma reunião com a família de meu pai para falar da herança e da divisão dos bens.

– Dom Pacho – minha mãe respondeu –, não se preocupe que isso a gente 
resolve sozinho, como família; Pablo deixou um testamento. Estamos aqui porque dom Miguel Rodríguez nos convocou para falar de paz e só faltava a presença do Juan Pablo, meu filho, que agora veio comigo resolver a situação dele.

Por volta das dez horas da manhã do dia seguinte um homem veio nos 
buscar; dirigia um Renault 18 branco com insulfilm e vinha da parte de Miguel Rodríguez.

Eu tinha acordado às sete, horário incomum para mim porque, como meu pai, 
costumava dormir tarde, de madrugada, e começar o dia já perto do meio-dia. Tomei um banho de mais de uma hora, como normalmente fazia, e fiquei pensando o pior. Fui tomar um pouco de ar, limpei a garganta e repeti diversas vezes para mim mesmo: “Hoje essa perseguição vai acabar. A partir de agora não vou ficar fugindo de mais nada nem ninguém”.

Minha mãe também não conseguia esconder a angústia; estava muito calada, 
e meu tio Fernando tentava animá-la, sem sucesso.

– Fiquem tranquilos, não vai acontecer nada – disse, várias vezes, mas ele 
também demonstrava estar preocupado.

Entramos no carro e em menos de dez minutos o motorista chegou ao 
subsolo de um edifício próximo à sede da rádio Caracol. Ninguém percebeu, mas naquele momento uma angústia terrível me invadiu, o mesmo desassossego que alguém que caminha para a morte deve sentir. O motorista nos acompanhou até o último andar, onde se despediu e disse para esperarmos numa sala lá longe. A ausência de homens armados ali e o fato de eu não ter sido revistado chamaram-me a atenção.
Andamos em direção à sala, e ficamos pasmos quando vimos sentados minha 
avó Hermilda, minha tia Luz María com o marido Leonardo, meu tio Argemiro e meu primo Nicolás.

As janelas escuras do lugar davam um aspecto lúgubre ao inesperado encontro com meus parentes, que devem ter percebido nosso desconcerto, porque até aquele momento achávamos que minha mãe era a única que estava em contato com os adversários de meu pai para tentar fazer a paz entre as famílias.

Como chegaram até ali? Quem os trouxera antes? Era muito estranho e 
suspeito que enquanto informávamos a meus parentes sobre os esforços para alcançar a paz, eles nunca tivessem nos contado que já tinham acesso direto aos capos de Cali. Foi um verdadeiro soco no estômago ver como eles se movimentavam à vontade na área de nossos inimigos. Vimos inclusive Nicolás pegando comida na geladeira.

Obviamente nossas saudações foram frias e distantes, e nos breves minutos que permanecemos na sala de espera trocamos poucas palavras, apenas as de praxe. Eu olhava para minha mãe, atônito, diante do quadro familiar que presenciávamos ali. Não conseguia acreditar que uma reunião em que supostamente se discutiria se eu seria condenado ou não à morte tivesse sido adiada – a pedido de minha própria avó por parte de pai! – para antes discutirmos a herança de seu filho Pablo.

Um garçom vestido de preto pediu para nos transferirmos para uma sala 
maior, onde havia dois sofás de três lugares, duas cadeiras nos cantos e no meio uma mesa de vidro.

Acabávamos de nos acomodar quando Miguel Rodríguez Orejuela entrou, e 
atrás dele vinham também Hélmer “Pacho” Herrera e José Santacruz Londoño, os capos do cartel de Cali. Gilberto Rodríguez não apareceu.

Eu, minha mãe e Fernando sentamos num sofá, e logo depois entraram meus 
parentes por parte de pai, que ocuparam o outro sofá disponível. Os Escobar Gaviria olhavam para o chão e desviavam o olhar de nós; sabiam que a partir daquele dia cortaríamos qualquer vínculo com eles, porque era óbvio que tinham traído meu pai e a família dele. De longe se via que a maneira como os tratavam era diferente. Lembrei que minha mãe comentara que, em reuniões anteriores, quando oferecera dinheiro para salvar a família de meu pai, Miguel Rodríguez lhe dissera:

– Senhora. Não dê nenhum dinheiro por essa gentalha. Não vale a pena. Você 
não percebe que são eles que vão arrancar tudo de você e dos seus filhos? Deixe-os pagarem a parte deles, eles têm condições de pagar. Além disso, eles não merecem a sua generosidade. Acredite em mim – insistiu várias vezes com minha mãe, que, como eu, até esse dia ignorava o jogo duplo das pessoas de nosso próprio sangue.

Já na reunião percebi que havia duas posturas opostas. “Pacho” Herrera 
claramente tomava partido de minha avó e de meus tios paternos, mas Miguel estava do lado de minha mãe e de seus filhos.

Todos olhamos para Miguel Rodríguez, que se sentou numa das cadeiras, 
tendo a seu lado “Pacho” Herrera e “Chepe” Santacruz. Esperamos que ele dissesse algo, ou pelo menos quebrasse o gelo. Estava com o semblante extremamente sério, áspero até, eu diria, a julgar pela testa franzida. Finalmente resolveu falar.

– Vamos conversar sobre a herança de Pablo – disse, sem maiores saudações.


– Ouvi as reclamações da mãe e de seus irmãos, porque querem que na divisão 
sejam incluídos os bens que deu aos filhos em vida.

Minha avó interveio e o encontro ficou ainda mais tenso.


– Sim, dom Miguel, estamos falando dos edifícios Mónaco, Dallas e Ovni, 
que Pablo pôs nos nomes de Manuela e Juan Pablo, para proteger os bens das autoridades, mas eram dele e não dos filhos. Por isso exigimos que façam parte da herança.

Enquanto minha avó falava, só consegui pensar em como era absurda aquela 
situação: minha avó e meus tios tinham procurado o cartel de Cali para resolver um problema que só dizia respeito aos Escobar Henao de Medellín. Pensei que meu pai devia estar se revirando no caixão ao ver as armações de sua própria mãe e irmãos contra seus filhos.

Então foi a vez de minha mãe falar:


– Dona Hermilda, desde que Pablo construiu esses edifícios ficou muito claro 
que ele queria que fossem para os filhos dele, porque deixou muitas outras coisas para o resto da família; a senhora sabe que foi assim, por mais que venha agora aqui, com todo respeito, dizer coisas que não são verdade.

Miguel Rodríguez interveio na discussão:


– Vejam eu, por exemplo. Tenho sociedades no nome dos meus filhos, e essas 
sociedades possuem bens que eu, em vida, decidi que eram para eles; Pablo fez exatamente o mesmo. Então, os bens que ele queria que fossem dos filhos ficam assim e não se fala mais nisso. O que é dos meus filhos é dos meus filhos e o que Pablo decidiu que era para os filhos dele é para os filhos dele. O restante, vocês repartem entre vocês, conforme o testamento.

Todos se calaram.


Após o longo silêncio que sucedeu à conclusão de Miguel Rodríguez, meu 
primo Nicolás fez sua intervenção, e pronunciou uma frase que por sorte acabou com aquela reunião estranha.

– Esperem aí, e como a gente faz com os 10 milhões de dólares que meu tio 
Pablo ficou devendo para o meu pai, porque todo mundo aqui sabe que era meu pai quem sustentava o Pablo, né?

O comentário desatinado e incoerente de meu primo provocou risadas nos 
capos do cartel de Cali, que se entreolharam sem acreditar no que ouviam.

Então não me restou outra opção a não ser intervir.


– Olhem o que esse cara está falando. Nessa ninguém vai acreditar, Nicolás. 
Seu pai sustentava o meu... E eu sou o Papai Noel, né? Não fode.

Sorrindo, Miguel Rodríguez, “Pacho” Herrera e “Chepe” Santacruz se 
levantaram e foram em direção ao fundo do salão, sem se despedir.

Desconcertado, fiz um gesto pedindo para minha mãe retomar o verdadeiro 
motivo do encontro, porque era a minha vida que estava em jogo. Ela entendeu na hora, ficou de pé, foi atrás dos capos e pediu cinco minutos para falar com eles. Eles concederam, e minha mãe fez um sinal com a mão direita para que eu me aproximasse.

Cheguei e estavam sentados em outra sala, com os braços cruzados; nesse 
momento entendi que havia chegado a hora de ir para o tudo ou nada.

– Senhores, eu vim aqui porque quero dizer para vocês que não tenho 
nenhuma intenção de vingar a morte do meu pai; o que quero fazer, e vocês sabem bem, é sair do país para estudar e ter possibilidades diferentes das que existem aqui para a minha vida; minha intenção é sair da Colômbia, para não incomodar ninguém, mas me sinto impossibilitado de fazer isso porque esgotamos todas as opções e não conseguimos encontrar uma saída para essa situação. Para mim é muito claro que, se quiser continuar vivo, tenho que ir embora.

– Moleque, o que tem que ser claro para você é não se me ter com tráfico 
nem com gangues ou coisas assim; entendo o que você sente, mas você precisa saber, e aqui todo mundo sabe, que um monstro que nem seu pai nunca mais pode voltar a nascer – Santacruz interveio.

– Não se preocupe, senhor, porque se eu aprendi uma lição na vida, foi essa; 
e por isso acho que o tráfico de drogas é uma maldição.

– Espere aí, jovem – replicou Miguel Rodríguez, elevando a voz –; como 
você pode dizer que o tráfico de drogas é uma maldição? Olhe, a minha vida é boa, minha família vive bem, tenho uma casa grande, uma quadra de tênis, saio para caminhar todos os dias...

– Dom Miguel, por favor me entenda, a vida me mostrou algo muito 
diferente. Por causa do tráfico perdi meu pai, familiares, amigos, minha liberdade e minha tranquilidade e todos os nossos bens. Me desculpe se o ofendi de alguma maneira, mas não consigo ver isso tudo de outro jeito. Por isso quero aproveitar essa oportunidade para dizer a vocês que da minha parte não vai haver nenhum tipo de violência; já entendi que a vingança não vai trazer meu pai de volta; e quero insistir: nos ajudem a sair do país; me sinto tão limitado para procurar essa saída que não quero que fiquem achando que eu não quero ir; é que nem as companhias aéreas vendem passagens para mim.

Com o embalo dessas afirmações e já muito mais relaxado, resolvi propor:


– Que tal, em vez de colocar cem quilos de cocaína num avião, vocês me 
colocarem lá, já que eu peso a mesma coisa, e assim me tiram do país?

A intensidade e a transparência de minha fala devem ter surtido efeito, 
porque de repente Miguel Rodríguez mudou o tom duro e hostil e voltou a ponderar como um juiz.

– Senhora. Nós decidimos que vamos dar uma oportunidade para o seu filho. 
Entendemos que ele é um garoto e deve continuar sendo assim. De agora em diante você responde com sua própria vida pelos atos dele. Tem que prometer que não vai deixá-lo sair da linha. Vocês podem ficar com os edifícios, para terem algo. Vamos ajudar vocês a recuperá-los. Para isso você vai precisar colaborar também com uma grana para as campanhas à presidência. Qualquer um que ganhar a gente vai pedir que ajude vocês, porque vamos lhes dizer que vocês colaboraram com as causas deles.

Depois, “Pacho” Herrera, que havia ficado calado, tomou a palavra.


– Fique tranquilo, garoto, que se você realmente não se meter no tráfico nada 
vai lhe acontecer. Não precisa mais ter medo. Queríamos que viesse aqui para nos certificarmos de que tinha boas intenções. A única coisa que não podemos permitir é que você fique com muita grana, para que não resolva enlouquecer por aí, longe do nosso controle.

– Não se preocupem mais – Miguel Rodríguez interveio novamente. – Vocês 
inclusive podem ficar e morar aqui em Cali, se quiserem, que ninguém vai fazer nada contra vocês. Vão conhecer a loja de roupas da minha mulher. E esperem para ver o que vai acontecer agora com o novo presidente que chegar, porque a gente ajudou na campanha – resumiu o capo, e deu por encerrada a conversa, que durou vinte minutos.

Naquele momento não reparei na frase de Miguel Rodríguez sobre “o novo 
presidente que chegar”, mas viríamos a entendê-la algumas semanas depois.

Depois de se despedir com certa amabilidade, o capo ligou para o motorista 
que nos buscara no hotel de manhã e mandou que nos levasse até a loja de Martha Lucía Echeverry, sua esposa.

Saímos, enfim. Eu nunca sentira tantos dissabores de uma tacada só, pois 
precisaria digerir a inegável realidade dupla que tinha pela frente: a confirmação de que meus parentes por parte de pai haviam nos traído e a permissão para permanecer com vida que os capos de Cali me tinham outorgado. Sempre esperei o pior deles, mas agora me vejo na obrigação de reconhecer com gratidão a atitude de dom Miguel e de todos os Pepes, que respeitaram a minha integridade física, bem como a de minha mãe e a de minha irmã.

Com o motorista de Miguel Rodríguez, não demoramos a chegar a uma 
região comercial de bom nível em Cali, e ele apontou uma loja de roupas, na qual minha mãe entrou enquanto eu esperei do lado de fora. Caminhei pelos arredores e me detive em frente a uma loja de roupas masculinas que exibia na vitrine um roupão com uma estampa tradicional escocesa. Comprei-o.

Era uma sensação estranha; sentia-me vivo. Tinha ido para um encontro com 
a morte e de uma hora para outra estávamos no meio dos domínios dos mafiosos todo-poderosos de Cali, sem sofrer um arranhão sequer. Poucas horas depois o chofer nos deixou no hotel, e naquela mesma noite viajamos de volta para Bogotá.

Pela primeira vez depois de muito tempo sentimos uma enorme 
tranquilidade, pois havíamos tirado de cima de nós um peso gigante ao entregar uma grande quantidade de propriedades aos capos de Cali e aos Pepes. Mas ainda faltavam vários capos, muito poderosos, que esperavam sua parte.

Enquanto eu tirava a calça, minha namorada perguntou se eu tinha lido um 
bilhete que ela enfiara em meu bolso para aquela viagem em direção à morte, no qual reiterava seu amor por mim e a certeza de que tudo ficaria bem.

Como era preciso pegar o boi pelos chifres, minha mãe logo se encontrou 
com Diego Murillo Bejarano, o “Berna”, a pedido de Carlos Castaño, que os convocou para irmos a uma casa na chamada Loma de los Balsos ao lado de Isagen, em Medellín. Mas esse primeiro encontro acabou mal porque “Berna” a xingou por ter sido casada com Pablo, e ela, já cansada das ameaças, dos impropérios e da perseguição de tantos mafiosos, respondeu grosseiramente à altura, e assim o encontro acabou suspenso.

– Sou uma senhora e você não vai me insultar nem maltratar mais. Não tenho 
por que ficar ouvindo suas palavras sujas quando já ganhei o respeito do resto dos seus amigos. Faça o favor de me respeitar, não abuse, não seja cara de pau desse jeito.

Castaño ligou para minha mãe aquela noite e a fez ver que “Berna” estava 
muito descontente e que era urgente acalmá-lo.

– Dona Victoria, o homem está muito bravo; entendo que ele a tenha provocado e dito coisas terríveis, mas você precisa entender que ele é um homem mau, e você vai precisar dar algum presente extra para acalmar os ânimos dele.

O incidente sairia muito caro, porque num encontro seguinte, também 
organizado por Carlos Castaño, minha mãe teve de dar para “Berna” um valioso apartamento e pedir desculpas. Só assim pôde dar sequência à negociação dos demais bens.

Em nossa morada em Santa Ana tornou-se normal alguém vir buscar minha 
mãe para levá-la a mais reuniões com capos que viviam ou estavam de passagem pela capital. Por vezes esses encontros se davam em casas próximas, no mesmo bairro em que morávamos; era evidente que se aproveitavam do fato de estarem sozinhos para pedir mais dinheiro, mais quadros, mais coisas. E convidavam-na para tomar uísque com eles, ao que ela sempre se negou, e isso também não os agradava. Queriam claramente abusar dela. Viam-na como um troféu de guerra. Por sorte, meu tio Fernando esteve muito próximo de nós nesses momentos e soube se impor, sempre com muito tato, para evitar mais abusos.

Mas talvez a negociação mais complicada daqueles dias tenha sido a que 
minha mãe precisou realizar com o comandante “Chaparro”, um poderoso chefe paramilitar e traficante do Magdalena Medio, inimigo de morte de meu pai.

Com a autorização do Ministério Público, Carlos Castaño levou-a numa 
Mercedes blindada até o aeroporto de Guaymaral, no norte de Bogotá, onde entraram num helicóptero que os transportou até uma propriedade na fronteira entre Caldas e Antioquia.

Durante o trajeto, Castaño revelou a ela detalhes que desconhecíamos sobre a 
morte de meu pai.

– Senhora, os Pepes já estavam desmoralizados. Tínhamos matado 99% do 
pessoal do Pablo na rua, nas nada de chegar a ele. Quase jogamos a toalha porque Dezembro estava chegando e nessa época era mais difícil. Inclusive alguns Pepes importantes começaram a dizer que, se em Dezembro não houvesse resultados, abandonariam a perseguição. E como se não bastasse, já haviam dado um ultimato para os coronéis do Bloco de Busca da polícia.

Minha mãe ouviu em silêncio a confissão de Castaño.


– Para localizar o Pablo tivemos que trazer da França o equipamento de 
interceptação de ligações mais avançado do mundo, porque o dos gringos não bastava.

– Quem realmente matou Pablo? – minha mãe perguntou.


– Eu participei pessoalmente da operação final. A polícia sempre mandava a 
gente na frente nas operações. Naquela vez estavam esperando no obelisco. Quando matamos o Pablo, ligamos para eles. Pablo escutou a primeira batida da marreta com que tentamos quebrar a porta e correu descalço para o segundo andar, aonde se chegava por uma escada reta. Disparou várias vezes com a pistola Sig Sauer dele, e um desses tiros parou no meu colete à prova de balas e me fez cair de costas no chão. Nesse momento o “Limón” já estava morto no quintal da entrada da casa. Pablo aproveitou o instante em que ninguém estava atrás dele, abriu uma janela, desceu por uma escada metálica que havia colocado previamente ali para fugir e chegou ao telhado da casa vizinha. Mas não contava que alguns dos meus homens já estivessem lá, e tentou voltar. Foi nessa hora que tomou o disparo de fuzil que entrou pela parte de trás do ombro dele. Depois levou outra bala na perna. Logo a seguir cheguei à janela por onde ele havia saído, e vi que já estava morto.

Minha mãe não teve tempo de comentar o relato que acabara de escutar 
porque naquele momento o helicóptero que os transportava aterrissou num descampado com duzentos homens armados com fuzis em volta do comandante “Chaparro”, que se dirigiu a minha mãe depois de cumprimentar Castaño calorosamente.

– Senhora, bom dia; sou o comandante “Chaparro” e olhe, esse é meu filho. 
Seu marido matou meu outro filho e fez treze atentados contra mim, dos quais saí vivo por milagre.

– Senhor, entendo sua situação, mas saiba que eu não tive nada a ver com a 
guerra; simplesmente era a esposa e a mãe dos filhos do Pablo. Me diga, o que preciso fazer para ficar em paz com você? – minha mãe respondeu.

O problema com o comandante “Chaparro” não era pequeno. Lembro que 
meu pai até ria quando seus homens o informavam que haviam fracassado numa nova tentativa de matá-lo. Em duas ocasiões partiram um carro e uma lancha ao meio com bombas poderosas, mas nem assim ele morreu. Meu pai, resignado, disse que ele tinha mais vidas que um gato.

Era o final da década de 70. “Chaparro” era um homem que vinha do 
campo; ele e meu pai se distanciaram por motivos que não conheço em detalhes, e “Chaparro” acabou se aliando a Henry Pérez, um dos primeiros chefes paramilitares do Magdalena Medio. Então meu pai declarou guerra contra “Chaparro” por ter se aliado a Pérez, e declarou guerra contra Pérez também por não ter recebido dele dinheiro para financiar a luta contra a extradição. No fim, Pérez foi assassinado por capangas de meu pai, mas até o dia de sua morte ele não conseguiu eliminar o “Chaparro”.

Ao fim de muitas horas de intensas negociações, minha mãe e o comandante 
“Chaparro” chegaram a um acordo que resolveu as coisas. Demos vários bens para ele, entre os quais dois terrenos de quatrocentos hectares, dedicados à mineração e ao gado. Ficou também com o gerador da fazenda Nápoles, do qual “Chaparro” já tinha se apropriado tempos antes e que era tão potente que iluminava um povoado inteiro. Minha mãe disse para ele levar o que quisesse da fazenda, pois já não a considerávamos nossa.

Como favor, minha mãe pediu a Carlos Castaño a localização dos corpos de 
ao menos cinco de seus empregados, incluindo uma professora e a babá de Manuela, que os Pepes haviam matado e escondido na última etapa da guerra, quando meu pai estava praticamente sozinho e nós permanecíamos trancafiados num apartamento no edifício Altos de Medellín. Castaño respondeu que não era fácil encontrá-los porque os Pepes haviam sumido com mais de cem pessoas, e não lembrava com exatidão onde os tinham sepultado.

– Senhora, encontrar essas pessoas é praticamente impossível, pois muitos 
foram enterrados como indigentes em vários cemitérios, como o de San Pedro.

No final do encontro minha mãe e o comandante “Chaparro” deram-se as 
mãos e ele a autorizou a ir a qualquer momento à fazenda Nápoles, que naquela época continuava nas mãos do Ministério Público.

Minha mãe voltava novamente a Bogotá, com menos outro inimigo.


Assim, passamos por alguns dias de tranquilidade, interrompidos quando de 
vez em quando chegavam visitas inesperadas, como a de um advogado que veio ao edifício no bairro de Santa Ana e disse que trabalhava para os irmãos Rodríguez Orejuela e vinha a pedido deles.

Tendo escutado sua explicação para a visita, entendemos que os capos de 
Cali tinham acabado de nos incluir – sem se importar se concordávamos ou não – em sua estratégia que visava obter benefícios legais com propinas. Exigiu que contribuíssemos com 50 mil dólares porque estavam propondo incluir um mico” – um artigo redigido por eles – numa lei que começava a tramitar no Congresso e que protegia os bens da máfia dos processos de extinção de domínio. O recado ameaçador do advogado não nos deixou outra opção senão conseguir o dinheiro emprestado.

Mas o assunto não terminou aí. Em Maio de 1994 recebemos outra visita de 
um emissário de Cali, mas dessa vez não era um advogado, e sim um homem conhecido da associação mafiosa. Reticentes, o recebemos em casa e fomos comunicados de que um grupo grande de traficantes do sudoeste do país estava querendo fazer um aporte de uma grande quantia de dinheiro para financiar a campanha de Ernesto Samper à presidência, sob a premissa de que nós também seríamos beneficiados com a ajuda do futuro governo, tanto para recuperar nossas propriedades como para conseguir refúgio em outro país. Nesse momento entendemos o que Miguel Rodríguez quis dizer com “o novo presidente que chegar”: referia-se a ter a seu lado o sucessor de César Gaviria.

Novamente não pudemos nos negar a participar, e nos comprometemos com 
o emissário de Cali a entregar essa quantia em várias somas menores em dinheiro, sem que soubéssemos de fato o destino real do dinheiro. Demos a contribuição, mas nunca recuperamos nossos bens e tampouco recebemos qualquer ajuda para sair da Colômbia. Em outras palavras, essa graninha se perdeu.

O pior de tudo era que a máfia continuava nos vendo como caixas 
registradoras, porque os pedidos de dinheiro eram contínuos e com os argumentos mais inverossímeis. Mas quem iria se negar a lhes dar o dinheiro naquelas circunstâncias? Denunciar ao Ministério Público era inútil, porque naquela época a coisa estava tão descarada que os capos de Cali tinham seu escritório próprio na sede principal do Ministério Público, no mesmo andar em que o promotor De Greiff despachava.

Todos que queriam viajar a Cali iam até a sede para resolver qualquer 
problema ou pendência. O Ministério Público era o primeiro escalão. Não estou inventando. Era normal ver os Pepes entrando e saindo, como se ali fosse a casa deles. A cada vez que íamos ter com o promotor geral para falar sobre qualquer assunto, tínhamos antes de perguntar se o pessoal de Cali estava de acordo, mas não era necessário sair do edifício para fazer essa consulta de praxe.

Não seria falso dizer que nessa época as relações do cartel de Cali com o 
Ministério Público Federal eram quase carnais. A tal ponto que um dia o promotor De Greiff disse publicamente que o cartel de Cali não existia. Não existia para ele, pois estava muito entretido com sua nova e belíssima secretária – escolhida a dedo pelos capos de Cali – que o levou até a tingir o cabelo de preto.

De Greiff sabia das viagens secretas de minha mãe, porque, apesar de os 
seguranças não notarem sua saída, os de Cali lhe comunicavam que ela estava reunida com eles. Em várias reuniões que tivemos com ele em seu escritório, De Greiff fez comentários jocosos a respeito disso.

Em meados de Agosto de 1994, aceitamos a oferta do comandante 
“Chaparro” e fomos até a fazenda Nápoles, acompanhados por dois agentes do Ministério Público e um da Sijin. Minha mãe avisou ao comandante e ele disse que não nos preocupássemos, pois ele garantiria nossa segurança na região.
Foram umas miniférias. Eu, minha mãe, Andrea, Manuela e Fernando Henao 
fomos de Bogotá até lá; outra parte da família saiu de Medellín para ficar conosco, entre eles minha avó Nora.

Chegamos à noite na fazenda e encontramos Octavio, administrador desde 
sempre, que nos esperava e havia preparado as camas em quatro pequenas cabanas com banheiro, mas só uma tinha ar-condicionado. Essa parte de Nápoles era conhecida como “O outro lado”, porque ali havia apenas um posto de saúde, uma sala de cirurgia, uma farmácia com remédios de todo tipo e o bar El Tablazo, onde meu pai mantinha uma considerável coleção de LPs e de antiguidades penduradas nas paredes, no melhor estilo de um rock café.

No entanto, em nossa curta estadia em Nápoles, sentimos como se fôssemos 
estranhos ali. Fazia alguns anos que não íamos, e já quase não restava nada do luxo e da ostentação dos anos 80, quando o quadro de funcionários chegou a contar com 1700 pessoas. Percorremos a propriedade de carro e foi doloroso ver que a mata havia tomado a casa principal; não dava para ver nem as paredes.

Nos lagos, viam-se os olhos de alguns hipopótamos entediados. 
Na segunda noite em Nápoles acordei morrendo de calor e tomei um susto quando vi dois homens armados com fuzis AK-47. Mas sua atitude não me pareceu hostil, de modo que saí para falar com eles. Com efeito, disseram-me que o comandante “Chaparro” os enviara para nos proteger, porque dias antes haviam tido um enfrentamento com o ELN (Exército de Libertação Nacional da Colômbia) num setor de Nápoles conhecido como Panadería, onde meu pai tinha um de seus esconderijos. Disseram para ficarmos tranquilos, pois havia muitos homens patrulhando a região.

Ofereci-lhes guarapo – uma mistura de “água de cana” e limão – porque 
estavam com muita sede e encharcados de suor. As voltas que a vida dá: os ódios de antigamente haviam desaparecido graças ao diálogo franco entre minha mãe e o comandante “Chaparro”.

No final de Agosto de 1994 já tínhamos entregado todos os bens que meu pai 
nos deixara, exceto os edifícios Dallas, Mónaco e Ovni, que, segundo os acordos feitos, eram meus e de minha irmã.

Ainda assim havia certas dúvidas sobre a propriedade de um avião e um 
helicóptero de meu pai, motivo pelo qual os capos de Cali convocaram minha mãe novamente para uma reunião naquela cidade. Ela foi logo e comprovou que o clima em relação a nós mudara radicalmente.

O encontro foi com cerca de trinta pessoas, quase as mesmas que 
participaram da primeira cúpula no começo do ano. No fim, e quando o assunto das aeronaves estava resolvido, Miguel Rodríguez perguntou a minha mãe por que não tentara se aproximar deles antes, pois teria podido evitar a guerra contra meu pai.

– Eu quis fazer isso, mas Pablo não me ouviu. Devo lembrar a vocês, 
senhores, que uma vez localizei um cunhado de um primo meu em Palmira, segurança de um de vocês, e pedi a ele que solicitasse uma aproximação para uma conversa. A resposta foi positiva. Então contei a Pablo e disse que estava fazia um tempo procurando contatos com o pessoal de Cali e já havia conseguido mais ou menos combinar um encontro, pois estava muito preocupada com meus filhos. Mas ele me disse que eu estava louca, que nunca me deixaria ir a Cali. Você só vai até Cali no dia em que eu estiver morto, disse, e acrescentou que eu era muito ingênua, que precisava ter mais malícia, que não sabia nada da vida, que os inimigos dele iriam me mandar de volta enrolada em arame farpado.

No fim das contas, meu pai tinha razão em uma coisa: ele precisou morrer 
para que minha mãe se aproximasse de seus inimigos e vivesse para contar a história.




CAPÍTULO 4




Manancial: Pablo Escobar, meu pai

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