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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

AMANDO PABLO, ODIANDO ESCOBAR – CAP. 6: Dois futuros presidentes e Vinte poemas de amor


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Amando Pablo, odiando Escobar, de Virginia Vallejo, sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah




CAPÍTULO 6


DOIS FUTUROS PRESIDENTES E VINTE POEMAS DE AMOR


Palavras por Virginia Vallejo




SEGUNDA META DE Pablo, depois de juntar uma fortuna colossal, é a de usar 
seu dinheiro para se transformar no líder político mais popular de todos os tempos. E como não será um ato da mais declarada esquizofrenia, de absoluto delírio de grandeza, do mais absurdo culto à personalidade, de uma extravagância sem precedentes, de um esbanjamento nunca sonhado, exorbitante e, acima de tudo, inútil, aspirar à meta de dar 10 mil casas àqueles que não têm teto e pretender acabar com a fome numa cidade de 1 milhão de habitantes? E, mais ainda, na Colômbia, talvez o país com os magnatas mais mesquinhos e cheios de grandeza de toda a América Latina?

Aqueles que concentram os maiores capitais vivem na eterna dúvida se são 
amados pelo seu dinheiro; por isso são quase tão inseguros e desconfiados em matéria de amor, como também são as mulheres famosas pela sua beleza, que a toda hora se perguntam se os homens precisam delas realmente como esposas ou namoradas, ou para exibi-las como posse ou troféu de caça. Mas, no caso de Pablo, ele está totalmente convencido de que não é por sua riqueza, mas por ele mesmo que é amado por seus seguidores, por seu exército, por suas mulheres, por seus amigos, por sua família e, obviamente, por mim. Embora tenha razão, me pergunto se sua sensibilidade extrema, associada com o que parece ser uma personalidade patologicamente obsessiva, vai estar preparada para as armadilhas da fama que se aproxima e, principalmente, para a quantidade de oposição que esta vai lhe acarretar num país onde as pessoas, segundo o provérbio, “não morrem de câncer, mas de inveja”.

Vejo Pablo pela segunda vez em público por ocasião da inauguração de uma das quadras de basquete. Como seu movimento político “Civismo em Marcha” enaltece o entretenimento saudável e ele é apaixonado por esporte, Pablo se propôs a construir quadras em todos os bairros populares de Medellín e de Envigado, o município adjacente onde ele foi criado, e oferecer iluminação para as quadras de futebol de toda a cidade. Quando nos conhecemos, já havia doado para dezenas de quadras. Nessa noite me apresenta à sua família — pessoas de classe média sem um traço de maldade nos rostos muito sérios — e à sua mulher de 23 anos, Victoria Henao, mãe de Juan Pablo, seu filhinho de seis anos. “A Tata”, como todos a chamam, não é bonita, mas seu rosto tem uma expressão digna. Apenas seus brincos — dois solitários de diamante num tamanho nunca visto — podiam entregá-la como a mulher de um dos homens mais ricos do país. Tem o cabelo muito curto, é morena e pequena, e sua timidez evidente contrasta com a desenvoltura dele. Ao contrário de nós dois, que nos sentimos como peixinhos n’água nas multidões, ela não parece gostar muito do evento, e algo me diz que começa a inquietar-se com a crescente popularidade do marido. Ela me cumprimenta friamente e com a mesma desconfiança que observo nos olhos de quase toda a família de Pablo. Olha para ele com absoluta adoração, ele a contempla extasiado, e eu os observo com um sorriso, porque nunca senti ciúme de ninguém. Por sorte, não tenho por Pablo uma paixão excludente ou possessiva; o amo com alma e coração, com o corpo e a cabeça, e com loucura, mas não de uma maneira irracional porque, mais do que dele, gosto muito de mim mesma. E minha perspicácia se pergunta se, depois de oito anos de casamento, aqueles olhares de namorados encantados não obedecem, na verdade, à necessidade de esclarecer em público qualquer dúvida sobre sua relação.

Enquanto estudo sua família com a perspectiva tripla que a intimidade de 
amante, a objetividade de jornalista e a distância de espectadora me dão, parece que começo a ver uma espécie de enorme sombra que paira sobre a idílica cena familiar e a multidão que se aproxima de Pablo para agradecer os milhares de compras de mercado que ele distribui semanalmente para os pobres. Uma tristeza inexplicável e impregnada de dúvidas, dessas que antecedem as premonições, me envolve rápido, e me pergunto se aquelas cenas triunfalistas com bolas coloridas e música estridente nos alto-falantes podem ser só ilusões, truques pirotécnicos, castelos de cartas. Quando a sombra se afasta, vejo claramente o que ninguém mais parece ter notado: que sobre essa enorme família de Pablo, enfeitada com roupas novas e jóias, produto de uma formidável riqueza recém-nascida, pairam os temores por algo que vem crescendo há muito tempo e que a qualquer momento poderá explodir como um vulcão de proporções bíblicas.

As inquietantes sensações me atravessam e se vão enquanto ele aproveita 
o calor da multidão, a admiração e os aplausos. Para mim esses são o pão de cada dia, privilégios da minha profissão como apresentadora de televisão e de incontáveis eventos, acostumada desde os 22 anos aos gritos de “Bravo!” de um teatro ou das vaias de um estádio; mas para Pablo são o oxigênio, a única razão da sua existência, os primeiros degraus do caminho até a fama. É evidente que seu caloroso discurso político toca profundamente os corações populares. Ao escutá-lo, as frases de Shakespeare vêm à minha mente com as palavras de Antônio no enterro de Júlio César: “Aos homens sobrevive o mal que fazem, mas o bem quase sempre com seus ossos fica enterrado.” Pergunto a mim mesma qual será o destino dessa mistura de mecenas e bandido, tão jovem e ingênuo, por quem eu também me apaixonei. Saberá jogar bem suas cartas? Aprenderá algum dia a falar em público com um sotaque menos carregado e num tom mais educado? Poderá o meu diamante bruto polir aquele discurso mais simples para transmitir uma mensagem potente que transcenda a província? Conseguirá encontrar uma forma de paixão mais controlada para obter o que propõe, e uma ainda mais inteligente para poder manter o proposto? Passados vários minutos, a felicidade que inunda todas aquelas famílias de recursos escassos me contagia com suas ilusões e esperanças. Dou graças a Deus pela existência do único benfeitor laico em grande escala que a Colômbia pôde ver desde que tenho memória e, cheia de entusiasmo, me uno às comemorações populares.

O programa sobre o lixão causa uma comoção nacional. Todos os meus colegas querem entrevistar Pablo Escobar para averiguar de onde sai o dinheiro de um representante da Câmara interino de 33 anos que parece contar com recursos inesgotáveis, somados a uma generosidade nunca vista e com uma inquietante liderança política, produto da insólita mistura de dinheiro e bom coração. Muitos querem saber também qual é a natureza de sua relação com uma estrela de TV da sociedade que sempre protegeu cuidadosamente sua vida privada. Nego terminantemente qualquer romance com um homem casado e aconselho Pablo a não conceder entrevistas até depois do teste que me proponho a fazer com ele frente a uma câmera num estúdio de televisão. Ele aceita, mas relutante.

— Na próxima semana vou te convidar para o Primeiro Fórum contra a 
Extradição, aqui em Medellín — me conta. — E na seguinte, em Barranquilla, vai conhecer os homens mais importantes da minha corporação, que agora também são os mais ricos do país. Quase todos fazem parte do MAS e estão decididos a acabar com essa monstruosidade a qualquer preço. A sangue e fogo, se for necessário.

Faço com que perceba que uma linguagem tão belicosa pode criar muitos 
inimigos na etapa inicial de sua ascendente carreira política. E o aconselho a estudar A arte da guerra, de Sun Tzu, para aprender mais sobre tática e paciência. Ensino algumas máximas do sábio chinês, como “Nunca ataque quando estiver em ascensão”, e ele comenta que, quando se trata de estratégia, adapta as suas rapidamente às necessidades do momento e, como os livros o cansam terrivelmente, é para aprender todas essas coisas sem ter que estudá-las que conta comigo, que leio vorazmente desde pequena. Sabe que é a última coisa que uma mulher apaixonada e desejável quer escutar e, por isso, continua num tom festivo:

— Aposto que não consegue adivinhar qual é o apelido que coloquei em 
você para que me avisem pelo rádio quando chega ao aeroporto? Pois é, nada mais, nada menos que… “Belisario Betancur!”, como o presidente da República, para que você entre por cima no submundo! Não pode reclamar, minha V.V.!

E ri com essa brincadeira que me desarma, que apaga de uma vez por todas as minhas preocupações e me faz derreter em seus braços como se eu fosse um sorvete de caramelo com baunilha e pedacinhos de chocolate abandonado ao ar livre numa tarde de verão.

As pessoas que viajam comigo no avião formam um grupo cada vez mais 
heterogêneo. Um acabou de falar com Kim Il-sung, na Coreia do Norte. O outro veio da mais recente reunião dos Países Não Alinhados. Um terceiro conhece Petra Nelly, a fundadora do Partido Verde alemão, que Pablo quer tentar convidar para conhecer seu zoológico e suas obras sociais, e o que está mais adiante é amigo íntimo de Yasser Arafat. Já nos escritórios de Pablo e Gustavo, o azul substitui o vermelho, os óculos escuros estão em toda parte, e o tom de verde não é exatamente o dos ecologistas europeus: aquele grupo é formado pelo F2 da polícia, o paraguaio é próximo ao filho ou ao genro de Stroessner, os outros são generais mexicanos de três estrelas, os com maletas são vendedores de armas israelenses e os que estão no fundo vieram da Libéria. A vida de Pablo nesses primeiros meses de 1983 parece uma Assembleia Permanente das Nações Unidas. E eu vou aprendendo que o homem que amo, mais do que talento para se disfarçar e comprar nacionalidades, tem uma atitude camaleônica para adaptar seu ideário político ao do público consumidor: da mais extrema-esquerda para a assistência aos pobres, os partidos políticos, os meios de comunicação e a exportação; à mais arrepiante e repressiva direita para defender sua família, seu negócio, seus bens e seus interesses perante sócios multimilionários ou aliados de farda, e ambos os extremos para exibir — para a mulher-desafio por quem se apaixonou — seus dotes de titereiro da história, no controle perfeito dos fios multicoloridos do formidável estratagema que está armando. Ele a escolheu como observadora de seus processos evolutivos e possível cúmplice de sua existência para que possa observar como nele confluem todas as formas de poder masculino e, ao transformá-la em testemunha excepcional de sua capacidade de subjugar outros homens, está descobrindo também sua capacidade para seduzir outras mulheres.

O Primeiro Fórum contra a Extradição acontece em Medellín. Pablo me convida a sentar à mesa principal com o sacerdote Elías Lopera, que está à sua direita. É ali que escuto pela primeira vez seu discurso nacionalista entusiasta contra aquele ato jurídico. Com o tempo, a luta contra a extradição vai se transformar em sua obsessão, sua causa e seu destino, no calvário de toda uma nação — milhões de compatriotas e milhares de vítimas — e na cruz de sua vida e da minha. Na Colômbia, onde a justiça quase sempre demora vinte anos ou mais para chegar — quando chega, porque no caminho é vendida frequentemente ao melhor licitante —, o sistema é projetado para proteger o criminoso e desgastar a vítima, o que quer dizer que alguém com os recursos financeiros de Pablo está destinado a aproveitar pelo resto de seus dias a mais vil impunidade. Mas uma nuvem negra acaba de aparecer não apenas em seu horizonte, mas no de toda a sua corporação: a possibilidade de que o governo dos Estados Unidos venha a solicitar o pedido de extradição de qualquer acusado colombiano para ser julgado pelos delitos binacionais, num país que conta com um sistema judicial eficiente, prisões de alta segurança, sentenças de prisão perpétua e pena de morte.

Naquele Primeiro Fórum, Pablo se dirige a seus conterrâneos em uma 
linguagem muito mais belicosa do que a que eu conhecia. Não vacila a voz ao atacar ferozmente o promissor líder político Luis Carlos Galán, um candidato importante à presidência da República, por tê-lo removido das listas de seu movimento, Renovação Liberal, cuja principal bandeira era a luta contra a corrupção. O que Pablo não perdoará enquanto viver é que, depois de conhecer a verdadeira origem de sua fortuna em 1982, Galán tenha notificado sua expulsão, embora sem mencionar Escobar pelo nome, diante de milhares de pessoas reunidas no Parque Berrío, em Medellín.

Eu conheci Luis Carlos Galán doze anos antes, na casa de uma das 
mulheres mais simpáticas que levo na lembrança, a bela e elegante Lily Urdinola de Cali. Eu tinha 21 anos e havia acabado de me divorciar de Fernando Borrero Caicedo, um arquiteto muito parecido com Omar Sharif e 25 anos mais velho do que eu. Lily tinha se separado do dono de um engenho de açúcar no Vale do Cauca e agora tinha três pretendentes. Uma noite chamou a todos para jantarem juntos e pediu a mim e a seu irmão Antonio que a ajudássemos a escolher entre um milionário suíço dono de uma rede de padarias, um judeu rico com uma cadeia de lojas de roupa e um jovem tímido de nariz aquilino e olhos claros enormes cujo único capital parecia ser um futuro político brilhante. Mesmo que naquela noite nenhum de nós tenha votado em Luis Carlos Galán, poucos meses depois, aos 26 anos, o jovem silencioso com olhar cristalino se transformaria no ministro mais jovem da história. Nunca contei a Pablo sobre essa “derrota”; mas me arrependeria para o resto da vida por não ter dado meu voto para Luis Carlos naquela noite porque, se Lily tivesse se deixado cortejar por ele, entre nós duas certamente teríamos resolvido esse bendito problema com Pablo, e milhares de mortes e milhões de horrores teriam sido evitados.

A fotografia de nós dois no Primeiro Fórum contra a Extradição se torna a primeira de centenas que vão documentar aqueles meses iniciais da parte mais conhecida da nossa relação. Alguns meses depois, a revista Semana vai utilizá-la para ilustrar seu artigo sobre “O Robin Hood paisa”, e, a partir daquele generoso epíteto, Pablo começará a construir sua lenda, primeiro na Colômbia e depois no resto do mundo. Durante todos os nossos próximos encontros, depois de me cumprimentar com um beijo e um abraço seguido de duas voltas no ar, ele sempre me perguntará:

— O que dizem em Bogotá de Reagan e de mim?


E eu contarei em detalhes o que todos acham dele, porque o que dizem 
do presidente Reagan só interessa a Nancy, astróloga de sua esposa, e aos congressistas republicanos de Washington e Delaware.

Para o Segundo Fórum contra a Extradição, viajamos para Barranquilla e 
nos hospedamos na suíte presidencial de um enorme hotel recéminaugurado; não no El Prado, que sempre foi um dos meus favoritos. Pablo só gosta quando tudo é moderno, e eu só gosto quando tudo é elegante, e sempre discutiremos pelo que ele considera “de estilo antiquado” e o que eu qualifico “de estilo mágico”. O evento tem como cenário a esplêndida casa de Iván Lafaurie, belamente decorada por minha amiga Silvia Gómez, que também cuidou da decoração de todos os meus apartamentos desde que tenho 21 anos.

Nessa ocasião, nenhum meio de comunicação foi convidado. Pablo me 
explica que o mais pobre dos participantes tem 10 milhões de dólares, enquanto as fortunas de seus sócios — os três irmãos Ochoa e Gonzalo Rodríguez Gacha, “o Mexicano” — somam com a dele e a de Gustavo Gaviria vários bilhões de dólares e superam com folga as dos tradicionais magnatas da Colômbia. Ele me informa que quase todos os empregados são membros do MAS, e eu leio na expressão de muitos rostos o transtorno pela presença de uma conhecida jornalista televisiva no fórum.

— Hoje você será testemunha de uma declaração de guerra histórica. 
Onde você prefere se sentar? Na primeira fila embaixo, olhando para mim e os chefes do meu movimento que você já conheceu em Medellín? Ou na mesa principal, observando os quatrocentos homens que vão banhar este país em sangue se o Tratado de Extradição for aprovado?

Como já estou me acostumando com sua terminologia napoleônica, escolho ficar na extrema direita da mesa principal, não para conhecer essas quatro centenas de novos multimilionários que num futuro poderiam substituir no poder — e, inclusive, guilhotinar — minhas amizades e ex-namorados da oligarquia tradicional (o que me produz emoções conflitantes, que vão desde o mais profundo temor até o mais delicioso deleite), mas para tentar ler nesse mar de rostos duros e desconfiados o que realmente pensam do homem que amo. Sem que eu saiba, nessa noite estrelada e naquela mansão próxima ao mar do Caribe, rodeada de jardins, estou assistindo como uma testemunha excepcional, única mulher e possível futura cronista da história, ao batismo de fogo do narco-paramilitarismo colombiano.

Quando terminam os discursos e o fórum se encerra, desço do palco e me 
dirijo para a piscina. Pablo ficou conversando com os anfitriões e com seus sócios, que o parabenizam efusivamente. Uma nuvem de curiosos me rodeia, e vários empregados me perguntam o que estou fazendo ali. Um homem com aspecto de fazendeiro e tradicional criador de gado da costa — com um sobrenome como Lecompte, Lemaitre ou Pavejeau —, encorajado pelo rum ou pelo uísque, diz em voz alta para que todos possam escutá-lo:

— Eu estou é muito velho para que um menino como este venha me dizer 
em quem devo votar! Eu sou um godo [membro do Partido Conservador], retrógrado e atrasado, daqueles das antigas e da vida inteira, e eu voto em Álvaro Gómez e ponto! Este sim é um cara sério, não é como esse malandro Santofimio! De onde saiu esse parvenue Escobar para vir me dar ordens? Por acaso pensa que tem mais dinheiro e vacas que eu, ou o quê?

— Agora que sei que com o dinheiro da coca um cara pode conseguir sair 
com uma estrela da televisão, vou deixar Magola, minha mulher, para me casar com a atriz Amparito Grisales! — outro se gaba às minhas costas.

— Será que essa pobre moça sabe que o cara foi gatillero e tem na conta 
mais de duzentos mortos? — debocha em voz baixa um terceiro para um grupo que celebra suas palavras com risadinhas nervosas antes de sair rapidamente.

— Dona Virginia — chama minha atenção um homem mais velho que parece escutar com desgosto os anteriores —, meu filho foi sequestrado pelas Farc há mais de três anos. Que Deus abençoe Escobar e Lehder e a todos esses senhores tão corajosos e decididos! É de gente como eles que este país estava precisando, porque nosso Exército é muito pobre para lutar sozinho contra essa guerrilha enriquecida pelo sequestro. Agora que estamos nos unindo, sei que posso sonhar em voltar a ver meu filho antes de morrer. E que ele vai poder abraçar sua esposa e conhecer, finalmente, meu neto!

Pablo me apresenta a Gonzalo Rodríguez Gacha, El Mexicano, que está 
acompanhado de alguns esmeralderos de Boyacá. Recebe cumprimentos calorosos de quase todos os assistentes, e ficamos conversando um pouco com seus amigos e sócios. Quando voltamos para o hotel, não digo nada sobre o que escutei e só comento com ele que alguns dos participantes — como pessoas de direita que evidentemente são — parecem sentir uma profunda desconfiança por alguém tão liberal como Santofimio, seu candidato.

— Espera até que sequestrem um filho de cada um, e que o primeiro da 
corporação seja extraditado, e vai ver como correm para votar em quem nós indicarmos!

Depois de ter sido expulso do movimento de Luis Carlos Galán, Escobar 
se uniu ao senador Alberto Santofimio, chefe liberal do Departamento de Tolima. Santofimio é muito próximo do ex-presidente Alfonso López Michelsen, de cuja sogra é primo. Gloria Valencia de Castaño, “a primeira-dama da televisão colombiana”, é a filha não reconhecida de um tio de Santofimio, e sua filha única, Pilar Castaño, é casada com Felipe López Caballero, o editor da revista Semana.

Nas eleições presidencial e senatorial colombianas, o fluxo de votos 
santofimistas constitui arte substancial do total obtido pelo candidato doPartido Liberal, que supera o Conservador em número de eleitores e presidentes eleitos. Santofimio é carismático e tem fama de ser, além de um excelente orador em praça pública, o político mais hábil, ambicioso e sagaz do país. Tem cerca de quarenta anos e se alinha como um candidato importante à presidência da República. É um homem de baixa estatura e tem aparência robusta, de rosto satisfeito e quase sempre sorridente. Nunca fomos amigos, mas sinto uma simpatia por ele e sempre o chamei de Alberto. (Em 1983, socialmente todo mundo me chama de Virginia, e eu me dirijo às personalidades pelo primeiro nome; só chamo de “doutor” àqueles de quem prefiro conservar certa distância e “senhor presidente” aos chefes de Estado. Em 2006, depois de vinte anos de ostracismo, as pessoas me chamarão de “senhora”, e eu chamarei todo mundo de “doutora” ou de “doutor”, e os ex-presidentes, ao me verem ao longe, tentarão desaparecer.)

Poucos meses antes de nos conhecermos, Escobar e Santofimio assistiram com outros congressistas colombianos à posse do presidente do governo espanhol, o socialista Felipe González, cujo homem de confiança, Enrique Sarasola, é casado com uma colombiana. Eu tinha entrevistado González na televisão em 1981 e conheci Sarasola em Madri, durante minha primeira viagem de lua de mel. Com uma expressão terrivelmente séria, Pablo me descreveu a cena em que os outros parlamentares da comitiva pediam cocaína de presente numa discoteca madrilenha e ele reagia se sentindo insultado. E eu confirmei o que já sabia: que o Rei da Coca parece detestar, tanto quanto eu, o produto de exportação com o qual está construindo um império livre de impostos. A única pessoa a quem Pablo deu de presente pedras de cocaína sem que sequer tenha pedido foi o ex-namorado de sua namorada, e não o fez exatamente por razões filantrópicas ou humanitárias.

Como em 1983 os senadores liberais Galán e Santofimio são as duas 
opções mais seguras de mudança geracional para o período presidencial de 1986-1990, Pablo e Alberto se tornaram aliados amargos contra a candidatura presidencial de Luis Carlos Galán. Escobar me confessou que, para as eleições parlamentares de mitaca em 1984, está investindo milhões na campanha política de Santofimio. Tento convencê-lo de que já está na hora de chamar o favorecido de suas doações pelo primeiro nome, como faz Julio Mario Santo Domingo com Alfonso López, mas Pablo sempre chamará seu candidato de “doutor”. Nos anos seguintes, “o Santo” será o eterno elo entre Escobar e toda a sua corporação com a classe política, a burocracia, o Partido Liberal e, acima de tudo, com a Casa López, incluindo os setores das Forças Armadas, porque outro primo de Santofimio, casado com a filha de Gilberto Rodríguez Orejuela, é filho de um conhecido general do Exército.



mitaca
Espécie de colheita intermediária, o que quer dizer que Pablo vai tentar derrubar o adversário nas eleições parlamentares em 1984, antes que Galán consiga chegar ao poder em 1986.



Hoje estou radiante de felicidade. Pablo vem para as sessões do Congresso em Bogotá e, finalmente, vai conhecer meu apartamento. E disse que traz outra surpresa! A pétala de cada rosa está perfeita e todo o resto também: minha bossa nova preferida no som, o champanhe rosé no freezer, meu perfume favorito, o vestido de Paris e os Vinte poemas de amor de Pablo Neruda sobre a mesa de centro. Clara, minha melhor amiga na época, veio de Cali, porque vende antiguidades e quer mostrar a Pablo um Cristo do século XVIII dado para o padre Elías Lopera. Por enquanto só ela, Margot, Martita e os sócios de Pablo sabem de nossa relação.

Toca a campainha, e desço como louca as escadinhas que separam o 
estúdio e os três quartos da parte social do meu apartamento que tem 220 metros quadrados. Ao chegar à sala, encontro não apenas o candidato e seu patrocinador, mas também meia dúzia de guarda-costas que me examinam da cabeça aos pés com olhar insolente, antes de descer do elevador para esperar seu chefe na garagem ou na entrada do edifício. O elevador volta a subir com outra dúzia de homens e volta a descer com a metade. A cena se repete três vezes, e três vezes Pablo percebe o desgosto em meu rosto. Tudo em minha expressão de censura o adverte de que esta será a primeira e última vez na vida que vou permitir que entre com escolta ou desconhecidos no lugar onde vamos nos encontrar ou onde estou esperando por ele.

Ao longo dos anos verei Pablo umas 220 vezes, quase oitenta delas 
rodeado por um exército de amigos, seguidores, empregados e guarda-costas. Mas a partir daquele dia ele vai chegar a nossos apartamentos e a minhas suítes completamente só, e ao chegar às casas de campo ordenará a seus homens que desapareçam antes que possam me ver. Nessa noite ele entendeu rapidamente que, para visitar a mulher que ama — e que também é uma diva —, um homem casado não pode agir como um general, mas deve se comportar como um simples apaixonado. E também que o primeiro reconhecimento que um amante deve ao outro é uma confiança quase cega. Pelo resto dos nossos dias juntos sempre vou agradecer a ele com gestos, nunca com palavras, sua aceitação tácita das condições impostas nessa noite com apenas aquelas três olhadas.

Clara e eu cumprimentamos Gustavo Gaviria, Jorge Ochoa e seus irmãos, Gonzalo, o Mexicano, Pelusa Ocampo, dono do restaurante onde às vezes jantamos, Guillo Ángel e seu irmão Juan Gonzalo, e Evaristo Porras, entre outros. Este último parece bastante assustado porque a mandíbula treme, mas Pablo me explica que o homem consumiu cocaína em quantidades industriais. Como Aníbal Turbay nunca bateu os dentes, concluo que Evaristo deve ter “mandado” pelo menos 250 gramas de cocaína para o organismo. Depois de repreendê-lo a sós, Pablo pede que ele lhe entregue uma fita de vídeo, se despede e o empurra suavemente para o elevador como se fosse uma criança advertida, ordenando que volte ao hotel e nos espere ali. Em seguida me diz que devemos ver a gravação juntos porque quer me pedir um favor em caráter de urgência. Deixo que Clara se encarregue dos convidados e subimos até o estúdio.

Cada vez que nos vemos, Pablo e eu passamos seis, oito ou mais horas 
juntos, e ele já tem me confiado alguns princípios gerais de seu negócio. Nessa noite me explica que Leticia, capital do Amazonas colombiano, se tornou uma cidade essencial para o trânsito da pasta de coca que sai do Peru e da Bolívia em direção à Colômbia, e que Porras é o homem de sua organização no sudeste do país. E me explica que, para justificar sua fortuna para o fisco, Evaristo comprou três vezes o tíquete vencedor da loteria do Gordo, e por isso ele tem a fama de ser o homem mais sortudo do mundo!

Ligamos a televisão, e a figura de um jovem que conversa com Porras 
sobre o que parece ser um negócio de questões agrícolas aparece na tela; as imagens noturnas estão borradas, e os diálogos também não são claros. Pablo me diz que se trata de Rodrigo Lara, braço direito de Luis Carlos Galán e, portanto, seu arqui-inimigo. Ele me explica que o que Evaristo está tirando de um pacote é um cheque de 1 milhão de pesos — cerca de 20 mil dólares na época —, fruto de um suborno, e confessa que a armação foi cuidadosamente planejada por ele, seu sócio e o cameraman. Quando terminamos de ver a fita, Pablo me pede para denunciar Lara Bonilla em meu programa de televisão Ao ataque!. E eu me nego. Redonda e terminantemente.

— Eu também teria que denunciar Alberto, que está aqui, por receber de você quantias de dinheiro muito maiores; e Jairo Ortega, seu principal aliado na Câmara, e sabe-se lá mais quantos! O que você acharia se amanhã me entregasse o dinheiro do Cristo que a Clara trouxe e alguém me gravasse recebendo para poder dizer que foi produto de um negócio com cocaína, só porque foi você que me deu? Ao longo da minha vida já fui vítima de mil calúnias e por isso nunca uso meu microfone para prejudicar ninguém. Como vou saber se Lara não está fazendo um negócio lícito com Porras, ainda mais quando me diz que isso foi uma armação planejada por vocês? Precisa entender que uma coisa é eu exibir no meu programa aquele lixão infernal e suas impressionantes obras sociais, e outra é me transformar em cúmplice de armações para atacar seus inimigos, sejam inocentes ou culpados. Eu quero ser seu anjo da guarda, amor. Peça para outra pessoa fazer esse favor para você, alguém que queira ser sua bruxa.

Pablo me observa assombrado e baixa o olhar em silêncio; como vejo que 
não quer me enfrentar, continuo: digo que eu o entendo como ninguém, porque também sou do grupo dos que nunca perdoam e nunca se esquecem, mas que se todos decidíssemos um dia acabar com aqueles que nos prejudicaram, o mundo ficaria sem habitantes em segundos. Tento convencê-lo de que com a sorte que tem nos negócios, na família, na política e no amor, deveria se considerar o homem mais afortunado da Terra, e peço que esqueça esse espinho que tem enterrado no coração e que vai acabar gangrenando sua alma.

Ele fica de pé com um salto. Me toma em seus braços e me balança 
longamente. Não há nada, nada no mundo que possa me fazer sentir mais feliz porque, desde o dia em que Pablo salvou minha vida, esses braços me transmitem toda a segurança e proteção que uma mulher pode ansiar. Ele me beija na testa, cheira o meu perfume, passa suas mãos nas minhas costas várias vezes e diz que não quer me perder porque precisa de mim a seu lado para um monte de coisas. Depois, me olhando nos olhos com um sorriso, diz:

— Você tem toda a razão. Desculpa! Vamos voltar à sala. — E é como se 
minha alma voltasse ao meu corpo. Penso que eu e ele estamos crescendo juntos, como dois pés de bambu.

Muitos anos depois, me perguntarei se por trás daqueles longos silêncios cabisbaixos de Pablo havia realmente essa sede de vingança da qual me falava sempre, ou apenas pressentimentos assustadores e inconfessáveis. Não seriam, por acaso, premonições que antecipavam o futuro que nos alcançava como uma locomotiva desgovernada, sem que pudéssemos fazer nada para evitá-lo, detê-lo ou desviar seu curso?

Quando descemos, todos estão felizes, e Clara e Santofimio recitam em 
dupla os versos mais famosos dos Vinte poemas de amor, de Neruda:

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e a minha voz não te toca

Em noites como esta eu a tive em meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito

Posso escrever os versos mais tristes essa noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Já não a amo, é verdade, mas quanto a amei.

É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.


(Tradução de trechos esparsos dos versos XV a XX por Eliane Zagury. Antologia poética, Pablo Neruda, Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.)



Pablo e eu interrompemos a dupla e pedimos que nos deixem escolher os nossos.

— Me dedica este — digo a ele, rindo: — “Para meu coração basta teu 
peito, para tua liberdade bastam minhas asas”. Suas 24 asas, as dos onze aviões e as duas do Jumbo!

— Então é isso que você quer, bandida, fugir de mim? Nem sonhe! E 
quem disse que eu só quero o seu peito? Eu te quero por completo, e o seu verso é este: “Como te sentem minha meus sonhos solitários!” — e o repete várias vezes. — E este outro: “Tens os olhos profundos onde a noite alea, frescos braços de flor e regaço de rosa”. Dedico esses dois, com autógrafo e tudo!

Depois de assinar com seu nome, diz que agora quer me dar um poema 
seu que seja exclusivamente para mim. Depois de pensar uns segundos, escreve:

Virginia:
Não penses que se não te chamo,
Não sinto muitas saudades.
Não penses que se não te vejo,
Não sinto tua ausência.

Pablo Escobar G.



Tantos NÃOS me soam estranhos, mas guardo o comentário para mim; 
enalteço sua rapidez mental e agradeço o presente com meu sorriso mais radiante. Santofimio também me dedica o livro: “Virginia: Para você, a voz discreta, a figura altiva, a (duas palavras ilegíveis) do nosso Pablo. AS”.

Por volta das oito horas da noite, os capi di tutti capi se despedem porque 
precisam comparecer a um compromisso social “de muito, muito alto nível”.

Clara está feliz porque vendeu o Cristo para Pablo por 10 mil dólares, e escreveu no livro de poemas que não vê a hora de vê-lo transformado em presidente da República. Quando ela sai e seus sócios já desceram, Pablo me confessa que todo o seu grupo está indo agora para o apartamento do ex-presidente Alfonso López Michelsen e de sua mulher Cecilia Caballero de López, mas me implora que não comente isso com ninguém.

— A coisa é por aí, meu amor! Por que você se preocupa com esses 
galanistas, se tem acesso ao presidente mais poderoso, mais influente, mais inteligente, mais rico e, acima de tudo, mais prático deste país? Não pense mais em Galán nem em Lara. Só siga adiante com Civismo em Marcha e Medellín sin Tugurios, que a Bíblia diz: “É por suas obras que serás conhecido.”

Ele me pergunta se vou acompanhá-los nas campanhas políticas, e, com 
um beijo, eu digo que para isso pode contar comigo. Sempre.

— Vamos começar nesta semana. Quero que você saiba que não posso te 
ligar diariamente para dizer as loucuras que me passam pela cabeça, porque meus telefones estão grampeados. Mas penso em você o tempo inteiro. Não esqueça nunca, Virginia, que “Não te pareces com ninguém desde que eu te amo”. (Trecho do “Poema 14”, de Pabro Neruda, extraído da coletânea Vinte poemas de amor e uma canção desesperada.)






Manancial: Amando Pablo, odiando Escobar

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