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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

PABLO ESCOBAR, MEU PAI – CAPÍTULO 7: A “coca” Renault


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Pablo Escobar, meu pai, de seu filho, Juan Sebastián Marroquín, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah



CAPÍTULO 7



A “COCA” RENAULT




Palavras por Juan Sebastián Marroquín



“Entre os novatos, destacam-se Lucio Bernal, de Bogotá; Pablo Escobar, 
Gustavo Gaviria e Juan Yepes, todos da capital de Antioquia.”

“Voadores como Pablo Escobar estão em plena ascensão. Escobar está em 
segundo no geral, a treze pontos do líder.”

Nesses dois parágrafos e de maneira breve, o jornal El Tiempo de Bogotá 
noticiou, no primeiro semestre de 1979, o desempenho de meu pai e de Gustavo Gaviria numa das corridas válidas pela Copa Renault, que era disputada no Autódromo Internacional, ao norte da capital do país. O gosto por participar de competições de alta velocidade surgira anos antes, quando haviam juntado uma boa quantidade de dinheiro por conta do tráfico de drogas e, inquietos, procuravam outras atividades para se distrair.

Antes, meu pai competira em corridas de motocross numa pista conhecida 
como Furesa, nos terrenos contíguos à Sofada, a montadora da Renault em Envigado e arredores; ele ia bem, ficava nas primeiras posições, mas um acidente feio causou-lhe feridas em várias partes do corpo que demoraram vários meses para cicatrizar.

Os automóveis despertavam no meu pai uma paixão enorme pela velocidade 
e por isso o anúncio de que, na tradicional Copa Renault – que acontecia todos os anos no Autódromo –, novatos seriam aceitos, e não apenas profissionais, avivou sua vontade de correr. Gustavo não ficou atrás.

A nova categoria não tinha muitos pré-requisitos: um Renault 4 original, ao 
qual era permitido fazer algumas modificações no motor e na suspensão. As demais customizações eram ao gosto do competidor.

Animados, meu pai e Gustavo compraram dez R-4 com motores de mil 
cilindradas e os entregaram para um engenheiro que trabalhara na Sofasa – a montadora de tais veículos em Envigado – para que fizesse as reformas que eles queriam. Assim, instalaram uma gaiola de segurança dentro da cabine, substituíram os amortecedores originais por outros de competição, rebaixaram o cabeçote do motor e alteraram o diagrama do comando de válvulas.

Com os veículos prontos para a competição, meu pai e Gustavo se 
inscreveram pelas equipes Bicicletas Ossito e Depósitos Cundinamarca. Juan Yepes também correu ao lado deles. Meu pai ficou com o carro número 70, e Gustavo com o 71.

Jorge Luis Ochoa patrocinou a equipe Las Margaritas, com quatro veículos, 
mas ele mesmo não participou, porém Fabio, seu irmão mais novo, sim.

Meu pai e Gustavo levaram tão a sério a participação que antes da primeira 
corrida enviaram dois de seus empregados para arranjar os últimos detalhes em Bogotá: compraram um furgão e o encheram de peças de reposição para seus R-4, contrataram por um ano um engenheiro e cinco mecânicos para cuidarem de seus veículos, e pagaram uma grana preta por um espaço grande nos pits, onde além dos mecânicos e dos carros ficava boa parte da família.

Mas ainda faltava uma excentricidade: meu pai reservou um andar inteiro no 
hotel Hilton – o último andar – e pagou um ano adiantado. Foi um exagero enorme, porque os quartos foram ocupados em apenas seis fins de semana.

Em meio à excitação pela novidade de participar de uma corrida de carro, 
meu pai pensou numa piada: que a Copa Renault devia se chamar, na verdade, Coca Renault. E tinha razão, porque naquele ano, além dele e de Gustavo, outros traficantes de Medellín e de Cali também participaram.

A primeira corrida válida foi marcada para um Domingo, dia 25 de Fevereiro 
de 1979, mas meu pai e Gustavo viajaram de helicóptero já na Segunda-feira anterior para inscrever seus veículos e apresentar os exames médicos. Numa maleta, meu pai levou 200 milhões de pesos em dinheiro para os gastos daqueles dias.

Não obstante, o resultado do exame físico de meu pai não foi bom, porque o 
encefalograma indicou que ele não era apto para pilotar carros de corrida. Mas, como ele resolvia qualquer problema com dinheiro, subornou os médicos, pedindo na cara de pau que alterassem o exame e autorizassem a emissão do comprovante, com o qual pôde então competir.

O clima antes da abertura da Copa Renault era festivo e o autódromo estava 
completamente lotado de fãs do esporte. A equipe Las Margaritas causou curiosidade nos presentes, pois chegou num ônibus novo que tinha na parte de trás uma mecânica e na frente uma oficina ampla e bem equipada. Era algo nunca antes visto no automobilismo nacional, como disseram os jornalistas que cobriam o evento.

Meu pai saiu para a pista com um chamativo macacão laranja e Gustavo 
Gaviria com um vermelho. Na corrida de abertura, os dois novatos mostraram habilidade para pilotar, mas ficaram na terceira e quarta posições, respectivamente. Mesmo assim, os jornais do dia seguinte teceram bons comentários e os especialistas afirmaram que Antioquia havia mandado bons pilotos para se somar à acirrada competição.

Meu pai, Gustavo e toda a família foram aquela tarde comer no restaurante 
Las Margaritas, propriedade de Fabio Ochoa pai, que era perto do autódromo. Lá, avistaram um homem de chapéu, que parecia ser do campo, sentado sozinho a uma mesa, a quem nunca haviam visto: era Gonzalo Rodríguez Gacha, que aparecia ali nos fins de semana para vender cavalos. Nas corridas oficiais seguintes pela Copa Renault – algumas realizadas em Cali e em Medellín –, meu pai e Gustavo chegavam no Sábado de helicóptero e voltavam na Segunda de manhã.

Ao longo do campeonato, os dois ocuparam lugares na parte de cima da 
tabela geral, e meu pai inclusive chegou a ficar em segundo, mas havia dois ótimos pilotos que não os deixavam chegar perto da liderança. Eram Álvaro Mejía, patrocinado pela empresa Roldanautos de Cali, e Lucio Bernal, que tinha o patrocínio da Supercar-Hertz de Bogotá.

O duelo entre Mejía e Bernal pelo primeiro lugar continuou até o fim do 
campeonato, em Novembro de 1979, sem que as estratégias de que meu pai se valeu para vencê-los surtissem qualquer efeito. Primeiro, gastou muito dinheiro contratando dois engenheiros automotivos que tentaram sem êxito melhorar seu carro; chegou inclusive a lhes oferecer quantias extras de dinheiro por cada quilo que conseguissem retirar do veículo. Depois, quando alguém lhe disse que um engenheiro da Renault na França havia preparado vários motores para competir em corridas como aquela na Colômbia, mandou comprar três. Mas nada funcionou.

No fim, meu pai ficou em quarto lugar e Gustavo em nono. Decepcionados, 
os dois não quiseram mais saber de corridas de carro.

Como era de esperar, a participação de meu pai e de Gustavo não foi isenta 
de historietas e detalhes pitorescos. Primeiro: o entusiasmo e a gastação de dinheiro os levaram a comprar dois luxuosos e velozes Porsches SC-911, um deles tendo pertencido ao famoso piloto brasileiro Emerson Fittipaldi; meu pai mandou pintá-lo de branco e vermelho e colocou o número 21 no dele, e Gustavo o 23.

Segundo: numa tarde de Domingo, chegaram ao Hilton após uma corrida e 
subiram para os quartos do último andar. Um mecânico da equipe jogou uma garrafa vazia pela janela, que acabou batendo no ombro de um guarda-costas que naquele momento acompanhava o presidente Julio César Turbay Ayala. Os homens da segurança do líder político subiram correndo para ver o que estava acontecendo e encontraram mais de quarenta pessoas numa animada confraternização. Para não aumentar a importância do incidente, os guarda-costas de Turbay retiraram do edifício quem não fosse hóspede.

Terceiro: numa outra tarde, quem chegou no hotel para falar com meu pai 
foram o célebre músico e pianista Jimmy Salcedo e uma das dançarinas do grupo Las Supernotas. Aquela bela mulher lhe disse que queria correr no autódromo e pediu que ele a patrocinasse. O assuntou morreu ali, porque pouco depois meu pai se retirou das competições.

Quarto: a Copa Renault foi transferida para Cali num fim de semana, e meu 
pai e toda sua equipe ficaram hospedados no hotel Intercontinental, onde por acaso estava o cantor espanhol Julio Iglesias, que naquela noite de Sábado ia se apresentar no Los Años Locos. Meu pai comprou mais de cem ingressos e convidou todos os seus rivais.

Em sua rápida passagem pelo automobilismo, meu pai conheceu várias 
pessoas que mais adiante teriam papéis determinantes em sua vida, em seus negócios e em suas guerras.

Gonzalo Rodríguez Gacha, o “Mexicano”, o solitário homem que vendia 
cavalos, seria, meses depois, o principal sócio de meu pai no tráfico de cocaína, e juntos viriam a desafiar o poder do Estado.

Ricardo “Cuchilla” Londoño, um experiente automobilista que naquele ano 
correu no autódromo a bordo de um Dodge Alpine – e que, além do mais, foi o primeiro colombiano a competir na Fórmula 1 –, tempos depois seria o encarregado de satisfazer os caprichos de meu pai por meio de uma empresa de importações e exportações que montou em Miami.

Héctor Roldán – patrocinador da equipe Roldanautos e cujo piloto principal, 
Álvaro Mejía, ganhou em 1979 a Copa Renault para novatos – e meu pai ficaram muito amigos na competição. Ele era proprietário de uma concessionária de veículos em Cali e, conforme algumas pessoas próximas a meu pai me contaram, era também um poderoso traficante de drogas no oeste do país.

Quando minha mãe não ia a Bogotá para ver meu pai correr, Roldán levava 
belas mulheres para ele no hotel Hilton. Fez o mesmo depois na fazenda Nápoles, onde era um convidado frequente.

Anos mais tarde, meu pai resolveu chamar Roldán para ser padrinho de minha irmã Manuela, que estava para nascer, mas minha mãe se opôs, furiosa, porque sabia que ambos ficavam andando para cima e para baixo com mulheres.

– Se você chamar esse Roldán eu não deixo a menina ser batizada, e quando 
ela crescer decide quem quer que seja o padrinho dela.

Meu pai cedeu, e acabou convidando Juan Yepes Flóres para ser padrinho de 
Manuela; Juan era um militar da reserva, jovem, de boa aparência, culto, amável com todo mundo e sempre sorridente. Com ele meu pai correu a Copa Renault, e deram-lhe o apelido de John Lada, porque foi um dos primeiros importadores das caminhonetes russas Lada, lançadas no mercado colombiano em 1977.


A Copa Renault de 1979 tomou toda a atenção de meu pai. Chegou a ficar em boas posições ao longo da competição, mas nunca ocupou a liderança. Minha mãe foi com ele a algumas corridas.


Durante um ano, meu pai e seu primo Gustavo participaram de diversas corridas válidas pela Copa Renault, e nós íamos junto com alguma frequência.

Para competir na Copa Renault, meu pai comprou dez automóveis Renault-4, um caminhão-oficina cheio de peças de reposição e alugou um andar inteiro do hotel Hilton.

Meu pai e seu primo Gustavo Gaviria compraram estes Porsches caríssimos e se apresentaram neles várias vezes na Copa Renault de 1979.





Manancial: Pablo Escobar, meu pai

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