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COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

JIMI HENDRIX, POR ELE MESMO – CAPÍTULO 2: Highway Chile


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Jimi Hendrix, Por Ele Mesmo sem a intenção de obter fins lucrativos. RiDuLe Killah




CAPÍTULO 2


(Julho de 1962 – Setembro de 1966)


HIGHWAY CHILE




His guitar slung across his back,
His dusty boots is his Cadillac.
Flamin’ hair just a-blowin’ in the wind,
Ain’t seen a bed in so long it’s a sin.
He left home when he was seventeen,
The rest of the world
He had longed to see,
And every body knows the boss
A rollin’ stone gathers no moss.
Now, you probably call him a tramp,
But it goes a little deeper than that,
He’s a highway chile.
Walk on, brother.
Don’t let no one stop you!


“A guitarra pendurada nas costas,/ As botas enlameadas no Cadillac./ Os
cabelos de fogo soltos no vento,/ Tanto tempo sem ver uma cama chega a ser
pecado./ Ele tinha dezessete quando saiu de casa,/ Para ver o resto do mundo/
Que sonhava conhecer./ E todo mundo sabe quem é que manda./ Pedra que rola
não cria limo./ Agora, vocês devem estar dizendo que é um vagabundo,/ Mas é
um pouco mais que isso,/ Ele é uma criança da estrada.// Vá em frente, irmão./
Não deixe ninguém parar você!”



Palavras por Jimi Hendrix



[Jimmy foi dispensado do exército em Julho de 1962.]


CERTA MANHÃ, me vi do lado de fora do portão de Fort Campbell, na divisa entre o Tennessee e o Kentucky, com minha bolsinha de pano e uns trezentos ou quatrocentos dólares no bolso. Eu estava voltando para Seattle e tinha muito chão pela frente. Mas havia uma garota e eu estava meio que gamado nela.


Então resolvi dar uma passada em Clarksville, que ficava perto, passar a noite na cidade e seguir para casa na manhã seguinte. Fui numa espelunca ouvir jazz e tomar alguma coisa. Gostei do lugar e fiquei por lá. Dizem que eu às vezes fico um bobo de coração mole. Bem, parece que naquele dia eu estava me sentindo muito generoso. Acho que eu devo ter distribuído notas a qualquer um que pedisse. Quando saí, só me restavam dezesseis dólares! E é preciso mais do que isso para ir do Tennessee até Seattle, afinal são mais de 3 mil quilômetros. Portanto, nada de ir para casa!

A primeira coisa que pensei foi em fazer um interurbano e pedir a meu pai que mandasse algum dinheiro, mas eu imaginava o que ele diria se contasse que havia perdido quase quatrocentos dólares em um dia. Nem pensar. No exército, eu havia começado a tocar mais a sério e me ocorreu que minha única opção seria tentar ganhar alguma grana com a guitarra.

Daí me lembrei que tinha vendido a guitarra para um cara da unidade. Então, 
voltei para Fort Campbell, encontrei o sujeito e disse que precisava que ele me emprestasse o instrumento de volta.



LEVEI ALGUM TEMPO para me recuperar das lesões. Quando fiquei bom, 
segui para o Sul. Toquei em bares, em clubes e nas ruas. No começo, não foi nada fácil. Eu vivia uma vida miserável. Dormia onde podia e, para comer, tinha que roubar. Cheguei a ganhar algum dinheiro, mas não gostava nem um pouco daquilo. Foi quando montei uma banda, King Kasuals, com um camarada chamado Billy Cox, que tocava um baixo super da pesada.

Em Clarksville, trabalhamos para uma tal de W & W. Cara, era um esquema 
que pagava tão mal que começamos a dizer que os dois Ws significavam “Wicked and Wrong” [Perverso e Errado]. Essa agência musical de quinta era capaz de subir no palco no meio de uma música, enfiar o pagamento no bolso da gente e desaparecer. Quando acabávamos de tocar e eu tinha tempo de conferir o envelope, encontrava só dois ou três dólares em vez de dez ou quinze.

Foi então que fizemos amizade com o dono de um clube que parecia gostar 
muito da gente e nos comprou equipamentos novos. Eu ganhei um amplificador Silverstone e os outros, Fender Bandmasters. Mas, além de levar nosso dinheiro, o cara estava meio que freando nosso progresso. O jeito foi me mudar mais uma vez.

Fui para Nashville, onde vivi num grande edifício em construção. O piso ainda 
não tinha sido colocado e não havia telhado, então tínhamos que dormir sob as estrelas. Era uma loucura.

Todo Domingo de tarde íamos até o centro da cidade ver os tumultos raciais. O 
combinado era ligar para alguns amigos e dizer: “Vamos estar lá gritando com você hoje à noite, então não deixe de ir.”

Levávamos cestas de piquenique, porque os restaurantes não nos serviam. 
Um grupo ficava de um lado da rua e o resto do outro. Gritavam palavrões, falavam da mãe uns dos outros e de vez em quando se esfaqueavam. Isso durava algumas horas, depois íamos todos para alguma boate e tomávamos um porre. Às vezes, quando passava um filme bom no domingo, não havia nenhum tumulto.
Quando criança, eu tinha a ambição de andar de cabeça erguida, de entrar 
num restaurante “branco” e pedir um bife “branco” sem medo de levar na cara. Mas, no geral, não pensava muito nisso. Eu tinha coisas mais importantes para fazer – como tocar guitarra.

Em Nashville eu tocava de tudo, até um pouco de rockabilly. Lá, todo mundo 
sabe tocar guitarra. Você anda pela rua e vê as pessoas sentadas nas varandas tocando…

Foi lá que eu aprendi a tocar de verdade.




COMECEI A TOCAR GUITARRA em Seattle, no Norte, e lá não existem muitos 
cantores de blues de verdade. Quando fui para o Sul, todo mundo estava tocando blues, e foi aí que comecei a me interessar mais pelo estilo. Eu ficava ouvindo os blueseiros tocarem e consegui pegar o jeito.
Adoro “folk blues”. “Blues” para mim significa Elmore James, Howlin’ Wolf, Muddy Waters e Robert Johnson. Gosto de Robert Johnson. Ele é demais. É o tipo de música que mexe com a gente, que passa uma mensagem. Isso não significa que “folk blues” seja o único tipo de blues do mundo. Cada um pode ter seu próprio blues. Todos têm algum tipo de blues para oferecer, sabe?

Em Atlanta e na Geórgia tem uns caras bons, como Albert King e Albert 
Collins. Albert King toca só de uma forma – apenas funk blues puro e simples, a nova guitarra do blues, um som bem jovem e funky –, e acho isso o máximo. É um dos músicos mais da pesada que já ouvi. Ele só toca daquele jeito, então o negócio dele é aquilo.

A maioria dos guitarristas é do Sul. Lá, o maior guitarrista que você já ouviu 
pode estar tocando numa boate vagabunda e a gente às vezes não sabe nem o nome dele.



A CENA DE NASHVILLE era engraçada, com todos aqueles empresários 
espertos tentando assinar contratos com cantores caipiras que nunca haviam estado numa cidade grande. Era uma espécie de jogo, uma grande enganação, do começo ao fim. Todos querendo passar a perna uns nos outros. Mas, se você soubesse andar de olho bem aberto, dava para dar umas boas risadas.

Em Nashville, conheci um cara chamado Gorgeous George, e ele me 
chamou para algumas turnês. E assim comecei a viajar e tocar pelo Sul. Era um público dos mais complicados. A gente tem que tocar muito bem, porque essa gente não aceita qualquer coisa. Eles sabem o que é bom. É o som que eles escutam o tempo todo. Tocávamos em bares, em cima de uma plataforma, fazia um calor danado e os fãs queriam sempre mais. Tinha uns caras que pulavam em cima da guitarra e outros que tocavam com ela atrás da cabeça, ou com os dentes ou os cotovelos. Às vezes eles trocavam os instrumentos, só de farra.

Teve um sujeito que tentou me fazer tocar com a guitarra atrás da cabeça, 
porque eu ficava sempre muito parado. Eu disse: “Ah, cara, por que alguém ia querer fazer uma palhaçada dessas?” E então, de repente, a gente começa a se aborrecer, porque não é fácil agradar aquela gente. Foi numa cidade do Tennessee que tive a ideia de tocar guitarra com os dentes. Lá, você tem que tocar com os dentes se não quiser levar um tiro! Dá para ver o rastro de dentes quebrados espalhados pelo palco.

Depois disso, viajei pelo país todo, tocando em vários grupos. Meu Deus, nem 
consigo lembrar o nome de todos eles. Eu entrava e saía das bandas tão rápido! E lá estava eu numa banda que tocava os maiores sucessos do soul e do R&B, todos de sapatos de couro envernizado e com o mesmo corte de cabelo.

Acontece que quem está na estrada com a barriga vazia toca quase qualquer 
coisa. Eu já não aguentava mais tocar “In the Midnight Hour”. Dos guitarristas que ouvia, nenhum trazia nada de novo, eu estava louco de tédio.

Aprendi como não montar uma banda de R&B. Acho que o problema era que 
tinha um monte de líderes de banda que não queriam pagar ninguém. Vi gente ser demitida no meio da estrada porque estava falando alto demais no ônibus ou porque o líder devia muito dinheiro a eles, ou qualquer coisa assim. Grana curta, vida dura e demissão – naquela época era assim.



FIQUEI EM BUFFALO por um ou dois meses, fazia um frio danado lá. Diferente 
do friozinho de Seattle, que não é tão cortante. Mas acontece que tinha uma garota em Buffalo que estava tentando me enfeitiçar, fazendo uns trabalhos de vudu para me segurar lá, sabe? Tem várias coisas diferentes que eles podem fazer. Podem misturar algo na sua comida, podem pôr um pouco de cabelo no seu sapato. Garota doida! Mas ela deve ter tentado sem muita convicção, porque só passei uns dois ou três dias doente no hospital.

Você não imagina que essas coisas possam mesmo acontecer até que 
acontecem com você. Só digo o seguinte: quando acontece, é apavorante. Nos estados do Sul tem dessas coisas. Eu vi. Se eu vejo ou sinto algo acontecer, eu acredito. As pessoas emitem certos choques elétricos, então, se as vibrações são fortes o bastante para fazer com que esses feitiços funcionem, os efeitos podem ser reais.



EM SEGUIDA FUI PARA NOVA YORK, onde tirei o primeiro lugar no concurso 
de amadores do Apollo, 25 dólares, sabe? Curti tocar no Apollo Theater. Então fiquei por lá, e passei fome por duas ou três semanas. Só conseguia trabalho uma vez na vida e outra na morte. Vivia em condições terríveis. Dormir no meio das latas de lixo, entre os prédios altos, era um inferno. Os ratos andam pelo seu peito, as baratas entram no seu bolso para roubar sua última barra de chocolate. Cheguei a comer casca de laranja e extrato de tomate.

As pessoas diziam: “Se você não arranjar um emprego, vai morrer de fome.” 
Mas eu não queria trabalhar com nada que não fosse música. Tentei algumas coisas, como transporte de automóveis, mas nunca aguentava mais de uma ou duas semanas. A falta de grana me preocupava um pouco, mas não o suficiente para me fazer roubar um banco.

Foi quando um dos Isley Brothers me ouviu tocar num clube e disse que tinha 
uma vaga para mim. Toquei com eles durante algum tempo. Eles queriam que eu fizesse uma série de coisas (tocar com os dentes etc.), porque acho que assim ganhavam mais dinheiro. Na maioria das bandas, não me deixavam fazer o que eu queria.

Mas, no final das contas, não foi tão incrível assim. Eu tinha que dormir nos 
clubes onde eles tocavam, infestados de ratos e baratas. Durante a noite, aqueles bichos malditos ficavam andando em cima de mim! Em Nashville, deixei os Isley Brothers. Cansado de cantar o tempo todo em fá maior, guardei meu terno branco de mohair e meus sapatos de couro envernizado e fui tocar nas esquinas outra vez.

Alguns meses depois, chegou à cidade um grupo de soul, com Sam Cooke, 
Solomon Burke, Jackie Wilson, Hank Ballard, B.B. King e Chuck Jackson. Consegui um bico tocando na banda de apoio. Minha técnica melhorou horrores acompanhando essas figuras todas as noites.

Então perdi o ônibus em Kansas City, no Missouri, e, sem dinheiro, acabei 
ficando para trás. Apareceu um grupo que me levou de volta para Atlanta, na Geórgia, onde conheci Little Richard. Fiz uma audição com ele, que gostou de mim. Cheguei a passar algum tempo tocando com Richard, mas comecei a sentir que não conseguiria me desenvolver de verdade sob sua influência.

Ele não me deixava usar camisas com babados no palco. Uma vez, cansados 
de andar uniformizados, eu e Glen Willings aparecemos com umas camisas extravagantes. Depois do show, Little Richard falou: “Irmãos, precisamos ter uma conversa. Eu sou Little Richard. Sou o Rei do Rock’n’Rhythm e o único que pode ficar bonito no palco. Glen e Jimmy, façam o favor de tirar essas camisas, ou então vão ter que pagar uma multa.”

Outra de suas conversas foi sobre meu cabelo. Eu disse que ninguém me faria 
cortá-los.

“Então a multa será de cinco dólares.”


Se os cadarços de nossos sapatos não fossem da mesma cor, tínhamos que 
pagar cinco dólares.

Todo mundo que trabalhava com ele sofria uma lavagem cerebral.


Acho que toquei com Little Richard por uns cinco ou seis meses. Trabalhei 
com ele por todo o país, até que fomos para Los Angeles, onde decidi que já tinha tido o suficiente. Saí por conta de um desentendimento sobre dinheiro. Ele ficou cinco semanas e meia sem nos pagar. Na estrada, não dá para viver de promessas, então tive que dar um basta naquela situação.



VOLTEI PARA NOVA YORK e toquei com um pequeno grupo de rhythm and 
blues chamado Curtis Knight and the Squires. Gravei alguns discos e fiz o arranjo de algumas músicas dele. Toquei também com King Curtis e Joey Dee. Toquei na Cleveland Arena com Joey Dee and the Starliters, em alguns shows que tiveram a participação de Chubby Checker.

Veja bem, quando me juntei a Joey Dee and the Starliters eu estava saltando 
do fogo para a frigideira. A banda é incrível, mas… ninguém falava comigo! Eu era só mais um guitarrista preto. Então, tive que abrir mão do salário que recebia tocando “Peppermint Twist” e fui parar numa banda desconhecida, que tocava músicas da parada de sucessos. Acabei saindo dessa banda também.

Tudo o que eu tinha era um “sanduíche de desejos” – duas fatias de pão e o 
desejo de ter um pedaço de carne entre elas.



CARTA DE NOVA YORK PARA CASA, AGOSTO DE 1965:



Eu só queria que o senhor soubesse que continuo aqui, tentando dar certo.

Embora eu não coma todos os dias, está tudo bem comigo. Ainda tenho minha guitarra e meu amplificador, e enquanto os tiver nenhum idiota pode me impedir de viver.

Visitei umas gravadoras e acho que posso gravar alguma coisa para elas. Acho que vou começar a trabalhar nessa direção, porque quem quer construir o próprio nome tem que trabalhar por conta própria e não tocando na banda dos outros. Mas peguei a estrada com outros músicos para ganhar exposição junto ao público e ver como se faz e ter uma noção das coisas. Quando lançar um disco, já vou ser conhecido por algumas pessoas, que poderão ajudar a vendê-lo. Hoje em dia ninguém quer que você cante bem. Querem que você seja um cantor desleixado, mas que suas músicas tenham uma boa batida. É nisso que vou apostar. É aí que está a grana. Então, se daqui a uns três ou quatro meses o senhor ouvir um disco que soe terrível, não se envergonhe, apenas espere o dinheiro começar a entrar. A cada dia as pessoas cantam pior, de propósito, e os discos vendem cada vez mais.

Podia ser pior, mas vou continuar na luta até conseguir tudo o que mereço. Diga a todos que mandei um alô. Leon, vovó, Ben, Ernie, Frank, Mary, Barbara e todos os outros. Por favor responda logo. Me sinto muito sozinho aqui, sem ninguém por perto. Que no futuro tudo seja melhor e mais feliz.


Com amor, do seu filho Jimmy



Eu estava cansado, cara. Já não aguentava mais. Cheguei a perder a conta de 
quantas vezes tive que tocar as mesmas notas, o mesmo compasso. Lá, eu não era mais do que uma sombra, não conseguia enxergar nenhum sentido verdadeiro. Queria ter meu espaço, fazer minha própria música. Eu sempre quis muito, sabe? Sempre. Eu estava começando a ver que, com a guitarra elétrica, era possível criar toda uma nova realidade, porque não existe nenhum som parecido no mundo todo!

Eu estava com o cérebro cheio de ideias e sons, mas era difícil encontrar 
alguém com quem fazer o que estava na minha cabeça. Eu dizia para os meus amigos do Harlem: “Vamos para o Village tentar alguma coisa juntos.”

Mas eles tinham preguiça, tinham medo e achavam que não iam receber 
nada. Eu dizia: “É claro que vocês não vão ser pagos pela audição, porque somos nós que vamos lá, vamos nos impor, chegar até eles. No início, a gente tem que abrir mão de algumas coisas.” Eles não estavam dispostos a fazer isso, então fui até o Village e comecei a tocar do jeito que eu queria.



NO GREENWICH VILLAGE as pessoas eram mais simpáticas do que no 
Harlem, onde só existe frieza e mesquinharia. Eu não suportava aquilo, em nenhum lugar do mundo falam tão mal da gente quanto lá! No período que passei no Harlem, usava o cabelo bem comprido e, de vez em quando, o prendia ou fazia qualquer coisa com ele. Eu andava pela rua e de repente os garotos, as garotas, senhoras – todo tipo de gente! – ficavam me olhando de lado e dizendo: “Ai, o que será isso? O Jesus Negro?” ou “O que é isso, foi o circo que chegou?”.

Meu Deus! Na nossa própria área.


Quem mais nos machuca é nossa própria gente.


O Village era incrível. Eu ficava lá de bobeira, ganhava uns dois dólares por 
noite tocando e então tinha que encontrar um lugar para dormir. Para ter onde ficar, a gente tinha que passar uma cantada em alguém o mais rápido possível. Tive a sorte de tocar para John Hammond Jr. no Cafe Au Go Go. Foi incrível, porque o teto era muito baixo e empoeirado. Dava para enfiar a guitarra no forro. Era como na guerra. Não precisava nem de bomba de fumaça!



NA MESMA ÉPOCA em que estive no Village, Bob Dylan também andava 
passando fome por lá. Cheguei a vê-lo uma vez, mas estávamos ambos num porre dos diabos, fora do ar de tanta cerveja. Foi num lugar chamado Kettle of Fish. Tenho uma vaga lembrança. Estávamos tão chapados que só ficamos lá rindo. É, apenas rindo.

Da primeira vez que ouvi Dylan, fiquei admirado com sua coragem de cantar 
tão desafinado. Foi então que comecei a prestar atenção nas letras e aprendi a gostar dele.

Eu me cansava muito rápido, de tudo e de todos. Foi por isso que me 
aproximei de Dylan, porque ele me oferecia algo completamente novo. Ele andava sempre com um bloco para anotar o que via à sua volta. Ele não precisava estar chapado para compor, mas geralmente estava. Um cara como ele não precisa disso. Jamais consegui escrever letras como as dele, mas de certa forma ele me ajudou, já que tenho milhares de músicas que nunca vão ficar prontas. Eu simplesmente paro e escrevo duas ou três palavras, mas agora estou um pouco mais confiante para tentar terminar uma letra.



CARTÃO-POSTAL PARA AL HENDRIX, 1966:



Querido pai.


Bem… eu só queria escrever umas poucas linhas para que o senhor soubesse que vai tudo mais ou menos nesta grande e escabrosa cidade de Nova York. Está tudo dando errado por aqui. Espero que todos aí em casa estejam bem. Diga ao Leon que eu mandei um alô. Vou escrever uma carta em breve e tentarei mandar uma foto decente para o senhor. Espero que fique bem até lá. Diga ao Ben e ao Ernie que eu toco blues de uma maneira que eles NUNCA ouviram antes.


Com amor, sempre, Jimmy



A primeira vez que eu mesmo montei uma banda de verdade foi com Randy 
California. Acho que isso foi lá pelo começo de 1966. Mudei meu nome para Jimmy James e batizei o grupo de Blue Flames. Nada original, não é? Quase imediatamente recebemos propostas da Epic e da CBS, mas eu sentia que ainda não estávamos preparados. As gravadoras haviam começado a demonstrar algum interesse em mim quando eu estava tocando no Cafe Au Go Go, e, um ano antes, Mick Jagger havia tentado me colocar numa turnê. Mas meu grande golpe de sorte veio quando um camaradinha inglês convenceu Chas Chandler, o baixista do Animals, a vir dar uma escutada lá onde estávamos tocando.

O Animals estava fazendo seu último show junto no Central Park. Chas veio, 
me ouviu tocar e perguntou se eu gostaria de ir para a Inglaterra montar uma banda. Ele me pareceu um cara bem sincero, e eu ainda não conhecia a Inglaterra.

Eu disse: “Acho que sim”, porque é assim que eu vivo a vida. Se eu nunca 
tivesse ido a Memphis, seria capaz de passar fome para chegar lá. Eu não tinha nenhuma raiz, nada que me prendesse aos Estados Unidos, e não importa em que parte do mundo eu estou desde que possa viver e fazer as minhas coisas. Além disso, lá eu poderia tocar mais alto, poderia tomar um rumo na vida. Lá eu não teria tanta coisa para me atravancar, saca?, bloqueios mentais e coisas do tipo. O ambiente americano estava me sufocando. O país não estava se abrindo tanto quanto a Inglaterra.

Só espero que os caras que eu deixei para trás estejam bem. Estávamos 
ganhando uns três dólares por noite e passando fome. O jeito que eu saí não foi muito legal. Eles estavam todos pensando que iam também, mas, para mim, era mais fácil ir sozinho. Me senti meio mal comigo mesmo por sair daquele jeito, mas aquilo não era vida, entende?

Sempre tive a sensação de que, se estivesse certo, um dia eu teria uma 
chance. Levei muito tempo perambulando e tocando em troca de uma ninharia, mas acho que valeu a pena. Caramba! Acho que eu não aguentaria mais um ano tocando em função dos outros.

Ainda bem que Chas me salvou.





Manancial: Jimi Hendrix, Por Ele Mesmo

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