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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

AMANDO PABLO, ODIANDO ESCOBAR – CAP. 5: A carícia de um revólver


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Amando Pablo, odiando Escobar, de Virginia Vallejo, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah




CAPÍTULO 5


SEGUNDA PARTE


OS DIAS DE ESPLENDOR E DE ESPANTO



A CARÍCIA DE UM REVÓLVER



Palavras por Virginia Vallejo



Ai, meu Deus, se pudesses
não apenas alojar-te numa árvore dourada
mas também nos terrores do meu coração!

Poeta ancião citando Robert Frost em A noite do iguana



PABLO ESCOBAR PERTENCE ao pequeno grupo de meninos privilegiados que 
desde sua mais tenra infância sabia exatamente o que queria ser quando crescesse. E também o que não queria ser: Pablito nunca sonhou em ser piloto, bombeiro, médico ou policial.

— Eu só queria ser rico, mais rico que os Echavarría de Medellín e mais 
rico do que qualquer um dos ricos da Colômbia, a qualquer preço e utilizando todos os recursos e cada uma das ferramentas que a vida pusesse à minha disposição. Jurei a mim mesmo que, se aos trinta anos não tivesse 1 milhão de dólares, me mataria. Com um tiro na cabeça — me confessa um dia enquanto entramos no Learjet, estacionado em seu hangar particular do aeroporto de Medellín junto com o resto de sua frota. — Daqui a pouco vou comprar um Jumbo para transformá-lo num escritório voador, com vários quartos, banheiros com chuveiro, sala, bar, cozinha e sala de jantar. Uma espécie de iate voador. Assim eu e você poderemos viajar pelo mundo sem que ninguém saiba e possa nos incomodar.

Já no avião, pergunto a ele como vamos fazer para nos movimentarmos 
incógnitos num palácio aéreo. Responde que na volta eu vou saber porque, de agora em diante, cada vez que nos encontrarmos, terá um nova surpresa que eu nunca conseguirei esquecer. Diz que tem observado algo muito curioso: à medida que ele vai contando para mim os seus segredos, os meus também parecem desfilar pelo meu rosto e, acima de tudo, pelos meus olhos; e acrescenta que, quando explodo de contentamento ao descobrir algo, minha alegria e meu entusiasmo fazem com que ele se sinta como se tivesse acabado de ganhar uma competição automobilística e eu fosse o champanhe.

— Já te disseram que você é a coisa mais borbulhante do mundo, Virginia?


— Sempre! — exclamo feliz, porque sei que, no que diz respeito à falta de modéstia, ambos encontramos a forma perfeita para nossos sapatos. — E de agora em diante vou ter que fechar os olhos quando quiser proteger os meus segredos mais íntimos. Só vai conseguir descobri-los muito lentamente… com um abridor de garrafa especial para Perrier-Jouët Rosé!

Ele responde que isso não vai ser necessário porque, para a próxima 
surpresa, se propõe a vendar meus olhos e é possível inclusive que tenha que me algemar. Com um largo sorriso, comento que nunca ninguém me vendou ou me algemou e pergunto se ele é, por acaso, um sádico como os que aparecem nos filmes.

— Sou um sádico e depravado mil vezes pior que os dos filmes de terror, 
ou não te contaram isso, meu amor? — ele sussurra no meu ouvido. Em seguida segura meu rosto com as duas mãos e o olha, como se fosse um poço profundo no qual buscasse saciar seus desejos mais íntimos. Eu o acaricio e digo que somos o casal perfeito, porque sou masoquista. Ele me beija e diz que sempre soube.

Chegado o dia da surpresa, Pablo me busca no hotel por volta das dez 
horas da noite. Como sempre, um veículo com quatro de seus homens nos segue a uma distância razoável.

— Não posso acreditar que uma mulher como você não saiba dirigir, 
Virginia — diz, arrancando em grande velocidade. — Hoje em dia essa é uma incapacidade reservada aos deficientes mentais!

Respondo que qualquer motorista analfabeto pode dirigir um ônibus com 
cinco marchas e que eu, que sou quase cega, não preciso do meu QI de 146 para dirigir um carrinho, mas para colocar 10 mil anos de civilização na cabeça e memorizar noticiários de meia hora em cinco minutos porque não enxergo o TelePrompter. Ele me pergunta em quanto estimo seu QI, e respondo que deve ser cerca de 126, possivelmente.

— Não, senhora: o meu mínimo confirmado é de 156. Não seja tão 
atrevida!

Digo que esse número ele vai ter que me demonstrar e peço para que 
baixe a velocidade mental, porque a 180 quilômetros por hora vamos ser dois prodígios mortos prematuramente.

— Já sabemos que nenhum de nós dois tem medo da morte, ou não, 
sabidinha? Agora você vai ver o que te espera por ser tão autossuficiente. Hoje estou de mau humor e cansado desses guarda-costas que nos perseguem em todos os lugares. Não desgrudam da gente nem um minuto e estão me enchendo a paciência. Acho que só tem uma forma de escapar deles: está vendo o outro lado da estrada, ali embaixo, à minha esquerda? Está com o cinto de segurança apertado, não é? Então se segura, porque em trinta segundos vamos estar ali na direção contrária. Se não der certo, nos vemos em outra vida, Einstein! Um… dois… trêêêsss!

O carro dispara e roda pelo barranco coberto de grama. Depois de dar uma 
capotada completa seguida de um “salto triplo”, para poucos metros abaixo. Bato forte com a cabeça duas vezes, mas não digo uma palavra. Pablo se recupera em instantes, dá ré cantando pneu e continua a corrida pela pista contrária da estrada, dirijindo como um desesperado em direção a seu apartamento. Em questão de minutos chegamos, entramos na garagem como loucos, a porta se fecha atrás de nós com um clique e o carro freia a seco a poucos milímetros da parede.

— Puufff! — suspira. — Agora sim perdemos os capangas de vista, mas 
acho que amanhã vou ter que despedir esses rapazes. Imagina o que teria acontecido se alguém como eu tentasse me sequestrar?

Sorrio para mim mesma e fico em silêncio. Estou dolorida e não vou dar o 
gostinho de dizer o que ele quer ouvir, que alguém com o seu sangue-frio está para nascer. Subimos para a cobertura, que está deserta, e observo uma câmera em frente à entrada do quarto. Sento numa cadeira de baixo espaldar, e ele para na minha frente com os braços cruzados. Em tom ameaçador e com uma expressão gélida no olhar, me diz:

— Pois você já vai ver quem tem o QI mais alto aqui. E quem tem mais 
colhões, né? E se você reclamar ou fizer um movimento em falso enquanto preparo a surpresa, vou rasgar esse vestido em dois, gravar o que vai acontecer e vender para todos os meios de comunicação. Entendido, Marilyn? E como eu cumpro com o prometido, vamos começar por… vendar seus olhos. Acho que vamos precisar também de esparadrapo… — comenta enquanto cantarola “Feelin’ Groovy” de Simon & Garfunkel e coloca uma venda negra em meus olhos, que amarra firme com nó duplo. — E as algemas… onde será que deixei?

— Isso não, Pablo! Tínhamos concordado que você só me vendaria. Acabo 
de quase quebrar o pescoço, e não tem sentido algemar um peso pluma grogue. E quanto ao fato de me amordaçar, deveria esperar pelo menos que eu reestabeleça a circulação entre a cabeça e o corpo!

— Concedido. Eu só vou te algemar se você pular, porque eu nunca 
subestimo uma pantera com aspirações de gênio.

— E eu não poderia pular, porque nunca subestimo um criminoso com 
aspirações de esquizofrênico.

Depois de uma pausa que parece durar uma eternidade, diz de repente:


— Vamos ver se é verdade o fato de que os cegos têm ouvido muito 
bom…

Escuto o ruído de seus sapatos sobre o tapete e, logo em seguida, a 
combinação de um cofre que se abre na quarta volta. Depois, o som inconfundível de seis balas entrando no tambor de um revólver, uma após a outra, e o clique da arma ao engatilhar. Tudo fica silencioso. Segundos depois ele está atrás de mim, falando no meu ouvido com uma voz sibilante enquanto me puxa pelo cabelo com a mão esquerda e desliza o cano do revólver em volta do meu pescoço várias vezes:

— Você sabe que as pessoas da minha corporação nos chamam de “os 
Mágicos” porque fazemos milagres. Como sou o rei desses mágicos, só eu conheço a fórmula secreta para soldar de novo esse corpo que me deixa louco com essa cabecinha que eu adoro. Abracadabra… Vamos imaginar que estamos colocando um colar de diamantes… nesse pescoço de cisne… tão fino… tão frágil que eu poderia quebrá-lo apenas com as mãos… Abracadabra… uma vez… duas… três… O que você sente?

Respondo que os diamantes estão gelados, e machucam, e são muito 
pequenos para o meu gosto. E que essa não era a promessa que ele tinha feito e, como é improvisada, não vale.

— Entre nós dois vale tudo, meu bem. Você nunca sentiu um revólver na 
sua pele… essa pele de seda… tão dourada… tão perfeitamente cuidada… sem um arranhão… sem uma cicatriz, não é verdade?

— Cuidado com a venda, porque se ela cai acaba com a surpresa do 
século, Pablo! Acho que você deveria saber que pratico tiro com a polícia de Bogotá, com uma Smith & Wesson, e que, segundo meu treinador, tenho uma pontaria melhor que muitos oficiais com visão 20 por 20.

Comenta que sou uma caixinha de surpresas, e que uma coisa é um 
revólver na nossa mão e outra é quando ele está apontado para nossa cabeça na mão de um assassino. Acrescenta que ele também já passou por isso, e pergunta se não é uma experiência absolutamente aterrorizante.

— Claro que não: é absolutamente deliciosa! Oooohhh… que coisa mais 
maravilhosa… mais divina… — digo, jogando a cabeça para trás e suspirando de prazer enquanto ele desabotoa meu vestido e a arma começa a descer da minha garganta em direção ao coração. — E, de qualquer forma, você é apenas um sádico… não um assassino.

— Isso é o que você pensa, meu amor. Sou um serial killer… Agora me 
diga por que você gosta tanto. Me surpreenda um pouco… anda!

Lentamente vou dizendo a ele que uma arma de fogo é sempre… uma 
tentação… uma doce maçã para Eva… um amigo íntimo que nos dá a opção de acabar com tudo… e voar para o céu quando já não há como escapar… ou ao inferno, no caso dos… assassinos confessos.

— O que mais? Continua falando até que eu mande parar… — diz com 
voz rouca, tirando a parte superior do meu vestido para beijar minha nuca e meus ombros. Obedeço e continuo:

— É silencioso… como o cúmplice perfeito. É mais perigoso que… todos 
os seus piores inimigos juntos… Quando dispara, soa… me deixe pensar… como… como… as grades da prisão de San Quentin! Sim, sim, as grades de uma prisão gringa têm o som de balas, de manhã, de tarde e de noite. Isso sim deve ser absolutamente aterrorizante, não é, meu amor?

— Então temos essas características, criatura perversa… Agora me diz 
como ele é… fisicamente… Se você parar, te amordaço a boca e o nariz com esparadrapo, você vai ficar sem respirar e eu não respondo pelo que este simples sádico pode fazer depois! — ordena ao mesmo tempo que começa a me acariciar com a mão esquerda e o revólver vai descendo lentamente em linha reta pelo meu peito, e depois pelo meu diafragma, para passar pela minha cintura em direção ao meu abdômen.

— Parece grande… e acho que é muito masculino… É muito rígido… e 
muito duro… e tem um canal no meio… mas está frio, porque é metálico…. e não é feito do mesmo material que você, não é?… E agora que você já ouviu o que queria, te juro, Pablo, que se abaixar mais um milímetro de onde a arma está, me levanto dessa cadeira, volto andando para Bogotá e você nunca mais vai me ver.

— Está bem, está bem, está bem! — diz com uma risadinha culpada cheia 
de resignação. — As maldades que passam pela cabeça de alguém quando tem em mãos um símbolo sexual completamente indefeso… Bom, desmancha-prazeres, vamos continuar… mas te aviso que deve esperar que eu termine meu trabalho com o esparadrapo, porque sou quase tão perfeccionista quanto você.

— E você deve entender que, para alguém como eu, todas essas 
brincadeiras são, realmente, algo muito elementar. Levo dias esperando a minha surpresa, e ai de você se ela não estiver à altura das minhas expectativas!

Em tom enérgico me diz que ali ele é o único que decide o que é ou não 
elementar.

— Já sei o que vai me mostrar: sua coleção de armas, porque quer me dar 
uma! Como as Bondgirls, claro! Posso tirar a venda e escolher a mais mortífera e mais bonita?

— Você só vai tirar a venda quando eu mandar! Ou ainda não se deu conta 
de que o único que manda aqui é o assassino dono do revólver, o sádico dono da câmera, o macho dono da força bruta e o rico dono do território, e não uma pobre mulherzinha de 55 quilos com um QI evidentemente inferior? Você só tem que esperar alguns minutos. Vou cobrir a origem de… esses últimos quatro… e estamos prontos! É para o seu próprio bem: imagina se no futuro alguém te tortura terrivelmente… durante dias e dias… para conseguir alguma informação sobre o que você vai ver daqui a pouco. Ou vai que você se revele uma Mata Hari e, algum dia… me atraiçoe?

— São diamantes roubados, meu amor! Milhares e milhares de quilates, é 
isso!

— Não seja tão otimista! Isso eu nunca te mostraria, porque você roubaria 
os maiores, comeria, e eu teria que te cortar com essas tesouras para tirar da barriga!

Diante da perspectiva de engasgar com diamantes, não consigo parar de 
rir. Mas logo me ocorre outra explicação:

— Já sei. Mas como isso não passou pela minha cabeça antes? Vai me 
mostrar os quilos de coca made in Colombia já empacotados para exportação aos Estados Unidos! Vocês fecham com esparadrapo? Finalmente hoje vou saber como são! É verdade que cada um se parece com um pacote de novecentos gramas de manteiga e vão com a marca “A Rainha”?

— Mas que falta de imaginação! É realmente decepcionante… Qualquer 
um dos meus sócios, meus homens, meus pilotos, meus clientes podem ver isso, até a DEA. Já disse que o que vou te mostrar você nunca viu, nem nunca verá; ninguém no mundo, tirando você. Bom… já estamos prontos! Agora sim posso me sentar aos pés da minha rainha para ver a reação nessa carinha. Prometo que você nunca vai esquecer esta noite. Um… dois… três: ordeno que você tire a venda!

Há azuis, verdes, vinho, marrons e negros. E, antes que eu possa dar um 
salto para tentar examiná-los de perto, uma algema de aço se fecha com um “clic” em volta do meu tornozelo direito, e fico presa ao pé de um móvel. Não caio de bruços no chão com cadeira e tudo porque ele me segura no ar. Pablo me espreme em seus braços e me beija várias vezes, rindo sem parar enquanto exclama:

— Eu já sabia que você é um perigo, pantera trapaceira! Você vai me 
pagar! Se quer vê-los, vai ter que dizer primeiro que me ama como nunca amou ninguém! Ha, ha, ha! Ha, ha, ha! Diga que me adora. Anda, diga já! Se não, não te deixo olhá-los nem de perto, nem de longe!

— Eu não vou dizer o que você quer escutar, mas o que eu quero, 
entendeu? E é… que você é… você é… você é um gênio, Pablo!… O maior prodígio do submundo! — E com a voz quase sumindo, como se alguém estivesse nos escutando, disparo um turbilhão de perguntas seguidas de pedidos que sei que ele adora: — São todos seus? Quantos são? Quanto custam? Como você conseguiu? Deixa eu ver as fotos e seus nomes! Me dá já a chave dessas algemas, Pablo, elas estão machucando o meu tornozelo. Deixa que esta pobre ceguinha possa olhá-los de perto, não seja tão sádico, eu imploro! Quero tirar o esparadrapo dos nomes de todos os países para vê-los já!

— Não, não e não! Aposto que você, prodígio do alto mundo, nunca 
poderia acreditar que alguém do meu mundo pudesse ser tão, mas tão popular que catorze nações me concederam cidadania!

— Uau! Agora sim eu sei para que serve tanto dinheiro combinado com 
um QI criminoso privilegiado… Parece que toda a ONU disputa essa honra!… Mas não vejo em lugar nenhum o dos Estados Unidos, que na sua profissão deveria ser… a prioridade número um, não?

— Bom, meu amor… Roma não se fez em um dia! E 7% dos países do 
mundo não está mal… para começar… na minha tenra idade. Por ora você só pode ver as fotos. Minhas nacionalidades e nomes, você vai conhecendo à medida que eu for utilizando. Nem eu mesmo ainda sei todos direito.

— Você já se deu conta? Sou a única pessoa de sua total confiança que vai 
poder te ajudar com a pronúncia correta de cinco idiomas! Com apenas dezessete anos eu já era professora de fonética no Instituto Colombo-Americano. Não sou um tesouro de namorada? Como vamos chegar a um país estrangeiro sem que você possa dizer o seu nome, Pablo? Temos que começar a praticar a pronúncia a partir de agora, para que você não levante suspeitas mais adiante. Você tem que entender que é para o seu próprio bem, amor da minha vida.

— Não e não, e ponto. Por hoje apenas uma última etapa te espera, e 
depois vem a premiação com champanhe. Esse rosadinho que vem na mais bela de todas as garrafas, não é?

Sem tirar minhas algemas, ele me obriga a me sentar de novo na cadeira e 
se ajoelha na minha frente, atrás a dupla fileira de passaportes que está sobre o piso a alguns metros de distância. Cobriu com pedaços de esparadrapo os nomes dos países e, nas páginas internas, seus nomes e as datas de nascimento. Assim, como uma criança com brinquedos novos na manhã de 25 de Dezembro, começa a me mostrar cada uma das catorze fotografias enquanto eu, hipnotizada, vejo desfilar diante de meus olhos versões inimagináveis, inconcebíveis do rosto do homem que amo:

— Neste, estou com a cabeça raspada. Aqui com óculos e barbinha como 
um intelectual marxista. Neste outro, com um penteado afro. Que horror, né? Aqui de árabe; um príncipe saudita amigo meu foi quem conseguiu. Para este, eu pintei o cabelo de louro; e para este outro, de ruivo; tive que ir a um salão de beleza onde as mulheres me olhavam como se eu fosse uma bicha. Aqui sim estou usando peruca. Neste estou sem bigode e aqui com a barba cheia. Que tal este, careca, mas com um pouco de cabelo e óculos pequenos como o professor Girassol de Tintin? Genial, não é? Em quase todos estou horrível, mas nem minha mãe me reconheceria! De qual você gosta mais?

— De todos, Pablo, de todos! Você está engraçadíssimo. Nunca tinha 
visto uma coleção tão sensacional! É a pessoa mais ilegal que alguém pode conhecer na vida, o maior bandido que já pisou na face desta Terra! — festejo sem parar de rir, enquanto ele devolve seus passaportes onde estavam. — Como dá para ficar entediada com você ou não amar esse seu senso de humor?

Ele fecha o cofre, deixa o revólver no escritório e vem em minha direção. 
Acaricia meu rosto com grande ternura e, sem dizer uma palavra, tira minhas algemas. Beija o tornozelo — que agora tem uma marca vermelha e grossa — várias vezes. Logo me coloca na cama e massageia suavemente a parte da minha cabeça que bateu no teto do carro.

— Mesmo que você não acredite, o que eu mais gosto no mundo não são 
nem essa cabeça nem esse corpo tão… multidimensionais — me diz agora com a sua voz cotidiana — e tão machucados! — acrescenta, rindo. — Mas todo esse seu ouro abraçado a mim, assim, como estamos agora.

Surpresa, eu digo que se existe alguém nesse quarto que não tem um 
grama de ouro sou justamente eu. E ele murmura no meu ouvido que tenho o maior coração de ouro do mundo porque começo sendo o seu desafio e, apesar de todas as provas terríveis que me impõe, nunca reclamo e sempre termino sendo o seu prêmio.

— Como meu coração já está dentro do seu, sei tudo sobre você. E, agora 
que ambos ganhamos, podemos perder a cabeça juntos, não acha? Abracadabra, minha Maria Antonieta consentida…

Quando dorme, olho o revólver. Está carregado com seis balas. Vou até o terraço e vejo quatro carros com guarda-costas estacionados em cada esquina da rua. Sei que dariam a vida por ele; eu também, sem pensar duas vezes. Fico tranquila e durmo feliz. Quando acordo, ele já foi embora.





Manancial: Amando Pablo, odiando Escobar

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