DESTAQUE

COMERCIANTES DO CAOS – PARTE UM

JIMI HENDRIX, POR ELE MESMO – CAPÍTULO 3


O conteúdo aqui traduzido foi tirado do livro Jimi Hendrix, Por Ele Mesmo sem a intenção de obter fins lucrativos. — RiDuLe Killah











CAPÍTULO 3


(Setembro de 1966 – Junho de 1967)


VOCÊ TEM EXPERIÊNCIA?








Palavras por Jimi Hendrix









ESTOU NA INGLATERRA, pai. Conheci umas pessoas, e elas vão fazer de mim uma grande estrela. Mudamos meu nome para… JIMI.



23 DE SETEMBRO DE 1966. Foi nesse dia que cheguei à Inglaterra. Tive que 
esperar no aeroporto durante três ou quatro horas porque eu não tinha um visto de trabalho. Em certo momento chegaram a falar sobre me mandar de volta para Nova York até que tudo estivesse resolvido. Agiam como se eu fosse fazer um monte de dinheiro na Inglaterra e depois levar tudo de volta para os Estados
Unidos!

Me mudei para um apartamento com Chas Chandler. Antes, ele era do Ringo. 
Na verdade, só outro dia vieram buscar a bateria. Há estéreos por toda parte e um banheiro muito bizarro cheio de espelhos. As reclamações começaram imediatamente. Começamos a receber queixas de festas com som alto tarde da noite mesmo quando não estávamos na cidade! A gente voltava na manhã seguinte e ouvia todas essas reclamações. Chas ficou realmente furioso por causa disso, mas eu não me deixei incomodar.



A PRIMEIRA VEZ QUE toquei guitarra na Inglaterra foi com o Cream. Gosto da 
maneira de tocar de Eric Clapton. Seus solos soam como os de Albert King. Eric é simplesmente demais. E Ginger Baker, ele parece um polvo, cara. É mesmo um baterista nato. Quando ele está tocando, tudo o que vemos são braços e pernas.

Não pude trabalhar muito porque não tinha um visto. Se eu quisesse ficar na 
Inglaterra, precisava ter trabalhos suficientes para conseguir um visto longo. Então, o que tínhamos de fazer era programar uma apresentação atrás da outra. Chas tem o telefone de muita gente. Ele me ajudou a encontrar um baixista e um baterista para formar o Jimi Hendrix Experience. Foi muito difícil achar os músicos certos para me acompanhar, gente que sentisse o mesmo que eu.

Depois de muitos testes, fizemos uma jam e Noel Redding apareceu por lá. 
Ele tinha vindo fazer uma audição para o New Animals, e, por acaso, estávamos no mesmo prédio. Noel gosta de um bom rock sem frescuras e tocava guitarra num grupo chamado The Loving Kind. Chas sugeriu que ele experimentasse tocar baixo. Curti o cabelo dele. Tudo funcionou com perfeição. Noel toca baixo com cabeça de guitarrista. É o que fazem quase todos os grandes baixistas. Eu o escolhi porque ele era capaz de tocar QUALQUER COISA no baixo.

Testamos uns vinte bateristas e Mitch Mitchell foi o melhor. Ele tocava com 
Georgie Fame and the Blue Flames e tinha saído da banda dois dias antes. Ele é um baterista mais clássico, do tipo R&B funky. Mitch é viciado em jazz e fica o tempo todo falando nesse tal de Elvin Jones. Uma vez ele me mostrou um disco de Jones e eu disse: “Cacete, é você tocando!”

Eu queria o menor conjunto possível com o máximo de impacto. Podiam ter 
sido dois, vinte ou dez músicos – mas acabou saindo um trio, o que é ótimo. Acho que ter um guitarrista para fazer o acompanhamento acabaria atrasando tudo, porque eu teria de mostrar a ele exatamente o que eu queria. Se você quer fazer alguma coisa é melhor fazer você mesmo, certo?

Até chegamos a tentar o órgão, por uns quinze minutos. Fazia com que 
soássemos iguais a todo mundo. Esse esquema de trio nos dá muita flexibilidade. Ainda conseguimos improvisar bastante, algo que faz falta a muitos outros grupos. Se eu tivesse dois bluseiros comigo acabaríamos parando no mesmo saco, o do blues, e não é isso que eu quero. Quer dizer, eu amo o blues, mas não ia querer passar a noite toda tocando a mesma coisa. Tem certos blues que, para mim, são intragáveis. Não me despertam nenhum sentimento. Não vamos entrar nesse lance de “Midnight Hour”.

Com a gente não tem essa de “Faça isso, faça aquilo!”, ninguém pode nos 
dizer “Toque assim ou assado!”.

Não queremos ser classificados em nenhuma categoria. Minha música não é 
pop. Sou EU. Na minha guitarra as notas são minhas, são nossas, não importa de onde tenham vindo.

Estamos tentando criar nosso próprio som, nossa própria música, nossa 
essência única. Estamos cuidando de nossa própria história particular, do que nós somos, até que isso fique claro dentro de nós.

É um trabalho de base, do fundamento da imaginação. Mas é uma coisa bem 
primitiva, sabe. É por isso que eu gosto que nosso nome seja EXPERIENCE. É isso mesmo.


[13 a 18 de Outubro de 1966, turnê de Johnny Hally day.]


Quatro dias depois de formarmos a banda, estávamos tocando no Oly mpia de 
Paris com Johnny Hally day, que é uma espécie de Elvis francês. Tocamos “In the Midnight Hour”, “Land of a Thousand Dances”, “Every one Needs Someone to Love” e “Respect”. Adoro o público do Oly mpia, é incrível. Na Europa, sucesso é tocar no Oly mpia de Paris, e os garotos de lá são como os do Apollo, no Harlem. Quer dizer, eles realmente entendem o que está acontecendo. Lá, ou você é bom ou está morto. Da primeira vez que tocamos lá, eles ficaram sentados de boca aberta sem saber como reagir. Mas não deixaram de escutar. Eu curti muito isso. Foi lindo.

Quando subimos ao palco, tudo se encaixa e acho que é isso o que importa.


Mitch e Noel são dois músicos excelentes, por seus próprios méritos, e 
complementam tudo o que faço com bom gosto e imaginação. Quando improvisamos juntos, tentamos ouvir uns aos outros. Não fazemos muitas concessões uns aos outros. Quero dizer, quando um pensa de um jeito, não vai abrir mão disso. É claro que nem sempre concordamos totalmente quanto ao rumo que nossa música vai tomar, mas de alguma maneira conseguimos combinar as coisas da melhor forma, de alguma maneira conseguimos fazer uma canção.

Parte disso tudo está em ver a reação que recebemos quando subimos ao 
palco. Tocamos bem pesado nos clubes. Os gerentes dos clubes acham que somos uma abominação, mas o público nos acha o máximo. Uma vez tocamos num lugar novo em Londres, o Upper Cut, com uma plateia de 5 mil pessoas. Quase morri de medo ao ver toda aquela gente! Mas fui em frente, fiz o que sentia que tinha que fazer e deu tudo certo.

No Saville Theatre eu tinha um dispositivo na guitarra que acendia as luzes 
sempre que eu tocava uma determinada nota. Eu queria um dia tocar uma nota e vê-la se transformar numa cor com luzes e imagens. Seria uma experiência completa!

Os Beatles vinham nos ver de vez em quando no Saville Theatre. Paul 
McCartney me contou que eles tinham planos de fazer um filme [Magical Mystery Tour] e ele queria que participássemos. Ainda éramos desconhecidos e McCartney estava tentando nos ajudar, mas tivemos outra boa oportunidade antes que eles fizessem o filme.

Os Beatles e os Stones são muito legais longe dos microfones, mas é tudo um 
negócio de família, tão de família que, às vezes, tudo começa a soar meio igual. Às vezes você não quer fazer parte da família. Acho que daqui a pouco todos os discos ingleses vão soar parecidos, como tudo o que vem da Motown é parecido. De certa maneira, isso é legal, mas o que acontece quando você quer fazer as
coisas do seu próprio jeito?



CARTÃO-POSTAL PARA AL HENDRIX, NOVEMBRO DE 1966:



Querido pai,
Bem… Mesmo tendo perdido o endereço, acho que devo escrever antes que eu esteja longe demais. Estamos agora em Munique, na Alemanha. Acabamos de passar por Paris e Nancy, na França. Agora estamos tocando em Londres. É onde estou ficando estes dias. Tenho meu próprio grupo e um disco que está para sair daqui a uns dois meses e que vai se chamar Hey Joe. Do Jimi Hendrix Experience. Espero que este cartão chegue até você. Vou escrever uma carta decente. Acho que as coisas estão indo um pouco melhor.


Com amor, do seu filho, Jimi



[16 de dezembro de 1966, primeiro single lançado no Reino Unido.]


“Hey Joe” era um número que todos nós curtíamos, por isso decidimos 
gravar. Enquanto estávamos trabalhando na música, acho que não a tocamos duas vezes da mesma maneira. Muita gente fez arranjos diferentes para ela, e Timmy Rose foi o primeiro a usar um ritmo lento. Gosto quando a tocam mais devagar. Devem existir umas mil versões rápidas, a do By rds, a do Standells, a do Love e muitas outras.

Foi a primeira vez que tentei cantar numa gravação. Eu estava apavorado. 
Chas me fez cantar a sério. Eu gostaria muito de ser um bom cantor, mas não sou. Apenas tento sentir as palavras. Passo a noite toda tentando alcançar uma nota bonita, mas me saio melhor na performance, na atuação, do que no canto. A base para mim é a guitarra. A voz é só uma outra forma de passar o que estou fazendo musicalmente.


[Fevereiro de 1967, “Hey Joe” chega à quarta posição na parada britânica.]


“Hey Joe” é na verdade uma canção de caubói com um arranjo blues. Não é 
muito comercial, então fico surpreso que tenha chegado tão alto na parada de sucessos. Fico imaginando como as pessoas vão reagir a nosso próximo trabalho, que é bem diferente. Escolheram “Love or Confusion” para ser nosso próximo single, mas eu estava com essa coisa na cabeça sobre um sonho que tive em que eu andava debaixo d’água no mar. Tem a ver com uma história que li numa revista de ficção científica sobre um raio púrpura da morte. O nome da música é “Purple Haze”!



Purple haze all in my brain,
Lately things don’t seem the same,
Actin’ funny, but I don’t know why,
’Scuse me while I kiss the sky.
Purple haze all around,
Don’t know if I’m coming up or down.
Am I happy or in misery?
Whatever it is, that girl put
A spell on me!
Purple haze all in my eyes,
Don’t know if it’s day or night.
You’ve got me blowing, blowin’ my mind.
Is it tomorrow or just the end
Of time?


[“Tenho o cérebro cheio de névoa púrpura,
Parece que as 
coisas já não são mais as mesmas,
Estou agindo estranho, mas nem sei por quê,
Com licença, vou beijar o céu.
Névoa púrpura por todo lado,
Não sei se estou subindo ou descendo.
Estou feliz ou infeliz?
Seja como for, essa garota
Lançou um feitiço em mim!
Tenho os olhos cheios de névoa púrpura,
Não sei se é dia ou noite
Você me fez perder, perder a cabeça
Será o amanhã ou só o fim
Dos tempos?”]




É sobre um cara que não sabe para onde está indo. Uma garota mexeu com 
esse cara e ele não sabe se isso é bom ou ruim – isso é tudo. Poderia ser sobre ir a lugares estranhos e diferentes, como a maioria das pessoas curiosas faz. Não tem nada a ver com drogas. A chave do sentido está no verso “that girl put a spell on me”. É a partir daí que a música se desenvolve.



A noite passada foi mesmo divertida.

Conheci uma garota e ela é incrível.
Eu disse, menina, o que você está fazendo?
Ela disse, bem, você sabe, tudo bem. E você?
Eu disse, olha, tudo na mesma, a maior chateação.
Fiquei curioso, o que você tem nesse saquinho aí?
Ela disse, esse?
Então ela abriu o saco, e aí… [microfonia].

Eu disse UAU! Fecha isso! Fecha isso! Cuidado, menina!

Ela meteu o polegarzinho no saco. Aí eu também enfiei os dedos e
Puufff!!!
Um nevoeiro púrpura!



[Lançada em março de 1967, “Purple Haze” chegou às paradas britânicas em

seis dias e alcançou a terceira posição.]


Eu jamais diria que minha música é psicodélica. Há dez anos, já tinha gente 
nos Estados Unidos tocando isso que hoje em dia chamam de psicodélico. Vemos esses caras dizendo “Olha só essa banda, estão tocando música psicodélica”, quando na verdade tudo o que estão fazendo é tocar “Johnny B. Goode” com os acordes errados e sob raios de luz.

Aqueles que se chamam de psicodélicos são tão ruins. Eu detestaria entrar 
numa viagem e ouvir todo aquele barulho. Freak-out, psicodelia, tudo isso é muito limitado. Não quero que ninguém cole uma etiqueta de psicodélico no meu pescoço. Prefiro Bach ou Beethoven. Não me entenda mal, adoro Bach e Beethoven. Tenho muitos discos deles, e de Gustav Mahler também.

De maneira geral, acho que é um erro tentar separar diferentes tipos de 
música em pequenas categorias. Na verdade, não precisa existir um nome específico para cada tipo de música. O nome da banda já é o bastante, não é? Você pode escutar uma coisa ou outra e dizer “Ei, isso é bom”, mas nossa música é como aquele baleiro ali. Tudo misturado. É uma mistura de rock, blues e jazz,
uma música que ainda está se desenvolvendo, que só está chegando agora, uma música do futuro. Se o rótulo for obrigatório, queria que a chamassem de “Free Feeling”. É uma mistura de rock, freak-out, blues e rave music. Meu som rock-blues-funky-freaky.

Fui influenciado por tudo ao mesmo tempo – Muddy Waters, Jimmy Reed, 
Chet Atkins, B.B. King. Eu curtia Howlin’ Wolf e Elmore James, mas me interessava por outras coisas também – Ritchie Valens, Eddie Cochran e “Summertime Blues”. E também seria possível dizer que fui influenciado por Bob Dylan e Brian Jones. Eu escuto de tudo, de Bach aos Beatles. Veja, misturando essas coisas todas e ouvindo tudo ao mesmo tempo, para que lado você vai?

Eu gostava deles por eles mesmos, não pelo que poderia extrair deles ou 
querendo ser como eles. Não estou copiando o que já ouvi. É como um bebê acostumado com sua chupetinha, até que cresce e não pensa mais nela. Você precisa curtir tudo para depois ter suas próprias ideias. Ouvir de mais e fazer de menos pode deixar você meio maluco.



DOS CARAS QUE EU ESCUTO HOJE, muitos são britânicos. É quase como 
estar nos Estados Unidos! Não acredito que eles possam soar exatamente como os americanos, mas uns poucos conseguem. Stevie Winwood e Spencer Davis são os que mais se aproximam desse sentimento. E Tom Jones! Por quê? Acho que eles estão cansados de ouvir todos aqueles discos de Herman’s Hermit. Se eles podem mesmo curtir um cara como Ray Charles, que, quando se fala de soul, é um dos maiorais de todos os tempos, não é tão surpreendente que tenham mesmo esse sentimento cheio de soul. Isso mostra que sabem escutar.

Você é de Sagitário?


Constantemente. Do dia 27.


Traços pessoais?


1,80 metro; 68 quilos; olhos castanho-escuros – às vezes negros; cabelo castanho-escuro.


Origem do nome artístico?


88% da minha certidão de nascimento, 12% de erros de grafia.


Algum animal de estimação?


Minhas duas guitarras com espírito de bicho.


Comida e bebida favoritas?


Espaguete, torta de morango com chantilly e torta cremosa de banana. Gosto 
também dos pratos típicos dos negros do Sul – verduras e arroz.

E a culinária inglesa?


Meu Deus! Cara. Olha, a comida inglesa é difícil de explicar. Os ingleses servem 
quase tudo com purê de batata, e eu não tenho nada de bom a dizer sobre isso!

O que você pensa de Londres?


A atmosfera aqui é de outro tipo. As pessoas são mais educadas. Gosto de todas 
as ruazinhas e butiques. Parece uma terra encantada. Mas sabe o que mais me atrai em Londres? Ficar só olhando as garotas passarem. É uma cidade fantástica para os observadores de garotas. Elas são todas tão bonitas e de tantas nacionalidades diferentes.

Você fuma?


Se não fumasse, seria gordo como um porco. Meus nervos são muito ruins. 
Normalmente, prefiro cigarros com filtro, que vou alternando com mentolados – um maço dura mais ou menos um dia e meio.

Você tem algum hobby?


Gosto de observar raios. Especialmente os que caem no campo e sobre as flores, 
quando estou sozinho. Leio muita ficção científica. E adoro ler contos de fadas, como Hans Christian Andersen e O ursinho Pooh.

Do que você não gosta?


Não gosto de coisas banais nem de gente arrumadinha demais, com sobrancelhas 
muito bem-feitas.

Que tipo de pessoa é você?


Sou meio quieto, meio fechado. Na maior parte do tempo, não falo muito. O que 
tenho a dizer, digo com a guitarra.

Planos imediatos?


Quero ficar na Inglaterra. Nos Estados Unidos eu sempre tocava atrás dos outros, 
e tenho dificuldade para me conter. É muito melhor agora que tenho meu próprio grupo. Acho que não vai ser difícil conseguir um visto de trabalho e tudo o mais desde que eu seja um bom menino.

Qual a importância da sua música para você?


Para nós é muito importante. Se pararmos de tocar não vamos ter dinheiro para 
comprar comida.

Ambição profissional?


Quero ser o primeiro homem a escrever sobre a cena blues de Vênus.


Ambição pessoal?


Ver minha mãe e minha família de novo.


Há quanto tempo está fora de casa?


Uns sete anos. Eu nem conheci minha irmã de seis anos. Só liguei para meu pai 
uma vez, quando cheguei à Inglaterra, para que ele soubesse que conquistei alguma coisa.

O que ele disse?


Ele me perguntou quem eu tinha roubado para conseguir o dinheiro para viajar. 
Na verdade, tenho medo de voltar para casa. Meu pai é um homem muito rígido. Ele iria me agarrar na mesma hora, arrancar minhas roupas e cortar meu cabelo! Queria ter dinheiro suficiente para mandar para casa, para meu pai. Ainda vou construir uma casa para ele. Só de implicância mesmo, e porque foi ele quem comprou minha primeira guitarra.

Por que você usa esse cabelo?


Acho que é porque quando eu era pequeno meu pai estava sempre cortando meu 
cabelo e eu ia para a escola parecendo uma galinha depenada. Talvez isso tenha criado um complexo em mim.

Você usa pente?


Não, uso uma escova. Um pente ficaria preso. Uma garota me perguntou se 
podia pentear meu cabelo. NINGUÉM penteia meu cabelo. Nem eu posso pentear meu cabelo. Mas acho esse cabelo incrível. Uma Shirley Temple estilo mod. Um permanente crespo. De qualquer maneira, é melhor do que ter um cabelo liso e sem graça. Veja, os cachos são vibrações. Se o seu cabelo for liso e apontando para o chão, você não tem muitas vibrações. Mas, desse jeito, tenho vibrações se projetando para todos os lados.

Qual a necessidade de se vestir de maneira tão peculiar?


Bem, na verdade não acho que isso seja mesmo necessário. É assim que eu gosto 
de me vestir, é a aparência que eu quero ter no palco e fora dele. Gosto de tons de cor conflitantes. Sempre quis ser um caubói, ou Hadji Baba, ou o Prisioneiro de Zenda. Antes de eu entrar no palco, meu produtor me diz: “Jimi, seu desleixado, você não vai entrar no palco desse jeito hoje, vai?” E eu digo: “Assim que eu terminar meu cigarro… estarei vestido e pronto.” Eu me sinto confortável assim.

Para onde está indo a moda?


Não sei, e não dou a mínima, se você quer saber. Pode ser que as pessoas se 
vistam com lençóis de várias cores, como nos tempos antigos. E não me faça essas perguntas idiotas sobre se uso cueca ou não. Acho que vocês deviam ter arranjado outra pessoa para fazer esta entrevista.



As PESSOAS ME PERGUNTAM se esse cabelo e essas roupas são só para 
chamar atenção, mas isso não é verdade. Eu sou assim mesmo. Não gosto de ser mal interpretado por nada nem por ninguém, então, se quero usar uma bandana vermelha e calças turquesa e se quero deixar o cabelo crescer até os tornozelos, é assim que eu sou. Todas essas fotos que vocês têm visto, em que estou de smoking e gravata-borboleta, tocando na banda de apoio de Wilson Pickett, são de quando eu tinha medo e vergonha de ser eu mesmo. Meu cabelo e minha mente estavam domados.

A jaqueta que estou usando agora é do Corpo de Veterinários do Exército 
Real. É de 1898, se não me engano. Um ano muito bom para uniformes. Uma noite dessas, eu estava a um quarteirão do Cromwellian Club, usando essa roupa. E chegou uma viatura com uma luz azul, e uns cinco ou seis policiais pularam na minha direção. Eles me encararam bem de pertinho, com ar sério. Então, um deles aponta para minha jaqueta e diz: “Isso é britânico, não é?” E eu respondi: “É, acho que sim.” Foi aí que eles fecharam a cara e disseram: “Não era para você vestir isso. Homens lutaram e morreram nesse uniforme.” Tinham a vista tão ruim que não conseguiam ler as letras pequenas dos distintivos.

Então eu disse: “É, no Corpo de Veterinários? Acontece que eu gosto de 
uniformes. Usei um por bastante tempo no exército dos Estados Unidos.” Eles disseram: “Como? Está querendo dar uma de esperto? Mostre seu passaporte.” Eu mostrei. Tive que convencê-los de que meu sotaque era americano de verdade. Então me perguntaram em que grupo eu tocava e respondi que era o Experience. Eles riram do nome e fizeram umas piadas racistas. Depois de mais algumas gracinhas e de terem se divertido bastante, disseram que não queriam me ver de novo com aquela roupa e me deixaram ir. Quando eu estava indo embora, um deles disse: “Ei, você disse que é do Experience. O que você está experimentando?” Eu disse “Um ABUSO”, e me mandei o mais rápido que podia.

As pessoas têm idéias estranhas sobre a gente, mas eu não ligo para o que 
pensam de nós. E vamos seguindo em frente, porque nessa vida você tem que fazer o que está a fim de fazer. Tem que deixar a mente e a imaginação correrem soltas.

Sabe qual é o meu maior problema? Eu simplesmente não consigo olhar para uma câmera e sorrir quando não estou a fim. Não consigo mesmo. É como ficar feliz só porque alguém mandou! Seja como for, os fotógrafos sempre tentam me deixar com cara de mau. Para começo de conversa, de todas as fotos que tirei para publicidade, só foram escolhidas aquelas em que eu aparecia bem carrancudo. Jogamos fora todos os sorrisos e selecionamos os horrores. Isso fez de mim uma espécie de monstro. Sinceramente, não sei por que as pessoas gostam de me ver como uma figura de horror. Elas adorariam que eu parecesse uma espécie de canibal! O que eu acho é que era preciso começar com esse lance visual antes para depois fazer com que as pessoas quisessem me escutar.


[No final de março de 1967, o Hendrix Experience já havia feito mais de oitenta 
apresentações no Reino Unido, na França e na Holanda. Para os tabloides britânicos, Hendrix era o “Selvagem do Pop”.]


Algumas pessoas perguntam que diabos sou eu. Será que estamos sendo 
invadidos? Mas os comentários não me incomodam. Antes, eu escutava o que essa gente dizia, ia embora e ficava deitado na cama sofrendo. Mas não dá para se preocupar com isso. São só pessoas convencionais querendo que o mundo todo seja convencional com elas. Resolvemos ser uma viagem, é por isso que somos assim. Queremos realmente tirar essa gente do sério quando tocamos.

Tocamos muito, muito alto. Fazemos isso para criar um certo efeito, para que 
tudo seja o mais físico possível, para atingir as pessoas em cheio. Tem que machucar. Estávamos na Holanda fazendo um programa de TV e os equipamentos eram os melhores. Disseram que podíamos tocar bem alto, e estávamos nos divertindo quando essa bichinha entra correndo e grita: “Para! Para! O teto do estúdio de baixo está caindo!” E estava mesmo, até o forro de gesso! Gosto de tocar alto. Sempre gostei de tocar alto.

Sou acusado de exagerar na eletricidade, mas acontece que eu gosto de sons 
elétricos, de microfonia e tudo o mais. Estática. As pessoas fazem barulho quando batem palma e nós respondemos com mais barulho. No sentido musical, “freak-out” é quase como tocar notas erradas. É tocar as notas ao contrário do que você acha que as notas deveriam ser. Se você souber como fazer, com o nível certo de microfonia, o resultado é bem interessante. É como tocar as notas erradas, mas a sério, saca? É muito divertido.

Nunca usamos artifícios gratuitos. O que acontece no palco faz parte do que 
eu faço. Quer dizer, meus movimentos servem para extrair tudo o que minha guitarra pode dar. Às vezes eu salto em cima dela, outras vezes arranho os trastes com as cordas. Quanto mais eu maltrato as cordas, mais a guitarra geme. Às vezes eu esfrego a guitarra no amplificador, sento em cima dela, toco com os dentes, ou então estou tocando normalmente e me dá vontade de tocar com o cotovelo. Nem me lembro de todas as coisas que faço. É só o meu jeito de tocar. Eu morreria de tédio se não desse tudo de mim.

A coisa que eu mais odeio é fazer play back. É tão falso. Pediram que eu 
fizesse isso quando me apresentei na Radio London e me senti culpado de ficar lá no palco segurando a guitarra. Não consigo sentir a música assim. Não dá para achar que eu vou tocar com os dentes quando tem uma gravação tocando no fundo. É loucura.

Para tocar com os dentes, você tem que saber o que está fazendo ou pode 
acabar se machucando. Em todo lugar que eu vou ouço falar de um grupo que quis nos imitar, sobre um camarada que tentou tocar guitarra com os dentes e que acabou com os dentes todos espalhados pelo palco. “É isso que acontece quando você não escova os dentes”, digo a eles. Nunca quebrei nada tocando, mas já pensei – para fazer um efeito, é claro – em botar uns pedacinhos de papel na boca antes do show e depois cuspi-los como se todos os meus dentes estivessem caindo!



MUITA GENTE ACHA VULGAR o que eu faço com a guitarra. Não acho que 
seja vulgar. É sexy, talvez, mas acho que isso vale para qualquer música com uma boa batida. A música é uma forma de expressão tão pessoal que não poderia deixar de exprimir o sexo. Qual o problema disso? É tão vergonhoso assim? É mais vergonhoso do que esses anúncios eróticos que a gente vê nos jornais e na televisão? O mundo gira em torno do sexo. A música deve estar conectada às emoções humanas. Duvido que você encontre algo mais humano do que o sexo. Aqueles que nos acham sujos são os mesmos que não querem deixar Joan Baez cantar suas canções contra a guerra em público.

Eu toco e me movimento seguindo meus sentimentos. Não se trata de um ato 
teatral, mas de uma maneira de ser. Minha música, meu instrumento, meu som, meu corpo agem em unidade com minha mente. É como se eu entrasse num barato de conexão entre mim e a música. A música, na verdade, é como um barato rápido e prolongado. Aquilo que para algumas pessoas da plateia pode ser sexo ou amor, para mim é só uma viagem que me deixa chapado. Se alguém acha que nosso show é sexy, ótimo. Se nosso show passa outras sensações, ótimo também. Se a música servir para que eles se sintam livres e façam o que pensam ser melhor para si mesmos, isso já é um avanço.

Só não quero que ninguém fique passivo.



[Em 31 de Março de 1967, o Jimi Hendrix Experience entra em turnê com os 
Walker Brothers.]


Na primeira noite da turnê com os Walker Brothers eu comecei a me 
preocupar. No mundo especializado do blues eu sabia me situar, mas agora estava diante de um público que tinha ido lá para ver os Walker Brothers, Engelbert Humperdinck e Cat Stevens. Estávamos abrindo os shows de todos os queridinhos do público, então precisávamos levantar a plateia. Tínhamos que sacudi-los com toda a força.

Os que vieram ouvir Engelbert cantar “Release Me” podem não curtir meu 
som, mas isso não é nenhuma tragédia. Numa situação desse tipo, não dá para fazer muita coisa. O jeito é tocar para nós mesmos. Já fizemos isso antes, com platéias que ficam paradas de boca aberta e demoram dez minutos para começar a aplaudir.

Não estou tentando agradar as menininhas nem os velhos. Só quero ser 
honesto, ser eu mesmo. Não imagino que as mesmas pessoas que compram os discos do Engelbert também estejam comprando os meus, a não ser que sejam maníacos por música que compram tudo que está na parada de sucessos. Teve uma noite em que me sentei e escutei o Engelbert. A voz dele é muito boa mesmo. É perfeita. Quem não tem muita imaginação talvez precise ser bonito e ter uma voz perfeita.



CARTA A UM FÃ, ABRIL DE 1967:




Caro David,



Fique numa boa. Lamentamos dizer que, no momento, não temos mais nenhuma foto nossa. Uns caras roubaram todo o estoque do ônibus da turnê. Mas todos nós (os três) ficamos felizes com sua carta, que veio num momento tão crucial (Walkers, Hump, Cat, tudo contra nós).



Obrigado mais uma vez e tudo de bom.


Do Jimi Hendrix Experience




OS CHEFES DA TURNÊ ESTÃO transformando nossa vida num inferno. Não sei 
se é assim em todas as turnês, mas eles não nos deixam nem afinar os instrumentos antes de entrarmos no palco. E quando o show está para começar, descubro que a guitarra que acabei de afinar está completamente desafinada ou com uma corda partida. Nem sei o que dizer sobre isso. Eles simplesmente estão pouco se lixando para a gente. Eles dizem que somos obscenos e vulgares. Nós nos recusamos a mudar nossa postura, e o resultado é que meu amplificador às vezes é cortado nos momentos mais divertidos.

A cada noite sou ameaçado pelo produtor, mas ele não vai me fazer parar. 
Sempre me apresentei assim desde que cheguei à Inglaterra. Não há absolutamente nada de vulgar nisso. Não consigo imaginar de onde essa gente tira essas ideias. Mas eles não vão se livrar da gente a não ser que sejamos oficialmente desligados da turnê.

Algumas coisas nós fazemos por publicidade, é claro. Quer dizer, aquela 
história da guitarra em chamas foi toda armada. Nós jogamos um monte de gasolina e acendemos um isqueiro. Os seguranças ficaram malucos, mas saímos em todos os jornais! Lembro do produtor, que estava por dentro da armação, gritando comigo e sacudindo o punho, aos berros: “Você não pode fazer essas coisas, Hendrix! Vou tirar você da turnê!” Enquanto isso, ele estava escondendo as provas contra mim debaixo do casaco – minha guitarra queimada que toda a polícia e os bombeiros estavam procurando.



A EXPERIÊNCIA DA TURNÊ foi boa, mas a programação dos shows estava 
errada. Era eu quem incendiava o palco para os que vinham depois. O tal Engelflumplefuff não tinha nenhuma presença de palco. Ele não empolgava. Ninguém se movia, viravam pedra. Mas conseguimos nos divertir, apesar de todos os aborrecimentos.

Aprendi muito sobre as plateias britânicas, afinal nos apresentávamos duas 
vezes por noite. Depois de cada show, Chas e eu conversávamos sobre como tudo tinha corrido e o que poderíamos melhorar. No teatro de Luton, um cara deu um salto de uns seis metros de cima de uma caixa para o palco só para apertar a mão da gente. Saíamos pelos fundos do palco, onde estavam as tietes, e pensávamos, “Ah, elas não vão ligar para a gente”, mas acabávamos todos rasgados! Uma das meninas agarrou minha guitarra, dizendo: “É minha.” Eu respondi: “Você só pode estar louca!” Leicester era outro lugar em que fazíamos sucesso.

Fico envergonhado ao ouvir os elogios de um apresentador antes de entrar no 
palco, ou quando vejo meu nome no letreiro luminoso de um teatro. Não consigo acreditar que isso está acontecendo comigo. Às vezes a plateia grita “Hurra” tão alto que eu me apavoro. Tenho vontade de dizer: “Mais baixo!” Mas na verdade eu gosto. Dá até vontade de chorar.

Nós três tivemos meio que um pressentimento de que estávamos no caminho 
do sucesso, pelo menos na Inglaterra. É estranho, porque muita gente nem sabe quem é cada um de nós. Quando damos uma entrevista coletiva, somos três pontos de interrogação e temos que explicar quem é quem. Acho que daí já se vê que nosso sucesso foi conquistado tocando.


[Em Maio de 1967, seis dias após ser lançada, “The Wind Cries Mary ” chegou às 
paradas britânicas. Ficou entre as mais tocadas por onze semanas e alcançou a sexta posição.]


Não entendo como isso aconteceu tão de repente, mas nossos discos 
começaram a vender loucamente. “Purple Haze” está até agora nas paradas. Nunca imaginamos que chegaria a tanto. Talvez tivesse sido melhor deixar a poeira baixar antes de lançar “The Wind Cries Mary ”. Mas na Inglaterra você tem que estar lançando um disco novo o tempo todo. Eles têm a cabeça muito rápida e logo se cansam das coisas. Os ingleses às vezes conseguem ser muito bizarros, e isso me empolga.

Ninguém pode me culpar por ser egoísta e querer que nossas músicas 
cheguem ao público o mais rápido possível. Não gosto nada de ficar para trás. Quem se interessa, quem se envolve de verdade com a música tem essa fome imensa. Quanto mais a gente contribui, mais a gente quer fazer. Isso deixa você mais faminto ainda, mesmo comendo várias vezes por dia.



EU SIMPLESMENTE GUARDO música dentro da cabeça. Os outros só vão 
escutar quando entramos no estúdio. Foi assim com “The Wind Cries Mary ”. Estávamos ensaiando no palco quando a ideia me ocorreu. A letra veio primeiro e depois foi só encaixar a melodia. A coisa toda se desenrolou sem dificuldade. Nós gravamos em uns dois takes.

Expliquei minha ideia a Noel e Mitch e tocamos até a metade para que Chas 
fizesse os ajustes no estúdio. Em seguida, tocamos a música inteira uma única vez. Seis minutos depois o material estava pronto para ser mixado e prensado. Nunca gravamos mais de cinco ou seis takes num estúdio. É muito caro! Quando estamos trabalhando num disco conversamos sobre muita coisa, mas nunca sobre a música que vamos gravar. Contamos piadas, bebemos e fumamos. Temos que entrar no clima antes de começar. Não é nada fácil. Prefiro tocar diante de uma plateia. Para me orientar preciso sentir a reação do público. É assim que eu entro no clima. No estúdio você não tem isso.

Eu me vejo mais como músico do que como compositor. Só componho 
minhas próprias canções para não ter que tocar as dos outros. Chas às vezes me dá uma mãozinha com as letras. Ele muda algumas palavras para que a música soe melhor. Não me considero um compositor, mas adoraria ser reconhecido como tal.

Desde que Bob Dylan apareceu implicam com ele, dizendo: “Esse cara canta 
que nem um cachorro de pata quebrada!” Mas quem diz isso não entende as palavras dele. Para entender de verdade seria bom comprar um livro com as letras para saber o que ele está dizendo. Todo mundo quer saber o que aconteceu com a poesia nos dias de hoje. Bem, ela está por aí em todo lugar. É só escutar os discos.

Dylan me inspira. Não que eu queira soar como ele – eu só quero soar como 
Jimi Hendrix –, mas, para ter um som pessoal, você tem que compor suas próprias músicas. Já fiz umas cem músicas, mas a maioria ficou pelos quartos de hotel de Nova York de onde fui expulso. Escrevo um monte de letras em caixas de fósforos, guardanapos, em qualquer lugar. Às vezes a música vem quando estou sentado de bobeira e me lembro de algo que já escrevi. Então, se eu conseguir achar o que já está escrito, eu aproveito.

As músicas podem vir de qualquer lugar. Das coisas que você vê, das 
experiências que você tem na vida. Mesmo quem vive fechado num quartinho vê muita coisa, e, com um pouco de imaginação, as músicas vêm. Passo muito tempo sonhando acordado. Adoro ficar quieto e deixar a imaginação correr solta. Aparece todo tipo de pensamento interessante, e músicas também. Preciso esperar que elas venham até mim, mesmo que tenha uma gravação marcada para daqui a minutos. Eu não poderia simplesmente continuar fazendo as coisas por dinheiro para sempre. Só quero despertar as pessoas para que elas saibam o que está acontecendo. É para isso que estou aqui.



A ÚNICA MANEIRA que eu tenho de me expressar por completo é através da 
música. A maioria das músicas, como “Purple Haze” e “The Wind Cries Mary ”, tinha umas dez páginas, mas tive que cortar todas elas. Pode ser que, no corte, o sentido tenha se perdido um pouco, o que é uma droga. O problema é que um single não pode passar de seis minutos. Antes eram três, o que é pior ainda. É como se antes só pudéssemos dar aos leitores uma página do livro. Agora já podemos dar três ou quatro, mas nunca o livro inteiro.

“The Wind Cries Mary ” é sobre uma garota que tinha uma certa inclinação 
para falar de mim com as amigas. Uma hora ela dizia que eu era um cachorro, e no minuto seguinte falava o oposto absoluto. Mas no fundo ela era uma garota legal. É só uma história de fim de namoro, de dois namorados que se separam. Como os sinais de trânsito que amanhã ficam azuis. Isso significa apenas ter uma sensação ruim por dentro. Não tem nenhum significado oculto. É só uma música lenta, é assim que eu vejo.

Na música você tem que falar logo a verdade, sem enrolação. A idéia é ser 
bem básico. Minhas letras não precisam ser brilhantes. Eu só falo o que estou sentindo. Quem quiser, quem achar interessante, fique à vontade para discutir o que eu quis dizer. O que eu quero é que a música e as palavras sejam ouvidas como uma coisa só. Às vezes, uma letra tem só cinco palavras, a música diz o resto. No lugar da frase “Quer fazer amor comigo esta noite?”, o que se ouve é um estrondo repentino. Dá para transformar um som num acontecimento.

Você pode pegar um barulhinho como o de uma gota caindo e aplicar uns 
efeitos, como inversão e eco, para dar ênfase a determinado ponto. Se a música briga com a letra ou se a letra destoa da música, alguma coisa está errada. O casamento entre as palavras e a melodia tem que ser perfeito.


[12 de Maio de 1967, o Experience lança seu primeiro álbum no Reino Unido.]



Nosso primeiro álbum vai se chamar Are You Experienced?. Não tem nada de 
errado com isso!

Para começar, não quero ninguém achando que fizemos uma coletânea de 
músicas “freak-out”. É um disco muito pessoal, como todos os nossos singles. Acho que o trabalho pode ser visto como um álbum de improviso, já que boa parte dele foi feita na hora.

É uma coleção de sensações livres e imaginação. Tem canções para meninas 
adolescentes, como “Can You See Me”, e coisas mais no estilo blues. Só duas músicas podem dar um barato ruim para quem ouve chapado – “Are You Experienced?” e “May This Be Love”. Mas são só canções de paz. Servem para relaxar, como se fossem sombras meditativas. Escutar essa música deve servir para deixar a mente serena.

A chave das minhas letras é a imaginação, e o resto é uma pincelada de 
ficção científica. Gosto de escrever histórias míticas, como a das guerras em Netuno e a da origem dos anéis de Saturno. Cada um pode escrever sua própria mitologia.

“Third Stone from the Sun”, a terceira pedra a partir do Sol, é a Terra. É isso. 
Temos Mercúrio, Vênus e depois a Terra. Esses caras vêm de outro planeta, passam um tempo observando a Terra, acham que as criaturas mais inteligentes daqui são as galinhas e que não temos mais nada a oferecer. Eles não veem nada que valha a pena conquistar nem gostam muito dos terráqueos. No final, explodem tudo.

“I Don’t Live Today ” é dedicada aos índios americanos e a todas as minorias 
reprimidas. É uma música “freak-out”. É melhor eu mesmo dizer isso porque é o que todos vão acabar falando de qualquer maneira. Quer saber o que isso significa? Eu explico, mas não vá pensar nenhuma besteira. “Freak-out” era uma antiga gíria californiana que significava transar no banco traseiro de um carro. O sentido é esse, perversão sexual. Bem, era isso que a expressão queria dizer. Estou apenas sendo franco e acho que vou acabar sendo deportado por causa disso.

“Manic Depression” fala de tempos ruins. Tão ruins que dá para sentir 
fisicamente. É a história de um cara que sonha em fazer amor com a música em vez de com a mesma velha mulher de todos os dias. Uma música sobre frustração, um blues dos dias de hoje.

A natureza da música inglesa pede quilos e mais quilos de melodia. As 
canções folclóricas irlandesas precisam de melodias complicadas. Sou da América. O blues está no meu sangue e não precisa de tanta melodia. É mais uma questão de ritmo, de sentimento, mais pé no chão. Se quiser, pode chamar isso de soul. Todo mundo quer saber o que é o soul americano. Acham que é a Motown. Eu acho que aquilo é o fim. O soul americano é algo como “Red House”. É esse o tipo de R&B que pode chegar ao top 500. É, gosto dessa música. E temos mais coisas na mesma linha.

E temos também músicas como “Foxy Lady ”. Não tenho vergonha de dizer 
que não sei compor músicas alegres. Na hora de criar uma canção, eu não me sinto muito feliz. “Foxy Lady ” deve ser a única música alegre que fiz. O microfone estava preparado, eu tinha essa letra e nós começamos a tocar. Repassamos o material algumas vezes e as ideias iam pipocando em nossas cabeças. Se você tem uma sacação legal, tem que anotar na hora.

Esse monte de sons que vocês estão ouvindo são todos feitos com uma 
guitarra, um baixo, bateria e vozes reproduzidas numa velocidade mais lenta. A microfonia vem de um amplificador comum e de um pedalzinho que eu montei. Não usamos nem mesmo um oscilador. Para muita gente, isso é de endoidar…

Quem mais trabalhou nisso foram Chas Chandler e Eddie Kramer. Eddie foi o 
engenheiro e Chas, como produtor, cuidava para que tudo estivesse em ordem. Não tenho certeza, mas acho que em alguns momentos esse material pode ser avançadíssimo. Fiquei satisfeito com o resultado, mas estou ansioso por coisas novas.


[Are You Experienced? permaneceu nas paradas britânicas por 33 semanas, 
chegando ao segundo lugar, atrás de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Na segunda quinzena de maio, o Jimi Hendrix Experience tocou na Alemanha, na Dinamarca e na Suécia, quebrando recordes de público.]


Gosto da Suécia. O sucesso dos shows foi muito maior do que o esperado para 
uma primeira visita. Quando tocamos no Tivoli Gardens, o sistema de som era muito ruim e o público também não ajudava. Mas a outra apresentação que fizemos naquela mesma noite foi ótima. Os garotos são incríveis. Eles ficam quietos prestando atenção na minha música e parece que entendem.

A Suécia é o país mais bonito do mundo. Muita gente morreria de tédio 
naquele lugar, sobretudo os mais jovens, porque lá não tem nada para fazer. Mas é justamente isso o melhor que eles têm a oferecer, paz e tranquilidade. Para descansar, é fantástico. E as garotas são muito mais legais do que em qualquer outro lugar. Dá para conversar decentemente com elas, quer dizer, não que não dê para fazer isso com as garotas de outros países, mas é muito mais legal conversar com as suecas.

Nunca descobri tanta coisa quanto na Suécia. Ouvimos caras que tocavam em 
espeluncas e boates do interior tirando um som quase inimaginável. De tempos em tempos eles aparecem como uma onda. Conseguem tocar fundo na personalidade uns dos outros, até serem arrastados pelas forças “malignas” da ressaca da noite anterior. Dá para ouvir quando eles começam a sumir. Mas então eles se levantam de novo. Acho que é uma espécie de onda que vai e vem.


[No início de Junho de 1967, o Experience tocou no Pop Festival do Palais de Sports, em Paris, e voltou a Londres para shows no Saville Theatre, entrevistas e sessões de fotos.]



Nós queremos ser controversos. Não somos “bons meninos” e nossa música 
não é “doce”. Não acreditamos em ensaiar. Os ensaios só servem para coisas mais técnicas, como checar o som dos amplificadores. Não queremos planejar nossa música. Queremos que ela seja uma surpresa para o público e para nós mesmos. Além disso, ninguém mais aceita receber nossos ensaios. Dizem que tocamos alto demais!

No palco, eu sei exatamente o que estou fazendo. Não fico tentando comover 
o público. O que eles vão tirar da música é problema deles. Basta estar lá para sentir. Na verdade, dá para sentir antes de começar a tocar. E então, na primeira nota, a gente já sabe onde está pisando.

Quando o público ajuda, tudo funciona. Mas se eles ficam lá sentados fazendo 
cena, eu não quero nem saber. Afinal, não estou tentando passar nenhuma mensagem para ninguém.

Quando o público curte o seu som, é natural ficar empolgado, e isso ajuda. 
Mas uma plateia ruim também não me incomoda, porque é uma oportunidade para praticar, para azeitar as engrenagens. Se eles pagaram para nos ver, vamos fazer o que sempre fazemos. Se acrescentamos um pouco de entretenimento, de circo, isso é só um benefício extra. Mas estamos lá para fazer música. Tocar, para mim, é sempre um prazer e não me importa que vaiem – desde que as vaias sejam afinadas!

Hoje, o sentimento das pessoas por nós não tem nada de ambíguo. Ou gostam 
ou não gostam. Se alguém critica minha música – bem, depende de quem faz a crítica. Se eles não entendem, é porque estou dois anos à frente deles. Ou será que estou dois anos atrasado? Não dou a mínima, desde que tenha o suficiente para comer e para tocar o que quero. Isso me basta.

Penso que estamos entre os caras mais sortudos deste mundo, só tocamos o 
que queremos e parece que as pessoas gostam. Nunca pretendi fazer um som comercial. Eu nem sei como deve soar um disco de sucesso. Só quero continuar tocando e gravando o que me dá prazer. Jamais quero ter que me curvar ao comercialismo.



NÃO SE ESQUEÇA QUE Jimi Hendrix EUA nunca teve nenhuma chance, 
porque estava sempre tocando atrás de alguém. Foi então que a coisa aconteceu – graças a Chas e a Mike Jeffery. Foram eles que acreditaram que eu daria certo aqui. Quando me viu no Greenwich Village, Chas disse que isso tudo iria acontecer, e aconteceu.

A Inglaterra hoje é a nossa base. Não é a minha casa, mas é o nosso começo, 
nosso nascimento. Eles nos acolheram como bebês perdidos. Devemos ficar aqui até mais ou menos o final de junho. Depois, vamos ver se conseguimos alguma coisa nos Estados Unidos. Disseram que nos sairemos bem, mas não tenho certeza de que seremos aceitos lá com tanta facilidade. As cabeças de lá são bem mais fechadas do que na Inglaterra. Nos Estados Unidos, as rádios pararam de tocar “Hey Joe” porque tinha gente reclamando da letra. Se gostarem de nós, ótimo! Se não, pior para eles!

Cheguei aqui com a roupa do corpo. Estou voltando com o melhor guarda-roupas 
que Carnaby Street tem a oferecer. Noel e Mitch vão se dar muito bem nos EUA. Vão gostar tanto deles que não precisarão nem lavar as próprias meias.







Manancial: Jimi Hendrix Por Ele Mesmo

Sem comentários