DESTAQUE

COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

JIMI HENDRIX POR ELE MESMO – CAPÍTULO 1: Voodoo Child


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Jimi Hendrix Por Ele Mesmo sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah



“Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.”


JIMI HENDRIX


JIMI HENDRIX POR ELE MESMO


Organização:

ALAN DOUGLAS e PETER NEAL


Tradução:
IVAN WEISZ KUCK



INTRODUÇÃO

PARA TODOS OS EFEITOS, este livro foi escrito por Jimi Hendrix. Mas, como se trata de uma compilação póstuma, nada mais justo do que oferecer algumas explicações sobre como se chegou ao texto final.

De certo modo, foi o próprio Jimi quem deu a idéia do livro. O ponto de partida foi um filme biográfico em que eu estava trabalhando com Alan Douglas. Não querendo pôr palavras na boca do músico, começamos a fazer experiências com diálogos extraídos de registros de coisas que ele, de fato, havia dito. Um enorme dossiê foi compilado a partir de todas as fontes que puderam ser autenticadas com segurança. Havia uma superabundância de material, pois, nos quatro anos que passou sob os holofotes, Hendrix estava constantemente dando entrevistas. Ele foi também um escritor compulsivo, usando blocos de anotações de hotéis, pedaços de papel, pacotes de cigarro, guardanapos – tudo o que estivesse à mão.

Ainda que trechos de algumas dessas entrevistas e escritos já tenham sido publicados, muitas vezes eles foram apropriados por gente que queria defender suas próprias ideias sobre a vida e a música de Hendrix. A leitura de todo o material disponível, contudo, mostra que Jimi deixou sua própria interpretação de si mesmo, excepcional e abrangente, ainda que o tenha feito de maneira fragmentada e um tanto elíptica. Sentimos que era imperativo que, em meio à pletora de mitos e meias-verdades, Jimi pudesse oferecer uma versão própria e pessoal de sua vida e sua música.

Jimi Hendrix Por Ele Mesmo é o resultado da reorganização desse material numa ordem narrativa. Como cineasta, pensei que seria natural me ocupar da tarefa como se estivesse editando imagens para um documentário. O fato de a fala de Jimi ser tão ritmada e sua maneira de se expressar tão visualmente rica contribuiu para essa abordagem. De um modo incrível e assombroso, o livro ganhou vida. A obra começou a se desenvolver por vontade própria, de tal maneira que me vi perguntando a mim mesmo se não seria alguma espécie de psicografia. Ao dizer isso, penso que estou, na verdade, prestando homenagem à força extraordinária da presença de Jimi através de suas palavras.

O fato é que ele contou a própria história tão bem que não precisei tomar quase nenhuma liberdade. Além de eliminar repetições, eventualmente combinei frases ou alterei a gramática onde parecia necessário aclarar o sentido. Além disso, como o material não havia sido originalmente concebido para esse uso, acrescentei notas breves que fornecem informações contextuais básicas e servem de apoio à continuidade dos eventos. As letras foram incluídas não apenas porque são referidas no texto, mas porque o conjunto das suas canções é, em si mesmo, autobiográfico. Jimi sempre afirmou que, para ele, vida e música eram inseparáveis. Na falta desta última, que é seu testemunho verdadeiro, as letras constituem uma dimensão poética essencial.

As memórias de Jimi sobre seus primeiros 23 anos de vida se enquadraram facilmente numa ordem narrativa. Por motivos óbvios, ele nunca nos deu um relato claro e consecutivo de seus últimos quatro anos. Contudo, falou longamente sobre as ideias que se formavam em sua mente e sobre as mudanças de percepção e consciência que estava experimentando. Assim, à medida que avança, o livro se torna menos uma narrativa de eventos externos e mais a exploração de uma jornada interna. Essa jornada interna é o cerne do livro – e nada poderia ser mais adequado, pois o rompimento de fronteiras está no âmago da história de Jimi.

Durante algum tempo, este livro teve o título provisório de Letter to a Room Full of Mirrors [Carta a uma sala cheia de espelhos]. Jimi passou seus últimos anos de vida obcecado com a imagem do espelho. O espelho pode ser visto como símbolo – ou como o limiar da mais importante das travessias. De acordo com as tradições dos nativos norte-americanos, o espelho da autorreflexão representa nosso estado humano normal, um estado de auto-encarceramento no qual vemos o mundo de um ponto de vista condicionado, repetitivo e, portanto, não criativo. Nesses termos, quebrar o espelho da autorreflexão significa ultrapassar essa visão de mundo limitada e chegar à própria fonte criativa.


As visões, idéias e inspirações dessas pessoas vêm diretamente das fontes primárias da vida e do pensamento humanos. Eis por que falam com eloquência não da sociedade e da psique atuais, em estado de desintegração, mas da fonte inesgotável por meio da qual a sociedade renasce. O herói morreu como homem moderno; mas, como homem eterno – aperfeiçoado, não específico e universal –, renasceu. [JOSEPH CAMPBELL]



Se, em alguma medida, este livro der certo, será por conta da disposição de Jimi para falar de si mesmo com tanta sensibilidade, franqueza e humor. A esse respeito, somos especialmente gratos aos vários jornalistas que o entrevistaram e aos colecionadores que registraram e preservaram o material a partir do qual o livro foi compilado. Gostaria, em especial, de agradecer a Michael Fairchild pelos incansáveis esforços para localizar e autenticar as fontes e pelo entusiasmo e contribuições criativas sem limites; a Christopher Mould pelo apoio e participação inestimáveis durante o difícil período da gênese do livro; e a Kevin Stein pela paciência e sensibilidade com que me ajudou a terminar o texto final.

Por fim, sou eternamente grato a Alan Douglas pela oportunidade de trabalhar num projeto tão gratificante. Seu conhecimento e seus conselhos foram valiosíssimos para guiar este trabalho do início ao fim. Foram sua antevisão e seu empenho que tornaram possível a feitura deste livro.

PETER NEAL



CAPÍTULO UM
(Novembro de 1942 – Julho de 1962)
VOODOO CHILD



Well, the night I was born
Lord, I swear the moon turned a fire red.
Well, my poor mother cried out
“Lord, the gy psy was right”
And I see’d her fell down right dead…


De “Voodoo Chile”: “Olha, na noite em que nasci/ Senhor, eu juro que a lua
ficou vermelha como o fogo./ Olha, minha pobre mãe gritou:/ ‘Senhor, a cigana
estava certa’/ E eu vi ela cair morta no chão…”



NASCI EM SEATTLE, Washington, EUA, em 27 de Novembro de 1942, com zero ano de idade.

Lembro que uma enfermeira me pôs uma fralda e quase me espetou. Eu devia estar doente no hospital, devia estar com alguma doença, porque lembro que não me sentia muito bem. Depois, ela me tirou do berço e me ergueu diante da janela para me mostrar alguma coisa no céu. Eram fogos. Devia ser 4 de Julho. Aquela enfermeira me deixou ligado, eu estava viajando na penicilina que ela me deu e olhava para cima e o céu estava tão…

SsschuusssSchush

É nossa primeira viagem!

Lembro também de quando eu era tão pequeno que cabia num cesto de roupas. E de quando tinha só quatro anos e fiz xixi na calça e fiquei horas lá fora na chuva até ficar todo molhado, para que mamãe não descobrisse. Mas ela descobriu.

Papai era muito rígido e centrado, já mamãe gostava de se vestir bem e de se divertir. Ela bebia muito e não se cuidava, mas era uma mãe fantástica. O casamento deles era problemático. Estavam sempre se separando, e, quando isso acontecia, meu irmão e eu íamos para casas diferentes. Na maioria das vezes, eu ficava na casa da minha tia e da minha avó. Era preciso estar sempre preparado para me mandar para o Canadá.

Minha avó é índia, tem sangue cherokee. Muita gente em Seattle tem sangue indígena. É apenas mais uma parte da família, só isso.

Eu passava muito tempo na reserva dela em Vancouver, na Colúmbia Britânica. Tem um montão deles lá, cara, era uma coisa terrível. Todas as casas são iguais, e nem são bem casas, são mais cabanas. É uma cena triste. Metade deles fica jogada na sarjeta, bebendo, completamente fora de si. E eles ficam lá sem fazer nada. Aquilo me deixava tão perturbado que eu nem… nem ligava mais quando um professor dizia que os índios não prestavam! Quer dizer, em outras palavras: “Nenhum índio presta, todos têm gonorreia!”

Hoje minha avó mora num apartamento incrível em Vancouver. Tem televisão, rádio e tudo o mais. Mas ela continua com os longos cabelos brancos.

Quando eu era pequeno, ela me contava histórias bonitas de índios, e meus colegas de escola riam quando eu usava aqueles xales e ponchos que ela fazia. Aquela velha história triste, sabe? Ela me deu um casaquinho mexicano com borlas. O casaco era realmente bom, e eu o usava todos os dias na escola, sem me importar com o que os outros pudessem pensar, só porque gostava dele. Eu gostava de ser diferente.


[Al e Lucille Hendrix se divorciaram em Dezembro de 1950. Jimmy e seu irmão mais novo, Leon, ficaram com o pai. Jimmy viu a mãe pela última vez em Janeiro de 1958. Ela morreu no mês seguinte.]



Quando era bem pequenininho, sonhei que minha mãe estava sendo levada embora por camelos. Era uma grande caravana, e dava para ver as sombras das folhas passando pelo rosto dela. Você já viu como o sol brilha por entre as árvores? Bom, as sombras eram verdes e amarelas. E ela estava me dizendo: “Olha, não vou mais estar tanto tempo com você, sabe? Então, até logo.”

Uns dois anos depois ela morreu. Vou me lembrar daquele sonho para sempre. Nunca me esqueci. Tem sonhos que a gente NUNCA esquece.

PAPAI ERA QUEM cuidava de mim na maior parte do tempo. Ele era religioso e eu frequentava a escola dominical. Ele me ensinou a sempre respeitar os mais velhos. Eu só podia falar se os adultos falassem comigo primeiro. Então, sempre fui muito calado. Mas eu via muita coisa. Em boca fechada não entra mosca.

Papai era jardineiro e já tinha sido eletricista também. Não éramos muito ricos! No inverno, quando não havia grama para aparar, a coisa ficava feia. Ele cortava meu cabelo igual a uma galinha depenada, e todos os meus amigos me chamavam de “cuca lisa”.

Eu era muito solitário. Toda noite trazia um vira-lata para casa, até que meu pai me deixou ficar com um. E foi o mais feio de todos. Seu nome na verdade era “Prince Hendrix”, mas o chamávamos mesmo de cachorro! Também tive gatos. Adoro animais. Os mais bonitos são os cervos e os cavalos. Eu via muitos cervos nos arredores de Seattle. Um dia, vi um cervo e, por um segundo, senti algo estranho. Era como se eu já o tivesse visto antes. Quer dizer, foi como se, por uma fração de segundo, eu tivesse estabelecido uma relação muito profunda com ele. Eu disse “Espera aí!”, e então a sensação passou.

Fui à escola em Seattle e, depois, em Vancouver, na Colúmbia Britânica, de onde veio minha família. Depois, voltei a Seattle, onde estudei na Garfield High School. No geral, minha escola não era muito rígida. Tínhamos chineses, japoneses, porto-riquenhos, filipinos… Ganhávamos todos os jogos de futebol americano!

Na escola eu escrevia um bocado de poesia, e isso me deixava muito feliz. A maioria dos meus poemas falava de flores, da natureza e de gente vestida com mantos. Eu queria ser ator ou pintor. Gostava, em especial, de pintar cenas de outros planetas – Tarde de verão em Vênus e coisas do gênero.

O que mais me empolgava era a ideia das viagens espaciais. A professora dizia “Pintem três cenas”, e eu pintava quadros abstratos, como Pôr do sol em Marte, sem brincadeira! Ela me perguntava “Como você está se sentindo?”, e eu dava alguma resposta viajante, como: “Bem, depende de como os caras lá em Marte estão se sentindo.” Eu simplesmente não sabia o que mais poderia dizer. Já não aguentava mais falar: “Bem, obrigado.”

Ela me disse: “Muito bem, por essa você vai ter que vir aqui para a frente.” E eu tinha que ficar lá no canto, como numa motocicleta da Gestapo – o piloto se senta na moto e o comandante no carrinho ao lado. Eu nunca pude me sentar com o resto da turma. Na terceira série, a professora sentava-se ao meu lado e dizia “Que isso sirva de exemplo!”, e, ao mesmo tempo, tocava meus joelhos por baixo da mesa.

Diziam que eu estava sempre atrasado, mas eu só tirava boas notas. O verdadeiro motivo era que eu tinha uma namorada na aula de artes e nós vivíamos o tempo todo de mãos dadas. A professora de artes não engolia isso. Era muito preconceituosa.

Ela disse: “Senhor Hendrix, vejo você no vestiário em três segundos.” No vestiário ela perguntou: “O que você pretende falando assim com aquela branca?” Eu respondi: “Qual o problema, a senhora está com ciúmes?” Ela começou a chorar e eu fui posto para fora. É fácil me fazer chorar.


[Jimmy abandonou a Garfield High School em outubro de 1960, aos dezessete anos.]


Lembro de quando, com delicadeza, me botaram para fora da escola. Disseram que coisa boa eu não era… Fiquei tão orgulhoso que gritei bem alto: “Vá pro inferno, escola ultrapassada!”

A gente espera e espera, e nada nos salva desse destino aborrecido de viver como anjos. Fazendo tudo certo, sem nunca ter que brigar, sem nunca sentir a ânsia de dar o primeiro passo para além da esquina.

Saí da escola cedo. Ela não significava nada para mim. Eu queria que algo me acontecesse. Meu pai me disse para procurar um emprego. E foi o que fiz por algumas semanas. Eu trabalhava pro meu pai. Tinha que trabalhar duro. Carregávamos pedra e cimento o dia inteiro, e a grana ia toda para o bolso dele. Ele não me pagava nada. Simplesmente ficava com todo o dinheiro. Eu não queria trabalhar tanto por tão pouco, então comecei a andar por aí com os garotos.

Às vezes, eu e meus amigos acertávamos um policial, e meia hora depois estávamos metidos numa briga dos infernos. Às vezes, íamos parar na cadeia, mas comíamos muito bem. A maioria dos policiais não valia nada, mas havia uns muito legais. Eles eram mais humanos – não batiam com tanta força, e, então, conseguíamos comer melhor. Mas tudo isso ficou chato demais depois de um tempo.

Para muitos garotos as coisas não são fáceis. Jesus! A vida lá em casa estava insuportável. Fugi mais de uma vez de tão infeliz que estava. Uma dessas vezes foi depois de uma briga feia com meu pai. Ele bateu na minha cara e eu fugi. Quando ele percebeu que eu tinha ido embora, ficou louco de preocupação. Mas eu não me importava com os sentimentos dos outros. Voltei para casa quando vi que meu pai estava incomodado. Não que me importasse, mas, bem, ele era meu pai. Acho que ele nunca imaginou que eu daria certo. Eu era o garoto que fazia tudo errado.


Tears burning me
Tears burning me in my eyes
Way down, way down in my soul.
Tears burning me in my soul…
Well, I gotta leave this town
Gonna be a voodoo Chile
And try to be a magic boy.
Come back and buy this town
Come back and buy this town
And put it all in my shoe
Might even give a piece to you!

De “Hear My Train A Comin’ (Get My Heart Back Together)”: “As lágrimas me queimam/ As lágrimas me queimam os olhos/ Lá no fundo, bem no fundo da minha alma./ As lágrimas me queimam a alma…// Olha, tenho que sair dessa cidade/ Vou ser uma criança vudu/ Vou tentar ser um menino mágico./ Depois volto e compro a cidade/ Volto e compro a cidade/ Para guardar toda no meu sapato/ E quem sabe dar um pedaço pra você!”


Enquanto eu estava no andar de cima, os adultos davam festas. Escutavam Muddy Waters, Elmore James, Howlin’ Wolf e Ray Charles. Aquele som não era nada maligno, só um pouco mais pesado. Depois, eu descia escondido para comer restos de batatas e fumar guimbas de cigarro. No rádio, escutava o Grand Ol’ Opry. Eles tinham uns caras bons, uns guitarristas da pesada.

O primeiro guitarrista de que tomei conhecimento foi Muddy Waters. Ouvi um disco dele quando era pequeno e fiquei aterrorizado com todos aqueles sons. Uau! O que era aquilo? Era incrível. Eu gostava de Muddy Waters quando ele só usava duas guitarras, uma harmônica e um bumbo. Eu gostava era de coisas como “Rollin’ and Tumblin’” – aquele som de guitarra verdadeiro e primitivo.

Meu pai dançava e tocava colheres. Meu primeiro instrumento foi uma harmônica, que ganhei quando tinha uns quatro anos, acho. O segundo foi um violino. Sempre curti instrumentos de cordas e pianos, mas queria algo que eu pudesse levar para qualquer lugar, e não dava para trazer um piano para casa.

Depois, comecei a me interessar por violões. Parece que todo mundo tinha um em casa. Uma noite, um amigo do meu pai ficou chapado e me vendeu o violão dele por cinco dólares. Eu não sabia que, por ser canhoto, precisava inverter as cordas, mas sentia que alguma coisa não estava certa. Lembro de pensar: “Tem alguma coisa errada aqui.”

Tentei inverter as cordas, mas o violão ficou completamente desafinado. Eu não entendia nada de afinação, por isso fui até a loja e corri os dedos pelas cordas de um violão que eles tinham lá. Depois, consegui afinar o meu. Eu tinha uns quatorze ou quinze anos quando comecei a tocar violão. Tocava no quintal de casa, e os garotos se juntavam em volta e elogiavam. Depois, me cansei do instrumento e o deixei de lado. Mas ouvir Chuck Berry fez renascer meu interesse.

Aprendi todos os riffs que pude. Nunca fiz nenhuma aula. Aprendi a tocar com os discos e o rádio. Cara, eu amava minha música. Lá em Seattle, ia para a varanda dos fundos, porque não queria ficar o tempo todo dentro de casa, e tocava acompanhando um disco de Muddy Waters. Sabe, nada mais me interessava, só a música. Eu estava tentando tocar como Chuck Berry e Muddy Waters. Queria aprender tudo e mais alguma coisa.

AOS DEZESSETE ANOS, formei uma banda com alguns outros caras, mas o som deles abafava o meu. No início, eu não entendia o que estava acontecendo. Só depois de uns três meses entendi que precisava de uma guitarra elétrica. Minha primeira foi uma Danelectro, comprada por meu pai. Eu já devia ter acabado com ele há muito tempo, mas, primeiro, tinha que mostrar a ele que sabia tocar. Naquela época, acho que eu gostava mesmo era de rock’n’roll. Tocávamos coisas de gente como o Coasters. Seja como for, todo mundo tinha que fazer as mesmas coisas antes de entrar numa banda. Inclusive repetir os mesmos passos. Comecei a procurar lugares para tocar. Lembro que minha primeira apresentação foi num depósito de armas da Guarda Nacional. Cada um dos músicos ganhou 35 centavos e três hambúrgueres.

No começo as coisas não foram nada fáceis para mim. Eu só sabia umas três músicas, e, na hora de subir ao palco, tremia tanto que tinha de tocar atrás das cortinas. Simplesmente não conseguia ir lá para a frente. A gente se sente tão inseguro. Eu escutava todas aquelas bandas, e os guitarristas sempre pareciam tão melhores do que eu.

É nesse ponto que a maioria desiste. Mas é melhor não parar. Temos que continuar, que seguir em frente. Às vezes, a frustração é tanta que ficamos com ódio da guitarra, mas isso tudo faz parte do aprendizado. Quem persiste é recompensado. Você precisa ser muito teimoso para conseguir o que quer. Nos meus sonhos, eu via os números um, nove, seis e seis. Tinha a estranha sensação de que havia algum motivo para estar aqui e de que teria a oportunidade de ser ouvido. Me dei bem com a guitarra porque ela era tudo o que eu tinha. Olha, pai, um dia eu vou ser grande, vou ser famoso. Vou chegar lá, cara!


A little boy inside a dream
Just the other day
His mind fell out of his face
And the wind blew it away.
A hand came out from heaven
And pinned a badge on his chest
And said, get out
There, man,
And do your best.

De “Astro Man”: “Um menininho dentro de um sonho/ Um dia desses/ Deixou a mente cair da cara/ E ser levada pelo vento./ Uma mão veio do céu,/ pregou um distintivo em seu peito/ e disse, vai/ Lá, cara,/ e dê o seu melhor.”



[Em Maio de 1961, Jimmy foi preso dirigindo um carro roubado. Recebeu uma pena de dois anos com suspensão condicional depois que o defensor público disse ao juiz que ele pretendia se alistar nas forças armadas.]



Jimmy ao juiz:

“Sim, senhor. Estou pensando em ser paraquedista.”

Eu tinha dezoito anos e nenhum centavo no bolso. Depois de sete dias na geladeira por ter andado, sem saber, num carro roubado, sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de ir para o exército. Então, entrei no primeiro centro de recrutamento que encontrei e me apresentei como voluntário. Na época, eu pensava em ser músico. Já andava tocando uma coisa ou outra. Sabia umas quatro músicas na guitarra. Sabia fazer barulho, nada de mais. Queria estar com tudo resolvido antes de tentar a carreira musical, para que eles não me chamassem no meio de alguma coisa que estivesse acontecendo.

Sem nenhuma formação musical, eu não podia me alistar como músico. Pensando em levar a coisa a sério, entrei para os paraquedistas. Fiz isso porque estava entediado, mas foi no exército que aprendi o que é o verdadeiro tédio. Não existe nada mais monótono do que passar um dia inteiro descascando batatas.

Odiei o exército desde o primeiro momento.


[Pouco depois da morte de Lucille, Willene, uma amiga de Al, foi morar na casa dos Hendrix e trouxe a filha, Willette.]



CARTA PARA A FAMÍLIA, JUNHO DE 1961:

Caros sr. e sra. James A. Hendrix,
Bem, já está na hora de escrever. Acontece que tivemos muita coisa aqui para fazer. Como está todo mundo aí? Espero, de verdade, que bem. O clima aqui é bastante bom, mas às vezes venta muito, porque estamos a apenas três quilômetros do oceano. Não posso escrever demais porque ainda precisamos dar uma arrumada na caserna antes de deitar. Eu só queria que vocês soubessem que continuo vivo, ainda que por pouco. Meu cabelo está todo raspado, todo mesmo, e preciso me barbear. Só fiz a barba duas vezes até agora, contando com hoje, desde que estou aqui. Só poderei vê-los daqui a uns dois meses – isso se tiver sorte. O motivo é que estamos no treinamento básico. Embora esteja aqui há cerca de uma semana, parece que já se passou um mês. O tempo demora muito para passar, mesmo com tanta coisa para fazer. Como vai o negócio da jardinagem? Espero que esteja indo bem. Acho que no exército gasta-se mais do que na vida civil. Até agora, já tivemos que comprar sacos para roupa suja a um dólar cada, um chapéu por 1,75, dois cadeados por oitenta centavos cada, três toalhas por cinquenta centavos cada, um jogo de carimbos por 1,75 dólar, um corte de cabelo por um dólar, um kit para engraxar sapatos por 1,70, aparelho, lâminas e creme de barbear por 1,70 e galões para o uniforme por cinquenta centavos. Parece, portanto, que, do ponto de vista financeiro, a coisa não é tão boa quanto eu pensava…

Só vamos receber em 30 de Junho de 1961, então eu queria saber se poderiam me mandar cinco ou seis dólares. Eles só nos deram cinco dólares na chegada, dos quais sobrou 1,50, que não vai durar nem mais um minuto por aqui. Se puderem mandar o dinheiro, posso e devolverei tudo no final do mês, quando chega nosso pagamento. Quando estivermos mais situados as coisas ficarão bem melhores. O problema é só este mês, que está complicado. Bom, agora tenho mesmo que terminar. Se tiverem tempo, por favor me escrevam contando o que se passa por aí.

Transmitam a todos o meu amor – a Vovó, Gracie, Willie May, tio Frank, Betty, etc., etc.


Do James, com amor

p.s. Por favor, se puderem, mandem uns dólares o mais rápido possível – obrigado.


O treinamento não era nada fácil. Foi a pior coisa pela qual já passei. Estavam sempre tentando descobrir qual era nosso limite. Havia o que chamávamos de “suplício suspenso”. Deixam você pendurado numa corda, por um cinturão, com os pés a poucos centímetros do chão. Às vezes, você fica assim por uma hora inteira, e se o cinturão não estiver muito bem posicionado, isso vira um inferno. E eles só nos davam três segundos para vestir o cinturão. Queriam nos ensinar a ser durões – então tínhamos que dormir na lama. A ideia era ver até onde conseguiríamos suportar. Aguentei firme. Estava determinado a não fraquejar.


CARTA À FAMÍLIA, OUTUBRO DE 1961:


Querido pai,
Acabo de receber sua carta e estou muito contente em saber que o senhor está bem e que Leon está com você. Fui pego de surpresa e fico muito feliz com isso, pois sei que o senhor às vezes fica, ou melhor, ficava, muito sozinho aí. É assim que me sinto quando começo a pensar no senhor e nos outros – e em Betty. Diga para Leon fazer o que deve ser feito, como o senhor me dizia, porque, mais tarde, terá valido a pena. Fico muito feliz também por saber que o senhor comprou uma televisão e que está dando uma ajeitada na casa. Continue com o bom trabalho que eu vou dar meu melhor para me tornar um PARAQUEDISTA e honrar nosso nome. Vou me esforçar ao máximo. Vou conseguir, para que toda a família Hendrix tenha o direito de usar o emblema da Águia da Divisão Aerotransportada do Exército dos EUA (sorria)! Fique sossegado que quando o senhor me vir de novo estarei usando o distintivo do orgulho. Assim espero.

Ao Papai Hendrix de seu filho. Com amor, James p.s. Por favor, mande minha guitarra assim que possível – preciso muito dela agora – ela ainda está na casa da Betty.



DE OUTRA CARTA PARA A FAMÍLIA:

Há duas semanas, não há nada aqui além de treinamento físico e abusos. Mas é depois, na escola de saltos, que começa o inferno de verdade! Eles tiram NOSSO COURO! Nada do que você faz é suficiente. Temos que fazer dez, quinze ou 25 flexões – o dia inteiro empurrando o Tennessee com minhas próprias mãos – na serragem molhada, num frio de seis graus abaixo de zero. Aqui o bicho pega, e metade dos candidatos desiste. É assim que eles separam os homens dos meninos. Eu rezo para estar no lado dos homens.

Tive que comprar dois pares de coturnos, quatro fardas sob medida e vinte distintivos com a figura da águia. Você sabe o que esse emblema representa? A 101ª DIVISÃO AEROTRANSPORTADA, Fort Campbell, Kentucky – sim, é isso mesmo!


CARTA À FAMÍLIA, NOVEMBRO DE 1961:

Bem, aqui estou eu, exatamente onde queria estar, na 101ª Divisão Aerotransportada. Saltamos de uma torre de dez metros em nosso terceiro dia por aqui. Foi quase uma diversão. Fomos os nove primeiros de mais ou menos 150 em nosso grupo. Ao subir as escadas até o alto da torre, eu caminhava tranquilo, a passos lentos, com toda a calma. Três caras desistiram quando chegaram lá em cima. Eles deram uma olhada para fora e desistiram na hora. Podemos desistir quando quisermos. E isso me passou pela cabeça enquanto subia aqueles degraus, mas me convenci de que, aconteça o que acontecer, não vou sair por vontade própria.

Quando cheguei lá no alto, o instrutor de salto prendeu as duas fitas ao meu cinturão, me deu um tapa na bunda e disse no meu ouvido: “Vai, vai, VAI!” Vacilei por uma fração de segundo e, quando me dei conta, já estava caindo. De repente, a linha esticou e senti um tranco, como o estalo de um chicote, e comecei a deslizar pelo cabo… Desci de pernas juntas, com as mãos no paraquedas reserva e o queixo enfiado no peito. Bati direto numa duna de areia. Mais tarde, eles vão nos ensinar como evitar isso, levantando os pés, é claro. Mas eu estava de costas para a areia. Bem, foi uma experiência nova.

Com amor, James



Acho que os saltos de paraquedas foram a melhor coisa do exército. Saltei umas 25 vezes. Nunca havia feito nada tão emocionante. É tão divertido quanto parece, desde que você consiga ficar de olhos abertos.

O primeiro salto é mesmo fora do comum. Imagine estar lá, num avião, sendo que alguns dos caras NUNCA tinham andado de avião antes. Tinha gente vomitando num balde grande, sabe, numa latona de lixo deixada lá no meio. Foi incrível!

E então o avião está fazendo ROOOOOOOOMMM!!! Roncando e balançando, e dá até para ver os rebites se mexerem. Mas e eu, o que estou fazendo aqui? Estou lá na porta e, de repente, pumba! Vuumm! Por uma fração de segundo um pensamento passou pela minha cabeça: “Você é louco!”

A sensação física era a de cair para trás, como num sonho. É quase como um desmaio, e é quase como chorar, e dá vontade de rir. É algo muito pessoal, porque quando estamos lá tudo é tão silencioso. Tudo o que ouvimos é o ssssshhhhhhh da brisa. É o sentimento mais solitário do mundo. Você está lá completamente sozinho, e pode falar bem alto, gritar, fazer o que der vontade. E foi então que pensei que eu só podia estar louco para fazer aquilo, mas mesmo assim eu adorei.

Então a gente sente um puxão no pescoço e precisa olhar para cima e ver se o paraquedas abriu. A cada salto temos medo de que, dessa vez, o paraquedas não abra. E aí você olha e vê aquele grande e belo cogumelo branco sobre sua cabeça. É aí que você começa a falar sozinho de novo e diz: “Graças a Deus.”

Mas o exército é um inferno. Eu estava servindo no Kentucky. O estado fica bem na fronteira entre o Norte e o Sul, e naquele campo tínhamos alguns dos mais intragáveis lambe-botas. E tinha uns oficiais que… cara! Era terrível! Não me deixavam chegar perto de nada que tivesse a ver com música. São eles que dizem o que a gente quer e o que a gente não quer, você não tem escolha. O exército é mais para quem gosta que lhe digam o que fazer.

Fiquei lá por quinze meses, mas me machuquei num salto e tive problemas com a disciplina. Um dia, meu tornozelo prendeu num gancho bem na hora do salto e quebrou. Eu disse a eles que minhas costas também doíam. A cada vez que me examinavam eu gemia, até que eles finalmente acreditaram em mim.

Tive a sorte de sair na hora certa, escapei do Vietnã.





Manancial: Jimi Hendrix Por Ele Mesmo

Sem comentários